Quem for de Sampa vem Aqui vem, juntinho comigo... ;)



Metamorfose ambulante talvez seja o que melhor defina o Raul. Uma metamorfose que sabia bem o que queria do que gostava e se abria sempre a tudo que era novo e bom.
Não limitou sua vida a três acordes, na verdade acordou o mundo com músicas, frases que estavam além do tempo e da própria vida.



"Somos prisioneiros da vida e temos que suportá-la até que o último viaduto nos invada pela boca adentro e viaje eternamente em nossos corpos".

*livro- Baú do Raul.




"Foi no ano de 1945 a 28 de junho, em uma tradicional família de Salvador que nascer Raul Santos Seixas, filho de Dona Maria Eugênia e do engenheiro Raul Varella Seixas, Raulzito foi educado conforme o conservadorismo das famílias de classe média da Bahia.

Desde os sete anos Raul já se questionava sobre coisas como o fim do mundo, a volta de seu espírito em outros corpos, o julgamento final. Seu pai gostava de ler para ele livros sobre assuntos metafísicos. O que mais lhe marcou foi o livro Dos Por Quês. Mas, na adolescência de Raul Seixas - 1958 - Rock 'n Roll era música para empregadas domésticas e caminhoneiros."


Esse foi o início de sua história, uma história repetida a exaustão pelos sites da net. Se ainda não conhecem basta visitar o site oficial ou mesmo fazer uma busca que muitas páginas sobre o assunto virão. Eu recomendo a leitura do Baú do Raul. Foi ali que entendi um pouco desse cara, da grande cultura e inteligência que possuía, do ser incompreendido que foi, que falava de sociedade alternativa quando a própria sociedade só se sabia burguesa ou não. O livro revolve aquela angústia existencial que cada um tem ou deveria ter vivendo num mundo feito para linha de produção humana, onde todos vestem uma marca, cortam os cabelos de acordo com as tendências e esperam ansiosos as novidades da coleção primavera-verão européia.


(...)

"Mas, na verdade, eu gosto de saber das coisas por antecipação, mas este saber antecipado me cansa, me deixa prostrado diante das portas fechadas que eu já sabia que não iriam se abrir para mim! Minha existência caminha muitos anos à frente do meu corpo, e é justamente meu corpo frágil, magro, esquálido e desprovido de reservas de energia que tem que suportar as demandas da mente atribulada, terrivelmente neurotizada pela civilização".

*Livro- Baú do Raul - pág.25.




No Baú, espécie de diário como esses que agora todos colocam na web, Raulzito fala de seus ídolos, política, da vida, essa mutante constante alterando corações e mentes e nos deixa a semente da incerteza. Melhor assim, porque como ele, quero sempre o benefício da dúvida, ainda que me entupam de certezas que não são minhas.

Ciao

andrea augusto©angelblue83




Leia: http://www.raulseixas.com.br/
* Transcrevi algumas passagens do Baú do Raul, ao copiar cite a fonte, plis.
O meu querido amigo Milton lembrou, citou e deu vontade de colocar aqui.



Eu te amo


Ah, se já perdemos a noção da hora,
Se juntos já jogamos tudo fora,
Me conta agora como hei de partir?

Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios,
Rompi com o mundo, queimei meus navios,
Me diz pra onde é que inda posso ir...

Se nós, nas travessuras das noites eternas,
Já confundimos tanto as nossas pernas,
Diz com que pernas eu devo seguir...

Se entornaste a nossa sorte pelo chão,
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu...

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu...

Como, se nos amamos feito dois pagãos,
Teus seios inda estão nas minhas mãos,
Me explica com que cara eu vou sair?

Não, acho que estás te fazendo de tonta,
Te dei meus olhos pra tomares conta,
Agora conta como hei de partir...


Chico Buarque

Essa é minha, pra você, quem quer que seja, onde quer que esteja,
só quero que me queira, na hora que a gente se ver...



