Continuando e agradecendo: Isso está virando um tratado, Well, um belíssimo tratado. Muito Obrigada!




Ulysses em Viena
(Antes do Amanhecer)



Se você (ainda) não viu “Antes do Amanhecer” e/ou “Antes do Pôr-do-sol”, o texto a seguir não é recomendável, pois comenta diversos elementos da trama, talvez tirando o prazer de se surpreender com dois belíssimos filmes.

Ser jovem é voar, as infinitas possibilidades embriagando, levando a um ritmo mais intenso que a própria realidade. Facilmente desenraizados, tais como as plantas-arame típicas do faroeste, permitimos que o vento nos leve a lugares que julgamos mais irrigados. Vento, vontade e velocidade, julgamos que nada pode nos impedir de sonhar e buscar, seja lá o que for.

..........Um trem em alta velocidade, trilhos que se cruzam, dois jovens se verão pela primeira vez.

.........Um casal discute em alemão. A jovem francesa, incomodada, vai mais para o fundo do vagão, onde vê de relance o jovem dos EUA. Ele também a avalia e parece aprovar o que viu. O casal (alemão, austríaco?) passa pelos dois, a discussão mais áspera do que antes, o que fornece assunto para conversarem (a tendência de casais perderem a capacidade de ouvir um ao outro, com o tempo, talvez uma adaptação para evitar o aniquilamento mútuo...rsrs). Perguntam pelo livro que o outro está lendo. Ela mostra uma coletânea de George Bataille
[1], ele a autobiografia de Klaus Kinski.[2] No seu cartão de visitas, ela já mostra suas preocupações e verniz intelectual. Ele se sente inferiorizado (e na realidade está, pois foi rejeitado pela antiga namorada, em Madri), daí o título do livro refletir tão bem o seu estado de espírito. Mas o contato foi feito, olhares trocados, aprovaram-se.

..........Vão para o vagão-restaurante. Falam dos respectivos países (assim como no início do segundo filme, que ainda estaria nove anos no futuro), dos preconceitos de sempre, do que fazem ali, dos planos. E, da maneira mais sincera, abrem-se. Mencionam a morte e ele faz um comentário crucial, sobre ter visto a bisavó (já morta) quando pequeno; narra o episódio da maneira mais natural e serena. Crucial porque, a partir daí, segundo as palavras dela, ele a conquistou. Mexem nervosamente com o que está às mãos, como o saleiro.

..........Pela janela, ela menciona que chegaram a Viena. Jesse sai, mas antes de desembarcar convence Celine a desfrutarem o dia juntos, sem eira nem beira. Sua argumentação é profética (e se, daqui a dez, quinze anos, insatisfeita com o eventual casamento, ela ficar pensando no que poderia ter sido, com alguém que ela mal tenha encontrado?), mas irônica, pois será ele que estará casado (e insatisfeito...).

..........Abandonam o trem (o espaço da velocidade, o fugaz, o descompromisso) e desembarcam na estação. A partir daí, o ritmo será muito mais lento (mesmo no bonde elétrico).[3] Dão-se as mãos e se dizem os nomes, pela primeira vez. O trajeto pode começar.

..........16 de junho, Bloomday, o dia eterno de “Ulysses”, de Joyce[4], o qual resolveu imortalizar a data do primeiro encontro com Nora, sua mulher e musa, nas peripécias de Leopold Bloom e Molly. Pois, na riqueza infinita da Odisséia, o clímax é o (re)encontro de Uysses e Penélope.

..........Conversam com dois vienenses, atores em uma peça non-sense. Ela se apresenta como se estivessem em lua-de-mel; Jesse se espanta, inicialmente, e depois se acostuma à idéia, inclusive acrescentando detalhes, “ela ficou grávida e casamos”. Novamente profético (e inconsciente), antecipa o que acontecerá em sua vida, mas com outra mulher, conforme será visto no filme seguinte.

..........Uma catedral, antes de começarem a conversar num bonde elétrico (análogo à visão de Notre Dame, no segundo filme, quando conversam no barco). Entre diversas passagens da conversa, uma se destaca: Celine comenta sobre sua primeira atração sexual, diz que ao final das férias prometeram se corresponder, mas “claro que nada escreveram”. De certa forma, Jesse intui que talvez aconteça o mesmo com eles. Em outra passagem, ela diz acreditar em “reencarnação”, enquanto que no segundo filme (já bem mais cética) descarta rapida e negativamente o tema.

..........Escutam “Come Here”, de Kath Bloom[5] em uma cabine de loja de discos. À música inebriante e espaço reduzido contrapõe-se o medo de se olharem, como o temor de sucumbir aos encantos das sereias.[6]

..........No cemitério dos desconhecidos, Celine fala que “quando as pessoas não sabem se você morreu ou não, de certa forma você está vivo”. Será o caso dos dois, durante nove anos...

