Ontem fui ver Batman Begins e só posso dizer uma coisa pra começar: esqueça, apague da memória os outros filmes. Batman começa com esse filme literalmente.
Não tem vilões roubando a cena, quem manda no filme por vários motivos é o próprio Batman e isso faz toda a diferença.
Se você esta preocupado com coisas como o uniforme estilo "Power Ranger" dos outros. Não se preocupe, em todas as cenas que Batman surge, a escuridão é soberana, como manda a mitologia. O uniforme preto se adequa perfeitamente às sombras que imperam em Gotham, e os detalhes da vestimenta, pelo sim pelo não, se perdem na penumbra.
Batman sempre foi meu herói predileto por um simples detalhe, não é “super”. Ele não voa, não lança teias, nem tem força para girar a Terra ao contrário. Não, Batman tem hematomas como qualquer um.
Ele não tem superpoderes. Desde a roupa até o cinto de utilidades, tudo no filme tem explicações plausíveis. A bat-roupa contém Kevlar para proteger contra as balas, a capa funciona como um pára-glider quando carregado eletronicamente, o bat-móvel é um carro de verdade -- blindado, com motor turbo que sem dúvida nos dá as melhores e mais reais cenas de perseguição do filme.
Christopher Nolan transforma o Batman em um personagem completamente humano, crível, e não mais um arquétipo qualquer vestindo um uniforme de super-herói. Durante a primeira hora de projeção, você até esquece que está assistindo a um filme de Batman. Muito bem elaborado o modo que é mostrado a infância de Bruce, dando uma personalidade bem definida a seu pai, de forma que isso se torne algo essencial para que o futuro-herói não se tornasse um homem fútil. Muito envolvente a mostra do tempo entre a morte de seus pais até se tornar o tal justiceiro, mostrando seu treinamento no oriente–médio e os "fantasmas" que o circulam. Afinal, Bruce Wayne sempre foi um ser amargurado pela sombra do passado e esse aspecto recebe uma merecida ênfase na produção.
O medo é a força motriz de todo o filme, como define uma frase de Bruce no filme: “Usarei meu próprio medo para provocar medo naqueles que provocam o medo”.

“- Por que você cai? – Para poder se levantar”.
Essa frase dita por seu pai é a essência do filme. Batman cai e isso faz toda a diferença.

Vejam o filme, comprem o cd, leiam o livro, digo o HQ. Vale a pena.

“Brilho eterno de uma mente sem lembranças"




Eu te amo não diz tudo


O cara diz que te ama, então tá! Ele te ama.
Assunto encerrado.
Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas.
Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de quilômetros.
A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e palavras.
Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você quando for preciso.

Ser amado é ver que ele(a) lembra de coisas que você contou dois anos atrás, e vê-lo(a) tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ele(a) fica triste quando você está triste, e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d'água.

Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão.
Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente inteiro.
Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que tudo pode ser dito e compreendido.
Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo.
Sente-se amado quem não ofega, mas suspira;
quem não levanta a voz, mas fala;
quem não concorda, mas escuta.

Agora, sente-se e escute:
Eu te amo não diz tudo!"

Arnaldo Jabor







As razões do amor


Os místicos e os apaixonados concordam em que o amor não tem razões. Angelus Silésius, místico medieval, disse que ele é como a rosa : "A rosa não tem"porquês". Ela floresce porque floresce." Drummond repetiu a mesma coisa no seu poema As Sem-Razões do Amor. É possível que ele tenha se inspirado nestes versos mesmo sem nunca os ter lido, pois as coisas do amor circulam com o vento.

"Eu te amo porque te amo..." - sem razões... "Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo." Meu amor independe do que me fazes. Não cresce do que me dás. Se fosse assim ele flutuaria ao sabor dos teus gestos. Teria razões e explicações. Se um dia teus gestos de amante me faltassem, ele morreria como a flor arrancada da terra. "Amor é estado de graça e com amor não se paga." Nada mais falso do que o ditado popular que afirma que "amor com amor se paga". O amor não é regido pela lógica das trocas comerciais. Nada te devo. Nada me deves. Como a rosa que floresce porque floresce, eu te amo porque te amo.

"Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários... Amor não se troca... Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo..." Drummond tinha de estar apaixonado ao escrever estes versos. Só os apaixonados acreditam que o amor seja assim, tão sem razões. Mas eu, talvez por não estar apaixonado (o que é uma pena...), suspeito que o coração tenha regulamentos e dicionários, e Pascal me apoiaria, pois foi ele quem disse que "o coração tem razões que a própria razão desconhece". Não é que faltem razões ao coração, mas que suas razões estão escritas numa língua que desconhecemos. Destas razões escritas em língua estranha o próprio Drummond tinha conhecimento, e se perguntava: "Como decifrar pictogramas de há 10 mil anos se nem sei decifrar minha escrita interior? A verdade essencial é o desconhecido que me habita e a cada amanhecer me dá um soco." O amor será isto: um soco que o desconhecido me dá?

Ao apaixonado a decifração desta língua está proibida, pois se ele a entender, o amor se irá. Como na história de Barba Azul: se a porta proibida for aberta, a felicidade estará perdida. Foi assim que o paraíso se perdeu: quando o amor - frágil bolha de sabão - não contente com sua felicidade inconsciente, se deixou morder pelo desejo de saber. O amor não sabia que sua felicidade só pode existir na ignorância das suas razões. Kierkegaard comentava o absurdo de se pedir aos amantes explicações para o seu amor. A esta pergunta eles só possuem uma resposta: o silêncio. Mas que se lhes peça simplesmente falar sobre o seu amor - sem explicar. E eles falarão por dias, sem parar... Mas - eu já disse - não estou apaixonado. Olho para o amor com olhos de suspeita, curiosos. Quero decifrar sua língua desconhecida. Procuro, ao contrário do Drummond, as cem razões do amor...

Vou a Santo Agostinho, em busca de sua sabedoria. Releio as Confissões, texto de um velho que meditava sobre o amor sem estar apaixonado. Possivelmente aí se encontre a análise mais penetrante das razões do amor jamais escrita. E me defronto com a pergunta que nenhum apaixonado poderia jamais fazer: "Que é que eu amo quando amo o meu Deus?" Imaginem que um apaixonado fizesse essa pergunta à sua amada: "Que é que eu amo quando te amo?" Seria, talvez, o fim de uma estória de amor. Pois esta pergunta revela um segredo que nenhum amante pode suportar: que ao amar a amada o amante está amando uma outra coisa que não é ela. Nas palavras de Hermann Hesse, "o que amamos é sempre um símbolo". Daí, conclui ele, a impossibilidade de fixar o seu amor em qualquer coisa sobre a terra.

Variações sobre a impossível pergunta:
"Te amo, sim, mas não é bem a ti que eu amo. Amo uma outra coisa misteriosa, que não conheço, mas que me parece ver aflorar no seu rosto. Eu te amo porque no teu corpo um outro objeto se revela. Teu corpo é lagoa encantada onde reflexos nadam como peixes fugidios... Como Narciso, fico diante dele... No fundo de tua luz marinha nadam meus olhos, à procura... Por isto te amo, pelos peixes encantados..."(Cecília Meireles) Mas eles são escorregadios, os peixes. Fogem. Escapam. Escondem-se. Zombam de mim. Deslizam entre meus dedos.

Eu te abraço para abraçar o que me foge. Ao te possuir alegro-me na ilusão de os possuir. Tu és o lugar onde me encontro com esta outra coisa que, por pura graça, sem razões, desceu sobre ti, como o Vento desceu sobre a Virgem Bendita. Mas, por ser graça, sem razões, da mesma forma como desceu poderá de novo partir. Se isto acontecer deixarei de te amar. E minha busca recomeçará de novo..." Esta é a dor que nenhum apaixonado suporta. A paixão se recusa a saber que o rosto da pessoa amada (presente) apenas sugere o obscuro objeto do desejo (ausente). A pessoa amada é metáfora de uma outra coisa. "O amor começa por uma metáfora", diz Milan Kundera. "Ou melhor: o amor começa no momento em que uma mulher se inscreve com uma palavra em nossa memória poética."