Em 25 de novembro de 1974, uma segunda-feira, passava de meio-dia e Nick ainda não havia acordado. Sua mãe preocupada foi ver o que tinha acontecido. Encontrou Nick morto, vitima de uma dose fatal de Tryptizol. Suicídio, acidente? Nunca se soube ao certo. Ficou o mito. Ficou o cantor de folk de voz suave e letras profundas, daquelas que fazem pensar, um poeta de 1,90 de altura, incômodos ombros largos, um corpo esquio, uma tristeza constante.

Nicholas Rodney Drake, que nasceu em 19 de junho de 1948 em Ragoon, Birmânia, desde de sempre trouxe consigo um sentimento de inadequação, de estar sempre no lugar errado, de não querer estar, na verdade. Já se sentiu assim? Bem-Vindo ao clube! Outsiders, é assim que nos chamam, era assim que ele se sentia.
Proveniente de família rica, Nick estudou nos melhores colégios da Inglaterra. Aos oito anos ele foi estudar na Eagle House School, ficando lá até 1961, quando foi para Marlborough, uma das mais respeitadas escolas daquele país. Foi nessa época que Nick iniciou seu contato com a música, aprendendo a tocar clarineta, sax alto, piano e violão. Este último quem o ensinou foi um amigo, que disse que em uma semana Nick já era melhor do que ele. Nesse período ele se destacava como atleta, e a sua personalidade forte e a sua bela voz o fizeram se destacar no coral, na posição de figura principal do mesmo.
Com o passar do tempo e os conhecimentos certos, Nick aventurou-se no mundo da música. Seu primeiro álbum vendeu relativamente bem e ele se sentiu animado a prosseguir. Continuou compondo músicas de uma beleza comovente.


Saturday Sun came early one morning
O sol de sábado apareceu cedo em uma manhã
In a sky so clear and blue
Em um céu tão claro e triste
Saturday Sun came without warming
O sol de sábado veio sem aviso
So no-one knew what to do
E ninguém soube o que fazer
Saturday Sun brought people and faces
O sol de sábado trouxe pessoas e rostos

That didn't seem much in their day
Eles não entenderam o que fazer neste dia
But when I remember those people and places
Mas quando eu me lembro dessas pessoas e lugares
They were really too good in their way
Eles eram muito bons do jeito deles
In their way
Do jeito deles
In their way
Do jeito deles
Saturday Sun won't come and see me today
O sol de sábado não veio me ver hoje

Think about stories with reason and rhyme
Pensando a respeito de estórias com razões para rimar
Circling through your brain
Rodando dentro da sua cabeça
And think about the people in their season and time
E pensando a respeito de pessoas e suas razões e tempo
Returning again and again
Voltando mais e mais
And again
E de novo
And again
E de novo
And Saturday's sun has turned to Sunday rain
E o sol de sábado se transformou na chuva de domingo

So Sunday sat in the saturday sun
E o domingo se pôs no sol de sábado
And wept for a day gone by.
E chorou até o dia passar

Nick Drake



Na década de 70, Nick lança seu segundo álbum, complexo, dos arranjos às letras. Não foi bem recebido e conseqüentemente o sucesso esperado não veio. Nick já manifestava alguns sintomas da depressão que o acompanharia até a morte, aos 26 anos. Antes porém lançou seu último álbum, Pink Moon, só com voz e violão. Em seguida veio o colapso nervoso e o isolamento.

"Você não tem nada a temer / Porque os sonhos que você teve quando era tão jovem / Falavam de uma vida / Onde a primavera já passou". Cello song



Nick é um grande mistério até hoje. Sua casa continua na rota da peregrinação cult, seus discos são impossíveis de encontrar. Para escutá-lo, a posologia é a seguinte: esteja bem, esteja feliz, deite-se em algum lugar tranqüilo, se você estiver nos arredores de Londres, no sul da França ou em Terê, quem sabe, deite-se na grama e olhe o céu azul frio ensolarado de um dia de outono e só então escute Nick Drake e sua melancolia, seus versos precisos como em "Fly": "Por favor, conceda-me uma segunda graça / Por favor, conceda-me uma segunda face / Eu caí muito desde a primeira vez / E agora eu só sento aqui no chão, no seu caminho".
Ou ainda: "Know": "Saiba que eu te amo / Saiba que eu não ligo / Você sabe que eu lhe vejo / Você sabe que não estou lá"

Infelizmente ele não está mais aqui.