.........Numa roda-gigante (a imobilidade, o deslocamento circular, a figura do Mundo) o primeiro beijo é trocado. A entrega dos dois é profunda, não só pelo prazer fugaz.

..........Andando, Celine menciona que a avó, apesar de parecer ser feliz no casamento, confidenciara a ela que “sonhava com outro homem por quem era apaixonada”. Dessa vez, é Celine quem profetiza, espelhada na parente a quem é mais chegada...

..........E, ao longo das horas que compartilham, são constantemente avisados por arautos, seja a quiromante ou o poeta à beira do rio. Depois, quando consegue negociar o vinho com o barman (tom persuasivo digno do original Ulysses), Jesse é lembrado: “À melhor noite de sua vida”.

..........Fazem amor sob as estrelas, na grama do parque. O contato com a terra lembra o leito de Ulysses e Penélope, moldado a partir da raiz viva de uma oliveira. Sentem-se com a pessoa certa, sem dúvida na mente e alma, completos, ao contrário de muitas outras ocasiões “felizes”.

..........De manhã, as poucas horas se escoando até a despedida, têm cada vez mais certeza do que os une. A despedida é emocionante, prometem-se o reencontro.. Mas ao contrário do Bloomday[7], a odisséia durará vários anos.

E, no final, sucedem-se as imagens dos vários recantos percorridos, apenas memória, Labirinto em que se perderam. Uma anciã passará perto da garrafa vazia e dos copos, no parque, oferenda de um ritual mágico. Sem a presença um do outro, não saberão como sair. Tentarão levar a vida (como a canção de fechamento, “Living Life”, não cansa de repetir no refrão), buscarão se provar que tudo foi vaga ilusão
.[8] E Ulysses prolongará sua Odisséia, passando por Circe (e/ou Calypso), em busca de reencontrar Penélope, que nunca o terá esquecido.


[1] Incluindo “Minha mãe”, “Madame Edwarda” e “O Morto”. Bataille é autor cultuado e polêmico, que explora a fundo os temas da morte, (des)integração psicológica e erotismo.
[2] Kinski é ator consagrado, colaborador de Werner Herzog em diversos filmes, como “Aguirre, a Cólera dos Deuses”, “Nosferatu” e “Fitzcarraldo”. Sua autobiografia se denomina “All I need is love” (rsrs).
[3] No segundo filme, o ritmo também é lento (caminhar, barco ou carro em baixa velocidade).
[4] Há outras menções a Joyce, nos dois filmes. “Before Sunrise” também é o título da tradução de Joyce para uma peça do alemão Gerhart Hauptmann. A livraria em que Jesse divulga o livro (Shakespeare & Co.) tem o mesmo nome daquela de Sylvia Beach, editora de Joyce (a livraria não é a mesma, os atuais donos compraram de Beach os direitos quanto ao nome).
[5] Afinal, estamos num Bloomday...
[6] Esse compartilhamento de espaço exíguo, com o mesmo temor nos olhares, pode ser visto no segundo filme, na subida da escada em direção ao apartamento de Celine.
[7] Bloomday também significa dia do florescimento...
[8] O começo do segundo filme, em que se mostram os vários locais por onde os dois ainda passarão, em Paris, reforça a imagem de entrada/saída do labirinto.



Wellington Dantas de Amorim
(novembro de 2004)
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* Milton, amei a Campanha: Um blog para Wellington! Já estou cantando o rapaz e acho que ele tem mesmo muito a dizer e nada melhor do que um blog! Muito obrigada a você e aos leitores pelo carinho com esse amigo queridíssimo!
Voltando com a luxuosíssima participação do meu amigo Wellington, vou postar a segunda parte do texto dele. Nem preciso dizer que está excelente. Boa leitura!




O Amor é Labirinto, ou Eurídice em Paris
(Antes do Pôr-do-sol)


......................................................................................................Para Isabel



..........Numa livraria em Paris, debate sobre um livro. O autor, dos EUA, ouve atentamente às diversas indagações sobre a obra. Autobiográfica ? O que ocorreu depois ? Ela de fato existiu ? A todas responde evasivamente, enquanto o pensamento mais uma vez vagueia ao redor da lembrança do perfil dela. Para fugir, elabora sobre o plano de um novo livro. E, de repente, num relance, parece vê-la no final do corredor à sua direita. Pisca os olhos, encara os jornalistas e vira o pescoço. Sim, é ela, e seu pensamento e fala ficam desnorteados. Dante mais uma vez transfixado pelo vulto de Beatriz, tenta inutilmente afastar o fantasma. A entrevista termina.

