Haverá na face de todos um profundo assombro
E na face de alguns risos sutis cheios de reserva
Muitos se reunirão em lugares desertos
E falarão em voz baixa em novos possíveis milagres
Como se o milagre tivesse realmente se realizado
Muitos sentirão alegria
Porque deles é o primeiro milagre
E darão o óbolo do fariseu como ares humildes
Muitos não compreenderão
Porque suas inteligências vão somente até os processos
E já existem nos processos tantas dificuldades...
Alguns verão e julgarão com a alma
Outros verão e julgarão com a alma que eles não têm
Ouvirão apenas dizer...
Será belo e será ridículo
Haverá quem mude como os ventos
E Haverá quem permaneça na pureza dos rochedos
No meio de todos eu ouvirei calado e atento, comovido e risonho
Escutando verdades e mentiras
Mas não dizendo nada
Só a alegria de alguns compreenderem bastará
Porque tudo aconteceu para que eles compreendessem
Que as águas mais turvas contêm às vezes as pérolas mais belas.

Vinícius de Moraes


Um Feliz Ano Novo a todos os amigos. Que 2006 seja mais suave e que em meio "as àguas turvas" vocês encontrem muitas pérolas!



Desculpem a péssima definição das imagens, mas como é uma webcam movida a manivela, tratem de relevar, tá? rss Esse que compartilha as imagens comigo é um "potro" de pouco mais de três meses, conhecido também como Degguinho, meu labrador ;)

Agradeço a todos pela força nos momentos difícieis, a presença nos momentos alegres e a constância da amizade. Agradeço a Dani, doublê de cupida e ao Daniel tb pela amizade e sobretudo a WS que tem tornado meu final de ano infinitamente melhor do que eu esperava ;)
Brigada!

QUE VENHA 2006!!!!

bjus blues
angel
Viver é saudade prévia...plantamos hoje a saudade de amanhã.
http://www.diversificando.kit.net/index.htm


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KING É O CARA!
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Quem diria que em pleno século 21 a mulher ia suspirar por um “homem” - no caso um gorila- forte, viril, protetor, terno e que não abrisse a boca para nada? Pois é, King é o cara!

As feministas de plantão já subiram nas tamancas diante dessa metáfora explícita no filme, a virilidade, o “deixa que eu cuido disso” tornando a mulher um mero enfeite no contexto da relação. Menos, bem menos, quase nada, senhoras!
Dizem que a mulher não precisa disso, de que adiantou queimar soutians (diga-se de passagem estão os olhos da cara) em praça pública para no final regredirmos tanto. Bobagem, o filme é bom, não só pelos efeitos, mas por todo conteúdo subliminar, o clima, as nuances, na verdade, o sentimento que envolve a trama.

Ainda não vi o filme de 1933, meu amigo Carlos cinéfilo como eu ficou de emprestar, em casa só tenho o remake de 1976 com a sensualíssima Jéssica Lange e sempre achei que poderiam ter ido mais longe nesse clima que envolve o gorilão e a loira, mas ali ficou apenas a insinuação inclusive apimentada para a época.

Nesse, talvez o enfoque maior seja a extrema solidão de ambos, o que acaba por aproximá-los. Ela uma atriz de teatro de vaudeville escolhida ao acaso para uma aventura desastrosa, ele um macaco de proporções gigantescas e temido sempre de antemão por todos.
O desconhecido causa medo. Tememos o que não conhecemos, mas se nos reconhecemos naquele que deveríamos temer surge o amor entre iguais.
Nesse caso um amor terno, o de se ver no outro por mais louco que possa parecer. E o grande paradoxo disso tudo é o romance que ela mantém com o escritor do filme, que faria ali o papel de homem sensível, voltado para a dramaturgia e ela acaba por se apaixonar pelo gorila ou melhor por aquele olhar terno, verdadeiro...Ah! Esse seu olhar quando encontra o meu...
A única semelhança entre os três filmes é a lágrima furtiva que teima em escorrer no final. Impossível evitar.

Definitivamente King é o cara.

andrea augusto (angelblue83)


“Deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor”
John Lennon




É certo que hoje, dia do aniversário de morte de John Lennon, milhares de sites, blogs e afins estarão contando a história dos Beatles, falando sobre a genialidade de Lennon, de ciúmes, intrigas, egos inflamados e a conseqüente separação. Não vou repetir o que muitos já sabem da história dele como um dos Beatles, nem falarei da brilhante carreira solo posterior a sua saída e muito menos sobre a bruxa má da terra do sol nascente que atende pelo nome de Yoko Ono.

Prefiro falar dos livros dele. Pois é, John também escreveu livros. Nenhuma obra prima, mas com excelente vendagem como tudo que era ligado a ele. On His Own Write, de 1964, e A Spaniard In The Works, publicado em 1965, atualmente estão na categoria de raros, é quase impossível achá-los.
Em On His Own Write, Lennon libera toda a sua criatividade tanto na escrita como nas ilustrações que também são de sua autoria.
A transcriação e o posfácio são de Paulo Leminski, que escreveu:

"...estranhas miscelâneas de textos de natureza vária, flash-contos, esboços de peças, poemas non-sense, acompanhados de desenhos, todos marcados por extrema criatividade de linguagem, conduzida ao absurdo por um humor sarcástico e cínico. Os dois livros do beatle ocupam um lugar especial no quadro da criação textual da segunda metade do século XX. Pela linguagem, seus textos remetem a James Joyce, o mais radical dos prosadores do século. Em Um Atrapalho no Trabalho, prosa-pop, prosa da era da TV, do VT, clips, VTVTTVTVTVVTTTTT&tc, arte de arte, o beatle faz gato e sapato das receitas de todos os gêneros, excomunga os lugares-comuns. Rir é o melhor remédio, achar graça, a única saída." (Paulo Leminski)


Bom, coisas de um gênio, mente inquieta e criatividade a mil que teve a vida ceifada por um maluco que ouvia vozes...deveria ter ouvido mais Beatles...

andrea augusto (angelblue83) ao som de In my life.
CHEEK TO CHEEK





Hoje pela primeira vez comprei o jornal dentro do ônibus. Um risco total, afinal, eu subo o alto e suas curvas todo santo dia, mas pensei cá com meus botões, se enjoar o jornal terá mais uma de suas inúmeras serventias...deixa pra lá, rss

O caso é que não só não enjoei como foi com grande prazer que abri o Segundo Caderno e me deparei com a matéria: “A dança de Ginger e Fred”. Delícia pura! Lembrei da habilidade desse magistral dançarino Fred Astaire. Perfeito, completo, genial, dançava, cantava, compunha, tocava piano, representava e encantava.

Olhei pela janela do dia nublado com suas estranhas brumas e fiquei lembrando, sonhando com esses musicais pra lá de ingênuos, onde o beijo, o amor estava literalmente reperesentado na magia dos pés, dos corpos, dos pares, seus movimentos, seus vestidos esvoaçantes hipnotizantes literalmente.

Ginger não era a mais bonita, na minha opinião e sei, na de muitos, ninguém superou Rita Hayworth e sua sensualidade ruiva, mas Ginger levitava e havia a química. Ah! A química que põe molho em tudo e todos. Dá pra esquecer, como cita a matéria um clássico dos musicais como "Top Hat/O Picolino"????
As plumas do vestido de Ginger levando Fred a loucura durante a deliciosa “Cheek to Cheek”?? Impossível! Voltei a janela e relembrei a cena, a música, as plumas se misturando às brumas dessa estranha manhã.

E em meio a tanta sujeira, sordidez e falsidade que a vida nos traz e ainda e apesar de tudo nos surpreende dolorosamente, tive a sorte de ir para o trabalho ao som de “Cheek to Cheek” enquanto lá fora um casal dançava suavemente se misturando às lembranças de tempos mais ingênuos e infinitamente melhores.


andrea augusto (angelblue83)
DEGUINHO

Daggett




Quem não gosta ou não liga pra cachorro, nem continue a ler, porque hoje o post é dele: o melhor amigo do homem.Toda minha vida, eu sempre disse que gostava mais de gato do que de cachorro. Cachorro era muito dado, muito pulante e sempre que eu pensava em cachorros, pensava no Ode, o cachorro que o Garfield adorava sacanear. Aquela coisa viscosa e lambedora. Bom, como disse certa vez Blaise Pascal: “Não tenho vergonha de mudar de idéia porque não tenho vergonha de pensar” Pois bem, continuo gostando de gatos, da postura classuda e indiferente, da languidez felina e charmosa que só eles têm, mas confesso, hoje amo cachorros.

Quando a mamãe morreu, pouco mais de quatro meses atrás, muitas vezes pela manhã eu inventava um motivo para sair da cama, invariavelmente era para alimentar os cachorros, em especial o Kaká, o poodle que andava pra cima e pra baixo com ela. E foi ele que me ganhou totalmente, que de certa forma me salvou um pouco a cada dia.

