O cisne negro ou quando a pegada não realizada faz a diferença.




Eu sei, o título é esquisito mesmo, mas o papo é antiguíssimo.
Imagina a cena: pirata de olhos negros, tez morena, alto, levemente musculoso, agarra mocinha frágil, tez alva, boca rubra (nesse momento, arfante) e levemente relutante. Já viu essa cena? Eu também, nos filmes e na vida real.
Não, não foi num baile a fantasia, é que tal pegada é um clássico do cinema e da vida real.

No filme “O cisne negro”, Tyrone Power, que reza a lenda, não era muito chegado a mocinhas em geral, fazia o papel de pirata. Verdade seja dita, o homem tinha porte e uns olhos negros de tirar o fôlego de qualquer um e Maureen O'Hara, a mocinha frágil e desprotegida.
Previsivelmente rola uma tensão sexual entre os dois de imediato, mas como convém a mocinhas, principalmente em filmes de época, ela arfa, mas não cede.
E foi na cena da prensada na parede, a respiração ofegante, as bocas quase juntinhas, aquela olhada da boca-aos-olhos-dos-olhos-a-boca e o afastamento desdenhoso que me peguei pensando: é o beijo intuído, é a pegada não realizada, a vontade não concretizada, ali no momento do "quase" que o desejo reside...ainda hoje.







Pois é, ainda hoje. A sociedade anda consumindo bocas e beijos à granel. Adolescentes apostam em quantas bocas vão beijar e saem numa disputa enlouquecida sem saber que o “não fazer” que antecede o grande momento, é o clímax e depois de feito, não basta um beijo e a troca simultânea de boca, há que se ter a exploração devida e indevida da boca com a qual dividimos o beijo. Mas isso é outra história, o papo aqui é a pegada não realizada que prendia a mocinha e o público no escurinho do cinema. Ali, junto com a respiração ofegante da heroína, estávamos nós, tão ofegantes quanto, antecipando o momento, quase que fechando os olhos e esperando o beijo (naquela época se esperava o beijo), ainda que não viesse e não vinha.

Pode parecer papo de moralista, mas não é. Hoje o debate nas mesas de bar, entre amigos, nas comunidades do orkut, nos grupos do yahoo vai direto ao ponto: dar ou não dar na primeira noite? Ou seja, pula-se logo para a cama, quando a sedução é o ponto, o anticlímax, a tal pegada não realizada, o momento do "quase", quando o único ponto de conexão são os olhos e isso, acreditem, dar o maior tesão.


andrea augusto (angelblue83)

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