Seu verdadeiro nome era Jean Louis Lebris de Kerouac, mas pra quem se tornaria um dos protagonistas da beat generation, era pomposo demais.Falar de Jack Kerouac é correr o risco de misturar vida, obra e personagem. Talvez seja a melhor maneira de tentar entende-lo.O próprio Kerouac, dois anos antes de morrer, para livrar-se da "gaiola" em que o haviam posto depois do sucesso - exposição que sempre o mantivera, assim mesmo, num obtuso ostracismo -, disse numa entrevista a Paris Review: "Estou tão empenhado em entrevistar a mim mesmo em meus romances e estive sempre tão empenhado em escrever essas auto-entrevistas, que não vejo por que tive de sofrer ano após ano, nos últimos dez anos, repetindo e repetindo a quem quer que me entrevistasse o que já expliquei nos próprios livros... Não tem sentido".

Somente no segundo romance, On the road (Pé na estrada), ele alcança a eternidade. Recusado durante sete anos pelos editores antes de ser publicado em 1957, é um monumento ao amigo, retratado com o nome de Dean Moriarty. Escrito em apenas três meses e considerado sua obra-prima, encontramos aí descrita a experiência que se tornará modelo de vida para a "beat generation": a viagem, ou melhor, o nomadismo, e a aventura; a recusa da opulência americana e a clara contraposição ao mundo adulto; o jazz; a fuga no álcool e nas drogas. Na realidade, o que Kerouac faz não quer ser um protesto, mas uma busca. Numa entrevista em que lhe perguntam se a "beat generation" está em busca de alguma coisa, ele responde: "Deus. Quero que Deus me mostre seu rosto".

A vida de Jack Kerouac transcorreu sob o signo da perda e da solidão. Perda de seu irmão Gérard, morto os quatro anos de idade, e, em sua obra, símbolo da inocência, paradoxalmente projetada em Neal Cassady, delinqüente e devasso, mas que, para Jack, era um santo. Perda de sua língua natal, o dialeto franco-canadense (só foi falar inglês na escola). Na década de 1930, seu pai Leo perdeu sua gráfica e suas posses me uma inundação. Seu melhor amigo de infância, George Sampas (irmão de sua mulher Stella) morreu na guerra. É como se a inundação do rio Merrimack em 1936 fosse, simbolicamente, uma correnteza levando embora seus entes queridos, sua língua natal, seus amigos e seus laços comunitários. Sua obra foi uma tentativa de nadar contra essa correnteza, contra o Tempo. Uma viagem impossível, que o consumiu e esgotou. A correnteza acabou jogando-o na margem. A crônica de seus últimos anos é patética: sempre bêbado, dialogando com fantasmas, repetindo variações do mesmo monólogo.

Talvez por isso sua memória obsessiva ia a lugares da sua infância, às raízes da sua existência. A fuga em On the road nunca é sem volta. As grandes distâncias americanas, os pores-do-sol e as auroras irreais, o ritmo sincopado do jazz que acompanha a pessoa ao longo do caminho, os salões de bilhar, as mulheres e os encontros ocasionais são, em Kerouac, um parêntesis da precariedade que vive. De fato, escrevia num momento ardente: "Outubro é o mês mais doce. Em outubro, todos vão para casa".

E foi em outubro no dia 21, no ano de 1969, aos 47 anos, perto de sua mãe que Jack Kerouac morreu de hemorragia interna causada pela cirrose hepática. Os funerais foram realizados em Lowell, e Jack será sepultado no Edson Cemetery, o cemitério católico. Na sua cidade, sua casa, para onde apesar de todas as estradas que percorreu sempre voltou. A raiz da sua vida.