No início, ele se abateu muito, assim como eu, guardadas as devidas proporções, parecia não entender como alguém some de repente para nunca mais voltar. Muitas vezes peguei-o olhando para a porta do quarto dela esperando que se abrisse e ela surgisse, muitas vezes me peguei fazendo o mesmo, esperando que ela me chamasse para o café, vício sagrado de todo finalzinho de tarde. A porta nunca mais se abriu e eu sei, apesar do tanto que ainda me dói e doerá, não se abrirá mais, porém, foi justamente esse cachorrinho que nas horas mais solitárias me deu o carinho, o olhar e quase a compreensão que eu precisava. Quantas vezes, chorando, ele não vinha ao meu colo e ficava me olhando dentro dos olhos como se dissesse: “Ok. Agora somos só nós dois, vamos tratar de seguir adiante”.

Perdi a conta das vezes que ele pulou e pula para a minha cama no meio da noite, basta que eu me mexa muito. Algumas vezes, misturado no sonho, na noite, na sonolência da madrugada penso que é ela tentando apaziguar meu sono agitado. Todos os dias quando chego de algum lugar ele faz uma festa como se não me visse a anos. Pula, comemora, se mistura entre as minhas pernas e fica tão ofegante que preciso pegá-lo no colo e dizer baixinho: "Pronto, eu voltei, shhiiiiii, calma, eu voltei."
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eu e Kaká
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Um amigo certa vez disse que amor de cachorro é o único amor incondicional, e pensando bem é mesmo. Não importa se no dia anterior você “chutou”, brigou, afastou o cachorro, dali mais um pouquinho ele virá abanando o rabo como se nada tivesse acontecido. Ele não exige nada, mesmo que você esqueça de alimentá-lo, mesmo que você esqueça de encher o pote d´água, na volta ele não vai te confrontar exigindo seus direitos a bons tratos, ele vai te receber como sempre, vai até fazer um chamego, mas nada que não te faça sorrir e muitas vezes pedir desculpas pelo esquecimento.
É, talvez nem adiante explicar, talvez alguns achem esse texto pra lá de bobo e sentimentalóide, mas de uma coisa eu sei, só quem tem cachorro sabe o que significa esse pequeno trecho de música:
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“Meu cachorro me sorriu latindo...Eu voltei...”
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andrea augusto – em homenagem ao mais novo membro da família: Degguinho.
PELO SIM...NÃO PELO NÃO.



“O que se pretende com a proibição? Reduzir a criminalidade é a resposta, tão imediata quanto impensada, que nos vem à cabeça. Mas é uma resposta equivocada. A proibição do comércio legal de armas não fará recuar nem um milímetro a ousadia do crime (organizado), não baixará a taxa de delinqüência das ruas nem mesmo trará o conforto de diminuir a sensação de insegurança que, hoje, atinge em graus variados a sociedade brasileira. “



Começa assim um texto que circula pela net tendo como autora Denise Frossard. No território livre da internet, como diz Ancelmo Gois, pode ser como pode não ser .
No entanto não é disso que eu quero falar. Tenho recebido trocendos emails por dia falando do Não. Não me lembro de nenhum falando do SIM com relação a proibição as armas.
Meu voto é no SIM, mas antes de atirarem em mim, rss, deixem que eu me explique ou melhor legisle em causa própria porque pelo visto estou sozinha nessa campanha, ao menos não conheço de perto ninguém que votará no SIM.

Quando a nossa querida Denise Frossard diz que a resposta imediata com relação a proibição é a diminuição da criminalidade, concordo com ela, beira a ingenuidade.
Quando digo SIM, nem penso que a criminalidade vá diminuir, penso apenas nas fatalidades cotidianas.
Penso em crianças que matam seus irmãos, amigos porque acharam a arma do pai.
Penso na inocência de um pai de família que acha que estará protegido e protegerá sua família pelo fato de ter uma arma em casa, quando na grande maioria das vezes nem sabe usá-la.
Ora, estamos falando de profissionais, de pessoas frias que matam sem sentir nada e não em pessoas do bem digamos assim, que na emocional tentativa de defesa são passíveis de causar uma tragédia ainda maior. Não só não matarão o bandido, como serão rendidos e muito provavelmente serão as próprias vítimas.

Falo de crimes passionais que ocorrem a torto e a direito, onde o “homem” lava sua honra a sangue, onde mulheres vingativas matam por ciúmes. Falo de pessoas que no trânsito ao serem cortadas se tivessem uma arma matariam, mas matariam mesmo a pessoa que os cortou. Eu já presenciei diversas vezes esse tipo de ódio cego.

O SIM jamais irá desarmar o cidadão, quem quiser comprar armas sabe muito bem onde ir e com dinheiro tudo se compra. O que eu acho é que fatalidades acontecem a toda hora e nem metade sai nos jornais, por isso ter uma arma em casa nem sempre ou quase sempre é muito mais razão para se temer do que para se proteger.

Já li muitas opiniões e artigos que começam quase sempre: "sou visceralmente contra armas, mas..." Nesses casos ou se é contra ou a favor, não tem negociação.
Ter uma arma em casa para quem não sabe atirar e a maioria não sabe mesmo, não significa nada. Ou melhor significa uma chance maior de uma tragédia acontecer movida unicamente por um momento de descontrole, descuido ou mesmo "brincadeiras". Um ladrão não vai deixar de entrar na sua casa só porque terá certeza de que você não tem uma arma porque respeita a lei. Isso é ridículo. Algum ladrão já deixou de assaltar porque como se diz nas faculdades de direito, os "longos braços da Lei" vão alcança-lo?
Algum assassino deixou de matar por saber que no País dele existe pena de morte? Não.

Nem o SIM, nem o NÃO serão capazes de mudar nada. Nossos governantes começaram do fim, das consequências e não da causa. Se esses 600 milhões gastos nas campanhas fossem investidos em tirar crianças da rua, em dar-lhes cursos profissionalizantes talvez as armas douradas do tráfico não brilhassem tanto aos olhos deles.


andrea augusto - angelblue83
Alta Fidelidade –
ou uma autobiografia comentada.



Dia desses revi o filme “Alta Fidelidade” e com calma fiquei observando os diálogos, os detalhes que da outra vez passaram batido. As neuras, essa busca incessante pelo outro, as perdas, os ganhos, as dívidas afetivas.

Recentemente tive mais uma perda, que espero seja a última desse ano. Deixei ir alguém que eu queria para a vida toda.Uma incompatibilidade de vontades aliada a total falta de diálogos sobre nós, nos levaram a viver numa mesma relação, relações diferentes. Um achava que era lua-de-mel, o outro o Inferno de Dante. Era infeliz.
Loucura? Com certeza. Em geral quando se ama a felicidade do outro é um quesito quase tão importante quanto a nossa própria felicidade. Não sendo assim, o melhor é dar alforria. Deixar ir é uma forma de amar também.

E o que isso tem a ver com o filme? Tudo. No filme, assim como na vida estamos sempre procurando no outro o que nos falta, sempre depositando nas mãos do outro o pedido tácito: “por favor, faça-me feliz”. E com isso decretamos a nossa própria infelicidade. É quase matemático.
Há tempos tenho tentado viver as minhas relações de forma inteira, ou seja depositando em mim mesma a responsabilidade de ser feliz. É difícil, com certeza, muito mais fácil culpar o outro, tornar o outro responsável pelo que nos acontece, mas nem sempre encontramos na nossa cara metade esse nível de compreensão. Alguém que seja responsável pela sua felicidade, que eu serei pela minha e juntos, conseqüentemente nos faremos felizes.
Voltemos ao filme.

No filme, em certo momento, John Cusack, chama Laura, sua namorada, num bar. Ele esta se sentindo atraído por outra e resolve pedir a namorada em casamento. Ok, quer se proteger, afastar o perigo e ele fala para a câmera algo como:

“Ando pulando de galho em galho desde os 14 anos. O que mais vou fazer, continuar pulando até não haver mais galhos?”

Na cena seguinte quando esta no bar com Laura, ele explica o motivo do pedido, mas na verdade ele esta explicando a razão pela qual quer ficar com ela. Casando ou não, ele faz uma opção: é ela que ele quer e não o que pode encontrar a qualquer hora em qualquer esquina.

E diz: "Fora de casa é fantasia, eu não sei nada e por não saber é sempre bom, bonito e atraente. Mas quando volto pra casa nós dois temos problemas de verdade.”

Ele fala das lingeries e também das calcinhas de algodão surradas que ele vê todos os dias e diz:

“Na verdade as outras também têm calcinhas de algodão surradas, mas eu não vejo porque não cabem na fantasia. Eu cansei de fantasias, nunca tem uma surpresa e nunca são o que a gente espera. É isso, eu estou cansado de toda essa coisa, mas de você eu nunca me canso.”

Eles ainda falam sobre casamento e apesar dele não ter pensado realmente nisso, de forma concreta, até porque moram juntos, ela diz: ”Você achou que eu ia aceitar?
Ele: Eu não sei, perguntar é que era importante.”

Esse é ponto. Calcinhas de algodão surradas e a fantasia do desconhecido, o novo, o perfeito, o que não se vê e não se sabe. A fantasia e o real. A partir do momento em que ele enxerga que com ela tem a fantasia metaforicamente representada pelas lingeries e tem o real transmutado em calcinhas do dia-a-dia, ele percebe que não quer mais a fantasia. Ele quer o melhor dos dois com uma só pessoa e sabe por que? Porque cansa e um dia até os “galhos” acabam.

