Beijo

Eu quero um beijo glauberiano,
que me devolva o insano riso
o instante impreciso das línguas
corrompendo as horas.

Eu quero um beijo,
tem que ser lá fora
no quintal do mundo, onde num
segundo os lábios se maltratam
mas não se desatam deste gosto quente,
deste gesto em frente toda vizinhança.

Eu quero um beijo que interrompa a
dança
desta despedida.
E que tire do sério todo este hemisfério
de razão contida.

Edmilson Felipe






(...)
O mundo é grande

O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.

(...)

Carlos Drummond de Andrade




Se tu viesses ver-me hoje à tardinha

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

Florbela Espanca




Beijo

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no de abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mas beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.

E dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombra
se nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja

Jorge de Sena








Silêncio Amoroso I

Deixa que eu te ame em silêncio
Não pergunte, não se explique, deixe
que nossas línguas se toques, e as boca
se a pele
falem seus líquidos desejos.

Deixa que eu te ame sem palavras
a não ser aquelas que na lembrança ficarão
pulsando para sempre
como se o amor e a vida
fosse um discursode impronunciáveis emoções.

Affonso Romano de Sant'Anna





Beijo

sua boca uva rubra
roça meus lábios
e por segundos
somos murmúrios úmidos
seiva cósmica de línguas
púrpuras

Virgínia Schall



Desencontro

Seguro um pescoço desconhecido
Familiar é o perfume que exala
Embriagado de sobriedade
Nulo de paixões ou vontade
Objetos começam a cair
Caem saias meias pudores
Cadeiras pratos corpos
Religiões e amores
Ah! que se danem os rumores
Tocamo-nos em beijo
O peito arfa embaça teu rosto
Quando o vejo não me vejo
Não és o reflexo meu
Nunca te procurei nem quis
Te achei por aí

Carlos Bencke





Quero lhe beijar a boca

Quero lhe beijar a boca
morder seus lábio
se brincar sua língua na minha.
Quero lhe beijar a nuca
lhe arrepiar inteiro
encostar meu peito no seu
até os corações se compassarem
as mãos entrelaçadas suarem.
Quero um abraço eterno
de guardar seu cheiro na minha pele.
Quero me queimar no seu fogo
e guardar pra sempre a cicatriz escarlate
desse nosso encontro.

cigana







Ouve, meu anjo

Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?

Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas aí!,
A carne do assasssino
É como a do virtuoso.

Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.

Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia...

Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar -
E eu lentamente morria
Como um perfume no ar

Antonio Botto




Poemas de saliva

Deslizo poemas de saliva
No rascunho da tua pele
Rimas profanas, estrofes abissais
O sentido profundo de um verso
Fala a língua dos teus gestos
Em convulsões gramaticais
Poemas recatados na tua pele sem pecado
Poemas de navalha no teu corpo sem perdão
A figura de linguagem do desejo
Fala a língua do meu beijo
Sem tradução

Ricardo Kelmer




Tua Voz

Tua voz me entra pelos ouvidos
me preenche o corpo
de outros líquidos

percorre pêlos e pele
desliza suave
grave
escorrendo obscena

Tua boca
porta lasciva
é semente dos meus beijos
escolhe caminhos
contorna o pescoço
e me sorri macia
abafando entrecortado suspiro...


andrea augusto©angelblue83



Baton nas bordas

Aviado o encontro
dedal de vinho.

Tateio os olhos
fivelo carícias
arremato intenções
entreteço moldes
alinhavo idéias
com fios da seda.

Veneno têxtil
me dispo te visto
casulo do tempo.

Abro casas
descubro rendas
saboreio mangas
tricotando gemidos

Zipe incontido
cadarço na agulha
vai vem da costura

Acarecio botões
colchete de peles
novelo de orgasmo
carretéis em volúpias
bordando teu nome
em meu coração,
Amor Tecido.


