Domingo chuvoso, céu cinza, uma tarde abafada e nós fomos ao cinema ver "2046 - Segredos do amor".
Pensei em escrever sobre até lembrar da crônica do Jabor sobre o filme. Impossível acrescentar uma vírgula, retirar uma frase sequer. Ele escreveu o que o filme é e o que eu, modestamente claro, penso sobre o tema.
Já tratei inúmeras vezes sobre a impossibilidade do amor. Sobre a estúpida insistência de concretizar o inconcretizável digamos assim. Não é não amar. Amar é necessário, vital como o ar ou até mesmo o próprio ar, uma vez que precisamos dele para viver...não, eu não estou mais uma vez babando de romantismo, não é isso. É mais complexo do que ser uma babaca romântica. É sobre algumas verdades incontestes que insistimos sempre e sempre em acreditar e procuramos concretizar o amor de qualquer forma, a qualquer preço quando o que eterniza o amor é sempre a não concretização dele.

Acho melhor deixar que o Jabor fale, há anos que eu não amo ninguém, há anos que me apaixono e nunca é nada como um dia já foi pra mim. Pena que só perceba muito depois.






O AMOR É UMA DROGA PESADA
Arnaldo Jabor


Kar Wai não lamenta o fim da felicidade, mas o saúda. Como diz a música do Vinicius, é melhor viver do que ser feliz..., coisa que muito careta não entende.

O verdadeiro amor é impossivel, logo só o amor impossivel é o verdadeiro amor. Saí do cinema onde fui ver 2046, do chinês Wong Kar Wai, pensando nisso. Saí do cinema como de um sonho barroco, manchado, molhado por uma grande massa de cores e sons, de rostos, gestos, mãos, gemidos, dores e gozos. Saí como um drogado, viajando ainda num LSD, uma mescalina da pesada, saí de um milagre alucinado. Vi uma coisa rara: um filme que é o que ele conta. Explico: 2046 seria, no filme, o ano futuro onde tudo seria imutável, lembrado. E agora, quando escrevo, vejo que o tal lugar em 2046 é a própria obra. Entramos neste filme como numa utopia, um lugar úmido, denso, esfumado, chuvoso, cambiante, onde estaríamos no lugar, na terra da paixão. Kar Wai é um grande artista que faz uma súmula de influências do melhor cinema ocidental e realiza um filme híbrido como Hong Kong, oriental para o Ocidente, diferente do que esperamos de um filme chinês. E por ele, como pelo primeiro Zhang Yimou, vemos que a cultura erótica chinesa atravessou cinco mil anos incólume, mesmo depois das revoluções maoístas e da China recente dos escravos globalizados. Muito mais sofisticado que europeus e americanos.

É um filme fragmentário sobre o fragmentário das emoções de hoje. Ali estão pedaços de Blade Runner, ecos dos ''krells'' do O Planeta Proibido (lembram, cinéfilos?), ali está Jupiter de 2001, ali estão emblemas e ícones dos filmes noir da Warner, ali está Godard na descontinuidade narrativa, ali estão confusos cacos de Ocidente e Oriente, uma Hong Kong da alma, músicas tropicais, Nat King Cole e ópera, Siboney e a Norma de Bellini. Que banho... que cineasta admirável!

Em 2046, tema e materia se misturam numa massa indissoluvel.

Tudo neste filme é uma exposição da parcialidade do erotismo contemporâneo. (exemplo brasileiro: a bunda substituindo a mulher inteira). À primeira vista parece uma louvação da perversão, do fetichismo, do erotismo das partes, do amor em pedaços. No entanto, Kar Wai está além do fetichismo, além da perversão. Ele retrata (sem teses, claro) a imagérie do erotismo contemporâneo que esquarteja o corpo humano. Vejam as artes gráficas, fotos de revistas de arte, como Photo, (ou em Tarantino) onde tudo é (reparem) decepado, dividido, pés, sapatos escarpins negros, unhas pintadas, bocas vermelhas, paus, seios, corpos imitando coisas, tudo solto como num abstrato painel. Tudo evoca a impossibilidade saudosa de um objeto total, da pessoa inteira.