..........Caminha alguns passos, certifica-se que é ela. Seu anfitrião (o livreiro), quando perguntado, informa-lhe sobre o vôo que irá partir em algumas horas; já providenciou o carro, as malas estarão devidamente acondicionadas. Ao ver a mulher, enfatiza o horário, como um coro grego a perceber o inevitável.

..........Jesse e Celine, dois mortais que se apaixonaram nove anos antes, em um único dia. Separaram-se, nunca mais se viram (ou talvez sim, mas tão de relance que não perceberam), reencontram-se. As escassas horas que os separam da partida do vôo presenciarão agora uma mistura de julgamento e esforço, impotência e esperança, amor e abandono.

..........Amor e Labirinto, ou melhor, Amor é Labirinto. Como escapar do seu apelo, das promessas caso cheguemos ao centro, experimentemos o êxtase e consigamos sair, para depois retornarmos, insones, uma nova incursão?

..........Geralmente é um trajeto solitário, imersos que estamos na própria paixão, incertos da reação do outro. Mas, pouquíssimas e especiais vezes, adentramos o Labirinto de mãos dadas, o gozo da presença do outro nos preenchendo. E a recompensa é maravilhosa, caso alcancemos o centro. E aí um novo problema surge: a saída solitária é muito, muito difícil, quase como se precisássemos replicar o modo como entramos.

..........Jesse e Celine entraram juntos, há nove anos. Perderam-se. Com a hubris típica dos jovens, achavam que isso fosse impossível. Desde então estão perdidos. O tempo foi generoso com o físico de Celine, as marcas estão mais profundas no semblante de Jesse. Afinal, ele foi ao encontro marcado, seis meses depois. A sensação de rejeição (e desamparo) o estilhaçou. Ela, impedida pela Morte, não pôde ir. Não sabe se ele foi, e nessa (conveniente) indefinição os anos passaram e a tortura foi (talvez) menor.

..........Seguem a vida, embora uma parte deles esteja irremediavelmente comprometida. Pensam no outro, seja em sonhos recorrentes, na escolha de uma universidade e cidade, no trajeto até o casamento (quando ele a vê, embora não acredite). Escolhem parceiros (ou mesmo esposa). O desgaste de Jesse talvez seja ainda maior por causa do filho (a quem ama incondicionalmente); quando se tem um filho, quando se cria uma vida, privilégio dos Deuses, os mortais se arriscam. Raramente Eles permitem uma passagem incólume, mesmo aos homens...

..........E Jesse, consciente do labirinto em que está mergulhado, incorpora Orfeu. Para achá-la, seja onde ela estiver, se no Labirinto, se no próprio Inferno, usa sua arte. Escreve um livro, mostrando o quanto ela foi importante. Catarse e garrafa de náufrago jogada no oceano de letras.

..........Ela lê o livro e aí percebe a dimensão do labirinto. Passa a saber que ele está casado, um filho, harmonia doméstica típica dos press-releases. Sim, pensa ela, fui importante, mas será que ainda sou?

..........Na livraria, o reencontro é casto, mal se tocam ao se beijarem. Saem dali e começam a atravessar diversas vielas, um trajeto irregular (saída do Labirinto?), em direção a um café. As primeiras palavras são completamente defensivas e de humor nervoso, sobre o caráter (emocional/sexual) das francesas, sobre o livro recém-publicado... E, de repente, ela faz a primeira pergunta crucial: “Você foi ao encontro”? Ele diz que não, e a decepção (muito mal disfarçada de alívio) é patente no olhar de Celine.

..........Ela explica porque não foi (a morte da avó muito querida) e, em pouco tempo, percebe que Jesse não havia dito a verdade. Não só tinha ido, como procurado incessante (e tolamente) por ela. Por dentro, ela sorri.

Passada a primeira salva de tiros (em que Jesse se abriu), retornam os dois à conversa sobre o mundo, as potências, o meio-ambiente. Em meio a miudezas e nem sempre concordando, o diálogo nunca se suprime. Amar não é concordar com tudo, pensar igual (Eros não é Narciso), é a incessante tentativa de construir pontes (mesmo que frágeis), a possibilidade de que, no metro seguinte, alguma convergência se faça. Amar é confiar que a crítica (necessária) não será destrutiva apenas pelo prazer de ferir ou se impor.

..........Entram no café, sentam-se, pedem algo para beber. O café e a bebida pedida por Celine serão sorvidos frugalmente (quatro goles espaçados, no caso de Jesse, dois no de Celine), afinal a saída do labirinto também é ritual que demanda jejum, a única substância a ser degustada é o fumo do cigarro, incenso hedonista) e começam a falar do que ocorreu nos nove anos.

