"Tarde demais para esquecer"
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Paulo Francis



“Gosto que me leiam e saibam o que acho das coisas. É uma forma de existir. Trabalho é a melhor maneira de escapar da realidade”

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"Acho que aguentei viver tanto tempo no Brasil porque estava em estado etílico a maior parte do tempo. É muito se 3% da população tem proteinas e meios para atuar na vida pública. O Brasil sempre foi a casa da mãe-joana de elites sub-reptícias que fazem o que querem"
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"Dizem que ofendo as pessoas. É um erro. Trato as pessoas como adultas. Critico-as. Crítica não é raiva. E crítica, às vezes, é estúpida"
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/"Acho ridículo andar com uma calça que tenha o nome de alguém na minha bunda. Bunda que mamãe beijou vagabundo nenhum põe tarja."

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Pelas frases acima já dá para perceber de quem se trata e eu prometo não escrever “o polêmico Paulo Francis”... Seria lugar comum demais para ele. Essa alcunha já foi tão usada que parecia parte de seu nome. E Paulo Francis era muito mais do que isso.No domingo passado, dia 04 de fevereiro, o "Manhattan Connection", fez uma retrospectiva da participação de Paulo Francis no programa e lá se vão dez anos de sua morte.
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"Dizia verdades definitivas sobre física quântica, mas não sabia arrumar a própria mala. Cometia erros incríveis em artigos em que xingava de burro. Exibia-se como um pavão para as câmaras de TV, mas era de uma timidez atroz. Grosso, agressivo e destemperado por escrito, era uma flor no contato pessoal. Tinha dezenas de amigos, mas dava a impressão de ser um solitário. O aparente ranzinza tinha um senso de humor de moleque. Em quase quarenta anos de presença constante na imprensa, milhões de leitores não conseguiam escapar da sua argúcia, da sua cultura, de seus juízos peremptórios e surpreendentes. Era admirado, odiado, imitado. Paulo Francis parecia que não ia morrer nunca. E, no entanto, na manha de terça-feira passada, lá estava ele, estendido na sala de seu apartamento em Nova York , metido num pijama verde que achava horrível, derrubado por um ataque cardíaco. aos 66 anos.”


Assim começa a extensa reportagem feita pela Veja do dia 12 de fevereiro de 1997. Óbvio que não o conheci pessoalmente, mas acredito ser essa a descrição mais completa sobre essa persona chamada Paulo Francis.Comecei a assistir "Manhattan Connection", por causa dele e confesso um caso de amor e ódio latente por suas opiniões, deboche e aparente descaso em seus comentários. Mas também posso dizer que assim como meu amor é para pouquíssimos, meu ódio idem. Não odeio qualquer um. Odiar é quase tão sério quanto amar. É preciso que o outro, o odiado tenha qualidades fundamentais para tanto e ele tinha. Muitas vezes sentia vontade de esganá-lo, outras, em especial quando encantado falava de um balé, uma música e sobretudo cinema, queria poder sentar por perto e ouví-lo em detalhes. Pessoas especiais são assim.

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“(FSP, 19/07/90) - Brando, Marlon - Brando foi um dos homens mais bonitos do século. Sua beleza está registrada indelevelmente em filmes como Espíritos indômitos, The men, e Uma rua chamada Pecado. A street-car named Desire. Brando tinha movimentos de felino. Ele sempre disse que foi o fato de lhe quebrarem o nariz, numa luta de boxe, entortando-o, que o fez ter um rosto diferente. Waaal, os traços dele são muito bons, os olhos são fundos e, claro, talento não se explica. Queimava o resto do elenco em Espíritos indômitos pelo simples ato de olhar para eles. Em uma rua chamada Pecado, quando o estão gozando por suas maneiras rudes, ele dá com a mão num prato e, já observei várias vezes, apesar de o filme ser em preto e branco, ele fica pálido de raiva. É a extraordinária capacidade de auto-introspecção de Brando e sua capacidade de projetá-la que o tornaram unicamente célebre. Ele não precisava fazer nada, apenas ser em cena.”
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Cinema. Taí uma grande paixão compartilhada. Tenho em meus arquivos muitas notas, comentários, fragmentos de textos que ele escrevia sobre cinema. Assim como eu, amava os clássicos, onde o preciosismo nos detalhes dos figurinos, os diálogos, a música e sobretudo a falta de (d)efeitos especiais eram observados nos mínimos detalhes.Gostava das grandes atrizes, de Woody Allen e...pausa para um suspiro, do filme “Tarde demais para esquecer”.
Ah! Pensou que estava no título só para ficar bonitinho? Não, na verdade, o post é pelo aniversário dos dois. Esse era um dos inúmeros clássicos que ele apreciava, e eu também, claro.

“Tarde demais para esquecer” (An Affair to Remember, 1957) completa cinqüenta anos em 2007. Alias, em plena forma. Típico cinemão hollywoodiano conta a história de Nickie Ferrante (Cary Grant) e Terry McKay (Deborah Kerr) que se conhecem em um transatlântico e se apaixonam perdidamente. Comprometidos com outras pessoas, eles combinam de se encontrar no Empire State Building, mas aí...bom aí, comprem o filme, aluguem e sobretudo escutem a música tema que embala o romance, seus desencontros e fatalidades. Uma delícia que pretendo rever neste final de semana, até porque a NET resolveu deixar o bairro onde moro sem sinal para nos obrigar a mudar para o sistema digital, obviamente muito mais caro. Mas esse é outro assunto e eu não quero comprometer o meu fígado com bobagens, nesses casos prefiro álcool.