Beto Quelhas



Quando era menor e meu filho Bernardo perguntava "Pai, qual é o teu escritor preferido?", minha resposta era que meu escritor preferido eram uns 100 caras. Quando ele insistia citava uns 10. Quem? Acho que Cervantes, Dostoiévski, Balzac, Kafka, George Eliot, Machado, Döblin, Stendhal, Virginia Woolf, Sterne, Thomas Mann, Tchekhov, mais ou menos isto. Mas, se meu inquisidor fosse implacabilíssimo como Fernando Monteiro em suas listas (vocês deveriam ler a RASCUNHO!) e me ordenasse escolher um e somente um, eu - talvez estranhamente - escolheria Anton Pavlovitch Tchekhov.


Acho que gosto se discute sim. Em meu caso com Tchekhov, creio saber parcialmente de onde vem meu fascínio por suas histórias e peças de teatro. Estou consciente de algumas coisas que aprovo nele: o realismo, a clareza, o humor, a leveza, a abordagem compreensiva dos personagens, a pouca ênfase a coisas que outros escreveriam cheios de exclamações (ele parece dizer: não te ajudarei, descubra sozinho o que há de importante aqui), a imaginação para criar cenas e situações, uma visão um pouco diferente do amor - o qual é visto sem muitas ilusões - e a total falta de preconceitos que o permite transitar por toda a sociedade russa do século XIX. Talvez ele não fale a todos da forma como fala a mim. Sei que Dostoiévski, Mann, Cervantes, etc. são melhores, porém insisto: Tchekhov é o meu escolhido. É também uma questão de convivência agradável, preferimos ficar com alguém cuja presença e essência nos seja amiga.


Era o verão de 1978, tinha 20 anos e passava férias na casa de minha irmã, que fazia pós-graduação no Rio de Janeiro. Lembro do dia: manhã chuvosa, temperatura amena, não ia dar praia. Voltei para a cama e peguei "O Beijo e Outras Histórias". Pensava que, tendo lido quase todos os livros de Dostoiévski, Tolstói, Gogol e Turguênev traduzidos na época, me restava conhecer aquele Tchekhov. Amava os russos e, naqueles anos, também os soviéticos... Então, comecei a ler "O Beijo" - uma boa história - e depois fui para o conto da cachorrinha "Kaschtanka". Gostei. Almocei no centro e, quando passeava pela Cinelândia, resolvi entrar na Biblioteca Nacional e pedir para ver o que eles tinham de meu novo escritor. Eles trouxeram poucos livros, mas, dentre eles, estava "O Beijo".


Peguei o livro e continuei a lê-lo na BN. Passei a uma história que estava no final do livro: "Enfermaria Nº 6". Em minha vida, li-a umas 4 vezes, a última deve fazer uns 15 anos. Talvez tenha sido minha maior experiência literária. Fiquei estupefato com a quantidade de humanidade que me era repassada, com a economia do autor, com a poesia condensadíssima de sua prosa. Ali não havia teses a defender, nem grande enredo, mas havia uma sinceridade, uma nitidez nos personagens que me causou enorme impressão. Continuei a ler as histórias de trás para diante e conheci a irônica "Uma História Enfadonha", na qual descobri que Tchekhov podia criar diálogos tão bons quanto os de Jane Austen. Voltei para a casa diferente.


Tchekhov viveu apenas 44 anos e era médico. Até os 26 anos, publicou 300 histórias em jornais russos, quase todas cômicas. Vivendo em Moscou, era obscuro em sua cidade. Porém, sem que soubesse, estava tornando-se famoso em São Petersburgo, onde tinha numerosos leitores. Isto perdurou até o dia em que recebeu uma carta do severíssimo crítico Grigorovitch:


"Os atributos variados de seu indiscutível talento, a verdade de suas análises psicológicas, a maestria de suas descrições (...) deram-me a convicção de que está destinado a criar obras admiráveis e verdadeiramente artísticas. E o senhor se tornará culpado de um grande pecado moral, se não corresponder a estas esperanças. O que lhe falta é estima por este talento, tão raramente conhecido por um ser humano. Pare de escrever depressa demais..."


Tchekhov mudou e, sem perder a graça e a leveza mozartiana de seu texto, tornou-se sério e realista. O novo estilo custou-lhe críticas violentas, que o acusavam de "mau gosto" e de utilizar "detalhes sujos e grosseiros". Ele respondeu: "Pensar que a literatura tem como finalidade descobrir as pérolas e mostrá-las livres de qualquer impureza, equivale a rejeitá-la."