..........Resolvem continuar andando, passeiam por jardins e Jesse comenta que fizeram amor em um parque, em Viena. Celine alega não se lembrar. Mais à frente, ela faz a segunda pergunta crucial: “ E se o mundo fosse acabar hoje, sobre o que estaríamos conversando ?”. Ele responde que sobre qualquer assunto, mas num quarto de hotel, fazendo amor intensamente. Ela retruca: “Mas por que num quarto de hotel? Por que não num parque?” E ele corre para um banco, faz com que ela se sente no seu colo. Ela diz que o mundo não acaba hoje e sai do colo, mas se senta ao lado, no banco, o braço dele sobre seu ombro, embora um pequeno volume (bolsa?) esteja entre os dois. Não importa. Ela agora se sabe desejada.

..........Continuam a andar e daqui a pouco surge a terceira pergunta crucial: “Como é o seu casamento ?” Eles se afastam fisicamente, pois um corrimão os separa, por alguns segundos. Ele logo percebe e resolve deslizar pelo corrimão, para não ficar distante. Depois de alguns detalhes, ela fala do seu relacionamento com um fotógrafo, quase sempre (e, de certa forma, convenientemente) ausente.

..........Chegam a um “bateau mouche”. Apesar dos avisos que ela lança, sobre o tempo se escoando até o vôo, ele resolve embarcar, apenas por um trecho do Sena. Avisam ao motorista, pelo celular, que os espere na próxima parada do barco, na Henrique IV (não por acaso, certamente, já que se trata de um dos maiores reis franceses, autor da frase “Paris bem vale uma missa”, por se ter convertido ao catolicismo para assumir o trono. O grande amor de sua vida foi Gabrielle d’Estrée, “A Bela Gabrielle”, apesar de casado formalmente com Marguerite de Valois. Não chegaram a se casar, apesar de três filhos e de Henrique ter solicitado ao papa a anulação do casamento com Marguerite; Gabrielle morreu de parto, esperando um quarto filho).

..........No barco, admiram Notre Dame, ela comenta sobre lembranças que todas as pessoas deixam em nós, mesmo as mais fugazes. Enquanto ela fala, o olhar dele é o de um completo apaixonado. Depois é a hora de ele falar, das razões pelas quais casou; está infeliz, sem dúvida, por mais justificadas que elas parecessem à época.

..........Na chegada à parada, o carro o espera. Apesar de novamente alertado sobre o horário do vôo, ele pede para deixá-la em casa; confabulam com o motorista, que acede.

..........No mito de Orfeu, ele desce ao Inferno para tentar trazer Eurídice de volta. Hades e Perséfone, comovidos com o esforço do artista, concordam em devolvê-la. Segundo Junito de Souza Brandão, “impuseram-lhe, todavia, uma condição extremamente difícil: ele seguiria à frente e ela lhe acompanharia os passos, mas, enquanto caminhassem pelas terras infernais, ouvisse o que ouvisse, pensasse o que pensasse, Orfeu não poderia olhar para trás, enquanto o casal não transpusesse os limites do império das sombras. O poeta aceitou a imposição e estava quase alcançando a luz, quando uma terrível dúvida lhe assaltou o espírito; e se não estivesse atrás dele a sua amada? E se os deuses do Hades o tivessem enganado? Mordido pela impaciência, pela incerteza, pela saudade, pela “carência” e por invencível póthos, pelo desejo grande da presença de uma ausência, o cantor olhou para trás, transgredindo a ordem dos soberanos das trevas. Ao voltar-se, viu Eurídice, que se esvaiu para sempre numa sombra, “morrendo uma Segunda vez”. Ainda tentou regressar, mas o barqueiro Caronte não mais o permitiu.” (grifos no texto original)[1]

..........Olhar para trás. Ficar em dúvida, temer o passado, as raízes, afrontando a possibilidade de futuro. A cada vez que se repete o aviso de que o vôo partirá, Jesse providencia uma justificativa diferente para continuar a conversa, para mostrar a Celine (e aos Deuses) que não olhará para trás.

..........No carro, os dois se abrem mais ainda. Celine desfia toda a sua angústia perante a vida, aprofundada pelo livro de Jesse. O labirinto lhe ficou patente e a oprime, inexorável. Desesperada, pede ao motorista para parar. A muito custo, Jesse consegue demovê-la, e a única forma de lhe dar alguma serenidade é mostrar o quanto a vida dele é um tormento, com sonhos repetidos em que Celine é a protagonista, a musa nunca encontrada no trem, a mãe que ele deseja para seus filhos. Durante os comentários de cada um, entretidos em seu próprio inferno pessoal, não percebem que o outro quase o(a) acariciou, tentativa de aconchego.


