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O caderno de Segunda
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Abro o Segundo Caderno de hoje do Globo e me deparo com a “polêmica” envolvendo a cantora Ana Carolina e as imagens que ela resolveu mostrar em seu show. Imagens da famosa pin-up dos anos 50, Bettie Page e fico pensando onde é que esse mundo vai parar? Em pleno 2007, ainda provoca polêmica fotos tiradas nos anos 50?

Hoje qualquer modelo-atriz-manequim tira foto pelada de gosto duvidoso justificando a dificuldade de grana, a oportunidade, o momento.
Hoje, um cara que se não tivesse uma farda diferenciada, relógio de grife e visual justiceiro de filme americano, seria, como em rodinhas femininas ouviu-se: “um gostoso que eu queria lá em casa”. Trata-se do Inspetor da Polícia Civil que atente pela alcunha de Trovão, cujo o maior sonho era estar matando na guerra do Iraque, junto a seu inseparável charuto. Freud explica e eu tenho cá minhas desconfianças com tudo que é over.

Hoje, a bandeirinha, que outro dia afirmava categórica e até com uma pitada de preconceito, no programa “Altas Horas” que jamais posaria pelada para preservar a carreira que já por si só é cercada de machismo e discriminação, vai ser capa da Playboy do mês.
Eu até ficaria com pena das coisas que ela vai ouvir em campo depois dessas fotos, se ela não tivesse tirado o título do Botafogo na cara dura e ainda por cima não ter tido a humildade de reconhecer o erro. Agora, ela que agüente as conseqüências e trate de ser menos incisiva nas suas declarações categóricas.

Ainda hoje, a Polícia Federal começa e termina trocentas operações de nomes que são de uma criatividade ímpar, desvenda, prende e vê logo depois quase todo mundo solto.
Ainda ontem, “meninos” da classe alta de Miami, ali na Barra, espancavam quase até a morte uma empregada doméstica sob a justificativa de pensarem ser uma prostituta. Como se prostituta fosse de uma casta tão inferior que merecesse ser espancada apenas por fazer de seu – dela - corpo o que quiser.
Definitivamente, há algo de podre e não é na Dinamarca.
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E por falar em pornografia...

Terminada a FLIP, fico pensando na homenagem a Nelson Rodrigues e lembro de Drummond.
Nelson escancarou literariamente o que, na época dele, se fazia entre quatro paredes. Digo na época dele porque hoje nem precisa ser de madrugada para que se veja nas ruas o que deveria ser feito no quarto, na sala, na cozinha, não importa, mas pelo menos dentro de casa.
A literatura escancarada de Nelson Rodrigues escondia um autor bastante contido na vida real, ao menos era como se mostrava em entrevistas. Chegava até a ser “careta” quando se tratava dele próprio, já Drummond...
Pois é, Drummond não caiu de pára-quedas nesse papo e os dois nada têm em comum, mas que belo personagem não daria Drummond de uma crônica de Nelson Rodrigues.
Pode “perversão” maior que um funcionário público de aparência absolutamente comum, tímido até a medula ser capaz de paixões secretas e avassaladoras, cujo os poemas eróticos surpreendem a cada linha pelos detalhes e o aparente prazer com que foram escritos? Não creio, mas adoro. Prefiro o mistério das pessoas comuns, aquelas que passam desapercebidas na multidão e parecem esconder sua capacidade de paixão seja pelo que for por baixo de uma aparente neutralidade.
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Nelson Rodrigues

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Nelson por Nelson:


A favor da castidade.

A única solução para o problema sexual é a castidade. Só a castidade é força, é potência absoluta. Uma das provas da sabedoria da Igreja Católica é a imposição da castidade clerical. A castidade é desejável – como solução – mesmo fora da vida religiosa.


Nelson, para você, o que é amor?

Sou uma das raras pessoas das minhas relações que acredita no amor eterno. Já escrevi mil vezes: todo amor é eterno e, se acaba, não era amor. O amor não morre - vivo eu dizendo. Morre o sentimento que é, apenas uma imitação do amor muitas vezes uma maravilhosa imitação do amor.
Diz Oswaldinho, na minha peça Anti-Nelson Roddrigues: “Quando eu a vi, senti que não era a primeira vez, que eu a conhecia de vidas passadas.” Isso quer dizer que só quem ama conhece a eternidade. Isso é romantismo de maneira despudorada. Isso é amor. Sou uma alma da Belle Époque e de vez em quando me pergunto o que é que estou fazendo em 1974.

E o sexo, não faz parte do amor?

Eu acho o sexo uma coisa tranqüilamente maldita, a não ser quando se dá este acontecimento inacreditável, do sujeito encontrar o amor. Mas um sujeito precisa de quinze encarnações para viver um momento de amor. Porque a mulher amada, nada a obriga a estar na cidade onde a gente mora, a cruzar o nosso caminho. De forma que encontrar a mulher amada é um cínico e deslavado milagre. Então o sujeito não tem o direito de usar o sexo a não ser por amor. E dizer que isto é uma necessidade é uma das maiores burrices que se pode imaginar, porque a gente argumenta, quando fala nesta necessidade, como se o homem fosse o Boogie Woogie, um cachorro da vizinhança que namorava uma cadelinha que eu tinha. O Boogie-Woogie, em certo período, vinha para o meio da rua e ali ficava, os carros passando e o atropelando, e ele lá, firme, enquanto a cadelinha, presa na varanda, ficava olhando. O Boogie-Woogie sim, precisava. Nós não: precisamos é de amor. Eu digo isto como um homem que usou com certa freqüência e que criou esta falsa necessidade de uma atividade sexual normal, que eu não considero normal coisíssima nenhuma.

Praia amoral

Sou muito mais rigoroso do que a praia, a qual apresenta a nudez impune. Sou antes de tudo um moralista.


Minha vida, meus amores.

Eu fui um menino interessantíssimo, 7 aos 10 anos tive as maiores paixões de minha vida. Amei todas as professoras com ternura, sem sexo. Porque o sexo atrapalha o amor. Fui um péssimo adolescente e só despertei da infância aos 40 anos. É aí que passei a viver a vida, com todos seus valores. Consegui respeitar e realizar meus amores.

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Foto Dave Krueger

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Não quero ser o último a comer-te

Não quero ser o último a comer-te.
Se em tempo não ousei, agora é tarde.
Nem sopra a flama antiga nem beber-te
aplacaria sede que não arde

em minha boca seca de querer-te,
de desejar-te tanto e sem alarde,
fome que não sofria padecer-te
assim pasto de tantos, e eu covarde

a esperar que limpasses toda a gala
que por teu corpo e alma ainda resvala,
e chegasses, intata, renascida,

para travar comigo a luta extrema
que fizesse de toda a nossa vida
um chamejante, universal poema.
Carlos Drummond de Andrade

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Para o sexo a expirar

Para o sexo a expirar, eu me volto, expirante.
Raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo.
Amor, amor, amor - o braseiro radiante
que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.

Pobre carne senil, vibrando insatisfeita,
a minha se rebela ante a morte anunciada.
Quero sempre invadir essa vereda estreita
onde o gozo maior me propicia a amada.

Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo, quem sabe?
enregela-se o nervo, esvai-se-me o prazer
antes que, deliciosa, a exploração acabe.

Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo,
e assim possa eu partir, em plenitude o ser,
de sêmen aljofrando o irreparável ermo.
Carlos Drummond de Andrade

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A língua lambe

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,

entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecida.
Carlos Drummond de Andrade

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