"Os jogos musculados do sexo são uma enorme seca mas Billie e eu divertimo-nos imenso enquanto fazemos amor e é por isso que conseguimos filosofar assim e estamos sempre de acordo e rimo-nos os dois numa doce nudez. "Oh querido somos os dois malucos, podíamos viver numa velha cabana de toros na montanha e não dizermos sequer uma palavra durante anos e anos, estava escrito que havíamos de encontrar-nos" - Enquanto ela diz estas e muitas outras coisas uma ideia começa a formar-se no meu espírito: "Já sei, Billie, vamos sair da Cidade e levamos o Elliott connosco para passarmos uma semana ou duas na cabana de Monsanto lá na floresta, longe de tudo" - "Ótimo, eu vou ligar já ao meu patrão e peço-lhe duas semanas de folga, Oh Jack vamos embora" - "E vai ser bom para o Elliott, poder afastar-se destes teus amigos sinistros, meu deus" - "O Perry não é sinistro". "Havemos de casar-nos, partiremos daqui e teremos uma casa de campo nas Andirondacks, e à noite jantaremos frugalmente com o Elliott à luz da lamparina" - "E eu farei sempre amor contigo" - "Mas nem sequer serás obrigada a isso porque ambos compreenderemos que somos doidos varridos... a verdade estará escrita em todas as paredes da nossa casa e mesmo que o mundo inteiro venha sujá-la com grandes manchas negras de ódio e mentira nós viveremos embriagados pela verdade" - "Bebe um café" (...).

Jack Kerouac - (in "Big Sur", 1962; tradução: Paulo Faria, Colecção Mil folhas, Lisboa, 2003)







"No Banquete de Platão, a profetisa Diotima de Mantinéia resaltou para Sócrates, com a sincera aprovação deste, que 'o amor não se dirige ao belo, como você pensa; dirige-se a geração e ao nascimento do belo'. Amar é querer 'gerar e procriar', e assim o amante 'busca e se ocupa em encontrar a coisa mais bela na qual possa gerar'. Em outras palavras, não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra o seu significado, mas no estímulo a participar da gênese das coisas. O amor é afim à transcendência; não é senão outro nome para o impulso criativo e como tal carregado de riscos, pois o fim da criação nunca é certo."

Amor Líquido - Zigmunt Bauman




"Quero que o meu amor te seja leve como se dançasse numa praia uma menina."
Lya Luft, in Canção do Amor Sereno




"(...) então sim pedi com os olhos que voltasse a me pedir e então me pediu e eu queria dizer sim minha flor da montanha e primeiro abracei-o e o trouxe para cima de mim para que pudesse sentir meus seios todos os perfumes sim e o coração que batia igual um louco e sim eu disse sim quero. Sim."
James Joyce



Amor

Talvez seja verdade que não existimos enquanto não houver quem veja que nós existimos, que não falamos enquanto não houver quem ouça o que estamos a dizer, no fundo, não estamos completamente vivos enquanto não formos amados.
Poucas coisas são tão estimulantes e simultaneamente aterrorizadoras como saber que somos o objecto do amor de alguém, já que para quem não está completamente convencido de que merece ser amado, ser alvo de carinho é como receber uma grande honra sem perceber bem porquê.
Assim que se resolve descobrir sinais de atração mútua, tudo o que o ser amado diz ou faz pode ser interpretado como significando praticamente o que se quiser.
Só nos apaixonamos quando não sabemos por quem estamos apaixonar-nos.
Se nos apaixonamos com tanta rapidez, talvez seja porque a vontade de amar precede o objeto do amor.
Apaixonamo-nos na esperança de não encontrarmos no outro aquilo que sabemos existir em nós - covardia, fraqueza, preguiça, desonestidade, acomodação e estupidez.

Alain de Botton -" Ensaios sobre o amor"




Diálogo entre Hélio Pellegrino e Clarice Lispector.


CL: Hélio, diga-me agora, qual a coisa mais importante do mundo?
HP: A coisa mais importante do mundo é a possibilidade de ser com-o-outro, na calma, cálida e intensa mutualidade do amor. O Outro é o que importa, antes e acima de tudo. Por mediação dele, na medida em que recebo sua graça, conquisto para mim a graça de existir. É esta a fonte da verdadeira generosidade e do autêntico entusiasmo ¿ Deus comigo. O amor ao Outro me leva à intuição do todo e me compele à luta pela justiça e pela transformação do mundo.
* trecho do livro “Lucidez Embriagada”, Ed. Planeta.


"De que natureza, era então, este amor?"