Temos agora a chave para compreender as razões do amor: o amor nasce, vive e morre pelo poder - delicado - da imagem poética que o amante pensou ver no rosto da amada...
Rubem Alves





“Se algum dia eu encontrar
Um novo amor
Hei de ter amor pra dar
Amor e paz
Por isso eu vou
Guardar meu peito
Até quando por direito
Este amor chegar.”
Paulinho da Viola




“Fechar ao mal de amor nossa alma adormecida
é dormir sem sonhar, é viver sem ter vida...
Ter, a um sonho de amor, o coração sujeito
é o mesmo que cravar uma faca no peito.
Esta vida é um punhal com dois gumes fatais:
não amar é sofrer; amar é sofrer mais!”
Menotti Del Picchia
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“Única testemunha do meu horizonte, comemorei sentado, quieto, com a boca cheia, a minha maior conquista: partir. Ainda que minha maior viagem durasse apenas um único e mísero dia. Parti para minha mais longa travessia e, mesmo que ela só durasse esse único dia, eu havia escapado do maior perigo de uma viagem, da forma mais terrível de naufrágio: não partir.”
Amyr Klink




Ser de ninguém


Na hora de cantar todo mundo enche o peito nas boates, nos bares, levanta os braços, sorri e dispara: "eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também".
No entanto, passado o efeito do uísque com energético e dos beijos descompromissados, os adeptos da geração "tribalista" se dirigem aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição.
A maioria não quer ser de ninguém, mas quer que alguém seja seu.
Não dá, infelizmente, para ficar somente com a cereja do bolo -beijar de língua, namorar e não ser de ninguém.
Para comer a cereja é preciso comer o bolo todo e nele, os ingredientes vão além do descompromisso, como: não receber o famoso telefonema no dia seguinte, não saber se está namorando mesmo depois de sair um mês com a mesma pessoa, não se importar se o outro estiver beijando outra, etc, etc, etc.
Desconhece a delícia de assistir a um filme debaixo das cobertas num dia chuvoso comendo pipoca com chocolate quente, o prazer de dormir junto abraçado, roçando os pés sob as cobertas e a troca de cumplicidade, carinho e amor.
Namorar é algo que vai muito além das cobranças. É cuidar do outro e ser cuidado por ele, é telefonar só para dizer bom dia, ter uma boa companhia para ir ao cinema de mãos dadas, transar por amor, ter alguém para fazer e receber cafuné, um colo para chorar, uma mão para enxugar lágrimas, enfim, é ter "alguém para amar"...
Somos livres para optarmos!
E ser livre não é beijar na boca e não ser de ninguém.
É ter coragem, ser autêntico e se permitir viver um sentimento...
Arnaldo Jabor

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"Amor não é amor,
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor."
Shakespeare

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O amor acaba.

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
Paulo Mendes Campos

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* Uff, post catártico, como aquela última terra que jogamos em cima dos caixões. Terra necessária para dar fim e início ao que virá. Nada de novo pode ser vivido se não enterrarmos nossos mortos. Feito isso é virar as costas e seguir, o passado não me assombra mais. a.a.

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" ...como um poema na escuridão - que escapou de volta para o esquecimento - mais nada para ser dito e mais nada para ser chorado."
Allen Ginsberg


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Jabor retirado daqui.

Essa segunda-feira, 13 de junho, eu sei, já entrou para as minhas datas inesquecíveis. Uma história de amor acabou, uma notícia de câncer na família e a morte do poeta Eugénio de Andrade. A história, analisando friamente, talvez nem fosse de amor, e ainda que seja, eu sei, tudo passa e essa também passará. Quando penso nessa pessoa doente, e lembro da importância dele na minha vida, só posso chorar, nada há mais para fazer e finalmente, a morte do poeta, fecha um dia triste, como um dia triste tem de ser fechado, com poesia. Vamos a ela, então.



13/06/2005 - Morre Eugénio de Andrade



Morreu Eugénio de Andrade. Um dos nomes grandes da poesia portuguesa, Eugénio de Andrade estava já doente há alguns meses. A morte chegou na madrugada desta segunda-feira, aos 82 anos.

