"Há coisas que são conhecidas e coisas que são desconhecidas; entre elas há portas".
William Blake





"As palavras não nascem amarradas, elas saltam, se beijam, se dissolvem, no céu livre por vezes um desenho, são puras, largas, autênticas, indevassáveis."
Carlos Drummond de Andrade


"Quantos amaram seus momentos de radioso encanto.
Quantos amaram sua beleza com falso ou verdadeiro amor,
Mas um homem amou a alma peregrina em você,
E amou as mágoas do seu rosto cambiante"
Yeats


"O melhor ainda não foi dito. O melhor está nas entrelinhas"
Clarice Lispector



"Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata."
Carlos Drummond de Andrade


"O que me tranqüiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição."
Clarice Lispector, in A Perfeição


"A maior parte das pessoas é tão feliz quanto resolveu ser."
Abraham Lincoln



Aprender a ser Feliz

Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz. Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Cecilia Meireles




Há sempre alguém que diz não

[...]
Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
Manuel Alegre - A Praça da canção












Um dedo de prosa...

Bom, durante esses anos de existência do Literatus, poucas vezes coloquei aqui qualquer coisa sobre a minha vida pessoal, mas hoje como trata-se de uma despedida, faz-se necessário.

Eu lembro de um papo que rolou numa pizzaria, logo depois de assistirmos ao filme ¿Ray¿, a cinebiografia de Ray Charles. Eu dizia: Tem gente que vem ao mundo e vive cada história tão fantástica, que nem a melhor ficção poderia inventar. Tem gente que acorda de manhã e nem desconfia como será o seu dia ou mesmo em que parte do mundo vai estar.
Em contrapartida tem gente que acorda e sabe exatamente como será o seu dia, sabe com precisão durante as horas do dia o que estará fazendo. Bate seu cartão de ponto em determinado horário e horas depois sairá, batendo o mesmo cartão. Nesse meio tempo fica preso no local de trabalho. Muitas vezes esse local de trabalho tem grades nas janelas e por mais que o dia lá fora esteja azul e lindo, é o cinza das grades que fica e marca nessa cor todos os dias da vida.

Por que esse papo? Esse papo é pra dizer que atravessei as grades, que guardei o cartão de ponto e pedi demissão, menos pelo cinza e mais por uma pessoa em particular, mas isso é outra história.Prefiro deixar as palavras de Fernando Pessoa para esse caso:
"Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio, saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter, uns para com os outros, uma amabilidade de viagem."
Digamos que não houve essa amabilidade, donde se conclui que foi impossível continuar a viagem.

Como tudo que não é planejado, algumas surpresas me aguardavam, a primeira é que tendo minhas responsabilidades, não podia e não posso ficar desempregada e por isso contava com o meu bom e velho computador nesse empreitada, a segunda foi a morte do mesmo, o talzinho, nem tão bom, mas com certeza velho computador, por falência múltipla dos chips. Murphy é implacável, rss. Diante do falecimento, fiquei com um computador emprestado que irá embora hoje à noite, dia da minha entrada, sem previsão de volta, no mundo offline. Esse é o motivo da despedida, espero temporária.
Em tempo, pedir demissão não fez a minha vida mágica, nem a tornou digna de uma cinebiografia, talvez a tenha tornado apenas mais digna, o que é muito.
Gostei da coragem de ter saído de lá, da segurança das grades, de ter me lançado ao desconhecido, sem fazer a mínima idéia do que vai acontecer. Gostei de ter ido de encontro ao azul do céu de outono, minha estação predileta. Gostei, apenas isso.

Torçam por mim, suspedam os emails, não me esqueçam que um dia eu volto ;)

ciao

angel

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