* Esse post é dedicado ao amigo Tchello Palma, um cantor maravilhoso que me deu "Fly" entre outras músicas, cantadas por ele. Lindo presente, Tchello ;)

Leia: http://www.no.com.br/revista/noticia/21662/990241229000
http://www.whiplash.net/forceframe.html?/especiallist.mv?rec=60
Escute:
http://inicia.es/de/hormigo55/lalunarosaesp.htm

A maior pena que eu tenho, punhal de prata, não é de me ver morrendo, mas de saber quem me mata. O que se desatou num só momento, não cabe no infinito, e é fuga e vento...

Carlos Drummond de Andrade




"Quanto mais juntos, tanto mais sozinhos...
Mas, nem sequer ouviste o que eu não disse...
Sem nunca ter começo, teve fim...
O que de olhos abertos eu não via... "

Guilherme de Almeida




"Falo de mim porque sinto vergonha. Momentos assim, momentos como este. O tempo cura. Mas se o tempo for a doença? É como se às vezes tivéssemos que nos pendurar para continuar vivendo. Para viver, um olhar basta...
Engraçado, não sinto nada. É o fim e eu não sinto nada...
Todos que conheci, que ficam e ficarão na minha cabeça. Começa e sempre termina. Foi bom demais.
Enfim fora, na cidade, saber quem sou, em quem me tornei.
Estou ciente demais para estar triste. Esperei uma eternidade para ouvir uma palavra de carinho. Então, fui viajar. Alguém que me dissesse "Amo você" seria maravilhoso.
Vejo o mundo se desvendar diante dos meus olhos. Enche meu coração. Quando criança queria viver numa ilha. Mulher sozinha, gloriosamente só."

Asas do Desejo - Win Wenders



Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen




Soneto

E quando nós saímos era a Lua,
Era o vento caído e o amor sereno
Azul e cinza-azul anoitecendo
A tarde ruiva das amendoeiras.

E respiramos, livres das ardências
Do sol, que nos levara à sombra cauta
Tangidos pelo canto das cigarras
Dentro e fora de nós exasperadas.

Andamos em silêncio pela praia.
Nos corpos leves e lavados ia
O sentimento do prazer cumprido.
Se mágoa me ficou na despedida

Não fez mal que ficasse, nem doesse -
Era bem doce, perto das antigas.


Rubem Braga - (1947)



"Até quando terás, minha alma, esta doçura, este dom de sofrer, este poder de amar, a força de estar sempre - insegura - segura como a flecha que segue a trajetória obscura, fiel ao seu movimento, exata em seu lugar...?"

Cecília Meireles




"Recompôs-se, brusco. Não, melhor não falar nada. Admitia que não conseguisse controlar seus pensamentos, mas admitir que não conseguisse controlar também o que dizia lançava-o perigosamente próximo daquela zona que alguns haviam convencionado chamar loucura. E essa era a primeira vez que se descobria assim, tão perto dessas coisas incompreensíveis que sempre julgara acontecerem aos outros - àqueles outros distanciados, melancólicos e enigmáticos, que costumava chamar de os sensíveis -, jamais a ele. Pois se sempre fora tão objetivo. Suportava apenas as superfícies onde o ar era plenamente respirável, e principalmente onde os sentidos todos sentiam apenas o que era corriqueiro e normal sentir. Subitamente pensava e sentia e dizia coisas que nunca tinham sido suas. Então, admitiu o medo. E admitindo o medo permitia-se uma grande liberdade: sim, podia fazer qualquer coisa, o próximo gesto teria o medo dentro dele e portanto seria um gesto inseguro, não precisava temer, pois antes de fazê-lo já se sabia temendo-o, já se sabia perdendo-se dentro dele - finalmente, podia partir para qualquer coisa, porque de qualquer maneira estaria perdido dentro dela".

