Os cabelos de Clarice


Uma mecha dos cabelos de Clarice Lispector está lá na seção de Obras Raras da Biblioteca Nacional esperando que um dia a crítica literária e a genética avancem tanto, que se possa ter alguma explicação complementar para a genialidade de sua obra.
Talvez eu esteja brincando, talvez, não. Afinal muitas das proféticas e literárias brincadeiras de Júlio Verne se realizaram. E em tempos de promissoras células tronco, o impossível é possível.

O fato é que tais cabelos devem estar lá. E penso nisto agora, porque me contam que faleceu há alguns meses, lá no Mosteiro Beneditino da Ressurreição, em Ponta Grossa, o querido e divertidíssimo Antônio Salles.

Foi ele quem me trouxe os cabelos de Clarice. E esta insólita estória, como insólito era tudo o que cercava a escritora, ocorreu quando dirigi a Biblioteca Nacional (1990-1996). Ora se deu que um dia fui surpreendido pelo senhor Valdir, responsável da seção de Obras Raras, com a informação de que ali, numa das pastas, havia, nada mais nada menos, que alguns pêlos púbicos de D. Pedro I. Sim, senhoras e senhores! O nosso augusto imperador anexou alguns de seus pentelhos numa carta à sua amante, creio que a Marquesa de Santos, demonstrando assim a sua potente saudade amorosa. Do que se deduzia do texto, o valoroso soldado que proclamou nossa independência estava com aquilo que hoje se chama de doença sexualmente transmissível, e não podendo estar pessoalmente com sua amada, descabelava-se nessa missiva para externar sua paixão. (Por sinal, estive outro dia na casa de Jocy de Oliveira, lá em Pedra de Guaratiba, e nossa compositora de música contemporânea de fama internacional afirmou-me que aquela mansão, de onde se avista a restinga da Marambaia, tinha sido o “ninho de amores” de D. Pedro I e da Marquesa).

Pois bem. Tornou-se pública a notícia de que os pêlos púbicos do imperador estavam em nossa Biblioteca. Deixou de ser um fato erótico imperial para virar imperiosa notícia nos jornais. Com efeito, não é todo dia que se encontra tal achado tanto no Oriente como no Ocidente, e não creio que exista algo semelhante de Pedro o Grande nos arquivos russos, ou de John Kennedy lá em Washington.

Portanto, aquela notícia saiu no Zózimo, apareceu no Jô Soares, e, por coincidência, Antônio Salles tomando conhecimento dela, telefonou-me. Eu estava há tempos tentando atraí-lo para trabalhar na Biblioteca Nacional. Como não tinha verba nem quadro suficiente de funcionários conseguia, com várias instituições, que seus funcionários fossem cedidos àquela casa. E nada melhor que um monge beneditino para beneditinamente trabalhar sobre antiquíssimos documentos. Eu não sabia que meu amigo estava numa ordem com princípios severos. Como me disse numa carta onde revelava estar traduzindo para o português a obra de João Cassiano, um religioso do século IV: “Infelizmente é impossível aceitar seu honroso convite; nós temos uma coisa chamada voto de estabilidade, isto é, no mosteiro em que se fixa, aí se morre. Até o cadáver é do mosteiro e não da família. A vida aqui começa às 4h15m da manhã e vai até 22h, podendo porém, quem desejar, dormir às 20h30m”. E fazia-me essa outra surpreendente e literária revelação: “Eu tenho aqui comigo uma mecha dos cabelos de Clarice, será que a BN aceitaria essa peça rara?”.

Ora, se tínhamos o cabelo do nosso imperador, como recusar os da imperatriz de nossa literatura?

Nessas alturas, Salles já havia assumido o hábito dos beneditinos. Mas antes fora professor de filologia, português e latim, dos mais brilhantes, em Belo Horizonte, onde o conheci, na França e nos Estados Unidos, onde de novo o reencontrei na Universidade de Wisconsin. Era uma pessoa imprevisivelmente adorável. Claro que Clarice sucumbiu às suas graças. Ele traduziu e cantava em latim músicas como “Ó jardineira/ por que estás tão triste/ mas o que foi que te aconteceu? (O horticultrix/ cur tam tristeis es/ quid autem tibi/acciderit);” ou então a marchinha, “Sa-ssaricando/ todo mundo/ leva a vida/ no arame (Sa-ssaricantes/ ommes gentes/ dgent vitam/ in filo ferreo)” etc. Ex-seminarista, vivia passando telegramas espinafrando Sua Santidade o Papa e aprontava inventivas festas em seus apartamentos catando transeuntes na rua, seja em Brasília ou Nova York.

Como conseguiu os cabelos de Clarice?

Passava ele pelo Rio e, como havia se tornado amigo de Clarice, telefonou-lhe perguntando se queria sair para jantar. Ela respondeu-lhe que estava ocupada, escrevendo uma carta para Paulo Mendes Campos, mas que ele passasse pela casa dela, que depois poderiam ir deixar a carta para o Paulinho, lá na Globo. No apartamento da escritora, Salles ficou brincando com o cão Ulisses, o mesmo que arrancou um naco do rosto da poeta Maria do Carmo Ferreira quando esta visitou também a escritora.

Pois Clarice e Salles saíram, foram à Globo e deixaram lá a carta. Feito isto, Salles pergunta à Clarice se ela não gostaria de acompanhá-lo à casa de seu amigo e professor Celso Cunha. Clarice disse-lhe que ficava “intimidada de ir à casa de tão ilustre figura”, mas Salles adiantou que a família do inesquecível professor era ótima, grande, descontraída, mineiros de Teófilo Otoni etc. Não havia o que temer.

Daqui pra frente, cedo a palavra ao próprio Salles que redigiu um documento-testemunho de quatro páginas que lhe solicitei e que está lá na BN: “Logo ao entrar, Clarice viu a filha de Celso, Clara, que estava muito bonita de cabelos com um corte lindíssimo. Clarice mal cumprimentou as pessoas, foi logo dizendo que queria cortar os cabelos da mesmíssima maneira. Cenira prometeu o endereço do cabeleireiro. Mas ela disse: ‘Não! Tenho de cortar o cabelo AGORA!’ E não houve jeito. Cenira e Clara levaram Clarice ao banheiro, apavoradas, e deram uns cortes nos cabelos de nossa amiga, que ficou satisfeitíssima. Não sei explicar, mas uma força interior me fez apanhar uma pequena mecha que é a que lhe passei como doação à Biblioteca Nacional, que guarda outras mechas famosas”.

Affonso Romano de Sant'anna - caderno Prosa e Verso - O globo - 21/05/05.

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