..........Chegam perto da casa dela, ele se oferece para levá-la até a porta. Antes, ela havia lhe dado um abraço apertado de despedida, “para saber se ele explodiria em moléculas”... Trata-se do primeiro contato físico mais próximo, após mais de uma hora.. No portal do prédio, ele pede que lhe cante algo, resquício do que conversaram antes. Ela lhe promete, mais apenas uma música, e não deixa de novamente lhe lembrar do horário do vôo.

..........Sobem lentamente os lances de escada, o ritual se encaminhando para o clímax e, por isso mesmo, a imprescindível liturgia. A espiral os leva para mais perto da saída (do labirinto ou Hades), do céu, da luz. Entram no quarto, ele tira o paletó imediatamente (a segunda vez que o faz, anteriormente apenas no café), sabe que o final está próximo, seja ele qual for. Ela já sabe o quanto ele a ama, pergunta se quer chá. Mas ainda falta um teste: pergunta o que quer ouvir, dá-lhe três opções, embora dê pistas (uma é sobre um gato, outra sobre um ex-namorado, a terceira uma valsa). Claramente induzido à escolha da valsa (pois ela já o aprovou, afinal de contas), ele a solicita. A canção é justamente sobre o quanto ele representa para ela. E então, ainda que um pouco sem jeito, mas em nenhum momento indecisa, ela lhe oferece, em forma de arte, sua declaração e se abre completamente. A essa altura, as oferendas artísticas já foram trocadas, inequivocamente demonstrando o real significado de cada um para o outro. A partir dali, não há mais dúvidas, eles sabem disso, mesmo que gracejos tentem amenizar o impacto do momento.

..........De uma maneira perfeitamente natural, sem pedir licença, ele vai ao aparelho de som e escolhe uma música de Nina Simone, “Just in Time”, e ela reage dizendo que a adora. “Bem na hora, achei você bem a tempo. Antes de você chegar, meu tempo se arrastava, estava perdida. As apostas já perdidas, minhas ligações todas para trás, não tinha onde ir. Agora você está aqui e agora. Sei exatamente para onde vou, nenhuma dúvida ou medo, achei meu caminho. Porque o amor chegou bem a tempo. Você chegou bem na hora e mudou minha vida solitária.” E ela se solta, fazendo uma imitação extremamente sensual e despojada da cantora, totalmente à vontade, nenhuma dúvida restando naquele corpo, revelando-se em emoção para o homem que a merecia e que ela amava.

..........E quando, pela última vez, ela comenta que ele vai perder o avião (mas mais que um alerta, o tom já evoca um fato inquestionável), responde completamente relaxado, senhor de si, sorrindo por não ter olhado para trás. Orfeu diz para Eurídice, despreocupado e pensando apenas no futuro prazeroso que imagina para os dois: “Eu sei”.

..........Enquanto esse texto se encerrava, olhei a chuva na janela e me lembrei de “Sem Fantasia”, dueto de Chico e Bethania, “e agora que cheguei, eu quero a recompensa, eu quero a prenda imensa dos carinhos teus”.


[1] BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega (vol. II). Petrópolis, Vozes.2001. p. 142.
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Wellington Dantas de Amorim - novembro de 2004.




Conversando sobre o filme "Antes do pôr-do-sol" com o meu amigo, Wellington, convidei-o para escrever uma resenha sobre o filme. Por isso, hoje deixo-os com a luxuosa contribuição dele. Obrigada, Well.



Antes do pôr-do-sol




.....Em 1995, um filme de um diretor pouco conhecido surpreendeu muita gente e acabou se tornando cult. “Antes do Amanhecer”, de Richard Linklater (que depois filmou “Waking Life” e “Escola de Rock”, entre outros), com Ethan Hawke e Julie Delpy, mostrava, de forma inteligente, um encontro romântico entre um jovem dos EUA e uma francesa, que acabam passando quase um dia em Viena. Muitos diálogos, rumos pouco convencionais, química fina entre os protagonistas. Um final inconcluso (marcaram um encontro em Viena, seis meses depois), tom mais para melancólico, e ainda assim deixou marca entre os que o viram.