Na última cena, ele está gravando uma fita para ela e vai ensinando como se faz e diz:

"Comecei a preparar uma fita na cabeça para Laura, cheia de músicas que fazem ela ficar muito feliz. Pela primeira vez percebo como se faz.”

Tem filmes que não são nenhuma obra prima, mas cabem de forma tão exata em determinados momentos, que passam a ser marcantes. Esse é um deles.

andrea augusto © angelblue83


ps: Aos amigos preocupados que sempre escrevem, não se preocupem. Tenho descoberto em mim uma força descomunal. Estou caminhando, voltando a vida aos poucos, colocando em prática projetos para atingir metas. Vou devagar e só nessa estrada, mas sei que no final dela sairei vitoriosa simplesmente porque quero, posso e estou seguindo em frente.
Dia 04 minha mãe faria aniversário e eu resolvi começar setembro dando início a esses projetos e assim será. Terei pouco tempo para vir aqui, mas quem gosta de mim sempre sabe onde me achar. Basta querer ;)
"Aqui estou eu tentando viver, ou melhor, tentando ensinar a morte dentro de mim a viver."
Jean Cocteau
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Funeral Blues

Parem os relógios
Cortem o telefone
Impeçam o cão de latir
Silenciem os pianos e com um toque de tambor tragam o caixão
Venham os pranteadores
Voem em círculos os aviões escrevendo no céu a mensagem:

"Ele está morto"

Ponham laços nos pescoços brancos das pombas
Usem os policiais luvas pretas de algodão.

Ele era meu norte, meu sul, meu leste e oeste.
Minha semana de trabalho e meu domingo
Meu meio-dia, minha meia-noite.
Minha conversa, minha canção.


Pensei que o amor fosse eterno, enganei-me.
As estrelas são indesejadas agora, dispensem todas.

Embrulhem a lua e desmantelem o sol
Despejem o oceano e varram o bosque Pois nada mais agora pode servir.
W. H. Auden
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Um mês de falecimento e a dor é infinita.
Agradeço aos amigos pela força, pelo carinho e pela indispensável presença.
Vocês e você Eduardo têm salvo a minha vida um pouquinho a cada dia.
Obrigada.




A Sintaxe do Adeus

O frio que a morte traz
quem o sente não é o morto.
O morto apenas esfria.
É o frio do calafrio...

E são os vivos que sentem.
Também os vivos têm medo
de olhar nos olhos do morto.
Ah, o terrível segredo.

E alguém, com dedos de rosa
vem e automaticamente
pra que o morto não nos veja,
lhe fecha as pálpebras como
a duas pétalas e adeus.
A-deus quer dizer sem Deus.
Cassiano Ricardo




“Donde viemos? Aonde é que nos leva o nosso caminho? Por que me é dado sentir que sou livre, enquanto que estou confinado, porém, dentro dos limites da minha personalidade, como numa prisão? Qual é o objetivo da labuta e do sofrimento? Será o sentido da vida revelado pela morte?"
Gustav Mahler









Das perdas e danos

“Conseqüentemente há toda sorte de ausências e mesmo os utensílios cotidianos não preenchem esse espaço. Não há, porém nada que o faça se essa ausência não se encontra em nada e ninguém. Está no reflexo que no espelho não aparece, está em todos os dias sem horas em qualquer estação. É a abstração última de que se é capaz, um estado abaixo onde tudo é estático como o sorriso na fotografia eternizando o que já não existe.”
andrea augusto©angelblue83

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Quando se está absolutamente só no mundo é muito fácil viver, mas é mais fácil ainda morrer. Não há amarras, não há medo ou autopreservação.
Estranho mundo estranho, a vida, às vezes quase sempre, parece um filme, um filme ruim. Belas tomadas, lindas paisagens, mas tudo tão vazio.
É como observar o mundo de dentro de uma redoma. O mundo está ali, mas quem se importa?

O dia do enterro da minha mãe, estava lindo, o céu absurdamente azul. De dentro do carro, onde a música tocava, eu olhava pela janela a continuidade da vida. Estava paralisada para mim, mas para o resto do mundo tudo continuava, a fome, o dia, o vento, os sorrisos nas esquinas e o sol pontuando o azul do céu.
De dentro do carro, eu sabia que nunca mais nada seria igual. Minha vida junto com a dela se encerrava ali no dia 22 de junho de 2005.

Dez dias antes, uma pequena morte já ocorrera e ela dizia ao me ver deitada olhando as estrelinhas fosforescentes no teto do meu quarto: “Não vai se entregar, né?” Eu disfarçava as lágrimas e dizia: “não”.
Mas precisava viver aquele luto, aquela pequena morte.
A morte do amor não é uma coisa que aconteça de forma rápida. O amor jamais morre de morte súbita, ele - o amor - quando recebe um golpe fatal, sabe que vai morrer, mas sangra, sangra muito antes e tenta manter-se vivo em nome dos bons momentos, da inocência das palavras soltas nos dias frios do sol de outono. Naquele tempo, eu acreditava que aquela dor era muito grande.

Eu chorava escondido e baixinho para que ela não visse ou ouvisse e ela, na sua tentativa de carinho, me dava agradinhos a toda hora. A última blusa que me deu ainda tem a etiqueta.
Eu não sabia que apenas alguns dias depois a perderia e que aquele que havia provocado a pequena morte de certa maneira agora me mantém viva.

Quando se perde a mãe e ela é a única que resta dos seus pais, é como tornar-se adulto de repente. Não importa se foi aos quinze, aos vinte ou aos trinta. É imediato. De repente e aos pouquinhos, vai-se percebendo que aquele açúcar queimado ótimo para gripe e que chegava estalando de quente quando eu estava prostrada na cama, não virá mais, que o celular não tocará quando o trânsito me prender além do tempo da chegada, que nunca mais ela impedirá que eu me entregue às pequenas mortes que ainda viverei.


Eu ainda não sei se o Literatus continuará.

andrea augusto©angelblue83



Ontem fui ver Batman Begins e só posso dizer uma coisa pra começar: esqueça, apague da memória os outros filmes. Batman começa com esse filme literalmente.
Não tem vilões roubando a cena, quem manda no filme por vários motivos é o próprio Batman e isso faz toda a diferença.
Se você esta preocupado com coisas como o uniforme estilo "Power Ranger" dos outros. Não se preocupe, em todas as cenas que Batman surge, a escuridão é soberana, como manda a mitologia. O uniforme preto se adequa perfeitamente às sombras que imperam em Gotham, e os detalhes da vestimenta, pelo sim pelo não, se perdem na penumbra.
Batman sempre foi meu herói predileto por um simples detalhe, não é “super”. Ele não voa, não lança teias, nem tem força para girar a Terra ao contrário. Não, Batman tem hematomas como qualquer um.
Ele não tem superpoderes. Desde a roupa até o cinto de utilidades, tudo no filme tem explicações plausíveis. A bat-roupa contém Kevlar para proteger contra as balas, a capa funciona como um pára-glider quando carregado eletronicamente, o bat-móvel é um carro de verdade -- blindado, com motor turbo que sem dúvida nos dá as melhores e mais reais cenas de perseguição do filme.
Christopher Nolan transforma o Batman em um personagem completamente humano, crível, e não mais um arquétipo qualquer vestindo um uniforme de super-herói. Durante a primeira hora de projeção, você até esquece que está assistindo a um filme de Batman. Muito bem elaborado o modo que é mostrado a infância de Bruce, dando uma personalidade bem definida a seu pai, de forma que isso se torne algo essencial para que o futuro-herói não se tornasse um homem fútil. Muito envolvente a mostra do tempo entre a morte de seus pais até se tornar o tal justiceiro, mostrando seu treinamento no oriente–médio e os "fantasmas" que o circulam. Afinal, Bruce Wayne sempre foi um ser amargurado pela sombra do passado e esse aspecto recebe uma merecida ênfase na produção.
O medo é a força motriz de todo o filme, como define uma frase de Bruce no filme: “Usarei meu próprio medo para provocar medo naqueles que provocam o medo”.

“- Por que você cai? – Para poder se levantar”.
Essa frase dita por seu pai é a essência do filme. Batman cai e isso faz toda a diferença.

Vejam o filme, comprem o cd, leiam o livro, digo o HQ. Vale a pena.

“Brilho eterno de uma mente sem lembranças"




Eu te amo não diz tudo


O cara diz que te ama, então tá! Ele te ama.
Assunto encerrado.
Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas.
Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de quilômetros.
A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e palavras.
Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você quando for preciso.

Ser amado é ver que ele(a) lembra de coisas que você contou dois anos atrás, e vê-lo(a) tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ele(a) fica triste quando você está triste, e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d'água.

Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão.
Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente inteiro.
Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que tudo pode ser dito e compreendido.
Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo.
Sente-se amado quem não ofega, mas suspira;
quem não levanta a voz, mas fala;
quem não concorda, mas escuta.

Agora, sente-se e escute:
Eu te amo não diz tudo!"