Caio Fernando Abreu, in O Ovo Apunhalado







Leminski




Que atire a primeira ombreira aquele que esta na faixa dos seus 30/40 anos não lembra com saudades da década de 80. Impossível.
Tudo aconteceu nessa década e os jovens, esses sentem saudades do que não viveram. Curtem nossos ídolos que já morreram e descobrem pasmos que depois dos anos 80 pouca coisa aconteceu digno de se tornar inesquecível.
O rock Brasil explodia. Nunca em tempo algum tantos conjuntos surgiram. Uma verdadeira safra musical de estilos variados. Barão, Legião, Cazuza, Blitz, Ultraje, Titãs, Gang 90, Zero (alguém lembra do Guilherme Isnard?), Paralamas, Kid Abelha, João Penca, Plebe Rude, Capital Inicial, Heróis da Resistência, Bikini Cavadão, Lobão e os Ronaldos, Lulu Santos, Radio Táxi, Sempre Livre etc. Eram muitos. Alguns ficaram pelo caminho, outros resistem ate hoje e poucos tentam retornar com velhos sucesso. Melhor seria se ficassem apenas nas lembranças mais generosas dos fãs.
O rock internacional não fazia feio, ainda que a nostalgia nos faça lembrar do que era ruim achando o máximo. Essa mesma década nos deu bandas como: U2, The Cure, The Pretenders, Cult, Smiths, Jesus and Mary Chain, R.E.M., Tears for Fears (Tias Fofinhas, lembram? rs) Isso sem falar em Michael Jackson, Madonna, Eurythmics, Cindy Lauper, Aha, entre outros. Escrevendo esses nomes, consigo entender a minha adoração pelos dinossauros do rock/punk, Clash, Deep Purple, Rush, Rolling, Black Sabbath, Led Zeppelin, Pink Floyd, Doors, Ramones, Janis, Hendrix etc. Mas isso é outra história. Naquela época qualquer pré-adolescente explodia os pulmões aos berros cantando: Boys Don´t Cryyyyyyyy e achava o máximo. Eu não era diferente.

Sem idade suficiente para entrar nos lugares que só muito mais tarde fui conhecer, como Crepúsculo, Dr. Smith e Mariuzin (um cubículo maravilhoso em Copa), ficávamos pelo Baixo Leblon com uma turma bem mais velha que a gente e pasmem, não existiam pit boys, nem babaquices do gênero. Nessa época, a rebeldia era vestir-se de preto, pintar a unha da mesma cor e fazer o gênero "a vida não tem sentido". Foi aí que comecei a usar essa cor, típica punk de butique, tinha até conta na Boys and Girls. Até hoje o armário tem variações sobre o mesmo tom, rs. Desse tempo, além da cor, trago o gosto pelo rock dos anos 70 e as motos. Caso à parte e influência de um amigo, o Jean, dono de uma lojinha de tatuagem numa galeria imunda da Senador Vergueiro. Grande figura, estilo easy rider, motoqueiro, cheio de atitude, nada fake, ele era assim, não poderia viver de outra maneira. Dele herdei essa paixão pelo vento na cara, coisa que anos mais tarde, quando o primeiro namoradinho aconteceu, viveria plenamente, com direito até a queimadura na batata da perna.
Mas por que esse papo, logo eu que nunca ou quase nunca falo de mim nesse blog?
Saudade, muita saudade e essa saudade tem nome: CAZUZA. Pois é, vi o filme.