Mas voltemos ao Francis e um trechinho sobre o Oscar de 1990. Trechinho onde ele destila de um modo próprio e muitas vezes abominável seus pensamentos.


“(FSP, 29/03/90) - EUA - Não vi quase nada dos Oscars. Os três filmes mais interessantes, "Crimes and Misdemeanors", traduzido imperdoavelmente, e tautologicamente, para "Crimes e Pecados", "Faça a Coisa Certa" e "sexo, mentiras e videotape" não foram sequer citados. "Conduzindo Miss Daisy", esse "conduzindo" é nosso pedantismo chulé sempre, por que não dirigindo ou guiando? É uma bobagem sentimental. A mensagem do filme, se existe alguma, à parte gracinhas raciais que Jessica Tandy e Morgam Freeman às vezes enchem de realidade, é que no feudalismo as raças se entendem no Sul. Nem assim. Melhor restabelecer a escravidão, criar um Estado separado para os negros, ou exportá-los para a África. Que essa joça seja considerada melhor do que o filme de Woody Allen ou os dois outros de Spike Lee ou de Soderbergh, mostra que o filistinismo sentimental está forte e sacudido em Hollywood. Sei que o filme veio de uma peça, mas é claramente um artigo de televisão, desses que os críticos admiram porque "roçam a realidade", entre os comerciais de camarão e hambúrguer e os remédios que se precisa tomar em caso de indigestão provocada pela ingestão dos ditos cujos. Mas olhei a hora do prêmio dos atores, a única disputa interessante (comparar Michelle Pfeiffer, completamente inexpressiva e sem jeito em todos filmes que faz, e especialmente em "The Fabulous Baker Boys", e Jessica Tandy, criadora do papel de Blanche du Bois, na Broadway, com Marlon Brando de Kowalski, 1947 ou 1948, é coisa que nem Hollywood ousou).
Kenneth Branagh apareceu, sublime no grande monólogo de Henry 5º em Agincourt, "We few, we happy few, we band of brothers", que ele enuncia como se imaginasse a solidão dos 1300s, quando o homem sabia pouco sobre o seu destino, mas se sentia sem ele, ao contrário de hoje, que sabemos tudo e nada dominamos, e com voz dolente que nos toca a alma, "We few, we happy few..." não é que o boçal do editor de imagens do "show" resolveu "freezar" Kenneth Branagh, sem deixá-lo dizer a última frase, "we band of brothers"? Isso só poderia acontecer aqui, em the US of América, com dizem, e, claro, aconteceu. Mas Daniel Day Lewis, filho do estimável Cecil Day Lewis, alguém ainda lembra, ex-comuna indiferente, autor de romances de mistério, com Nicholas Blake de pseudônimo (legíveis, o que gosto nos ingleses é que preferem jornalismo ou literatura popular, a se enfurnarem na academia)?
Mas, repito, Daniel Day Lewis é grande, e "Meu Pé Esquerdo", apesar de ser uma "saudação à coragem dos que sofrem handicaps intoleráveis" (só falta a cara boba de Audrey Hepburn fazendo um apelo pela Unicef), esse lugar-comum mundo cão de cinema e televisão, até que é bem passável. Ri bastante. E Day Lewis, insisto, é esplêndido, se bem que seu "Hamlet", no National Theatre, não foi muito bem-recebido. Ator inglês, sem sucesso em teatro, não existe na Inglaterra, ao menos. Agora começará a tentação de Day Lewis. Uma carreira bocó em Hollywood, tipo Tom Cruise (compare a bobice, a "sinceridade" postiça desse, com a cara vivida do seu contemporâneo Kenneth Branagh, e você tem a diferença entre Europa e os EUA. Cruise é um menino em que a mãe e a ex-mulher, mas velha do que ele, Freud explica, punham talco na bundinha. Não sofreu nada em "Nascido em 4 de Julho". Tudo é postiço até a alma), ou ser um ator real? A cara corrupta e drogada de Oliver Stone. Enfiou a cena em que Kovic, Tom Cruise, vai visitar a família do cara que matou por engano. Nem Kovic, um narcisista do tamanho de um bonde, um bebê chorão, teve coragem de colocar na sua autobiografia escrita. Mas Stone põe tudo. E falou do "Vietnã" universal porque não quer queimar seus botes com os conservadores de Hollywood, que sabem muito bem que ele só fatura os crimes dos EUA. Mas não lhe deram o prêmio de melhor filme. Bem feito, teu nariz tem defeito.”

É por essas e muitas outras que Paulo Francis ainda é lembrado. Jornalismo crítico sem papas na língua, o que alias de certa forma o levou à morte tão cedo, tinha apenas 66 anos. Hoje já sabemos que ninguém conseguiu imitá-lo ainda que continuem tentando como o nosso genérico Diogo Mainardi e nunca vão conseguir. Ser reaça, é mole, agora ter estilo, embasamento, cultura e humor, é outro papo!

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"Tomei todas as drogas, nunca me viciei em nenhuma e todas me deram o maior barato. Nunca senti vontade de atrelar minha vida a uma substância, por falsa euforia"
Na Folha; 13/08/89

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"Sei que é meio chocante que eu vou dizer, mas eu prefiro a solidão dos livros ao contato com as pessoas. As relações humanas são sempre complicadas, não importa se com homens ou com mulheres. Eu sou um homem muito tímido."
Em "O Estado de S.Paulo" e "O Globo", 18/8/96

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