Arnaldo Jabor







As razões do amor


Os místicos e os apaixonados concordam em que o amor não tem razões. Angelus Silésius, místico medieval, disse que ele é como a rosa : "A rosa não tem"porquês". Ela floresce porque floresce." Drummond repetiu a mesma coisa no seu poema As Sem-Razões do Amor. É possível que ele tenha se inspirado nestes versos mesmo sem nunca os ter lido, pois as coisas do amor circulam com o vento.

"Eu te amo porque te amo..." - sem razões... "Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo." Meu amor independe do que me fazes. Não cresce do que me dás. Se fosse assim ele flutuaria ao sabor dos teus gestos. Teria razões e explicações. Se um dia teus gestos de amante me faltassem, ele morreria como a flor arrancada da terra. "Amor é estado de graça e com amor não se paga." Nada mais falso do que o ditado popular que afirma que "amor com amor se paga". O amor não é regido pela lógica das trocas comerciais. Nada te devo. Nada me deves. Como a rosa que floresce porque floresce, eu te amo porque te amo.

"Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários... Amor não se troca... Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo..." Drummond tinha de estar apaixonado ao escrever estes versos. Só os apaixonados acreditam que o amor seja assim, tão sem razões. Mas eu, talvez por não estar apaixonado (o que é uma pena...), suspeito que o coração tenha regulamentos e dicionários, e Pascal me apoiaria, pois foi ele quem disse que "o coração tem razões que a própria razão desconhece". Não é que faltem razões ao coração, mas que suas razões estão escritas numa língua que desconhecemos. Destas razões escritas em língua estranha o próprio Drummond tinha conhecimento, e se perguntava: "Como decifrar pictogramas de há 10 mil anos se nem sei decifrar minha escrita interior? A verdade essencial é o desconhecido que me habita e a cada amanhecer me dá um soco." O amor será isto: um soco que o desconhecido me dá?

Ao apaixonado a decifração desta língua está proibida, pois se ele a entender, o amor se irá. Como na história de Barba Azul: se a porta proibida for aberta, a felicidade estará perdida. Foi assim que o paraíso se perdeu: quando o amor - frágil bolha de sabão - não contente com sua felicidade inconsciente, se deixou morder pelo desejo de saber. O amor não sabia que sua felicidade só pode existir na ignorância das suas razões. Kierkegaard comentava o absurdo de se pedir aos amantes explicações para o seu amor. A esta pergunta eles só possuem uma resposta: o silêncio. Mas que se lhes peça simplesmente falar sobre o seu amor - sem explicar. E eles falarão por dias, sem parar... Mas - eu já disse - não estou apaixonado. Olho para o amor com olhos de suspeita, curiosos. Quero decifrar sua língua desconhecida. Procuro, ao contrário do Drummond, as cem razões do amor...

Vou a Santo Agostinho, em busca de sua sabedoria. Releio as Confissões, texto de um velho que meditava sobre o amor sem estar apaixonado. Possivelmente aí se encontre a análise mais penetrante das razões do amor jamais escrita. E me defronto com a pergunta que nenhum apaixonado poderia jamais fazer: "Que é que eu amo quando amo o meu Deus?" Imaginem que um apaixonado fizesse essa pergunta à sua amada: "Que é que eu amo quando te amo?" Seria, talvez, o fim de uma estória de amor. Pois esta pergunta revela um segredo que nenhum amante pode suportar: que ao amar a amada o amante está amando uma outra coisa que não é ela. Nas palavras de Hermann Hesse, "o que amamos é sempre um símbolo". Daí, conclui ele, a impossibilidade de fixar o seu amor em qualquer coisa sobre a terra.

Variações sobre a impossível pergunta:
"Te amo, sim, mas não é bem a ti que eu amo. Amo uma outra coisa misteriosa, que não conheço, mas que me parece ver aflorar no seu rosto. Eu te amo porque no teu corpo um outro objeto se revela. Teu corpo é lagoa encantada onde reflexos nadam como peixes fugidios... Como Narciso, fico diante dele... No fundo de tua luz marinha nadam meus olhos, à procura... Por isto te amo, pelos peixes encantados..."(Cecília Meireles) Mas eles são escorregadios, os peixes. Fogem. Escapam. Escondem-se. Zombam de mim. Deslizam entre meus dedos.

Eu te abraço para abraçar o que me foge. Ao te possuir alegro-me na ilusão de os possuir. Tu és o lugar onde me encontro com esta outra coisa que, por pura graça, sem razões, desceu sobre ti, como o Vento desceu sobre a Virgem Bendita. Mas, por ser graça, sem razões, da mesma forma como desceu poderá de novo partir. Se isto acontecer deixarei de te amar. E minha busca recomeçará de novo..." Esta é a dor que nenhum apaixonado suporta. A paixão se recusa a saber que o rosto da pessoa amada (presente) apenas sugere o obscuro objeto do desejo (ausente). A pessoa amada é metáfora de uma outra coisa. "O amor começa por uma metáfora", diz Milan Kundera. "Ou melhor: o amor começa no momento em que uma mulher se inscreve com uma palavra em nossa memória poética."

Temos agora a chave para compreender as razões do amor: o amor nasce, vive e morre pelo poder - delicado - da imagem poética que o amante pensou ver no rosto da amada...
Rubem Alves





“Se algum dia eu encontrar
Um novo amor
Hei de ter amor pra dar
Amor e paz
Por isso eu vou
Guardar meu peito
Até quando por direito
Este amor chegar.”
Paulinho da Viola




“Fechar ao mal de amor nossa alma adormecida
é dormir sem sonhar, é viver sem ter vida...
Ter, a um sonho de amor, o coração sujeito
é o mesmo que cravar uma faca no peito.
Esta vida é um punhal com dois gumes fatais:
não amar é sofrer; amar é sofrer mais!”
Menotti Del Picchia
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“Única testemunha do meu horizonte, comemorei sentado, quieto, com a boca cheia, a minha maior conquista: partir. Ainda que minha maior viagem durasse apenas um único e mísero dia. Parti para minha mais longa travessia e, mesmo que ela só durasse esse único dia, eu havia escapado do maior perigo de uma viagem, da forma mais terrível de naufrágio: não partir.”
Amyr Klink




Ser de ninguém


Na hora de cantar todo mundo enche o peito nas boates, nos bares, levanta os braços, sorri e dispara: "eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também".
No entanto, passado o efeito do uísque com energético e dos beijos descompromissados, os adeptos da geração "tribalista" se dirigem aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição.
A maioria não quer ser de ninguém, mas quer que alguém seja seu.
Não dá, infelizmente, para ficar somente com a cereja do bolo -beijar de língua, namorar e não ser de ninguém.
Para comer a cereja é preciso comer o bolo todo e nele, os ingredientes vão além do descompromisso, como: não receber o famoso telefonema no dia seguinte, não saber se está namorando mesmo depois de sair um mês com a mesma pessoa, não se importar se o outro estiver beijando outra, etc, etc, etc.
Desconhece a delícia de assistir a um filme debaixo das cobertas num dia chuvoso comendo pipoca com chocolate quente, o prazer de dormir junto abraçado, roçando os pés sob as cobertas e a troca de cumplicidade, carinho e amor.
Namorar é algo que vai muito além das cobranças. É cuidar do outro e ser cuidado por ele, é telefonar só para dizer bom dia, ter uma boa companhia para ir ao cinema de mãos dadas, transar por amor, ter alguém para fazer e receber cafuné, um colo para chorar, uma mão para enxugar lágrimas, enfim, é ter "alguém para amar"...
Somos livres para optarmos!
E ser livre não é beijar na boca e não ser de ninguém.
É ter coragem, ser autêntico e se permitir viver um sentimento...
Arnaldo Jabor

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"Amor não é amor,
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor."
Shakespeare

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O amor acaba.

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
Paulo Mendes Campos

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* Uff, post catártico, como aquela última terra que jogamos em cima dos caixões. Terra necessária para dar fim e início ao que virá. Nada de novo pode ser vivido se não enterrarmos nossos mortos. Feito isso é virar as costas e seguir, o passado não me assombra mais. a.a.

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" ...como um poema na escuridão - que escapou de volta para o esquecimento - mais nada para ser dito e mais nada para ser chorado."
Allen Ginsberg


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Jabor retirado daqui.

Essa segunda-feira, 13 de junho, eu sei, já entrou para as minhas datas inesquecíveis. Uma história de amor acabou, uma notícia de câncer na família e a morte do poeta Eugénio de Andrade. A história, analisando friamente, talvez nem fosse de amor, e ainda que seja, eu sei, tudo passa e essa também passará. Quando penso nessa pessoa doente, e lembro da importância dele na minha vida, só posso chorar, nada há mais para fazer e finalmente, a morte do poeta, fecha um dia triste, como um dia triste tem de ser fechado, com poesia. Vamos a ela, então.



13/06/2005 - Morre Eugénio de Andrade



Morreu Eugénio de Andrade. Um dos nomes grandes da poesia portuguesa, Eugénio de Andrade estava já doente há alguns meses. A morte chegou na madrugada desta segunda-feira, aos 82 anos.