Antes de entrar nesse assunto, preciso abrir um parêntese por aqui.
Lembro que quando fui assistir o filme "The Doors", sai do cinema com vontade de jogar tudo para o alto, horários, vidinha previsível, aqueles dias que se somavam em horas, meses, anos, queria da vida o último gole e nem foi um grande filme. Cinema tem dessas coisas, ali no escurinho, olhos vidrados, telona, tudo a volta toma corpo e a atmosfera da época ao som de muito rock te envolve e convida a viver. Nunca mais senti isso, até ver o filme sobre a vida de Cazuza. Ver os bastidores da vida dele, enxergando ali a dimensão exata do que é viver até os limites da impossibilidade. Sai do filme me sentindo pequena, funcionária pública, burocrata de uma vidinha insossa. Ok, é over, concordo, mas a porrada, quando se tem de levar uma, que seja de frente, bem no meio da cara. É assim que gostos das minhas.
Não vou entrar no mérito da produção, nem falar no modo como a história foi contada, seus erros e acertos, nada. Hoje o papo é outro.
Falar de Cazuza é falar do tempo, esse tempo que não pára, mas que poucos têm a noção exata disso. Poucos levam a vida como se ela realmente pudesse acabar amanhã, e pode. Vivemos como se fossemos eternos. Na urgência do momento, ele, remanescente da ditadura dos anos cinzas, vê no processo criativo a maneira de dar forma ao grito preso na garganta. Talvez um dos motivos dos anos 80 serem tão fecundos tenha sido esse, a possibilidade de falar, de dar voz aos pensamentos. E ele deu, alias, ele nos deu, principalmente quando sua vida se extinguia, quando era patente que o tempo enfim pararia.
E parou, não para ele que certamente deu linha na pipa e esta curtindo em outro lugar, parou para nós mesmos que nunca mais teremos os anos 80 ou um equivalente a Cazuza no cenário musical brasileiro
Continuamos a vidinha de sempre olhando a cara da morte sem saber como resgatar a vida.



*republicando.





Ainda outro dia no jornal, a matéria de capa perguntava pelos nossos ídolos. E lá mesmo numa constelação de nomes estava a resposta, a grande maioria morreu, o que sobrou, se enquadrou, envelheceu, os que estão surgindo não possuem o estofo necessário para serem ídolos, a não ser de si mesmos. Cansa. Faz tempo que o dia não nasce feliz. Faz tempo que a geração cara pintada não vai as ruas, não bate panelas, não tem uma ideologia que os faça lutar. Que nos faça lutar. O tempo não pára. Foi-se a urgência de vida, já sabemos que ninguém tem "uma vida toda pela frente" e às vezes o tempo é pouco pra tanta sede. Não disse Janis certa vez: "É preferível viver 10 anos intensamente à 70 anos vegetando na frente de uma televisão." Ele não teve nem 10 anos de carreira, foram exatos 9 anos e a eternidade pela frente.

O que há para dizer de Cazuza que já não foi dito. Que ele era um poeta, um letrista fantástico, um burguês bem nascido que sabia que no Brasil ainda se morre de fome? Tudo isso e muito mais já foi dito, contado e cantado. Mas só entende quem perdeu, quem vê o tempo passar, quem tem a angústia de viver uma vida com as horas contadas, distribuídas regularmente ao longo da semana. Quem tem agenda e sabe que muito provavelmente a consulta marcada vai se realizar. O tédio da rotina, das coisas certas e acertadas. O prazo e a data. Ele não. Ele virava a noite, o dia nascia e ele ia dormir.


No one

Quem deve ser eu e aonde deve estar você, meu amor?
eu poeta afogado em rima sem gosto de vida
e você a vida rindo pra mim, ainda que invisível?
a vida feia em você e eu pintor visionário
tentanto retocar o que é cruel mas pulsa e faz sentido?

Mas certo que eu seja um romântico anacrônico
e você um trem que por distração eu tenha perdido.
(o tempo não espera por ninguém e já foi tudo dito)

Cazuza -1981



O poeta faria 46 anos em 04/04/04, certamente chegaria na madrugada da semana seguinte com letras, amigos e todo um tempo pela frente.
Cazuza viveu o amor até a última gota e isso não é uma questão de opção sexual, isso pouco importa, cada um tem a sua, é uma questão de optar por viver e se entregar e-x-a-g-e-r-a-d-a-m-e-n-t-e. Mergulhar de cabeça, se arrebentar todo e lamber as feridas num canto. Cauterizar palavras, cicatrizar e se jogar de novo e de novo e sempre, num espaço azul céu fictício de uma boca qualquer.



Brigitte Bardot

Deus é amor sem segredo
nos olhos do cachorro
e a todo animal que ele quis que visse
sua obra já pronta.
Morro de medo dos teus olhos sem palavras
bigorrilhos, duques e xerifes
porque me viciei em sons codificados
porque eu sei que amar é abanar o rabo
lamber, latir e dar a pata.