Em primeiro lugar, é uma experiência a dois, mas isto não quer dizer que seja uma a mesma coisa pra cada um. Há o que ama e o que é amado, e estes dois eram diferentes como o dia da noite. Muitas vezes o amado é apenas um estímulo para todo o amor acumulado, durante todo o tempo e até àquele momento, pelo amante. De algum modo, cada amante sabe que é assim. Sente no seu íntimo que seu amor é solitário. Depois, conhece uma nova e estranha solidão, que o faz sofrer ainda mais. De qualquer maneira só lhe resta fazer uma coisa. Deve abrir-lhe dentro de si, o melhor que puder, este amor; deve criar um mundo só seu, intenso e único. Diga-se ainda que este amante de que se fala agora, não precisa, necessariamente, de ser jovem nem destinado ao casamento - pode ser homem, mulher, criança, uma qualquer criatura terrena. E quanto ao amado, também pode ser de qualquer espécie ou natureza. O estímulo do amor pode ser provocado pelo ser mais díspar ou exótico. Um homem pode ser avô e decrépito e ainda amar uma rapariga que viu, uma tarde, nas ruas de Cheeehaw, há mais de vinte anos. o pregador pode apaixonar-se pela mulher perdida. O ser amado pode ser pérfido, ter o cabelo oleoso ou maus hábitos. Sim, e o amante pode ver isto também como qualquer outra pessoa, sem que isso afete o seu amor. A pessoa mais insignificante pode ser objeto de um amor selvagem, extravagante e belo como os lírios venenosos do pântano. Um homem normal pode estimular um amor ao mesmo tempo violento e humilhante, como um louco pode provocar na alma de outra pessoa um idílio simples e terno. Portanto, o amor e a qualidade do amor é decidido apenas pelo próprio amante. É por esta razão que muitos preferem amar a ser amados. Quase toda a gente quer ser amante. E a verdade nua e crua é esta: no íntimo, o fato de ser amado é intolerável para muita gente. O amado teme e odeia o amante, e pela melhor das razões. O amante quer sempre mais e intensamente ao seu amado, ainda que isto lhe cause somente dor.

Carson Mc Cullers, em Balada do Café Triste.


“Aquele que conheceu apenas a sua mulher, e a amou,
sabe mais de mulheres do que aquele que conheceu mil."
Leon Tolstoi




"Você já amou? É horrível, não? Você fica tão vulnerável. O amor abre o seu peito e abre o seu coração e isso significa que qualquer um pode entrar em você e bagunçar tudo. Você ergue todas essas defesas. Constrói essa armadura inteira, durante anos, para que nada possa lhe causar mal. Aí uma pessoa idiota, igualzinha a qualquer outro idiota, entra em sua vida. Você dá a essa pessoa um pedaço seu, e ela nem pediu. Um dia, ela faz alguma coisa besta como beijar você ou sorrir, e de repente sua vida não lhe pertence mais. O amor faz reféns. Ele entra em você. Devora tudo que é seu e lhe deixa chorando na escuridão. E então uma simples frase como "talvez devêssemos ser apenas amigos" se transforma em estilhaços de vidro rasgando seu coração. Isso dói. Não só na sua imaginação ou mente. É uma dor na alma, uma dor no corpo, é uma verdadeira dor-que-entra-em-você-e-o-destroça-por-dentro. Nada deveria ser assim, principalmente o amor.

“Odeio o amor" - Neil Gaiman.



Para o psicanalista Samuel Katz, o amor e paixão não se confundem.

O amor possui uma temporalidade mais longa, enquanto que a paixão é imediata.
"A paixão diz respeito a objetos parciais, como um jeito, um cheiro, um par de pernas" diz Katz.
O sujeito apaixonados se expande, e com isso invade o terreno daquele que é objeto de sua paixão.
O sentido de alteridade se vê comprometido com a experiência, já que o "eu" e o "outro" se confundem.
Diz ainda Katz: "nós não temos ciúmes; é ele, este sentimento, que nos tem".


Fragmentos 107

"Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram, daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poeta românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico. Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista."

Fernando Pessoa




O amor é cego, mas nem tanto...