Uma das marcas do século 21 é o fim da crença na plenitude, na inteireza, seja no sexo, no amor e na politica.

Aí, chega o Kar Wai e, poeticamente, intui esse novo mundo afetivo e sexual.

Kar Wai não sofre por um tempo sem amor, como nos filmes que acabam mal, sem happy end. 2046 não lamenta a impossibilidade do amor. Não; ele a celebra. Para Kar Wai (e para muitos de nós) só o parcial é gozoso. Só o parcial nos excita, como a saudade de uma plenitude que não chega nunca. Kar Wai assume essa parcialidade, a incompletude como única possibilidade humana. E acha isso bom. E, num filme romântico, nostálgico e dolente, goza com isso. Nada mais delicioso que o amor impossível. E, como canta o samba, quem quiser conhecer a plenitude, vai ter de sofrer, vai ter de chorar... Ou, O amor é uma droga pesada, titulo de livro de Maria Rita Khel.

Kar Wai nos apresenta a droga pesada do seculo 21: a paixão. Ele é o quê? Um romântico-punk, um pierrô pós-utópico? É por aí... um chinês neurótico dando aula para ocidentais.

O amor em Kar Wai, para ser eterno, tem de ficar eternamente irrealizado. A droga não pode parar de fazer efeito e, para isso, a prise não pode passar. Aí, a dor vem como prazer, a saudade como misticismo, a parte como o todo, o instante como eterno. E, atenção, não falo de masoquismo; falo de um espírito do tempo.

Hoje em dia, não há mais uma explícita, uma clara noção do que seria felicidade, como antigamente. O que é ser feliz? Onde está a felicidade no amor e sexo? No casamento? Em 2046, o ano mitico do filme?

Kar Wai não lamenta o fim da felicidade, mas o saúda. Como diz a música do Vinicius, é melhor viver do que ser feliz..., coisa que muito careta não entende.

Este filme mostra que hoje, sem sabermos com clareza, achamos que é bom ansiar por um gozo desconhecido, é bom sofrer numa metafísica passional, é bom a saudade, a perda, tudo, menos a insuportável felicidade. Assim, o amor vira uma maravilhosa aventura de utopia, uma experiencia religiosa, como a fé, que resiste a todos os massacres e terremotos e guerras. Em vez da felicidade, o gozo, o gozo rápido do sexo ou o longo sofrimento gozoso do amor. Como no filme, não há mais felicidade; só as fortes emoções, a deliciosa dor, as lágrimas, hotéis desertos, luzes mortiças, a chuva, o nada.

Como esse filme aponta, o amor hoje é um cultivo da intensidade contra a eternidade. Toda a cultura do cinema tende para a ideia de redenção, esperança, mas 2046 não lamenta o fim do happy end. Não. É bom que acabe esta mentira do idealismo romântico americano, para animar o otimismo familiar e produtivo, pois na verdade tudo acaba mal na vida. Não se chega a lugar nenhum porque não há onde chegar.

Tudo bem buscarmos paz e sossego, tudo bem nos contentarmos com o calmo amor, com um ágape, uma doce amizade dolorida e nostálgica do tesão, tudo bem... Mas, a chama da droga pesada amor só vem com o impalpável. E isso é bom. Temos que acabar com a idéia de felicidade fácil. Enquanto sonharmos com a plenitude seremos infelizes. Só o amor impossível nos põe em contato com um arco-íris de sentimentos desconhecidos. A felicidade não é sair do mundo, como privilegiados seres, como estrelas de cinema, mas é entrar em contato com a tragica substância de tudo, com o não-sentido, das galáxias até o orgasmo.

E tem mais... este artigo não é pessimista. Temos de ser felizes sem esperanças.

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