Cazuza -1978



A setença de morte veio e ele se recusava a morrer. A criatividade transbordava e o corpo definhava. Antítese de si mesmo em vida e na agonia. Continuava caústico como sempre e ironizava como nunca.
Jamais seria santo e cantou o Céu e Inferno a sua maneira, "O reino dos Céus é do chato/ Do chato, do chato/ Do otário e do cagão".
"Se você quer saber como eu me sinto/ Vá a um laboratório ou num labirinto/ Seja atropelado pelo trem da morte/ Vá ver as cobaias de Deus (...) Nós somos as Cobaias de Deus."



Fase

Depois que eu descobri que era triste
as tardes ficaram mais azuis
eu descobri. Eu sou triste
depois que eu levei porrada
que os urubus se mostraram
depois da ingenuidade
entrei numa fase estranha
não reviro cores
não explodo a luz
estou sentado esperando
como os velhos palhaços do blues
o namorado que levou um bolo
um garoto perdido dos pais.

Cazuza - 1988



O século XXI caiu nos anos 80, os ídolos chegaram, deram seu recado e como o mundo anda se repetindo demais, é tudo a mesmice de sempre, puxaram o carro, foram para outro lado. Por aqui ficaram as histórias, os lugares, um tempo na memória, o resto está impresso no vinil da vida que teima em continuar...



Lembre-se de mim


Se você ver um par de sapatos, um pra cima outro pra baixo
Ou um surfista elegante, de sociedade
Se você sentir que está ventando demais e não tiver agradável
O vento que tava tão bom
Então se lembre de mim
Com minha hipocrisia
Um amor como o nosso está fadado a acabar
E eu já não tenho mais fôlego pra soprar a fogueira
Você parece uma barata tonta, envenenada por Rodox
E teu barato tá muito descoordenado
E desse jeito não vai dar
Então se você ver um tarado na escada
Lembre-se de mim
Um vira-lata emocionado
Lembre-se de mim
Lembre-se de nós e a nuvem alaranjada
Lembre-se do nosso amor
Com as decisões que tomamos juntos
Das nossas músicas malucas
E esse talento de tomar a cena de assalto
Pagamos o preço, por não sermos medíocres
E gargalhamos de tudo
Lembre-se disso quando for falar mal de mim
Quando me atacar pelas costas
Lembre-se da nuvem e da luz
Alaranjada do lustre do quarto


Cazuza - 1989






Leia: http://www.cazuza.com.br/cazuza.htm
http://www.legiao-urbana.com.br/cazuza/index.htm


* Vi o filme do Cazuza ontem e por uma dessas coincidências malucas, reencontramos o Cebola, um amigo dos tempos do baixo. Dono do último posto de gasolina antes de se subir em direção a Lagoa-Barra. Posto São Sebastião, que em breve deixará de existir também, contou-nos triste. Foi vendido. Se tudo se concretizar, vamos ter um prédio ali.
Não parecia que anos tinham se passado. Incrível. Abraço apertado, recordações mútuas, algumas dele, outras nossas e o filme, com todas músicas, passagens e paisagens que conhecíamos e hoje já não estão mais lá.
É, o tempo não pára, foi só o que pensei, qdo ele se afastou de moto pra dentro da noite...

"A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contato: de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é: "eu te desejo", e libera-lo, alimenta-lo, ramifica-lo, fazê-lo explodir ( a linguagem goza de tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação."

Roland Barthes


Apelo

Porque não vens agora, que te quero,
E adias esta urgência?
Prometes-me o futuro, e eu desespero.
O futuro é o disfarce da impotência...

Hoje, aqui, já, neste momento
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento...
O desejo é o limite dos mortais.

Miguel Torga, in "Antologia Poética"



"Parece que existe no cérebro uma zona específica, que poderíamos chamar memória poética, que registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à nossa vida... o amor começa no momento em que uma mulher se inscreve com uma palavra em nossa memória poética."