José Fontinhas (nome verdadeiro de Eugénio de Andrade) nasceu numa pequena aldeia da Beira Baixa, a Póvoa da Atalaia, no dia 19 de Janeiro de 1923. Filho de uma família de camponeses, o poeta teve A sua infância muito ligada à mãe, figura dominante de toda a sua vida e da sua poesia.

Com o fim do casamento dos pais, Eugénio de Andrade muda-se com a mãe para Castelo Branco. Em 1932 muda-se novamente, desta vez para Lisboa, onde permanece por 11 anos.
Em 1939 publica o seu primeiro poema, «Narciso» e, pouco tempo depois, passa a assinar sob o pseudónimo de Eugénio de Andrade. Dois anos depois faz-se a primeira referência pública à sua poesia na conferência que Joel Serrão, seu amigo, pronunciou na Faculdade de Letras de Lisboa. Em Novembro de 1942 sai à rua o seu primeiro livro de poesia, «Adolescente». O ano de 1944 trás as primeiras traduções dos seus poemas para Francês e em 1945, a Livraria Francesa publica o seu livro «Pureza». A partir de 1948 dá-se uma reviravolta na vida. A publicação de «As Mãos e os Frutos», trás consigo o sucesso e a partir dessa data, inicia-se um período especialmente rico na produção na poesia, mas também na prosa, na tradução e na antologia. Em 1991 nasce a Fundação Eugénio de Andrade.

A obra de Eugénio de Andrade inclui mais de duas dezenas de títulos de poesia, e inclui ainda prosa, antologias, álbuns, livros para crianças e traduções para português de grandes poetas estrangeiros (Lorca, Safo, Char, Reverdy, Ritsos, Borges). Está publicado em 20 línguas e em 20 países, Alemanha, Itália, Venezuela, China, Espanha, no México, Luxemburgo, em França, nos Estados Unidos da América, o que faz dele o poeta português mais traduzido depois de Fernando Pessoa.








"Caro leitor:

Escrevo-te pela primeira vez, pois não sou um homem de cartas, conversas e coisas assim. Daí a dificuldade. Custa-me imaginar-te em corpo e figura, pois nunca pensei em ti - esta é a verdade. Se a brutalidade te ofender, perdoa-me ao menos a franqueza. Naturalmente que há mais de quarenta anos que sei da tua existência, e tenho até sido sensível a alguns sinais teus. Para ser amado se escreve, tem sido já dito; eu limito-me a confirmá-lo. Mas no meu caso gostaria que as emoções, que os despertam ou inspiram, ficassem no âmbito do leitor. As minhas, quando as tive, são privadas; só a poesia é pública. Sou, como vês, um homem cujo único compromisso é com as palavras. Agora que me pedem que me dirija a ti, interrogo-me: para quem escrevo eu? Sempre pensei que o fazia para muito poucos, mas o número, a avaliar pelas reedições, tem crescido muito. Nada fiz para isso, acredita. Um poeta, creio que já o disse um dia, não escolhe os seus leitores; ao contrário, é escolhido por eles, são eles a dar-lhe corpo e figura. Como poderia ser de outra maneira?

Afectuosamente,

Eugénio de Andrade
"Mensagem pessoal acompanhando a edição Poesia e Prosa (1940-1986).





Na orla do mar

Na orla do mar,
no rumor do vento,
onde esteve a linha
pura do teu rosto
ou só pensamento
- e mora, secreto,
intenso, solar,
todo o meu desejo -
aí vou colher
a rosa e a palma.
Onde a pedra é flor,
onde o corpo é alma.
Eugénio de Andrade




Tu já tinhas um nome, e eu não sei
se eras fonte ou brisa ou mar ou flor.
Nos meus versos chamar-te-ei amor.
Eugénio de Andrade, Madrigal
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Variações em tom menor

Para jardim te queria.
Te queria para gume
ou o frio das espadas.
Te queria para lume.
Para orvalho te queria
sobre as horas transtornadas.

Para a boca te queria.
Te queria para entrar
e partir pela cintura.
Para barco te queria.
Te queria para ser
canção breve, chama pura.

In: Poemas de Eugénio de Andrade - Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1999, pg.72




«Porque também para Mozart houve morte caríssimo! E se Mozart morreu, como poderão os meus amigos ser imortais? O Aires, a Nelmi, o Armando, a Matilde, o Célio, todos morrerão e eu com eles a cada instante. Mesmo tu David, acabarás também por morrer; as cordas deixarão de soar; uma poeira muito fina poisará docemente na tua harpa, para sempre.»
Eugénio de Andrade, Excessivo é ser Jovem, Em Memórias da Alegria






"Ando no escuro para tocar onde não devo. Amor é tocar onde não se deve. E curar sem entender a doença."
Fabrício Carpinejar




“Como se eu mesma fosse cela do meu corpo de sobremesa,
as horas de espera esfumam a doçura do formol.
O coração continua a derreter em bocados
os latidos de nuvem para o meu piscar simétrico:
mãos em lua, quanto te doem os olhos dos outros.
Aqui os relógios respiram sem bilhete de volta.
Entretanto, ao longe, conjuga-se uma pegada de cristal
Ninguém bate à porta da minha casa de neve.”
Elena Medel




"Passamos dias assim, Pedro e eu, um dentro do outro. O cheiro, os líquidos, os ruídos das vísceras. O que era de quem, dentro e fora, nós não sabíamos mais.As secreções, as funduras.Os dias se interrompiam quando ele ia embora. Recomeçavam apenas no mesmo segundo em que tornava a chegar.Não sei quanto tempo durou. Só comecei a contar os dias a partir daquele em que ele não veio mais."
Caio Fernando Abreu - Onde andará Dulce Veiga (p. 115)







Água Perrier

Não quero mudar você
nem mostrar novos mundos
pois eu, meu amor, acho graça até mesmo em clichês.

Adoro esse olhar blasé
que não só já viu quase tudo
mas acha tudo tão déjà vu mesmo antes de ver.

Só proponho
alimentar seu tédio.
Para tanto, exponho
a minha admiração.
Você em troca cede o
seu olhar sem sonhos
à minha contemplação:
Adoro, sei lá por que,
esse olhar
meio escudo
que em vez de meu álcool forte pede água Perrier.
Antonio Cícero


"Deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver nascer uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado..."
Caio Fernando Abreu - Para uma avenca partindo - O Ovo Apunhalado




“Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti
até que a dor alegre recomece.”
Maria Gabriela Llansol






“Prefiro então partir a tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perde, te encontro com certeza
Talvez no tempo da delicadeza
Onde não diremos nada, nada aconteceu
Apenas seguirei como encantado ao lado teu.”
Todo Sentimento - Cristovão Bastos e Chico Buarque


Simbiose
Sou seu poeta só
Só em você descubro a poesia
Que era minha já
Mas eu não via.
Só eu sou seu poeta
Só eu revelo a poesia sua
e à noite indiscreta você de lua.
Antonio Cícero



(...) sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor pois se eu me comovia vendo você pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo meu deus como você me doía de vez em quando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma praça então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando você sem dizer nada só olhando e pensando meu deus mas como você me dói de vez em quando.
Caio Fernando Abreu

Feliz Dia dos Namorados.

“...eu vou sair nessas horas de confusão...
gritando seu nome entre os carros que vem e vão...
quem sabe então assim...
você repara em mim...”
Ana Carolina




- Você tem um cigarro?
- Estou tentando parar de fumar.
- Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
- Você tem uma coisa nas mãos agora.-
- Eu?
- Eu.
Caio Fernando Abreu - livro "Morangos Mofados"





"...no peito me bate um coração, a ti sujeito;
E eles, juntos, formam neste instante um coração
apenas, muito amante..."
William Shakespeare



"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional."
Carlos Drummond de Andrade



"então me vens e me chegas e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque é assim que és..."
CFA - "À beira do mar aberto"








"Ah! Queria com os meus beijos rasgar a tua carne com tão cruéis mordeduras para que ao menos pela dor fosses minha - e enterrar, esses beijos, no fundo de vós se no fundo houvesse pregos que pregassem as nossas peles unidas."
Camille Lemonnier



"Andei pensando em Adele H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que - se você não me amar: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor - depois do não, depois do fim - reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida".
CFA - Extremos da Paixão / Pequenas Epifanias



"Ainda que chova, ainda que doa
Ainda que a distância
Corroa as horas do dia
E caia a noite sem estrelas
O mundo brilha um pouquinho mais
A cada vez que você sorri"
Pablo Neruda



"A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contato: de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é: "eu te desejo", e liberá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir ( a linguagem goza de tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação."
Roland Barthes

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"Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossaamar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita"
Carlos Drummond de Andrade

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a.mor
(ô), s. m. 1. Sentimento que impele as pessoas para o que se lhes afigura belo, digno ou grandioso. 2. Forte inclinação, de caráter sexual, por pessoa de outro sexo. 3. Afeição, grande amizade. 4. Objeto dessa afeição. 5. Benevolência. 6. Caridade. 7. Coisa ou pessoa bonita, preciosa. 8. Filos. Tendência da alma para se apegar aos objetos. S. m. pl. 1. Namoro. 2. O objeto amado.