José Fontinhas (nome verdadeiro de Eugénio de Andrade) nasceu numa pequena aldeia da Beira Baixa, a Póvoa da Atalaia, no dia 19 de Janeiro de 1923. Filho de uma família de camponeses, o poeta teve A sua infância muito ligada à mãe, figura dominante de toda a sua vida e da sua poesia.

Com o fim do casamento dos pais, Eugénio de Andrade muda-se com a mãe para Castelo Branco. Em 1932 muda-se novamente, desta vez para Lisboa, onde permanece por 11 anos.
Em 1939 publica o seu primeiro poema, «Narciso» e, pouco tempo depois, passa a assinar sob o pseudónimo de Eugénio de Andrade. Dois anos depois faz-se a primeira referência pública à sua poesia na conferência que Joel Serrão, seu amigo, pronunciou na Faculdade de Letras de Lisboa. Em Novembro de 1942 sai à rua o seu primeiro livro de poesia, «Adolescente». O ano de 1944 trás as primeiras traduções dos seus poemas para Francês e em 1945, a Livraria Francesa publica o seu livro «Pureza». A partir de 1948 dá-se uma reviravolta na vida. A publicação de «As Mãos e os Frutos», trás consigo o sucesso e a partir dessa data, inicia-se um período especialmente rico na produção na poesia, mas também na prosa, na tradução e na antologia. Em 1991 nasce a Fundação Eugénio de Andrade.

A obra de Eugénio de Andrade inclui mais de duas dezenas de títulos de poesia, e inclui ainda prosa, antologias, álbuns, livros para crianças e traduções para português de grandes poetas estrangeiros (Lorca, Safo, Char, Reverdy, Ritsos, Borges). Está publicado em 20 línguas e em 20 países, Alemanha, Itália, Venezuela, China, Espanha, no México, Luxemburgo, em França, nos Estados Unidos da América, o que faz dele o poeta português mais traduzido depois de Fernando Pessoa.








"Caro leitor:

Escrevo-te pela primeira vez, pois não sou um homem de cartas, conversas e coisas assim. Daí a dificuldade. Custa-me imaginar-te em corpo e figura, pois nunca pensei em ti - esta é a verdade. Se a brutalidade te ofender, perdoa-me ao menos a franqueza. Naturalmente que há mais de quarenta anos que sei da tua existência, e tenho até sido sensível a alguns sinais teus. Para ser amado se escreve, tem sido já dito; eu limito-me a confirmá-lo. Mas no meu caso gostaria que as emoções, que os despertam ou inspiram, ficassem no âmbito do leitor. As minhas, quando as tive, são privadas; só a poesia é pública. Sou, como vês, um homem cujo único compromisso é com as palavras. Agora que me pedem que me dirija a ti, interrogo-me: para quem escrevo eu? Sempre pensei que o fazia para muito poucos, mas o número, a avaliar pelas reedições, tem crescido muito. Nada fiz para isso, acredita. Um poeta, creio que já o disse um dia, não escolhe os seus leitores; ao contrário, é escolhido por eles, são eles a dar-lhe corpo e figura. Como poderia ser de outra maneira?

Afectuosamente,

Eugénio de Andrade
"Mensagem pessoal acompanhando a edição Poesia e Prosa (1940-1986).





Na orla do mar

Na orla do mar,
no rumor do vento,
onde esteve a linha
pura do teu rosto
ou só pensamento
- e mora, secreto,
intenso, solar,
todo o meu desejo -
aí vou colher
a rosa e a palma.
Onde a pedra é flor,
onde o corpo é alma.
Eugénio de Andrade




Tu já tinhas um nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.
Eugénio de Andrade, Madrigal
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Variações em tom menor

Para jardim te queria.
Te queria para gume
ou o frio das espadas.
Te queria para lume.
Para orvalho te queria
sobre as horas transtornadas.

Para a boca te queria.
Te queria para entrar
e partir pela cintura.
Para barco te queria.
Te queria para ser
canção breve, chama pura.

