Sexta, 23:00 horas, centro da cidade, chuva fina, calor úmido, cinema.O filme? "Ray”, pré-estréia da cinebiografia de Ray Charles.
"Ray" acompanha o período da carreira de Charles, que começa no momento em que o adolescente cego e negro atravessa sozinho os Estados Unidos dentro de um ônibus para aprimorar a sua arte no cenário do jazz de Seattle. Negro, pobre, órfão aos 15 anos. E querendo fazer música? Ou era louco ou possuía uma coragem desmedida. Corajoso, sem dúvida.
A biografia de Ray Charles Robinson, a essa altura já é mais do que conhecida. Nascido na Geórgia, cego aos 6 anos por um glaucoma não-diagnosticado, órfão de mãe aos 15 anos, sempre sem pai. Ou seja, o velho chavão: tinha tudo para dar errado.Mas não deu e o filme mostra bem isso. Da genialidade que o faria ser considerado o "rei do soul", ao envolvimento com drogas pesadas, roubo, traições, mulheres, noite, porres e a música.
A música que mudaria o curso e textura da música pop com músicas que fugiam de um molde - a mistura de "gospel" sempre à procura da transcendência com um "rhythm-and-blues" e muito caminho pela frente dariam origem ao "soul music".
O filme detalha bem os primeiros anos da carreira de Ray, sempre pontuados com muita música. E é nesse momento, no escurinho do cinema, que todos são tomados pela voz rouca de Ray. Quando o excelente Jamie Foxx, em interpretação digna de um Oscar, senta ao piano é o próprio Ray Charles que esta lá. Jamie Foxx é Ray Charles. A semelhança entre os dois é inacreditável, é possível em vários momentos esquecer que não é próprio Ray Charles que está lá, cantando, compondo, vivenciando sua própria história diante de nossos olhos.

De maneira geral, o filme cumpre bem o papel de contar a história de Ray. Não fosse alguns deslizes, como a saída fácil para solucionar o problema do trauma, por exemplo, seria perfeito, ainda que feito com o inevitável açúcar que toda biografia carrega. Ainda assim, vale a pena ver ou melhor “ouvir” a história de um homem que estava predestinado a inspirar gerações.
Ouçam este filme.









Entrevista com Jamie Foxx


O astro que interpretou o músico Ray Charles na telona fala sobre a experiência. O filme Ray estréia no Brasil em fevereiro -
Por Maria Cândida de Nova Iorque.

Depois de atuar ao lado de Tom Cruise em Colateral, o astro Jamie Foxx interpreta o músico Ray Charles no cinema. Ele é o protagonista de Ray, uma cinebiografia do artista norte-americano que estréia no Brasil em fevereiro. O ator concorre a três Globo de Ouro em 2005, um por cada produção e outro por Redemption. Ele conversou com a jornalista Maria Cândida em Nova York. Veja a entrevista.



Quando você encontrou o Ray Charles, vocês tocaram e cantaram juntos, e ele disse: "This kid can do it. This is the one" (Esse garoto pode fazê-lo. Ele é o certo). Como foi?

Jamie: Foi maravilhoso. Acho que qualquer um ficaria meio bobo, até. Eu sou músico também, toco piano desde os três anos de idade, admirava muito o Ray Charles e sabia que esse seria um dos papéis mais difíceis de se fazer. Ele é uma lenda da música e eu queria ser perfeito, mostrar que realmente poderia interpretá-lo. Tocamos piano juntos, cantamos, conversamos e ele me escolheu. Claro que o diretor, Taylor Hackford, esteve ao nosso lado o tempo todo, e ele foi o primeiro a me chamar para o papel. Esse projeto existe há mais de dez anos. Além de nenhum estúdio ter mostrado interesse no início, durante a pré-produção do filme, eles não achavam um ator para fazer o papel de Ray Charles: tinha que saber tocar e atuar, ser negro e ser aprovado pelo próprio Ray.

Você tocou em todas as cenas?

Jamie: Sim. Como disse, eu toco desde criança e foi maravilhoso poder interpretar Ray Charles, tocar as músicas dele e entendê-lo melhor. A vida do Ray foi muito tumultuada, cheia de altos e baixos. Mas era daquela emoção avassaladora que surgiam músicas fantásticas.

Foi difícil separar a lenda do homem Ray Charles?

Jamie: Eu fiquei muito ansioso no início, mas depois passou. Convivi com o Ray muito tempo, mas chegou uma hora que eu percebi que ele não poderia mais me ajudar a chegar no Ray Charles de 19 anos, porque já estava com mais de 70. Foi quando parei de visitá-lo e pesquisei de outra forma.

No filme, que estréia no Brasil só em fevereiro, muitas vezes não vemos diferença entre vocês dois. Como se você fosse mesmo o Ray Charles. No que você prestava atenção nele, quando fazia a sua pesquisa?

Jamie: Nas coisas simples da vida, na forma dele levar o cotidiano. No jeito de andar, abraçar, sorrir. Não queríamos muito estereótipo. Por isso, eu só observava o jeitão dele e imitava. Eu comecei na comédia e durante muitos anos participei do programa Saturday Night Live, fazia e faço muitas imitações, por isso não foi tão difícil assim.

Você usou alguma coisa, uma placa, nos dentes. Só para ficar com aquele sorrisão Ray Charles?

Jamie: Não, são meus mesmo (Risos e imita o sorriso de Ray Charles).

E você ficava o dia todo de olhos fechados mesmo?

Jamie: Sim. Completamente cego. Antes do filme, eu fiquei algumas semanas treinando para tentar entender as dificuldades e as sensações dos cegos. E no filme, os maquiadores colocaram uma capinha de plástico aderente especial para fechar meus olhos por completo.

E quando as filmagens paravam? Você continuava cego? No almoço, por exemplo.

Jamie: Sim. Eu precisava sentir tudo aquilo, entender o processo, entrar por completo no personagem. Sabe que no início foi terrível, porque eu me irritava em não conseguir fazer nada direito, tudo ser lento. Mas aos poucos eu percebia que sentia mais a música, os sons. É muito intenso! E entendi o que o Ray Charles, ou fiquei próximo de entender, o que ele sentia.

Vocês conversaram sobre drogas, sobre os 20 anos de heroína dele?

Jamie: Sim. Ele fez questão de não esconder nada. Quis colocar tudo sobre as drogas. Queria que as pessoas vissem o ser humano falível e a luta pela mudança, pela reabilitação. Tanto que ele se livrou do vício.

Deve ter sido muito difícil para você, para vocês, quando ele morreu, em junho deste ano.

Jamie: Foi, sim. Mas ele nos preparou direitinho. Sabia que uma hora ia acontecer e nos avisou. Acompanhou todo o filme, lia o roteiro em braille e ouvia as cenas gravadas. Não pediu para cortar nada. Na hora que viu que tudo estava sob controle, descansou. Ficamos muito tristes, mas felizes por ter feito o filme, ter dado a ele e a nós mesmos, este prazer tão grande.

Você foi indicado em três categorias para o Globo de Ouro, entre elas a de melhor ator pelo filme Ray. Dizem também que você vai ganhar o Oscar. E dizem mais: que esse papel mudou a trajetória da sua carreira. O que você acha de tudo isso?

Jamie: Bom, sobre o Oscar, acho importante ganhar, sim, para deixarmos de presente para o Ray Charles. E, claro que é importante para um ator. Sobre a minha carreira, eu venho buscando papéis mais dramáticos, porque a maior parte do público me conhece pelas comédias e essa transição é bem difícil. Acho que está dando certo.


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