Rubens Figueiredo, tradutor e prefaciador de "O Assassinato e outras histórias" faz outras observações sobre Tchekhov:

"No ambiente intelectual russo, o debate só parecia fazer sentido quando tomava formas extremadas. A fama crescente de Tchekhov e a expectativa em torno de seus textos obrigaram-no a defender-se dos mal-entendidos, cada vez mais numerosos."


"Os leitores russos se haviam acostumado a tomar os escritores como campeões de credos políticos e religiosos mas, no caso de Tchekov, esbarravam em textos obstinadamente inconclusivos. Mais grave ainda, suas entrelinhas pareciam indicar que tanto as grandes sínteses intelectuais quanto os padrões de pensamento herdados pelos costumes serviam antes para encobrir a realidade."

"O desconcertante é que Tchekhov consegue munir sua prosa de uma sutileza capaz de sugerir outras camadas de experiência, como se a realidade nunca se esgotasse."


E, mais desconcertante: "Para Tchekov, a religião era moralmente indiferente. Ou seja, a crença, seus conceitos, seus símbolos e rituais eram ineficazes para deter a crueldade e o egoísmo, mas tampouco constituíam suas causas."

Tchekhov: "Não cabe ao escritor a solução de problemas como Deus ou o pessimismo; seu trabalho consiste em registrar quem, em que circunstâncias, disse ou pensou sobre Deus e o pessimismo."


Há muitos livros de Tchekhov que indicaria. Tenho 22 na minha frente. Como ele era contista, novelista e dramaturgo, há muitas coletâneas e, nelas, muitos contos e novelas repetidas. Vamos começar pelas peças teatrais: acho que "As Três Irmãs", "A Gaivota", "Tio Vânia" e "O Jardim das Cerejeiras" são tão extraordinárias que prescindem dos atores e podem ser lidas como uma novela de diálogos. A novela "Enfermaria Nº6" está em vários livros, assim como os contos "Inimigos", "A Dama do Cachorrinho" e um conto clássico que os tradutores deveriam se reunir a fim de estabelecer um nome, pois ele pode se chamar "Queridinha" aqui, "O Coração de Olenka" ali, Dô-doce (?) acolá, assim como "Amorzinho" ou qualquer outra coisa.

Os melhores livros são as duas traduções de Bóris Schnaidermann:

- A Dama do Cachorrinho e outros contos. Editora 34. 1999 Trad. de Bóris Schnaidermann ou
- Contos. Civilização Brasileira. 1959. (O segundo é o mesmo livro reeditado e revisado por Schnaidermann 40 anos depois. Mas quem encontrar a edição de 59 num sebo pode comprá-lo de olhos fechados. As duas versões são espetaculares.)

Outros livros extraordinários:
- Contos e Novelas. Edições Ráduga (Moscou). 1987. Um primor de tradução para o português realizada por Andrei Melnikov.
- O Assassinato e outras histórias. Cosac & Naify. 2002. Trad. de Rubens Figueiredo.
- O Beijo e outras histórias. Círculo do Livro. 1978. Trad. de Bóris Schnaidermann.
- A Enfermaria Nº 6 e outros contos. Editorial Verbo. 1972. Trad. de Maria Luísa Anahory.
- Os mais brilhantes contos de Tchekhov. Edições de Ouro. 1978. Trad. de Tatiana Belinky.
- Histórias Imortais. Cultrix. 1959. Trad.de Tatiana Belinky.


Filmes:

Há dois esplêndidos filmes de Nikita Mikhálkov baseados "em qualquer coisa de Tchekhov" (palavras do próprio diretor e roteirista): Peça Inacabada para Piano Mecânico (1977) e o famoso Olhos Negros (1987) com Marcello Mastroianni detonando no papel principal.