.....Nove anos se passaram. Linklater já é um diretor renomado e resolveu fazer a seqüência, “Antes do Pôr-do-sol”, elaborando a história novamente com Kim Krizan (atriz e escritora) e o roteiro com os dois protagonistas. Numa livraria de Paris, depois de um tour por várias cidades européias, Jesse faz a última apresentação para divulgar seu livro, inspirado nos acontecimentos de nove anos antes. Em meio às perguntas dos jornalistas e curiosos, olha para o lado e vê Celine. A partir daí, até a partida do avião de Jesse para Nova Iorque, os dois teriam pouco menos de duas horas para conversarem, já que não mais se viram desde Viena. Como em tempo real, a câmera não mais os abandonará. O fluxo de diálogos é intenso, engraçado, profundo, às vezes arrasador, mas nunca redundante. Os cortes são precisos e delicados, sem o nervosismo transgressor do Dogma 95, por exemplo, e ainda assim passando a sensação pura de fluidez e realidade. (O filme foi tão bem planejado que foi rodado em 15 dias). Roteiro precioso, em que cada movimento e palavra importa para o resultado final, com passagens inesquecíveis (e subliminares), como os dois caminhando pelo parque, muito juntos, e de repente o assunto passa a ser o casamento de Jesse, e surge uma escada, o corrimão os separa instantâneamente...

.....E os oitenta minutos (ao contrário dos 101 de “Antes do Nascer do Sol”) passam literalmente voando, a tensão reinante pela ditadura do horário reduzindo possibilidades, enquanto perguntas por vezes com respostas indefinidas ampliam a sensação de impotência. A interpretação dos protagonistas é uma delícia de autenticidade, e vida, amor, desencontros, dilemas, são expostos de maneira direta, irônica e estimulante.

.....Quanto ao final, embora brilhantemente inconcluso, uma dica: a música que está tocando é “Just in Time”, com Nina Simone. Repare também na última frase do filme...

.....Definitivamente, para ver e rever, para os que amam, para os que não mais amam, ou para os que ainda não perderam a esperança, talvez o melhor filme a tratar do assunto, desde “Uma História Pornográfica”.


Wellington Amorim


As mulheres de Clarice
José Castello



Uma crônica antiga, Clarice Lispector diz: “Eu queria poder usar a delicadeza que também tenho em mim, ao lado da grossura de camponesa que é o que me salva”. A crônica em questão chama-se “A descoberta do mundo” e faz parte, agora, de “Aprendendo a viver”, uma seleção das crônicas mais confessionais da escritora, que acaba de ser lançada pela editora Rocco. Delicadeza e grossura, ou, como se costuma pensar, feminilidade e masculinidade: é da constatação dessa dupla imagem, desse paradoxo, que Clarice Lispector retira sua identidade de mulher e de escritora. Sentimentos antagônicos, em estado de choque, que terminam por definir, em Clarice, o que é a mulher.

A mulher está no coração da literatura de Clarice Lispector. Não só como personagem, ou como narradora de seus livros, mas como um enigma. Os tradicionalistas atribuem ao masculino, em geral, a cultura, a ordem, a construção, a lógica. Ao feminino, destina-se a sensibilidade, a intuição, o irracional, a desordem. São clichês, muito vulneráveis. Com suas narrativas, Clarice Lispector nos mostra que as coisas não se passam bem assim. Que os dois elementos, “masculino” e “feminino”, convivem dentro da mulher.


Mulher: enigma a decifrar.


Outubro passado, “A paixão segundo G. H.”, seu romance mais importante e enigmático, completou 40 anos de publicação. É a história banal de uma mulher, identificada apenas pelas iniciais, G. H., que um dia resolve fazer uma faxina no quarto de empregada. Mas, como sempre, é do comum, do mais banal, que Clarice parte para seus mergulhos no mistério.

A literatura lhe veio muito cedo. Em 1944, aos 17 anos de idade — lá se vão 60 anos! — Clarice Lispector publicou seu primeiro romance, “Perto do coração selvagem”, saudado pelo crítico Antonio Cândido como um livro que capta os segredos da vida interior. Isso não se dá só porque “Perto do coração selvagem” é narrado por uma moça, Joana, personagem de sensibilidade incomum, que a coloca, sempre, “perto do coração selvagem da vida”. Se passa, sobretudo, porque Clarice escreve como quem decifra um enigma.

Essa primeira mulher de Clarice, a delicada Joana, é uma espécie de modelo de todas as mulheres que ela viria a criar, seres paradoxais, divididos entre o desamparo extremo e uma sensibilidade excepcional. Em “O lustre”, seu segundo livro, Virginia, a personagem principal, guarda também essa condição dupla, de fraqueza e força. Clarice o escreveu como uma “biografia interior”. Assim descreve Virginia: “Ela seria fluida durante toda a vida. Porém o que dominara seus contornos e os atraíra a um centro, o que a iluminara contra o mundo e lhe dera íntimo poder fora o segredo”. Em outras palavras: a condição fluida e sensitiva da mulher não exclui a presença de um centro, que lhe dá vigor — uma força, aliás, incomum.