A literatura sempre falou e muito de amor. Os que vieram, os que estão chegando, os que jamais serão e nessa semana, menos pelo Dia dos Namorados e mais por causa do amor somente, deixo por aqui um pouco do muito do que se escreveu sobre o tema.







A cena

Entre os poucos livros que tenho ao alcance da mão, na minha estante, está a estória do amor de Tomas e Tereza, que Milan Kundera conta em A Insustentável leveza do ser. Tomas tinha tido muitas amantes. De todas as suas aventuras amorosas “sua memória só registrava o estreito e íngreme caminho da conquista sexual. Todo o resto (com um cuidado quase pedante) eliminara da memória”. “Aventuras amorosas”: Tomas, na realidade, nunca estivera apaixonado. O seu horror ao amor era tal que nunca permitia que uma mulher dormisse no seu apartamento. A idéia de acordar de manha ao lado de qualquer mulher o incomodava tanto que, terminada a orgia sexual, Tomas encontrava sempre uma forma de levar a parceira de volta à casa. Ele se parecia com o sultão d’As mil e uma noites: depois de uma noite de prazeres carnais, a amante era decapitada... Era assim que Tomas se via, como animal caçador eu abandona a caça tão logo sua fome tivesse sido satisfeita.

Mas com Tereza tudo tinha sido diferente. Não que Tereza tivesse algum traço especial, que a distinguisse das outras. Por mais que a examinasse, nada encontrava nela que pudesse ser apontado como a razão para o seu amor. E, no entanto, sem razões, o fato era que ele estava apaixonado por ela.

Sua aventura com Tereza tinha começado exatamente onde terminavam suas aventuras com as outras mulheres. Ela se desenrolara do outro lado do imperativo que o levava à conquista. Conhecera Tereza acidentalmente num br de cidadezinha do interior. Dissera-lhe, quase como uma brincadeira, que se fosse à capital que o procurasse. E lhe dera o seu endereço. Tereza foi e o procurou. Chegara à capital doente e não sabia para onde ir. Foi aí que a história de amor começou. Ela estava ardendo em febre, adormecera no sofá da sala, e ele não pudera levá-la de volta como fazia com as outras. Para onde a levaria? Ajoelhado à sua cabeceira “ocorrera-lhe a idéia de que ela viera para ele numa cesta sobre as águas.”

Agora, a distância, pensava sobre as razões do seu amor e fazia, sem que disso se desse conta, a insólita pergunta de Santo Agostinho? “Que é que amo quando amo Tereza?”. Tudo se tornava claro de repente. Foi pela beleza desta cena que ele se apaixonara: Tereza, criança amedrontada, chegando aos seus braços com um pedido de socorro. “A mulher não resiste à voz do que chama sua alma amedrontada; o homem não resiste à mulher cuja alma se torna atenta à sua voz.”
“Parece que existe no cérebro uma zona específica, que poderíamos chamar de memória poética, que registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à nossa vida. Desde que Tomas conhecera Tereza, nenhuma outra mulher tinha o direito de deixar a marca, por efêmera que fosse, nessa zona do seu cérebro.”

Agora, na sua memória poética, aquela cena permanecia imóvel, imperturbável, fora do tempo. Era uma parte da sua alma. Não morreria jamais. Vinícius de Moraes percebeu que o amor pela mulher não é eterno, posto que é chama. Mas ele não percebeu que o amor pela bela cena permanece para sempre, pois “o que a memória amou fica eterno”.

“Que é que amo quando te amo?” Tomas amava Tereza porque amava antes uma outra coisa: aquela cena bela e comovente que repentinamente brilhara em sua imaginação. A mulher que ele amava era a Tereza daquela cena: a criança amedrontada que lhe chegava numa cesta sobre as águas. Tereza poderia abandoná-lo, deteriorar-se ou morrer. Mas a cena permaneceria inalterada, suspensa na memória poética, como objeto de amor.

Amamos a bela cena antes de amar a pessoa. Por isso que Santo Agostinho dizia, em suas Confissões: “Antes que te conhecesse eu já te amava”. Somos amantes muito antes de nos encontrarmos com a mulher ou com o homem que será o objeto do nosso amor. Somos como a criancinha que já ama o seio mesmo antes do primeiro encontro. Sua memória poética sabe que ele existe.

A alma é uma coleção de belos quadros adormecidos, os seus rostos envolvidos pela sombra. Sua beleza é triste e nostálgica porque, sendo moradores da alma, sonhos, eles não existem do lado de fora. Vez por outra, entretanto, defrontamo-nos com um rosto (ou será apenas uma voz, ou uma maneira de olhar, ou um jeito da mão...) que, sem razões, faz a bela cena acordar. E somos possuídos pela certeza de que este rosto que os olhos contemplam é o mesmo que, no quadro, está escondido pela sombra. O corpo estremece. Está apaixonado.

Acontece, entretanto, que não existe coisa alguma que seja do tamanho do nosso amor. A nossa fome de beleza é grande demais. Neruda dizia que ele seria capaz de devorar o universo inteiro. Nas palavras da Adélia Prado, “para o desejo do meu coração o mar é uma gota”. E o amor se revela então como a coisa mais triste. Cedo ou tarde descobrirá que o rosto não é aquele. E a bela cena retornará à sua condição de sonho impossível da alma. E só restará a ela alimentar-se da nostalgia que rosto algum poderá satisfazer...

Rubem Alves


Hoje passando por um site de cinema, vi a imagem dele e bateu a saudade desse tipo de herói ingênuo, no caso e sim, isso é uma ironia, poucas palavras, mas atitudes sinceras.

Ele não era necessariamente brilhante, muito pelo contrário, para sorte nossa, alias.
John Weissmuller, o eterno Tarzan, era um homem grande, cerca de 1,90 e peso proporcional. O corpo atlético conquistado em anos de natação chamava atenção, e claro, era perfeito para o herói Tarzan sair dos quadrinhos e ir para as telas de cinema.
Weissmuller nasceu em 02 de junho de 1904 em Windber, Pensilvânia e quando seus pais se mudaram para Chicago, o garoto aprendeu a nadar em piscinas públicas e no lago Michigan. Ele se tornou um nadador imbatível em nado livre, seus movimentos de braços muito poderosos arrastaram-no a incontáveis recordes mundiais e cinco medalhas de ouro nos jogos Olímpicos de 1924 e 1928.

Pelas mãos de Louis B. Mayer e Irving Thalberg, ele se tornaria o Tarzan, o homem macaco mais conhecido do cinema. Seu grito mundialmente conhecido era inconfundível e assim como em poucos casos usou dublê, o grito também era dele e vinha sabe-se lá de onde.
Fez fortuna que seria convenientemente surrupiada em grande parte por um de seus empresários. Nos anos setenta, virou um anfitrião no Caesar’s Palace de Las Vegas, e em 1984, morreria vítima de um ataque cardíaco.



Os cabelos de Clarice


Uma mecha dos cabelos de Clarice Lispector está lá na seção de Obras Raras da Biblioteca Nacional esperando que um dia a crítica literária e a genética avancem tanto, que se possa ter alguma explicação complementar para a genialidade de sua obra.
Talvez eu esteja brincando, talvez, não. Afinal muitas das proféticas e literárias brincadeiras de Júlio Verne se realizaram. E em tempos de promissoras células tronco, o impossível é possível.

O fato é que tais cabelos devem estar lá. E penso nisto agora, porque me contam que faleceu há alguns meses, lá no Mosteiro Beneditino da Ressurreição, em Ponta Grossa, o querido e divertidíssimo Antônio Salles.

Foi ele quem me trouxe os cabelos de Clarice. E esta insólita estória, como insólito era tudo o que cercava a escritora, ocorreu quando dirigi a Biblioteca Nacional (1990-1996). Ora se deu que um dia fui surpreendido pelo senhor Valdir, responsável da seção de Obras Raras, com a informação de que ali, numa das pastas, havia, nada mais nada menos, que alguns pêlos púbicos de D. Pedro I. Sim, senhoras e senhores! O nosso augusto imperador anexou alguns de seus pentelhos numa carta à sua amante, creio que a Marquesa de Santos, demonstrando assim a sua potente saudade amorosa. Do que se deduzia do texto, o valoroso soldado que proclamou nossa independência estava com aquilo que hoje se chama de doença sexualmente transmissível, e não podendo estar pessoalmente com sua amada, descabelava-se nessa missiva para externar sua paixão. (Por sinal, estive outro dia na casa de Jocy de Oliveira, lá em Pedra de Guaratiba, e nossa compositora de música contemporânea de fama internacional afirmou-me que aquela mansão, de onde se avista a restinga da Marambaia, tinha sido o “ninho de amores” de D. Pedro I e da Marquesa).

Pois bem. Tornou-se pública a notícia de que os pêlos púbicos do imperador estavam em nossa Biblioteca. Deixou de ser um fato erótico imperial para virar imperiosa notícia nos jornais. Com efeito, não é todo dia que se encontra tal achado tanto no Oriente como no Ocidente, e não creio que exista algo semelhante de Pedro o Grande nos arquivos russos, ou de John Kennedy lá em Washington.