Em vida, Anton Tchekhov já era conhecido, respeitado e até popular, mas não era uma celebridade. Após sua morte, Tolstoi disse: "Creio que Tchekhov criou novas - absolutamente novas - formas de literatura que não encontrei em parte alguma. Deixando de lado falsas modéstias, afirmo que Tchekhov está muito acima de mim".
Naquele tempo, os contemporâneos não deram atenção a esta opinião. Pensavam que o conde já idoso estava a superestimar Anton Tchekhov, atribuindo-lhe características acima das que merecia. Passados cem anos, vemos agora que Tolstoi não estava tão equivocado. Atualmente, na Rússia, Anton Tchekhov encontra-se ao lado dos grandes clássicos: Púchkin, Gogol, Dostoiévski e Tolstói. E, como dramaturgo, está entre os mais célebres e montados autores mundiais.


"Anton Pavlovitch Tchekhov sentou-se na cama e de maneira significativa disse, em voz alta e em alemão: "Ich sterbe" - estou morrendo. Depois, segurou o copo, voltou-se para mim, sorriu seu maravilhoso sorriso e disse: "Faz muito tempo que não bebo champanhe". Bebeu todo o copo, estendeu-se em silêncio e, instantes depois, calou-se para sempre. E a pavorosa calma da noite foi apenas alterada por um estampido terrível: a rolha da garrafa não terminada voou longe."

Olga Knipper, esposa de Anton Tchekhov.


Faz 100 anos que o fato narrado acima ocorreu. Tchekhov faleceu em 15 de julho de 1904 em Badenweiler, Alemanha.


(Observação final:

Prezados leitores do Literatus.

Voltando ao âmbito mortal, conto-lhes que, no mês passado, pedi à Andréa que não esquecesse dos 100 anos de Tchekhov. Não aceitaria que meu amado Literatus não fizesse nenhuma referência a meu amado escritor. Surpreendentemente, ela me repassou a tarefa. Não lembro se outro blogueiro já esteve escrevendo aqui e estou honrado e nervoso ao fazer este post. Para não cometer erros, consultei obras de Bóris Schnaidermann, Anatoli Korolev e Rubens Figueiredo, além do próprio Tchekhov, é claro. Espero não ter-lhes decepcionado.

Milton Ribeiro)



Observação final 2: É só para agradecer ao meu amigo querido, Milton Ribeiro, por um dos melhores posts que já li. Milton, muito obrigada pela generosidade de escrever esse post, viu?

Poesia Erótica




Sob o chuveiro amar

Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos, bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo -- é água,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fontes?

Carlos Drummond de Andrade




Amor

Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
essa perna é tua?, esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente á tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,também a terra morre.

Eugenio Andrade





E por que haverias de querer...

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

Hilda Hilst




Quero lhe beijar a boca

Quero lhe beijar a bocamorder seus lábio
se brincar sua língua na minha.
Quero lhe beijar a nucalhe arrepiar inteiro
encostar meu peito no seu
até os corações se compassare
mas mãos entrelaçadas suarem.
Quero um abraço eterno
de guardar seu cheiro na minha pele.
Quero me queimar no seu fogo
e guardar pra sempre a cicatriz escarlate
desse nosso encontro.

Léa Waider





Mistério

O mistério começa do joelho para cima.
O mistério começa do umbigo para baixo
e nunca termina.

Affonso Romano de Sant'Anna




Elogio do pecado

Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza

você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa

Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nadar
e torna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.

Bruna Lombardi




Beijo

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no de abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mas beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
E dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.

Jorge de Sena



Corpo adentro

Teu corpo é canoa
em que desço
vida abaixo
morte acima
procurando o naufrágio
me entregando à deriva.

Teu corpo é casulo
de infinitas sedas
onde fio
me afio e enfio
invasor recebido
com licores.

Teu corpo é pele exata para o meu
pena de garça
brilho de romã
aurora boreal
do longo inverno.

