O espantalho
/
Era uma vez um fazendeiro, dono de muitas terras e vastas plantações. Era um homem duro, de poucos amigos. Era sobretudo um homem ranzinza, que não gostava de brincadeiras e não suportava que os pássaros e pequenos animais ficassem na sua lavoura, ainda que fosse para comer os frutos do chão.
Sendo assim, ele tratou de colocar os espantalhos mais horrendos que conseguiu encontrar nas suas plantações. Aos poucos, os pássaros foram sumindo, os pequenos animais não se aventuravam a chegar perto com medo daquela horrenda figura de braços abertos.
Os dias se passaram e o homem foi se sentindo muito só. O cantar dos pássaros que antes o irritava, agora que não mais ouvia, parecia na sua imaginação doces melodias. Os pequenos animais que brincavam por ali e por consequencia alegravam o ambiente, foram embora. Tudo estava quieto demais, parado demais, triste demais. Foi então que ele teve uma idéia. Quem sabe, se não fosse lá para o meio da plantação, de braços abertos e chamasse os animais de volta? Quem sabe se ficasse ali esperando de braços bem abertos para acolhê-los de volta, eles não voltassem? Quem sabe?
E foi o que ele fez. Correu para o meio da plantação, abriu bem os braços e gritou durante muito tempo. Chamou os pássaros, os pequenos animais, prometeu carinho e até comida, mas nenhum deles apareceu. Os dias se passaram e a triste figura do homem esperava ali no meio da plantação.
Não muito longe dali, os animais apavorados olhavam o novo espantalho. Mais terrível que os outros, se mexia ansioso e o que para o homem era um abraço invisível, para os animais, eram braços assustadores que se moviam freneticamente afastando tudo e todos...para sempre.
/
Essa história não era bem assim, era bem mais curta, sem tantos detalhes, mas a idéia central é a mesma. Na verdade escutei-a num filme que contava sobre um homem que afastava todos de sua vida. Era desconfiado, por medo de gostar e se deixar gostar, preferia nem conhecer, se envolver, se misturar a outras vidas, misturando a sua também. O personagem usa dessa analogia para explicar o quanto se sentia só e como naquele momento entendia que era culpa dele tamanha solidão. Teria volta? E se ele fosse de encontro aos outros, e se tentasse resgatar velhas amizades. Teria volta ou ele seria apenas a triste figura de um homem só no mundo, de braços abertos para o nada?
Teria volta? Pense nisso.

4 comentários:

    Acho que ... de volta os mesmo amigos uma vez espantados dificilmente, mas uma verdadeira mudança de atitude poderia simatrair novos amigos que desta vez ele teria de aprender a tratar de maneira bem diferente para mantê-los por perto... E daí, no caso desses novos amigos serem cultivados e mantidos, alguns dos antigos assustados, testemunhando esse seu novo modo de ser quem sabe lhe dessem uma segunda chance... ;)

    Mas...

    E se não ele se afastasse, mas, sim, as outras pessoas?

    Há sempre de se pensar em outra pespectiva, não?!

    Como bem finalizou você, "pense nisso!"

    Olá...
    Tudo bem por ai?
    Seu texto penetra na Alma...
    Realmente nos dias, penso nisso sempre, nos outros... Como seria voltar e reencontrar tudo que passou ou passará...??? Assim somos, escrevemos, poetamos e o ato de executar essa ação, sempre só... Avaliando e reavaliando erros e acertos na existencia toda... Enfim
    - Um belo e reflexivo texto
    Sempre teria volta... É como reler um poema de trás para frente.
    Abraços
    Everaldo Ygor
    http://outrasandancas.blogspot.com/

    Eu acredito que haja sempre um risco, anja, pra todos, pra cauda um de nós. Vida também é vigilância, pra impedir que algo assim se torne real.

    E quantos deixaram que fosse assim, não? Pena...

    De qualquer forma, grande e belo post! :-)

    Beijo pra ti!