Ele viveu apenas 28 anos e deixou uma obra, mas sobretudo uma promessa não concretizada. Não me lembro de ter ouvido falar do poeta português Daniel Faria antes de tornar-me assídua freqüentadora dos ótimos blogs portugueses.Entre um poema e outro fui tomando conhecimento desse jovem poeta falecido aos 28 anos e considerado uma das vozes mais importantes da nova poesia portuguesa da década de 90.

Daniel Augusto da Cunha Faria nasceu em Baltar, Paredes, a 10 de Abril de 1971.
Freqüentou o curso de Teologia na Universidade Católica Portuguesa – Porto, tendo defendido a tese de licenciatura em 1996.
No Seminário e na Faculdade de Teologia criou gosto por entender a poesia e dialogar com a expressão contemporânea.Licenciou-se em Estudos Portugueses na faculdade de Letras da Universidade do Porto. Durante esse período (1994 - 1998) a opção monástica criava solidez.A partir de 1990, e durante vários anos, esteve ligado à paróquia de Santa Marinha de Fornos, Marco de Canaveses. Aí demonstrou o seu enorme potencial de sensibilidade criativa encenando, com poucos recursos, As Artimanhas de Scapan e o Auto da Barca do Inferno.




Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio

Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
ilumino-a

Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em enxame

Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vomito
Volto devagar a colocá-la na fome

Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela

E ilumino-a

Daniel Faria em “Homens que são como lugares mal situados”




Explicação da ausência

Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer – fosse abertura –
E a saudade é tudo ser igual.

Daniel Faria



Por tudo que já li, me parece um poeta póstumo. Chega a ser pouco conhecido entre os próprios portugueses e por muitos, considerado um poeta difícil. Conheço pouco da obra dele para discordar, só sei que o pouco que conheço me faz pensar no quanto perdemos, no que jamais saberemos e sobretudo na obra que jamais teremos em mãos para ler.
Daniel Faria faleceu a 9 de Junho de 1999 quando estava prestes a concluir o noviciado no Mosteiro Beneditino de Singeverga.




Explicação do Homem

Não me verga a velhice nem o peso do crânio
Mas os olhos cansados na dor de te não ver.
O chão tornou-se a última paisagem.
No mais longínquo da terra te levantas
E vejo ergue-se a poeira dos teus pés.

Daniel Faria


E nunca mais acabarás
De regressar.


Daniel Faria




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