Essa história é tão doida, linda, exótica e surpreendente que eu resolvi copiar a matéria na íntegra pra vocês.



Camelos também choram”
Por Artur Xexéo


UM DOCUMENTÁRIO FALADO em mongol, dirigido por dois cineastas estreantes, com um orçamento considerado ridículo. “Camelos também choram” (Die Geschichte vom weinenden Kamel, no original alemão) tinha tudo para dar errado. Mas conquistou platéias no mundo inteiro (só na Alemanha teve 300 mil espectadores), foi uma das principais atrações em todos os festivais de que participou no ano passado (em Miami, levou o prêmio de melhor filme), ganhou a chancela do National Geographic e completa sua carreira bem-sucedida neste domingo, como um dos cinco candidatos ao Oscar de melhor documentário.

“Camelos também choram” descreve o dia-a-dia de uma família de nômades no deserto de Gobi, na Mongólia. Afastados de qualquer conforto proporcionado pela vida moderna, os personagens seguem costumes ancestrais na vida doméstica e na criação de camelos e ovelhas. O filme acompanha o parto de uma fêmea de camelo e a decepção da família nômade ao perceber que o filhote, albino, é rejeitado pela mãe. Botok, o filhote, sofre quando a mãe o impede de sugar suas tetas. Percebendo que o camelo não sobreviveria sem o leite materno, os nômades apelam para um antigo ritual da região, no qual a música é utilizada para sensibilizar animais. Encontram um violinista que sabe realizar o ritual, organizam a cerimônia e... dá tudo certo. “Emocionado”, o camelo-fêmea chora e aceita o filhote albino de volta. Nesta altura, a platéia também está comovida e o choro que se ouve não é só o da tela.

O filme já foi comprado para exibição no Brasil, mas quem duvida das lágrimas do camelo pode ver o trailer no site
www.thinkfilmcompany.com/weepingcamel. A última cena do trailer é justamente a das lágrimas do camelo. A história de “Camelos também choram” começou com o encontro de Byambasuren Davaa e Luigi Falorni na escola de cinema de Munique, na Alemanha. Ela vinha da Mongólia; ele, da Itália. Ela era uma caloura; ele, um estudante do último ano. Byambasuren fazia sucesso contando para os colegas a história de camelos que choravam. Até que Falorni a ouviu e disse a frase clássica: “Isso dá filme!” Byambasuren sabia que sim. Nascimentos de camelos albinos, camelos-fêmeas que rejeitam filhotes, rituais musicais ancestrais no deserto, lágrimas de camelo — tudo isso fazia parte de sua vida. Toda a família de Byambasuren é composta por nômades do deserto. Ela faz parte da primeira geração que cresceu na cidade. Falorni juntou-se a ela e a dupla arriscou-se a seguir um grupo no deserto de Gobi e passou a torcer para que o episódio que “dava filme” acontecesse. O resultado, que seria só o trabalho de fim de curso de Falorni, transformou-se num dos filmes mais comentados de 2004 e pôs os dois cineastas entre os documentaristas para se prestar atenção.

Documentário não está entre os favoritos

No Oscar, “Camelos também choram” tem concorrentes de respeito. Ele não é o favorito. Teóricos da festa apostam numa vitória de “Nascidos nos bordéis”, sobre filhos de prostitutas de Calcutá, ou de “Tupac: Resurection”, uma biografia do rapper Tupac Shakur. Correndo por fora, aparecem “Super size me — A dieta do palhaço”, sobre os supostos malefícios da comida do McDonald’s, e “Twist of faith”, sobre abusos sexuais na Igreja. Só que “Camelos também choram” chega à festa eleito como o melhor documentário do ano pela Associação Americana de Cineastas. Quase todos os eleitores da Associação também votam no Oscar. Desta vez, o camelo pode ser a zebra.

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