Marina Colasanti




Leia: http://www.utopia.com.br/erotica/
FELA KUTI




Na noite de 18 de fevereiro de 1977, mil soldados do exército nigeriano montaram cerco a um conglomerado de casas conhecido como República de Kalakuta, lugar nos arredores de Lagos. A missão era calar o maior popstar africano: Fela Kuti.
Não é difícil entender o motivo de tamanha antipatia que o músico causava nos governantes, a ponto de destacarem um batalhão inteiro do exército para caçá-lo. Dono de uma personalidade que misturava o comprometimento político de Bob Dylan e a extravagância de Mick Jagger, Fela fazia de tudo para antagonizar e denunciar as brutalidades cometidas pelo regime militar que controlava a Nigéria nos anos 70. Sua arma mais poderosa era o afrobeat, gênero musical de invenção própria que mesclava ritmos tribais e elementos do jazz e funk americanos. Dos Estados Unidos também vinha a influência de Malcom X e dos ideais afrocêntricos espalhados pelos militantes dos Panteras Negras.
Com títulos sugestivos como Vangabundos no Poder, as músicas de Fela ridicularizavam os militares e a elite nigeriana, que cada vez mais exploravam os pobres e macaqueavam o modo de vida ocidental. O músico, é claro, discordava de tudo isso e fazia muito barulho para engajar o povo na luta por uma África livre de miséria e corrupção.

No auge de sua rebeldia - e megalomania -, Fela juntou seus seguidores e fundou a república de Kalakuta, declarando-a independente da Nigéria. O lugar, um conjunto de casas pintadas de amarelo e cercadas por arame farpado, tornou-se o lar perfeito para o retorno às raízes africanas que Fela tanto buscava em suas canções. O músico passava a maior parte dos dias sentado em m um trono, vestindo apenas uma tanga e fumando baseados de maconha egípcia que impressionavam pelo tamanho. Para completar, casou-se com 27 mulheres de uma só vez, em uma cerimônia tribal que faria inveja a qualquer rockstar americano.

Apesar do discurso contra a repressão militar, Fela tinha idéias próprias de como deveria ser a liberdade dentro de sua república e se mostrou um homem rigoroso com quem ousasse sair da linha. Para os homens, a punição vinha na forma de golpes de um cajado de madeira, aplicados sem pena pelo próprio músico, enquanto as mulheres desobedientes eram confinadas em uma pequena prisão. No entanto, nada disso parecia contraditório para o povo nigeriano, que tinha em Fela um herói nacional.

A paciência do regime militar, porém, tinha limites, o que nos traz de volta à noite de 18 de fevereiro de 1977. Enraivecidos com a pregação antimilitarista do músico, os governantes resolveram dar um fim na república. Em uma operação de cinco horas, os soldados invadiram o lugar, espancaram os homens e estupraram as mulheres. Sobrou até para a mãe de Fela, que foi arremessada do segundo andar de um prédio. Gravemente ferida, ela morreria meses depois.

Com uma fratura no crânio, Fela viu sua república em chamas enquanto era levado preso pelos soldados. Depois de um período de exílio em gana, o músico retornou à Nigéria. Durante os anos que se seguiram, Fela continuou a desafiar os militares e voltou para a cadeia algumas vezes, até que no dia 2 de agosto de 1997, morreu vítima da aids.
Um milhão de pessoas foram ao enterro, preparado com honras militares. Ironicamente, o mesmo regime que o caçou por toda a sua vida decretou quatro dias de luto oficial.



Leia: http://www.felaproject.net/
http://www.superinteressante.com.br







E cada vez que eu fujo, eu me aproximo mais
E te perder de vista assim é ruim demais

Quem de Nós Dois – Ana Carolina



Do teu retorno
Só do silêncio
Nem uma resposta pra dar
E do corpo as pernas
Sempre cruzadas
Pra vida, nada a declarar

Tão longe de mim
Olhos a milhas
Ilhas distantes
Nunca mais te vi
Nenhum lugar te interessa

Sem Saudade - Cazuza






I've got you under my skin
I've got you deep in the heart of me
So deep in my heart that you're really a part of me
I've got you under my skin.

Frank Sinatra – Under my skin







Às vezes eu quero chorar
mas o dia nasce e eu esqueço
meus olhos se escondem
onde explodem paixões
e tudo o que eu posso te dar
é solidão com vista para o mar
ou outra coisa para lembrar
às vezes eu quero demais
e nunca sei se eu mereço
os quartos escuros pulsam
e pedem por nós
e tudo o que eu posso te dar
é solidão com vista para o mar
ou outra coisa para lembrar
se você quiser eu posso tentar mas
eu não sei dançartão devagar para te acompanhar

Eu não sei dançar - Alvin L.