Nas duas personagens, Joana e Virginia, surge um outro aspecto feminino, presente já na anatomia da mulher: a capacidade de reter e esconder dentro de si, sempre, o que é mais precioso. Há nas duas personagens, ainda, uma espécie disfarçada de maldade, expressa em seu poder de devassar o mundo, na coragem de desvendar seu avesso. Os livros de Clarice não apresentam mulheres assim, ou assado, não fornecem uma galeria de maneiras de ser, ou de tipos psicológicos. O feminino, em Clarice, não está na identidade sexual, nos aspectos anatômicos ou sensuais, mas sim no poder de revelar os aspectos ocultos do mundo.

Mesmo num personagem menos forte como Lucrecia Neves, de “A cidade sitiada”, o menos conhecido romance de Clarice, a aparente superficialidade não exclui uma visão aguda da vida. “Estava bruta, de pé, uma besta de carga ao sol”, o livro a descreve. “Essa era a espécie mais profunda de meditação de que era capaz”. Mesmo assim, sendo capaz de muito pouco, Lucrecia consegue penetrar nos segredos da existência.

Mas é em “A maçã no escuro”, importante romance de 1956, que a mulher se agiganta. Nele, a mulher se divide em duas: Vitória, a enérgica dona de uma fazenda, e sua frágil prima Ermelinda. Elas contracenam com Martim, o personagem masculino, um homem que acredita ter assassinado sua mulher. Vitória crê firmemente na objetividade das coisas e na clareza das palavras. Mas esse saber a destrói. Ela pensa: “E eu, que sei de tudo, e tudo o que sei envelheceu na minha mão e se tornou um objeto”. Ermelinda, ao contrário, é confusa e se deixa vencer pela angústia. “Eu só quero ser feliz, mas não ter todo esse trabalho horrível de me fazer feliz”, ela medita. Duas maneiras de expressar o feminino, seja pela afirmação de força, seja pela entrega ao outro.

Em “A paixão segundo G.H.”, o romance que acaba de completar 40 anos, a mulher retorna à introspecção. Na faxina que faz no quarto de serviço, G.H. depara com uma barata. Sem pensar, ela a esmaga, e do inseto sai uma massa branca e repulsiva. Em pânico diante da agonia da barata, G.H. decide provar da massa branca que lhe sai de dentro. Nesse contato com a matéria bruta, para além de todo nojo, a personagem de Clarice se despersonaliza, deixa de ser uma máscara feminina — para se dissolver no mundo primitivo e sem palavras da matéria. Outra vez o coração selvagem da vida. Só assim, se despersonalizando, ela consegue descobrir o que de fato é. Nada da identidade fácil fornecida pelas grifes da moda, estilistas, psicólogos de revista, ou mesmo pela carteira de identidade. A identidade de uma mulher, Clarice nos diz, é algo mais complexo. Para ser, é preciso primeiro deixar de ser, experimentar o nada e viver exatamente o contrário do que se é. Com essa definição da existência, Clarice torna o feminino não um trejeito, ou um efeito da anatomia, mas uma maneira de estar no mundo.

A mulher volta à vida cotidiana e à experiência do amor em “Uma aprendizagem, ou o livro dos prazeres”, belo romance de 1969. Mais uma vez, as meditações solitárias de uma mulher, Lóri, intercaladas com seus diálogos com o amado, Ulisses. É um livro sobre a paixão — e sobre as possibilidades que se abrem à mulher com a experiência amorosa. Lóri é movida pelo desejo de se comunicar, de se entregar. Isso, que parece tão simples, contudo, é algo que se conquista muito devagar. Não está apenas no instinto, ou na natureza. É algo que se deve aprender. Ser mulher, então, é um longo caminho — não um destino. Mas esse caminho não é necessariamente de conhecimento. É mais se entregar que conhecer. Como a própria Lóri diz a seu amado: “É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos é que começamos a saber”.


Macabéa começa do nada.


A imagem da mulher se dissolve completamente em “Água viva”, o mais radical romance de Clarice, que ela definiu como um livro “abstrato”. Ela o escreveu como se pintasse um quadro, ou compusesse uma música clássica, pouco interessada na ordem cronológica, no enredo, ou na caracterização dos personagens. “Água viva” é um conjunto de fragmentos, que servem de ponte para os pensamentos de uma mulher. A narradora do romance é uma pintora. Pouco interessada na organização das palavras como sua personagem, Clarice o chamou, primeiro, de “Atrás do pensamento”. Tanto Clarice como sua pintora desejam se libertar da existência do objeto, ou, como se diz em relação à arte figurativa, da figura. Querem chegar ao miolo das coisas — despir-se, não por fora, mas por dentro. “Preciso sentir primeiro o it dos animais”, ela diz. Antes de ser mulher, a mulher é. A isso Clarice quer chegar, ao que vem antes de tudo o que é humano — inclusive antes do pensar.