Já ouvi dizer que o melhor para casar, é uma pessoa igualzinha à gente. Já ouvi também, o contrário. Que o melhor é alguém bem diferente, para agir como um elemento complementar.
Já li uma pesquisa, feita por computador, mostrando como as pessoas se escolhem por semelhança. E já encontrei, pela vida, um sem número de casais, bem casados, ditos cheios de diferenças.
Entretanto, responda depressa: o que é alma gêmea? Se respondeu "uma alma igualzinha à da gente", errou. Acertou se disse "aquilo que todos procuram". Errou na primeira hipótese porque uma alma igualzinha à da gente não existe.

Se compararmos almas, ditas gêmeas, entre si, veremos que não são forçosamente parecidas uma com a outra.
Basta que uma alma nos tangencie naqueles pontos mais sensíveis - os que consideramos constitutivos de nossa personalidade - para dizermos que ela é nossa alma gêmea.
Aqueles que se casam considerando-se idênticos descobrem, com o passar do tempo, a limitação desta identidade. E aqueles que se casam atraídos pelas diferenças, surpreendem-se adiante, por serem tão mais semelhantes do que imaginavam. O mecanismo é óbvio. Na hora da escolha, aquilo que mais nos atrai no outro nos torna cegos para o resto.
Gradativamente, porém, recuperamos a visão, nosso olhar se faz mais abrangente e passamos a ver nosso parceiro em sua totalidade. Passamos a perceber então aqueles pontos que havíamos ignorado porque não nos tocavam diretamente.
Com o tempo também, já estabelecida a convivência, e superado o medo inicial da entrega, estamos em condições de descartar o artifício da alma gêmea. Não só começamos a conhecer de fato o outro, como passamos para um estágio em que, atribuindo-lhe defeitos que antes não víamos, fazemos questão de não nos identificarmos com eles. O que é importante agora são as diferenças.


Quando você acha que entendeu tudo e pára de prestar atenção na canoa, cuidado, que ela pode virar.
Você é uma pessoa com quinze anos, outra com vinte, uma terceira com trinta e assim por diante.
Idem com os outros. Inclusive com aquele que você escolheu para ser seu parceiro porque era tão igual a você. Ou diferente. E que possivelmente , com o passar do tempo, deixou de ser uma coisa ou outra.
O problema é em que direção a gente está mudando, e se esta direção serve ao parceiro.
Não é nada que se possa realmente controlar. Ou que se deva controlar. Dá para se ter um jogo de cintura, negociar um tanto, operar com um pouco de estratégia. O que não se pode é apelar para o gesso, tentar imobilizar, para garantir.

A mudança tem sua graça. É dele que um bom casamento vive e se alimenta. Quando dá certo, costumamos chamá-lo renovação. Mas também pode virar desgraça. É quando o casamento se torna mau, nos envenena.
E voltamos à estaca zero, à pergunta mais óbvia: o que contém menos risco, escolher um parceiro parecido ou diferente de nós?
O risco está em escolher alguém, seja quem for. Mas é um daqueles riscos que vale a pena correr, assim como todos os dias escolhemos o risco de viver. Isto posto, temos uma série de possibilidades a considerar. O ideal seria escolher alguém, não pelo que é em relação a nós, mas pelo que é em relação a si mesmo. Teoricamente fica lindo.

Na prática é dificílimo. Simplifiquemos. O melhor é escolher alguém pelo que representa como pessoa e não como espelho para você. Tendo em vista que, passados os primeiro meses de cegueira, é com a pessoa que vamos ficar, não com o espelho, me parece uma estratégia bastante razoável. Dentro de um conceito mais prático, prefiro um máximo de semelhanças nos pontos básicos e, no resto, o que Deus quiser.
Pontos básicos são aqueles sobre os quais não estamos dispostos a transigir e sem os quais não conseguiríamos sequer nos reconhecer. São aqueles pontos que nos definem.
Mas uma coisa é inquestionável: seja qual for a escolha, não pode ser feita às custas da individualidade de nenhum dos parceiros.

Marina Colassanti







* Esse post é pra você amor.

Crescer

"Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam:
- Que é que você quer ser quando crescer?
Hoje não me perguntam mais.
Se me perguntassem, eu diria que quero ser menino."


Fernando Sabino.


