CHEEK TO CHEEK





Hoje pela primeira vez comprei o jornal dentro do ônibus. Um risco total, afinal, eu subo o alto e suas curvas todo santo dia, mas pensei cá com meus botões, se enjoar o jornal terá mais uma de suas inúmeras serventias...deixa pra lá, rss

O caso é que não só não enjoei como foi com grande prazer que abri o Segundo Caderno e me deparei com a matéria: “A dança de Ginger e Fred”. Delícia pura! Lembrei da habilidade desse magistral dançarino Fred Astaire. Perfeito, completo, genial, dançava, cantava, compunha, tocava piano, representava e encantava.

Olhei pela janela do dia nublado com suas estranhas brumas e fiquei lembrando, sonhando com esses musicais pra lá de ingênuos, onde o beijo, o amor estava literalmente reperesentado na magia dos pés, dos corpos, dos pares, seus movimentos, seus vestidos esvoaçantes hipnotizantes literalmente.

Ginger não era a mais bonita, na minha opinião e sei, na de muitos, ninguém superou Rita Hayworth e sua sensualidade ruiva, mas Ginger levitava e havia a química. Ah! A química que põe molho em tudo e todos. Dá pra esquecer, como cita a matéria um clássico dos musicais como "Top Hat/O Picolino"????
As plumas do vestido de Ginger levando Fred a loucura durante a deliciosa “Cheek to Cheek”?? Impossível! Voltei a janela e relembrei a cena, a música, as plumas se misturando às brumas dessa estranha manhã.

E em meio a tanta sujeira, sordidez e falsidade que a vida nos traz e ainda e apesar de tudo nos surpreende dolorosamente, tive a sorte de ir para o trabalho ao som de “Cheek to Cheek” enquanto lá fora um casal dançava suavemente se misturando às lembranças de tempos mais ingênuos e infinitamente melhores.


andrea augusto (angelblue83)
DEGUINHO

Daggett




Quem não gosta ou não liga pra cachorro, nem continue a ler, porque hoje o post é dele: o melhor amigo do homem.Toda minha vida, eu sempre disse que gostava mais de gato do que de cachorro. Cachorro era muito dado, muito pulante e sempre que eu pensava em cachorros, pensava no Ode, o cachorro que o Garfield adorava sacanear. Aquela coisa viscosa e lambedora. Bom, como disse certa vez Blaise Pascal: “Não tenho vergonha de mudar de idéia porque não tenho vergonha de pensar” Pois bem, continuo gostando de gatos, da postura classuda e indiferente, da languidez felina e charmosa que só eles têm, mas confesso, hoje amo cachorros.

Quando a mamãe morreu, pouco mais de quatro meses atrás, muitas vezes pela manhã eu inventava um motivo para sair da cama, invariavelmente era para alimentar os cachorros, em especial o Kaká, o poodle que andava pra cima e pra baixo com ela. E foi ele que me ganhou totalmente, que de certa forma me salvou um pouco a cada dia.

No início, ele se abateu muito, assim como eu, guardadas as devidas proporções, parecia não entender como alguém some de repente para nunca mais voltar. Muitas vezes peguei-o olhando para a porta do quarto dela esperando que se abrisse e ela surgisse, muitas vezes me peguei fazendo o mesmo, esperando que ela me chamasse para o café, vício sagrado de todo finalzinho de tarde. A porta nunca mais se abriu e eu sei, apesar do tanto que ainda me dói e doerá, não se abrirá mais, porém, foi justamente esse cachorrinho que nas horas mais solitárias me deu o carinho, o olhar e quase a compreensão que eu precisava. Quantas vezes, chorando, ele não vinha ao meu colo e ficava me olhando dentro dos olhos como se dissesse: “Ok. Agora somos só nós dois, vamos tratar de seguir adiante”.

Perdi a conta das vezes que ele pulou e pula para a minha cama no meio da noite, basta que eu me mexa muito. Algumas vezes, misturado no sonho, na noite, na sonolência da madrugada penso que é ela tentando apaziguar meu sono agitado. Todos os dias quando chego de algum lugar ele faz uma festa como se não me visse a anos. Pula, comemora, se mistura entre as minhas pernas e fica tão ofegante que preciso pegá-lo no colo e dizer baixinho: "Pronto, eu voltei, shhiiiiii, calma, eu voltei."
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eu e Kaká
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Um amigo certa vez disse que amor de cachorro é o único amor incondicional, e pensando bem é mesmo. Não importa se no dia anterior você “chutou”, brigou, afastou o cachorro, dali mais um pouquinho ele virá abanando o rabo como se nada tivesse acontecido. Ele não exige nada, mesmo que você esqueça de alimentá-lo, mesmo que você esqueça de encher o pote d´água, na volta ele não vai te confrontar exigindo seus direitos a bons tratos, ele vai te receber como sempre, vai até fazer um chamego, mas nada que não te faça sorrir e muitas vezes pedir desculpas pelo esquecimento.
É, talvez nem adiante explicar, talvez alguns achem esse texto pra lá de bobo e sentimentalóide, mas de uma coisa eu sei, só quem tem cachorro sabe o que significa esse pequeno trecho de música:
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“Meu cachorro me sorriu latindo...Eu voltei...”
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andrea augusto – em homenagem ao mais novo membro da família: Degguinho.