Não é por outro motivo que a literatura de Clarice deságua numa mulher totalmente simples, desprovida de luxos, analfabeta — a Macabéa, de “A hora da estrela”. Uma mulher carente de palavras e de pensamentos, que se distrai ouvindo a Rádio Relógio e que, em sua pequenez, se faz perguntas elementares. Macabea é uma mulher crua, fora da cultura, metida numa brutal realidade. Uma mulher tão insuficiente que o livro é narrado não por ela, mas por um homem, Rodrigo S. M. “Eu não inventei essa moça. Ela forçou dentro de mim a sua existência”, ele diz. Macabéa é uma mulher que começa do nada, ou do quase nada. Que, em seu encontro com um homem, tem pela frente todo um destino a construir.

Ser mulher não é fácil, Clarice nos diz com seus romances. Não é algo natural, como uma fruta, ou uma paisagem. É algo que precisa ser conquistado, passo a passo, e a trilha deve ser percorrida desde o início, ou não se chega ao fim.


*retirado daqui

Francisca Júlia, a "Musa Impassível"


"Isto não é verso de mulher! Deve ser uma brincadeira do Raimundo Correa!..."
Exclamou João Ribeiro ao ler numa das revistas mais conceituadas da época os versos de Francisca Júlia.Não se tratava de brincadeira, era uma mulher, uma jovem tão talentosa que no seu próximo livro, o próprio João Ribeiro se encarregaria de prefaciar. Escreveria ele na ocasião:

"Nem aqui, nem no sul nem no norte, onde agora floresce uma escola literária, encontro um nome que se possa opor ao de Francisca Júlia. Todos lhe são positivamente inferiores no estro, na composição e fatura do verso, nenhum possui em tal grau o talento de reproduzir as belezas clássicas com essa fria severidade de forma e de epítetos que Heredia e Leconde deram o exemplo na literatura francesa."

Apesar dos rasgados elogios em torno de sua estréia literária o sucesso não subiu a cabeça da jovem e já consagrada poetisa, então com 24 anos. Ao contrário, cada vez mais incentivada por amigos de peso, dedica-se integralmente à atividade poética, traduzindo para o português versos do poeta alemão Heine. Apesar de parnasiana na forma, Francisca Júlia também teve alguma passagem pelo simbolismo, introduzido no Brasil nessa última década do Século XIX.Vários poetas famosos não deixaram de manifestar, em crônicas emocionadas, vibrantes elogios à mais nova produção literária de Francisca Júlia, entre eles, Vicente de Carvalho e Coelho Neto. Nessa época chegou a ser convidada para a Academia Paulista de Letras, mas decidiu-se por dedicar-se ao marido, grande amor de sua vida.

Na segunda década do século, Francisca Júlia já era uma poetisa há muito consagrada. Aos 46 anos, recebe a maior homenagem que lhe prestaram em vida, quando um grupo de admiradores organizou, em 1917, uma sessão literária e ofereceu seu busto à Academia Brasileira de Letras. Era a consagração da talentosa artífice de versos, da "Musa Impassível", como ficou conhecida.
Em 1920, consagrada, realizada na vida literária e pessoal, Francisca Júlia, vê parte de sua vida ir embora quando seu marido falece.

A perda do companheiro tão querido foi arrasadora para a sensível poetisa, cuja emoção não pode conter, em nada demonstrando ser a autora daqueles versos frios, impassíveis. Confessou aos amigos que sua vida não tinha mais sentido sem a companhia do marido e deixou claro que "jamais poria o véu de viúva" (seria uma indicação de suicídio?). Retirou-se para repousar em seu quarto e ingeriu excessiva dose de narcóticos. No dia seguinte, em 01 de novembro de 1920, ao abraçar o caixão onde jazia o corpo inerte do esposo, num último e emocionado adeus, Francisca Júlia falecia aos 49 anos. Seu corpo foi enterrado no Cemitério do Araçá, em São Paulo, ao meio-dia de 2 de novembro.

Noturno

Pesa o silêncio sobre a terra. Por extenso
Caminho, passo a passo, o cortejo funéreo
Se arrasta em direção ao negro cemitério...
À frente, um vulto agita a caçoula do incenso.

E o cortejo caminha. Os cantos do saltério
Ouvem-se. O morto vai numa rede suspenso;
Uma mulher enxuga as lágrimas ao lenço;
Chora no ar o rumor de misticismo aéreo.

Uma ave canta; o vento acorda. A ampla mortalha
Da noite se ilumina ao resplendor da lua...
Uma estrige soluça; a folhagem farfalha.

Francisca Júlia


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