No dia 12 de outubro de 1923, nascia o menino Fernando Tavares Sabino. Hoje, 12 de outubro de 2004, o menino completaria 81 anos. Esse menino foi antes de tudo, um precoce.
Com 12 anos incompletos, em 1935, torna-se locutor do programa infantil "Gurilândia". aos 17 anos, está decidido a ser gramático. Escreve um artigo de crítica sobre o dicionário de Laudelino Freire, que tem o orgulho de ver estampado no jornal de letras "Mensagem", graças ao diretor Guilhermino César, escritor mineiro que se torna amigo de Fernando Sabino e seu grande incentivador.


Minhas primeiras lembranças de Sabino, são sempre os livros de crônicas que líamos no colégio. Recheadas de humor, a história nos pegava pelo pé na primeira linha. Sabino era/é certeza do riso gostoso ao terminarmos a história. Fica a impressão de que ninguém conta ou reconta um caso como ele. Embora mineiro, de Belo Horizonte, tem uma carioquice marota que dá um molho todo especial aos textos que produz.
O escritor é antes de tudo um observador atento, ele sabe que muitas histórias estão ali, na sala, no quarto, no banheiro, nos bares, basta saber contá-las e ele sempre soube.
Lembro que quando li "Cartas perto do coração", que traz a correspondência de Sabino e Clarice, descobri o homem inteligentíssimo e culto que ele é. Sempre soube que para se escrever com humor, ou saber colocar humor em comentários, escritos, atitudes e na própria vida, é preciso ser muito inteligente. O humor bem colocado é para poucos, humor inteligente para raros.



Come e dorme


E minha amiga Glória Machado me conta que recebeu da empregada o seguinte recado:

- Seu doutor Alfredo telefonou dizendo que vai levar a senhora com ele hoje de noite no come e dorme.

Deixa o Alfredo falar! Ela sabia que o marido é surpreendente e dele tudo se espera - mas não a este ponto. Come e dorme! Que diabo vinha a ser aquilo?


Só foi entender quando mais tarde ele voltou do trabalho. Na realidade a convidava para um excelente programa: assistir naquela noite à apresentação no Rio da famosa orquestra de Tommy Dorsey.

Textos extraídos do "Livro aberto", Editora Record - Rio de Janeiro, 2001, páginas diversas. Este livro foi agraciado com o Prêmio Jabuti 2002 (Contos - Crônicas).




2


Dar nome aos bois é coisa que mineiro não faz, nem mesmo em Uberaba. Ainda me lembro da eleição para Presidente da República em 55, quando, no mais aceso da campanha, Juarez Távora entrou por Minas adentro e encontrou várias cidades cheias de faixas e cartazes aclamando a sua candidatura. Algum tempo depois é que pôs reparo na sutileza daquela manifestação de apoio:a adesão dos mineiros se exprimia através das palavras "Salve o Nosso Candidato!", "Viva o Futuro Presidente da República!". O nome do candidato não aparecia, por uma questão menos de esperteza que de economia: as faixas e cartazes eram os mesmos, serviam para qualquer um deles.

O texto acima é parte do que foi publicado em "A Falta Que Ela Me Faz", e foi extraído do livro "Fernando Sabino - Obra Reunida - Volume II", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1996, pág.706.



O menino possui a visão primeira, tudo é novo. Há a inocência do descobrir, a curiosidade natural que empurra, que leva a continuar, aventurar-se pelo mundo e suas possibilidades. Um dia nos descobrimos adultos e o menino nos olha de um tempo distante onde a vida era mais simples. Nesse momento, alguns viram as costas e seguem, outros como Sabino, escrevem.


Feliz Aniversário, menino!


Fernando Sabino será sepultado às 11h desta terça-feira.

RIO - O corpo do escritor Fernando Sabino está sendo velado no cemitério São João Batista, em Botafogo, zona sul, onde será enterrado nesta terça-feira, às 11h. Diversos amigos, entre eles o cartunista e escritor Ziraldo, os escritores Affonso Romano de Sant'anna e Marina Colassanti, e o jornalista Wilson Figueiredo, compareceram ao velório. Sabino sofria de um câncer no fígado há dois anos e, segundo amigos, passou os últimos dois dias sedado. A pedido do escritor, seu túmulo terá a inscrição: "Nasci homem, morri menino". Fernando Sabino morreu nesta segunda-feira, por volta de meio-dia, na véspera de completar 81 anos.