In: Poemas de Eugénio de Andrade - Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1999, pg.72




«Porque também para Mozart houve morte caríssimo! E se Mozart morreu, como poderão os meus amigos ser imortais? O Aires, a Nelmi, o Armando, a Matilde, o Célio, todos morrerão e eu com eles a cada instante. Mesmo tu David, acabarás também por morrer; as cordas deixarão de soar; uma poeira muito fina poisará docemente na tua harpa, para sempre.»
Eugénio de Andrade, Excessivo é ser Jovem, Em Memórias da Alegria






"Ando no escuro para tocar onde não devo. Amor é tocar onde não se deve. E curar sem entender a doença."
Fabrício Carpinejar




“Como se eu mesma fosse cela do meu corpo de sobremesa,
as horas de espera esfumam a doçura do formol.
O coração continua a derreter em bocados
os latidos de nuvem para o meu piscar simétrico:
mãos em lua, quanto te doem os olhos dos outros.
Aqui os relógios respiram sem bilhete de volta.
Entretanto, ao longe, conjuga-se uma pegada de cristal
Ninguém bate à porta da minha casa de neve.”
Elena Medel




"Passamos dias assim, Pedro e eu, um dentro do outro. O cheiro, os líquidos, os ruídos das vísceras. O que era de quem, dentro e fora, nós não sabíamos mais.As secreções, as funduras.Os dias se interrompiam quando ele ia embora. Recomeçavam apenas no mesmo segundo em que tornava a chegar.Não sei quanto tempo durou. Só comecei a contar os dias a partir daquele em que ele não veio mais."
Caio Fernando Abreu - Onde andará Dulce Veiga (p. 115)







Água Perrier

Não quero mudar você
nem mostrar novos mundos
pois eu, meu amor, acho graça até mesmo em clichês.

Adoro esse olhar blasé
que não só já viu quase tudo
mas acha tudo tão déjà vu mesmo antes de ver.

Só proponho
alimentar seu tédio.
Para tanto, exponho
a minha admiração.
Você em troca cede o
seu olhar sem sonhos
à minha contemplação:
Adoro, sei lá por que,
esse olhar
meio escudo
que em vez de meu álcool forte pede água Perrier.
Antonio Cícero


"Deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver nascer uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado..."
Caio Fernando Abreu - Para uma avenca partindo - O Ovo Apunhalado




“Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti
até que a dor alegre recomece.”
Maria Gabriela Llansol






“Prefiro então partir a tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perde, te encontro com certeza
Talvez no tempo da delicadeza
Onde não diremos nada, nada aconteceu
Apenas seguirei como encantado ao lado teu.”
Todo Sentimento - Cristovão Bastos e Chico Buarque


Simbiose
Sou seu poeta só
Só em você descubro a poesia
Que era minha já
Mas eu não via.
Só eu sou seu poeta
Só eu revelo a poesia sua
e à noite indiscreta você de lua.
Antonio Cícero



(...) sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor pois se eu me comovia vendo você pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo meu deus como você me doía de vez em quando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma praça então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando você sem dizer nada só olhando e pensando meu deus mas como você me dói de vez em quando.
Caio Fernando Abreu

Feliz Dia dos Namorados.

“...eu vou sair nessas horas de confusão...
gritando seu nome entre os carros que vem e vão...
quem sabe então assim...
você repara em mim...”
Ana Carolina




- Você tem um cigarro?
- Estou tentando parar de fumar.
- Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
- Você tem uma coisa nas mãos agora.-
- Eu?
- Eu.
Caio Fernando Abreu - livro "Morangos Mofados"





"...no peito me bate um coração, a ti sujeito;
E eles, juntos, formam neste instante um coração
apenas, muito amante..."
William Shakespeare



"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional."
Carlos Drummond de Andrade



"então me vens e me chegas e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque é assim que és..."
CFA - "À beira do mar aberto"








"Ah! Queria com os meus beijos rasgar a tua carne com tão cruéis mordeduras para que ao menos pela dor fosses minha - e enterrar, esses beijos, no fundo de vós se no fundo houvesse pregos que pregassem as nossas peles unidas."
Camille Lemonnier