"all the lonely people
where do they all come from?
all the lonely people
where do they all belong?"

Eleanor Rigby - Lennon/McCartney





E já nem sei o que vai ser de mim
Tudo me diz que amar será meu fim
Que desespero traz o amor
Eu nem sabia o que era o amor
Agora sei porque não sou feliz

Canção Do Amor Demais - Tom Jobim / Vinicius de Moraes






É uma saudade tão doída de você
Que eu não sei mais nada, não.
E é isso aí sempre que o amor não pode ser,
Sempre que a distância pode mais que o coração.

As Razões do Coração – Toquinho







Agora era fatal que o faz de conta terminasse assim,
Prá lá desse quintal era uma noite que não tem mais fim.
Pois você sumiu no mundo sem me avisar,
E agora eu era um louco a perguntar:
O que é que a vida vai fazer de mim?

João e Maria – Chico Buarque




Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia

Todo o Amor Que Houver Nessa Vida - Cazuza



Ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar
Ando tão à flor da pele que teu olhar pela janela me faz morrer
Ando tão à flor da pele que meu desejo se confunde com a vontade de não ser
Ando tão à flor da pele que a minha pele tem o fogo do juízo final

Flor da Pele - Zeca Baleiro




When the night has come
And the land is dark
And the moon is the only light we'll see
No I won't be afraid
No won't be afraid
Just as long as you stand, stand by me


Stand by me - John Lennon




Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber
Que o pra sempre
Sempre acaba?

Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém
Só penso em você
E aí então estamos bem

Por enquanto - Legião Urbana




* Esse post vai para o meu amigo querido, Tchello, que fez uma versão belíssima de "When doves cry". Simplesmente não consigo parar de ouvir.
Cecília e Fernando



Quase duas horas de espera. Era dezembro e a noite estava gelada. Ele não apareceu. Na verdade, eles jamais iriam se conhecer. Naquele dia os astros desaconselhavam tal encontro, diriam depois no meio literário.
Pela descortesia, ela recebeu dele um livro, era Mensagem e trazia a seguinte dedicatória:


A Cecília Meireles, alto poeta, e a Correia Dias,
artista, velho amigo e até cúmplice (vide "Águia" etc....),
na invocação de Apolo e de Atena,

Fernando Pessoa
10-XII-34.




Em outubro de 1934, Cecília Meireles estava em Lisboa com seu primeiro marido, Fernando Correia Dias, em missão jornalística, ela como cronista, o marido como ilustrador. Cecília era uma jovem e promissora poeta e Fernando já absorvia os frutos da publicação de seu livro Mensagem.
O casal ficou 60 dias por lá e nesse tempo, ela não conseguiu conhecer o poeta de quem seria a grande divulgadora no Brasil: Fernando Pessoa.


Há quem veja na obra de Cecília alguma influência de Pessoa e sobre isso, a poeta falou certa vez, em entrevista:


"Eu creio bem que intimamente nos pareçamos, como se parecem as pessoas de origem comum. Não só descendemos ambos de açorianos, o que é uma psicologia especialíssima, como tivemos ambos grandes mergulhos na literatura inglesa. Ele até escreveu em inglês. E esses mergulhos já vinham, a meu ver, tanto nele como em mim, por uma necessidade que se poderia chamar talvez de 'insular' - um sentido de separação, de ausência, de mar em redor... E por todos esses motivos, você sabe que os açorianos, os irlandeses, os celtas são criaturas tão de sonho que estar acordado já é um grande sacrifício... Tanto ele como eu nos aproximamos de investigações místicas e mágicas do mundo. Ele chegou mesmo a ser astrólogo de renome, segundo ouvi dizer. Eu, apenas fiquei pasmada diante das feitiçarias do mundo."




E como disse o sábio Vinicius de Moraes: "a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida". E nesse caso, o desencontro entrou para a história.