Em algum lugar do passado...a lembrança que fica.




WASHINGTON, 11 out (AFP) - O ator norte-americano Christopher Reeve, que ficou famoso interpretando o herói das histórias em quadrinhos Super-Homem em quatro adaptações para o cinema, morreu neste domingo nos Estados Unidos devido a uma parada cardíaca, aos 52 anos de idade, informou seu porta-voz, Wesley Combs.

Reeve, que havia ficado tetraplégico em 1995 ao cair de um cavalo, morreu às 17h30 locais (18h30 de Brasília) no Hospital Northern Westchester de Nova York. Ele tinha entrado em coma no sábado, quando sofreu um ataque cardíaco em casa enquanto era atendido por causa de uma ferida, fato comum em pessoas paraplégicas.

"A ferida estava gravemente infectada. Reeve entrou no Hospital Northern Westchester no sábado e não voltou a recuperar a consciência. Sua família esteve a seu lado no momento de sua morte", informou o porta-voz.

Reeve ficou conhecido mundialmente ao interpretar o Super-Homem no filme homônimo lançado em 1978, dirigido por Richard Donner. O ator voltou a interpretar o "Homem de Aço" em outras três produções. Outra produção de grande sucesso em que participou foi a história romântica "Em Algum Lugar do Passado" (Somewhere in Time) (1980).

Após o acidente que o deixou sem movimentos do pescoço para baixo, o ator se engajou na luta pelo uso das células-tronco no tratamento de doenças.Uma das últimas participações de Reeve como ator foi no seriado de televisão "Smallville", que conta as aventuras do adolescente Clark Kent antes de se tornar o Super-Homem.

Nascido em Princeton (EUA) no dia 25 de setembro de 1952, Reeve debutou aos 14 anos no teatro, para passar mais tarde a televisão e ao cinema, em 1977, com "Alerta vermelha: Netuno fundo", dirigido por David Greene.

Esse mesmo ano foi selecionado para interpretar o papel de ClarkKent em "Superman", um filme que foi um autêntico sucesso debilheteria. Entre os filmes interpretados por Reeve estão "Somewhere in time" (Em algum lugar do tempo), "A armadilha da morte", "As bostonianas","Interferências" e "Village of the Damned", um filme de terrordirigido por John Carpenter.Em 1998, Reeve participou de uma nova versão do clássico de Hitchcock "A janela indiscreta".
No dia 28 de maio de 1995 fraturou duas vértebras do pescoço e acoluna vertebral ao cair do cavalo com o qual participava de umconcurso hípico.O ator, que ficou tetraplégico, assistiu em março de 1996, em cadeira de rodas e valendo-se de um respirador artificial, acerimônia dos Oscar, onde foi aclamado em uma emotiva recepção. Ativista da Unicef, Anistia Internacional e da ecologia, Reeve é fundador, junto com Susan Sarandon e Alec Baldwin, da "CoalizãoCriativa", um grupo de ajuda a pessoas sem casa.

Em abril de 1997 debuta como diretor com um filme que narra a história de um jovem doente de aids que volta a sua casa para morrer junto a sua família.Também escreveu a biografia "Still Me", cuja transcrição em disco lhe valeu o Grammy de Melhor Álbum falado de 1999, ao que se soma outro livro publicado em 2002 e chamado "Nothing is Impossible; Reflections of a New Life". O espírito que demonstra neste último livro é o que lhe fez continuar com sua carreira como ator, diretor e produtor. Desde 1996, o ator que encarnou "Superman" preside a Fundação Christopher Reeve para a Paralisia, dedicada a pesquisa detratamentos para curar lesões medulares da espinha dorsal.

Reeve morreu de um ataque de coração no dia 10 de outubro de 2004 aos 52 anos no hospital Norteen Wetcheter, onde tinha sido transferido no dia anterior depois de entrar em coma em seu domicílio. Reeve estava casado desde 1992 com a atriz Dana Morosini, com quem tem um filho. Anteriormente esteve casado com a modelo inglesa Gae Exton, com a qual tem dois filhos.