"Andei pensando em Adele H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que - se você não me amar: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor - depois do não, depois do fim - reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida".
CFA - Extremos da Paixão / Pequenas Epifanias



"Ainda que chova, ainda que doa
Ainda que a distância
Corroa as horas do dia
E caia a noite sem estrelas
O mundo brilha um pouquinho mais
A cada vez que você sorri"
Pablo Neruda



"A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contato: de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é: "eu te desejo", e liberá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir ( a linguagem goza de tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação."
Roland Barthes

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"Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossaamar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita"
Carlos Drummond de Andrade

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a.mor
(ô), s. m. 1. Sentimento que impele as pessoas para o que se lhes afigura belo, digno ou grandioso. 2. Forte inclinação, de caráter sexual, por pessoa de outro sexo. 3. Afeição, grande amizade. 4. Objeto dessa afeição. 5. Benevolência. 6. Caridade. 7. Coisa ou pessoa bonita, preciosa. 8. Filos. Tendência da alma para se apegar aos objetos. S. m. pl. 1. Namoro. 2. O objeto amado.

A literatura sempre falou e muito de amor. Os que vieram, os que estão chegando, os que jamais serão e nessa semana, menos pelo Dia dos Namorados e mais por causa do amor somente, deixo por aqui um pouco do muito do que se escreveu sobre o tema.







A cena

Entre os poucos livros que tenho ao alcance da mão, na minha estante, está a estória do amor de Tomas e Tereza, que Milan Kundera conta em A Insustentável leveza do ser. Tomas tinha tido muitas amantes. De todas as suas aventuras amorosas “sua memória só registrava o estreito e íngreme caminho da conquista sexual. Todo o resto (com um cuidado quase pedante) eliminara da memória”. “Aventuras amorosas”: Tomas, na realidade, nunca estivera apaixonado. O seu horror ao amor era tal que nunca permitia que uma mulher dormisse no seu apartamento. A idéia de acordar de manha ao lado de qualquer mulher o incomodava tanto que, terminada a orgia sexual, Tomas encontrava sempre uma forma de levar a parceira de volta à casa. Ele se parecia com o sultão d’As mil e uma noites: depois de uma noite de prazeres carnais, a amante era decapitada... Era assim que Tomas se via, como animal caçador eu abandona a caça tão logo sua fome tivesse sido satisfeita.

Mas com Tereza tudo tinha sido diferente. Não que Tereza tivesse algum traço especial, que a distinguisse das outras. Por mais que a examinasse, nada encontrava nela que pudesse ser apontado como a razão para o seu amor. E, no entanto, sem razões, o fato era que ele estava apaixonado por ela.

Sua aventura com Tereza tinha começado exatamente onde terminavam suas aventuras com as outras mulheres. Ela se desenrolara do outro lado do imperativo que o levava à conquista. Conhecera Tereza acidentalmente num br de cidadezinha do interior. Dissera-lhe, quase como uma brincadeira, que se fosse à capital que o procurasse. E lhe dera o seu endereço. Tereza foi e o procurou. Chegara à capital doente e não sabia para onde ir. Foi aí que a história de amor começou. Ela estava ardendo em febre, adormecera no sofá da sala, e ele não pudera levá-la de volta como fazia com as outras. Para onde a levaria? Ajoelhado à sua cabeceira “ocorrera-lhe a idéia de que ela viera para ele numa cesta sobre as águas.”

Agora, a distância, pensava sobre as razões do seu amor e fazia, sem que disso se desse conta, a insólita pergunta de Santo Agostinho? “Que é que amo quando amo Tereza?”. Tudo se tornava claro de repente. Foi pela beleza desta cena que ele se apaixonara: Tereza, criança amedrontada, chegando aos seus braços com um pedido de socorro. “A mulher não resiste à voz do que chama sua alma amedrontada; o homem não resiste à mulher cuja alma se torna atenta à sua voz.”
“Parece que existe no cérebro uma zona específica, que poderíamos chamar de memória poética, que registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à nossa vida. Desde que Tomas conhecera Tereza, nenhuma outra mulher tinha o direito de deixar a marca, por efêmera que fosse, nessa zona do seu cérebro.”

