Difícil satisfazer a expectativa das paixões.



É difícil acordar todos os dias e não ter nada no pensamento.
Não, na verdade é não ter ninguém no pensamento. Parece um acordar branco, como se o mundo não tivesse cor. Quando uma página é virada, quando tudo é zerado a ponto de parecer nunca ter existido, volta-se àqueles dias em branco. Não gosto de estar assim, ainda prefiro que meu pensamento se ocupe de alguém, mesmo que seja com saudades ou platonicamente ou uma possibilidade que você espera ansiosamente encontrar no dia seguinte.

Outro dia, eu sonhei com um cara que fiquei apenas uma noite. Um fotógrafo. Beijos e quase nenhum papo. Não me lembro de ter tido tanta intimidade com alguém como com ele naquela noite e nem houve sexo, mas foi intenso e íntimo tudo que aconteceu dentro das nossas bocas, que pensando bem, com nenhum namorado tive.

No sonho, eu ensinava a ele o que era sensualidade. Melhor dizendo, ele, no meu sonho, era diretor de fotografia e me perguntava sobre a cena da fruta. Nem tentem entender, sonho é sonho.Pois bem, eu dizia, pegue uma atriz sem uma beleza extraordinária, apenas agradavelmente bonita, coloque-a num cenário totalmente branco, inclusive ela estará de branco e será bem branquinha. Tudo é cenário, menos a fruta no prato, um caqui.
Ele me interrompe nessa hora e diz: Caqui??? Por que? Não deveria ser uma maça, ou uvas, ou pêssegos, não, isso é muito Wando, mas por que caqui??? Caqui? Digo eu. Caqui pelo óbvio do vermelho meio alaranjado, por ter sumo e sua cor não se restringir apenas ao lado de fora, mas por dentro também. Respiro profundamente. E pelo inusitado, claro. Ele respira e espera que eu continue.
Continuo. No meio do prato um caqui. Ele me interrompe dizendo: e ela se lambuza toda comendo o caqui... Olho pra ele e digo: você é tão gostoso, mas nunca pensaria que fosse tão óbvio. Ele ri, sabe que não é óbvio e eu também.
Continuo. Não, ela não se lambuzará, isso é o que todo mundo espera, ela pegará um garfo e uma faca. Plano fechado na faca penetrando a “carne” do caqui, dele o sumo escorre, uma pequena vertente e uma pequena manchinha termina no prato. Foco na boca sem batom, opaca, mas bonita, ela engole o pedaço de caqui e lentamente mastiga. Foco no rosto, nada de olhos fechados, ou cara de prazer que certamente uma fruta não dá. Ela olha para o nada e mastiga lentamente o pedaço de fruta. Ela pensa em alguém, absorta. É assim, uma sensualidade sutil, tênue, poética, sobretudo.
No sonho, terminamos os dois olhando para o teto de mãos dadas, pensativos.
Nada me pareceu tão íntimo.

Algumas situações são tão ou mais intensas do que o sexo em si. A intimidade é uma delas. Não a intimidade física, do sexo no sexo, a intimidade das bocas, de um beijo como com poucos são trocados, das idéias, das conversas, dos sonhos partilhados.
Por isso, gosto de adiar meus prazeres até o limite. Não é um jogo, não é um estratagema, é só a prova dos nove, de saber que não foi apenas naquele minuto que desejei aquela pessoa, mas desejei-a no outro e no outro e no outro e no outro dia também. Tem dado certo.

Nunca gostei de facilidades, nem de impossibilidades como a incompatibilidade de idéias ou pior, a falta de vontade ou o contentar-se apenas com isso ou com alguém, como se aquele alguém fosse suficiente para preencher um período de solidão até que coisa melhor aparecesse.
Como também nunca entrei meio corpo numa piscina ou melhor, no mar, não gosto de piscinas. São limitadas, o mar não.

Bom, meu ano começou no dia 12/06. Um ponto final que precisava ser dado, foi dado. Paz, absolutamente nenhuma emoção. Tranqüilidade. O nada, como se nunca tivesse existido. Nunca vivi algo assim, algo que não me deixasse sequer uma lembrança, boa ou má. Nenhum sentimento, emoção, dor, alegria, nada absolutamente nada.
Agora estou pronta pra você. Seja você quem for.

andrea augusto©angelblue83

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