Portanto, aquela notícia saiu no Zózimo, apareceu no Jô Soares, e, por coincidência, Antônio Salles tomando conhecimento dela, telefonou-me. Eu estava há tempos tentando atraí-lo para trabalhar na Biblioteca Nacional. Como não tinha verba nem quadro suficiente de funcionários conseguia, com várias instituições, que seus funcionários fossem cedidos àquela casa. E nada melhor que um monge beneditino para beneditinamente trabalhar sobre antiquíssimos documentos. Eu não sabia que meu amigo estava numa ordem com princípios severos. Como me disse numa carta onde revelava estar traduzindo para o português a obra de João Cassiano, um religioso do século IV: “Infelizmente é impossível aceitar seu honroso convite; nós temos uma coisa chamada voto de estabilidade, isto é, no mosteiro em que se fixa, aí se morre. Até o cadáver é do mosteiro e não da família. A vida aqui começa às 4h15m da manhã e vai até 22h, podendo porém, quem desejar, dormir às 20h30m”. E fazia-me essa outra surpreendente e literária revelação: “Eu tenho aqui comigo uma mecha dos cabelos de Clarice, será que a BN aceitaria essa peça rara?”.

Ora, se tínhamos o cabelo do nosso imperador, como recusar os da imperatriz de nossa literatura?

Nessas alturas, Salles já havia assumido o hábito dos beneditinos. Mas antes fora professor de filologia, português e latim, dos mais brilhantes, em Belo Horizonte, onde o conheci, na França e nos Estados Unidos, onde de novo o reencontrei na Universidade de Wisconsin. Era uma pessoa imprevisivelmente adorável. Claro que Clarice sucumbiu às suas graças. Ele traduziu e cantava em latim músicas como “Ó jardineira/ por que estás tão triste/ mas o que foi que te aconteceu? (O horticultrix/ cur tam tristeis es/ quid autem tibi/acciderit);” ou então a marchinha, “Sa-ssaricando/ todo mundo/ leva a vida/ no arame (Sa-ssaricantes/ ommes gentes/ dgent vitam/ in filo ferreo)” etc. Ex-seminarista, vivia passando telegramas espinafrando Sua Santidade o Papa e aprontava inventivas festas em seus apartamentos catando transeuntes na rua, seja em Brasília ou Nova York.

Como conseguiu os cabelos de Clarice?

Passava ele pelo Rio e, como havia se tornado amigo de Clarice, telefonou-lhe perguntando se queria sair para jantar. Ela respondeu-lhe que estava ocupada, escrevendo uma carta para Paulo Mendes Campos, mas que ele passasse pela casa dela, que depois poderiam ir deixar a carta para o Paulinho, lá na Globo. No apartamento da escritora, Salles ficou brincando com o cão Ulisses, o mesmo que arrancou um naco do rosto da poeta Maria do Carmo Ferreira quando esta visitou também a escritora.

Pois Clarice e Salles saíram, foram à Globo e deixaram lá a carta. Feito isto, Salles pergunta à Clarice se ela não gostaria de acompanhá-lo à casa de seu amigo e professor Celso Cunha. Clarice disse-lhe que ficava “intimidada de ir à casa de tão ilustre figura”, mas Salles adiantou que a família do inesquecível professor era ótima, grande, descontraída, mineiros de Teófilo Otoni etc. Não havia o que temer.

Daqui pra frente, cedo a palavra ao próprio Salles que redigiu um documento-testemunho de quatro páginas que lhe solicitei e que está lá na BN: “Logo ao entrar, Clarice viu a filha de Celso, Clara, que estava muito bonita de cabelos com um corte lindíssimo. Clarice mal cumprimentou as pessoas, foi logo dizendo que queria cortar os cabelos da mesmíssima maneira. Cenira prometeu o endereço do cabeleireiro. Mas ela disse: ‘Não! Tenho de cortar o cabelo AGORA!’ E não houve jeito. Cenira e Clara levaram Clarice ao banheiro, apavoradas, e deram uns cortes nos cabelos de nossa amiga, que ficou satisfeitíssima. Não sei explicar, mas uma força interior me fez apanhar uma pequena mecha que é a que lhe passei como doação à Biblioteca Nacional, que guarda outras mechas famosas”.

Affonso Romano de Sant'anna - caderno Prosa e Verso - O globo - 21/05/05.
Revi hoje o filme "Olga". Infelizmente não é grande coisa por uma série de motivos que não vêm ao caso agora. Agora, no Dia das Mães, deu vontade de falar de amor, deu vontade de deixar a última carta de Olga Benário. Carta que só muitos anos depois Preste e a filha deles receberiam. A carta foi escrita ainda em Ravensbrück, na noite da viagem de ônibus que a levaria à morte em Bernburg.


“Queridos:

Amanhã vou precisar de toda a minha força e de toda a minha vontade. Por isso, não posso pensar nas coisas que me torturam o coração, que são mais caras que a minha própria vida. E por isso me despeço de vocês agora. É totalmente impossível para mim imaginar, filha querida, que não voltarei a ver-te, que nunca mais voltarei a estreitar-te em meus braços ansiosos. Quisera poder pentear-te, fazer-te as tranças - ah, não, elas foram cortadas. Mas te fica melhor o cabelo solto, um pouco desalinhado. Antes de tudo, vou fazer-te forte. Deves andar de sandálias ou descalça, correr ao ar livre comigo. Sua avó, em princípio, não estará muito de acordo com isso, mas logo nos entenderemos muito bem. Deves respeitá-la e querê-la por toda a tua vida, como o teu pai e eu fazemos. Todas as manhãs faremos ginástica... Vês? Já volto a sonhar, como tantas noites, e esqueço que esta é a minha despedida. E agora, quando penso nisto de novo, a idéia de que nunca mais poderei estreitar teu corpinho cálido é para mim como a morte.
Carlos, querido, amado meu: terei que renunciar para sempre a tudo de bom que me destes? Conformar-me-ia, mesmo se não pudesse ter-te muito próximo, que teus olhos mais uma vez me olhassem. E queria ver teu sorriso. Quero-os a ambos, tanto, tanto. E estou tão agradecida à vida, por ela haver me dado a ambos. Mas o que eu gostaria era de poder viver um dia feliz, os três juntos, como milhares de vezes imaginei. Será possível que nunca verei o quanto orgulhoso e feliz te sentes por nossa filha?

Querida Anita, Meu querido marido, meu garoto: choro debaixo das mantas para que ninguém me ouça pois parece que hoje as forças não conseguem alcançar-me para suportar algo tão terrível. É precisamente por isso que me esforço para despedir-me de vocês agora, para não ter que fazê-lo nas últimas e difíceis horas. Depois desta noite, quero viver para este futuro tão breve que me resta. De ti aprendi, querido, o quanto significa a força de vontade, especialmente se emana de fontes como as nossas. Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo. Prometo-te agora, ao despedir-me, que até o último instante não terão porque se envergonhar de mim. Quero que me entendam bem: preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber fazer-lhe frente quando ela chegue. Mas, no entanto, podem ainda acontecer tantas coisas... Até o último momento manter-me-ei firme e com vontade de viver. Agora vou dormir para ser mais forte amanhã. Beijos pela última vez.

Olga.”


Feliz Dia das Mães!

Recebi esse texto atravês de uma lista de biblioteconomia e achei emocionante. Acredito nisso, no amor, na paixão por aquilo que se faz, não importa o que, contando que seja um caso de amor explícito. Concordam? ;)





A bibliotecária dos sonhos

A mensagem era um oásis no deserto de spams, mensagens comerciais e declarações políticas. Assinava-a Tiziana, uma bibliotecária de Genebra, e dizia mais ou menos assim:

"Caro senhor:

Se o senhor esteve em Genebra no princípio de novembro de 1997 e veio à biblioteca de francês (Salle Thibaudet) da Faculdade de Letras da Universidade de Genebra para consultar a obra de Matarasso e Petitfils "Álbum Rimbaud", da Pléiade (1967), e se o senhor é autor das palavras de agradecimento anexas, eu sou a bibliotecária que encontrou a obra para o senhor. Trocamos poucas palavras, mas o senhor disse que talvez voltaria.

Talvez, até uma próxima."


Depois disso, tive a ocasião de comprar, numa loja de livros raros, um exemplar da obra acima mencionada - obra não encontrável, como o senhor sabe. Eu a guardei para poder lhe oferecer, caso o senhor voltasse.
A vida decidiu de outra forma. Mudei de posto de trabalho. Talvez o senhor não tenha me encontrado ou não tenha tido a oportunidade de voltar. Saiba que, se tiver oportunidade de voltar a Genebra, terei um grande prazer em lhe entregar a obra."
A mensagem termina com a promessa de Tiziana - uma promessa de enviar pelo correio o bilhete de agradecimento que o freqüentador da biblioteca tinha escrito. No momento, ela estava sem scanner, logo, teria de enviar a fotocópia da forma tradicional.
Assim que terminei de ler a mensagem, compreendi que havia um engano. Talvez tenha estado na Faculdade de Letras num debate em 1997. Mas não me lembro da biblioteca nem do livro de Rimbaud. Desfiz o equívoco e agradeci, mas não podia deixar de manifestar minha admiração pelo gesto. "Se todos os bibliotecários do mundo..."
Já havia tido uma experiência, quando asilado na Suécia. Procurei um livro numa biblioteca de bairro. Não tinham. Era um texto de Sartre sobre Flaubert, um calhamaço editado pela Gallimard, com um preço acima de meus recursos. A bibliotecária disse: "Não se preocupe, vamos comprá-lo e emprestaremos a você".