Agora, na sua memória poética, aquela cena permanecia imóvel, imperturbável, fora do tempo. Era uma parte da sua alma. Não morreria jamais. Vinícius de Moraes percebeu que o amor pela mulher não é eterno, posto que é chama. Mas ele não percebeu que o amor pela bela cena permanece para sempre, pois “o que a memória amou fica eterno”.

“Que é que amo quando te amo?” Tomas amava Tereza porque amava antes uma outra coisa: aquela cena bela e comovente que repentinamente brilhara em sua imaginação. A mulher que ele amava era a Tereza daquela cena: a criança amedrontada que lhe chegava numa cesta sobre as águas. Tereza poderia abandoná-lo, deteriorar-se ou morrer. Mas a cena permaneceria inalterada, suspensa na memória poética, como objeto de amor.

Amamos a bela cena antes de amar a pessoa. Por isso que Santo Agostinho dizia, em suas Confissões: “Antes que te conhecesse eu já te amava”. Somos amantes muito antes de nos encontrarmos com a mulher ou com o homem que será o objeto do nosso amor. Somos como a criancinha que já ama o seio mesmo antes do primeiro encontro. Sua memória poética sabe que ele existe.

A alma é uma coleção de belos quadros adormecidos, os seus rostos envolvidos pela sombra. Sua beleza é triste e nostálgica porque, sendo moradores da alma, sonhos, eles não existem do lado de fora. Vez por outra, entretanto, defrontamo-nos com um rosto (ou será apenas uma voz, ou uma maneira de olhar, ou um jeito da mão...) que, sem razões, faz a bela cena acordar. E somos possuídos pela certeza de que este rosto que os olhos contemplam é o mesmo que, no quadro, está escondido pela sombra. O corpo estremece. Está apaixonado.

Acontece, entretanto, que não existe coisa alguma que seja do tamanho do nosso amor. A nossa fome de beleza é grande demais. Neruda dizia que ele seria capaz de devorar o universo inteiro. Nas palavras da Adélia Prado, “para o desejo do meu coração o mar é uma gota”. E o amor se revela então como a coisa mais triste. Cedo ou tarde descobrirá que o rosto não é aquele. E a bela cena retornará à sua condição de sonho impossível da alma. E só restará a ela alimentar-se da nostalgia que rosto algum poderá satisfazer...

Rubem Alves


Hoje passando por um site de cinema, vi a imagem dele e bateu a saudade desse tipo de herói ingênuo, no caso e sim, isso é uma ironia, poucas palavras, mas atitudes sinceras.

Ele não era necessariamente brilhante, muito pelo contrário, para sorte nossa, alias.
John Weissmuller, o eterno Tarzan, era um homem grande, cerca de 1,90 e peso proporcional. O corpo atlético conquistado em anos de natação chamava atenção, e claro, era perfeito para o herói Tarzan sair dos quadrinhos e ir para as telas de cinema.
Weissmuller nasceu em 02 de junho de 1904 em Windber, Pensilvânia e quando seus pais se mudaram para Chicago, o garoto aprendeu a nadar em piscinas públicas e no lago Michigan. Ele se tornou um nadador imbatível em nado livre, seus movimentos de braços muito poderosos arrastaram-no a incontáveis recordes mundiais e cinco medalhas de ouro nos jogos Olímpicos de 1924 e 1928.

Pelas mãos de Louis B. Mayer e Irving Thalberg, ele se tornaria o Tarzan, o homem macaco mais conhecido do cinema. Seu grito mundialmente conhecido era inconfundível e assim como em poucos casos usou dublê, o grito também era dele e vinha sabe-se lá de onde.
Fez fortuna que seria convenientemente surrupiada em grande parte por um de seus empresários. Nos anos setenta, virou um anfitrião no Caesar’s Palace de Las Vegas, e em 1984, morreria vítima de um ataque cardíaco.