Certamente não foi um dos maiores atores que o mundo teve. Não fez grandes filmes, nada que entre para a história do cinema como sétima arte, mas o registro nesse caso, é pessoal e intransferível. Ele foi a personificação do Superman para uma geração inteira e como não podia deixar de ser, "Em algum lugar do passado" marcou corações e mentes das mocinhas românticas nos anos 80, na qual eu me incluo, sem qualquer constrangimento, pelo contrário, amor pra mim é assim, atemporal, intenso, pelo qual se morre e se vive. Sem meias palavras, tudo que se eterniza é marcado pela intesidade que o move, no amor não é diferente, pelo menos pra mim, claro.



Em um post distante...



Ao tocar a décima oitava variação de Rapsódia, de Rachmaninoff, inspirada em O Capricho no. 24, para violino solo, de Paganini, desconfiei que mais uma vez não dormiria cedo. Se alguém ainda não sabe, qual o filme tem esse tema é Em algum lugar do passado. Conta a história de Richard Collier (Christopher Reeve), jovem teatrólogo, após a estréia de uma de suas peças, recebe das mãos de uma velha senhora um antigo relógio de bolso e ouve dela uma frase enigmática: "volte para mim" . Em 1980, Richard se hospeda no Grande Hotel e, numa sala dedicada aos eventos históricos do hotel, descobre o retrato de uma linda mulher, Elise McKenna (Jane Saymour), atriz famosa do início do século, cujo rosto, não apenas o impressiona pela beleza, como também lhe parece familiar ... A revelação da imagem de Elise transforma-se numa fixação romântica. Pelas pesquisas e depoimentos, Richard fica sabendo quem foi a atriz e, através da auto-hipnose, regride até o ano de 1912 - sem, contudo, perder a consciência. Reencontra Elise e ambos revivem a aventura amorosa que, por algum motivo, fora subitamente interrompida.

Eu sei, é daqueles filmes considerados água com açucar, melodramáticos, talvez seja mesmo, mas o amor é sempre uma idealização enquanto não se concretiza. Quando vi o filme pela primeira vez, nem sabia que podia ser assim, e foi, mas isso é outra história.

Se eu tivesse que comparar, seria mais ou menos como no livro: "O amor no tempo do cólera" de Gabriel Garcia Marquez. O ponto forte do livro é o amor. Mais precisamente o amor de Florentino Ariza e Fermina Daza. Conta o amor platônico de Florentino Ariza por Firmina Daza que durou mais de cinqüenta e um anos. Neste período ele não ficou recluso e ensimesmado. Muito pelo contrário, viveu, trabalhou e construiu sua própria vida. Esteve pronto para o dia em que sua amada estivesse livre para ele novamente. Este fato só acontece quando o marido dela morre. E os dois se vêem livres para se envolverem.Na última página do livro, eles estão num navio, Florentino responde ao comandante que deseja ir e vir no navio, já o tinha feito antes, e o comandante pergunta por quanto tempo isso duraria?
Florentino Ariza tinha a resposta preparada havia cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com as respectivas noites.
— Toda vida — disse

É disso que falo. Eles tinham vivido tempo suficiente para perceber que o amor, era maior sempre em qualquer tempo e em qualquer parte, mas tanto mais denso ficava quanto mais perto da morte.


Passam os séculos, mudam os anos e os tempos modernos nos falam da independência amorosa, das noites onde o desencontro esta marcado em algum bar, festa ou lugar, onde estamos, mas ele nunca esta. Ele? Ele mesmo, esse tipo de amor ou melhor vontade de amar que o tempo não supera ou apaga. Esse que quando estamos sem ele, o objeto amado, continuamos sentindo sua presença onde não mais se encontra. Ou que telefonamos, escrevemos só para nos certificarmos de sua presença no mundo. É quando se percebe que mesmo o desejo de esquecê-lo é o mais forte estímulo para dele se lembrar. Não há solução, como disse Nietz, quando descobriu "a fórmula da grandeza do homem : amor fati". Não evitar nem se conformar e muito menos dissimular, mas afirmar o necessário, amar o que não pode ser mudado.