A diferença nos casos é que, na Suécia, a coisa era fria e profissional. O texto de Sartre ou um manual de jardinagem teriam o mesmo tratamento. Neste caso de agora, há um envolvimento emocional, uma espécie de relação pessoal com o texto, uma compreensão da raridade do livro.
Estou consciente de que essas coisas acontecem apenas em países onde se investe mais dinheiro para oferecer livros ao público. No entanto, não é essa a questão. O exemplo de Tiziana me comoveu porque reforçou uma das crenças que nunca me abandonaram, apesar de tantas revisões intelectuais. É a da superioridade de se fazer o que se gosta, de se apaixonar pelo trabalho.

Houve um momento em que duvidei disto. Foi, talvez, no meio da década de 70, quando Herbert Marcuse falava de um outro tipo de trabalhador, que despendia apenas a energia necessária para ganhar a vida, que não se envolvia emocionalmente com o sistema. Era exatamente como vivia, fazendo trabalho temporário aqui e ali. Mesmo nesse momento, no entanto, o distanciamento emocional do trabalho, o consumo mínimo de energia existiam para liberar tempo e disposição para fazer o que se gostava realmente.

Não tenho talento, ou melhor, conhecimentos suficientes, para texto de auto-ajuda. O pouco que sei também não é válido para todos. Com a volta ao Brasil, incorporei uma nova dimensão a esse respeito pelo amor ao que se faz. É a dimensão pedagógica.
Volta e meia, a gente se vê discutindo sobre adolescentes que têm baixo rendimento escolar, mas são apaixonados por outra coisa - esporte, por exemplo. E sempre digo: se gosta muito de alguma atividade, acabará aprendendo nela os mistérios do mundo e da existência. Não há tanto com que se preocupar.

Por isso, se procurasse um livro inexistente na biblioteca de Tiziana, imagino sua preocupação em tentar encontrá-lo em algum canto do mundo. Mas diria o mesmo que o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade escreveu no poema "Hotel Toffolo", um mitológico lugar de Ouro Preto:


"E vieram dizer-nos que não havia jantar.
Como se não houvesse outras fomes
e outros alimentos.
Como se a cidade não servisse o seu pão
de nuvens".



Certamente, com essa mensagem pela internet, você me ensinou mais do que aprenderia no "Álbum Rimbaud". Um beijo, Tiziana. (F.G.)


Fernando Gabeira - Folha de S. Paulo, 23 de abril de 2005.



* Esse post é em homenagem a todos os bibliotecários, em especial a Ana Lúcia Merege
, minha doce amiga Bibliotecária (dos sonhos, claro!)



Com apenas 23 anos de idade, Antero de Quental ateava fogo no conformismo e na monotonia do ultra-romantismo em Portugal, indignava-se, conclamava à verdade e à justiça. Era brilhante.

Antero nasceu em Ponta Delgada, nos Açores, em 1842, e aí se suicidou em 1891, com dois tiros de pistola. Do nascimento à morte uma vida de retidão moral e de altitude intelectual que permitiu o surgimento de algumas das mais belas páginas da literatura em língua portuguesa. Isso explica a influência que exerceu no espírito dos moços de seu tempo. No in memoriam que os amigos lhe consagraram, manifestações de admiração ao poeta das Odes Modernas não faltaram – e das mais altas, das mais fundas. Guerra Junqueiro afirmou que nele havia em germe “um santo, um filósofo e um herói”.


Aspiração

Meus dias vão correndo vagarosos,
Sem prazer e sem dor parece
Que o foco interior já desfalece
E vacila com raios duvidosos.

É bela a vida e os anos são formosos,
E nunca ao peito amante o amor falece...
Mas, se a beleza aqui nos aparece,
Logo outra lembra de mais puros gozos.

Minha alma, ó Deus! a outros céus aspira:
Se um momento a prendeu mortal beleza,
É pela eterna pátria que suspira...

Porém, do pressentir dá-ma a certeza,
Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bendirei esta tristeza!

Antero de Quental



Após o suicídio de Antero, em 1891, Luís de Magalhães teve a idéia de pedir a vários amigos de Antero para sobre ele escreverem. Eça redigiu um belo ensaio, intitulado «Um Génio Que Era Um Santo». Começa por romanticamente lembrar o seu primeiro encontro com Antero. Vira-o, em Coimbra, ao longe, fazendo um discurso, nas escadarias da Sé Nova: «Então (...) destracei a capa, também me sentei num degrau, quase aos pés de Antero, que improvisava, a escutar, num enlevo, como um discípulo. E assim me conservei a vida inteira.» Não era verdade, mas era comovente. Antero, conta, era de uma beleza física rara. Desde cedo, contudo, instalara-se nele o desespero: «Já então o ditoso Antero, tão prodigamente dotado por Deus, se considera um filho abandonado de Deus.» Em volta de Antero reinava o otimismo - «Ninguém então, do Reno para cá, lera ainda Schopenhauer» -, mas Antero não partilhava dessa alegria.

Textos enxutos, plenos, poemas que são verdadeiros monumentos da literatura em qualquer tempo. Impecáveis, mas duros, a emoção cedia lugar ao pensamento.
São muitas as adversidades e contrariedades vivenciais de Antero que, não conseguindo atingir os seus ideais, até porque a doença assim não o permitia, cai num estado de grande tristeza, melancolia e abstração, conduzindo o desalento do poeta a um estado de renúncia, de abandono perante as contínuas decepções com que se confrontava e que atormentava o seu espírito: "Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram/ Ninho e filhos e tudo, sem piedade.../ Que a leve o ar sem fim da soledade/ Onde as asas partidas a levaram.../ Deixá-la ir, a vela que arrojaram/ Os tufões pelo mar, na escuridade,/Quando a noite surgiu da imensidade,/ Quando os ventos do Sul se levantaram.../ Deixá-la ir, a alma lastimosa,/ Que perdeu fé e paz e confiança,/ À morte queda, à morte silenciosa.../ Deixá-la ir, a nota desprendida/ Dum canto extremo... e a última esperança... E a vida... e o amor... deixá-la ir, a vida!" (Sérgio, 1979: 80).

Na realidade, mesmo que no seu ser, torturado pela dor da não concretização, haja rasgos de esperança que o fazem caminhar ansiosamente, rumo à conquista de um sonho, ele sabe que afinal jamais chegará.


Leia mais aqui e aqui






O cisne negro ou quando a pegada não realizada faz a diferença.




Eu sei, o título é esquisito mesmo, mas o papo é antiguíssimo.
Imagina a cena: pirata de olhos negros, tez morena, alto, levemente musculoso, agarra mocinha frágil, tez alva, boca rubra (nesse momento, arfante) e levemente relutante. Já viu essa cena? Eu também, nos filmes e na vida real.
Não, não foi num baile a fantasia, é que tal pegada é um clássico do cinema e da vida real.

No filme “O cisne negro”, Tyrone Power, que reza a lenda, não era muito chegado a mocinhas em geral, fazia o papel de pirata. Verdade seja dita, o homem tinha porte e uns olhos negros de tirar o fôlego de qualquer um e Maureen O'Hara, a mocinha frágil e desprotegida.
Previsivelmente rola uma tensão sexual entre os dois de imediato, mas como convém a mocinhas, principalmente em filmes de época, ela arfa, mas não cede.
E foi na cena da prensada na parede, a respiração ofegante, as bocas quase juntinhas, aquela olhada da boca-aos-olhos-dos-olhos-a-boca e o afastamento desdenhoso que me peguei pensando: é o beijo intuído, é a pegada não realizada, a vontade não concretizada, ali no momento do "quase" que o desejo reside...ainda hoje.







Pois é, ainda hoje. A sociedade anda consumindo bocas e beijos à granel. Adolescentes apostam em quantas bocas vão beijar e saem numa disputa enlouquecida sem saber que o “não fazer” que antecede o grande momento, é o clímax e depois de feito, não basta um beijo e a troca simultânea de boca, há que se ter a exploração devida e indevida da boca com a qual dividimos o beijo. Mas isso é outra história, o papo aqui é a pegada não realizada que prendia a mocinha e o público no escurinho do cinema. Ali, junto com a respiração ofegante da heroína, estávamos nós, tão ofegantes quanto, antecipando o momento, quase que fechando os olhos e esperando o beijo (naquela época se esperava o beijo), ainda que não viesse e não vinha.

Pode parecer papo de moralista, mas não é. Hoje o debate nas mesas de bar, entre amigos, nas comunidades do orkut, nos grupos do yahoo vai direto ao ponto: dar ou não dar na primeira noite? Ou seja, pula-se logo para a cama, quando a sedução é o ponto, o anticlímax, a tal pegada não realizada, o momento do "quase", quando o único ponto de conexão são os olhos e isso, acreditem, dar o maior tesão.


andrea augusto (angelblue83)