"A Insustentável Leveza do Ser", de Milan Kundera


"Ele parece não ter noção de seu poder. Para mim que penetro no segredo de meu coração, fica claro que até hoje não escrevi uma só linha que ele não tenha inspirado. Não vejo nada, não ouço nada, sem imediatamente pensar: O que diria ele?
Abandono minha emoção e conheço apenas a sua. Parece-me mesmo que, se ele não estivesse aqui para me definir, minha própria personalidade se desfaria em contornos vagos; não me reúno nem me defino, senão em torno dele. Por qual ilusão pude acreditar até hoje que o formava a minha semelhança ? Ao passo que, ao contrário, era eu quem me dobrava à sua, e não me apercebia! Ou melhor: por um estranho cruzamento de influências amorosas, nossos dois seres, reciprocamente, se deformavam. Involuntariamente, inconscientemente, cada um de dois seres que se amam molda àquele ídolo que contempla no coração do outro..."

Andre Gide - livro Moedeiros Falsos



"...Só tu tens o poder de me entristecer, de me fazer feliz ou trazer consolo; és tu o credor de enorme dívida, especialmente agora, quando acabo de cumprir tuas ordens de forma tão completa que, quando sentia em mim fraquejar as forças para fazer-te oposição, me comprazia em encontrar energia no teu plano para me destruir. Fiz mais. Por estranho que soe, meu amor atingiu tais atmosferas de loucura que se destituiu do que mais prezava, para além de qualquer esperança de recuperação, quando ao teu imediato comando troquei minhas vestes e com elas meus pensamentos para provar que és o único senhor do meu corpo e minha vontade. Deus é testemunha de que nunca busquei em ti nada além de ti; eras tu o que eu simplesmente desejava, e nada do que era teu. Não busquei laços de casamento, poção casamenteira, e não busquei gratificar meu próprio prazer e meus desejos, como bem sabes, mas os teus. O nome de esposa pode parecer mais sagrado ou aceitável, mas para mim a palavra mais doce sempre será amante, ou, se me permitires, concubina ou puta."

Trecho de uma carta de Heloísa a Abelardo - séc. XII


"Deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver nascer uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado... "

Caio Fernando Abreu - Para uma avenca partindo - O Ovo Apunhalado





"O ímpeto de crescer e viver intensamente foi tão forte em mim que não consegui resistir a ele. Enfrentei meus sentimentos. A vida não é racional; é louca e cheia de mágoa. Mas não quero viver comigo mesma. Quero paixão, prazer, barulho, bebedeira, e todo o mal. Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar em corpos, beber um Benedictine ardente. Quero conhecer pessoas perversas, ser íntimas delas. Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela. Eu estava esperando. Esta é a hora da expansão, do viver verdadeiro. Todo o resto foi uma preparação. A verdade é que sou inconstante, com estímulos sensuais em muitas direções. Fiquei docemente adormecida por alguns séculos, e entrei em erupção sem avisar."
Anais Nïn



"Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil."
Clarice Lispector


Deus, põe teu olho amoroso sobre todos que já tiveram um amor, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. " Caio Fernando Abreu




"Rogou a Deus que lhe concedesse ao menos um instante para que ele não partisse sem saber quanto o amara por cima das dúvidas de ambos e sentiu a premência irresistível de começar a vida com ele outra vez desde o começo para que se dissessem tudo o que tinha ficado sem dizer, e fizessem bem qualquer coisa que tivesse feito mal no passado. Mas teve que render-se à intransigência da morte."
Gabriel Garcia Márquez, em O Amor nos Tempos do Cólera



"Ninguém venha me dar vida, que estou morrendo de amor, que estou feliz de morrer, que não tenho mal nem dor, que estou de sonho ferido, que não me quero curar, que estou deixando de ser, e não quero me encontrar, que estou dentro de um navio, que sei que vai naufragar, já não falo e ainda sorrio, porque está perto de mim o dono verde do mar que busquei desde o começo, e estava apenas no fim. Corações, por que chorais? Preparai meu arremesso para as algas e os corais. Fim ditoso, hora feliz: guardai meu amor sem preço, que só quis quem não me quis."
Cecília Meireles, in "Ninguém venha me dar vida"





"Todos os dias, quando acordo, vou correndo tirar a poeira da palavra amor..."
Clarice Lispector