Contos do Rio: 'That old black magic'



Há dez anos, naquela mesma data, eles trocaram o primeiro beijo, que resultou num casamento feliz e no pequeno sapeca que dormia no quarto.

Decidiram comemorar. E apesar de Ivete ter passado o dia estranhamente nervosa, para Bruno nada poderia atrapalhar aquela noite. Andando pela casa, checava se o ambiente estava ideal para juras de amor e sonhos de futuro: champanhe no gelo, meia-luz na sala, celulares desligados, Júnior dormindo como um anjo no quarto. Sim, tudo estava pronto.

Foi para a sala. Ivete estava sentada no sofá, quieta, olhando nervosamente para as mãos como uma criança que acabara de fazer uma travessura. Ele sorriu e se dirigiu ao aparelho de som.

— Hum, vejamos o que temos aqui... — disse, passando os olhos sobre os CDs colocados numa prateleira e fingindo escolher um. — Frank, meu velho olhos azuis, só poderia ser você.

Logo os primeiros acordes de “It had to be you” encheram a sala e Bruno pensou que nada poderia ser mais apropriado. Deixou-se enlevar por alguns segundos, até que um soluço incontido o fez voltar-se para Ivete, entre surpreso e enternecido.

— Ah, amor, não chore. Emocionada?

Ivete o encarou por alguns momentos e o choro aumentou. Bruno sentou-se a seu lado e tentou abraçá-la, mas ela se afastou. Olhando para o aparelho de som, ele disse:

— Frank, você não está agradando.

Ela se levantou e se dirigiu para a janela da sala, olhando sem ver o Cristo Redentor lá fora.

— Eu tenho algo para te contar...

Bruno estava surpreso e um pouco assustado.

— O que foi, meu amor?

Ela se virou e o fitou com os olhos transbordantes de lágrimas e aflição.

— Por que você quis se casar comigo? Por que me escolheu?

Bruno suspirou.

— Ora, amor, eu me casei contigo porque..., bem, porque... porque...

“Droga, essa me pagou desprevenido! Logo ela vai...”

Não deu para terminar o pensamento.

— Você não sabe, mas eu sei! — ela soluçou. — Eu sei... — e voltou a chorar.

Sentou-se no outro sofá e começou a falar.

— Você era o terror das mulheres, lembra, Bruno?

“Ai, meu Deus, pensei que ela já tinha esquecido”.

— Bem, admito que eu era um pouco namorador, sim...

— Você namorou todas as meninas mais bonitas e desejadas do bairro: a Lúcia, a Vanessa, a Carla, a Daniele, a Helena, a... como era o nome daquela ruiva, mesmo?

“Claudia”.

— Não me lembro, amor, faz tanto tempo...

— Não importa. Para mim, você nem dava bola, não me olhava de jeito nenhum...

Ela tornou a se levantar e deu as costas para ele, procurando o que olhar pela janela. Frank começou a cantar as primeiras estrofes de “Love and marriage”.

— Bruno, eu sempre te amei. Te amei da primeira vez que te vi. Mas era muito tímida, muito fechada, me achava feia. E você só tinha olhos para as bonitas, as alegres, as extrovertidas. Nunca imaginei que teria você para mim.

Bruno se recostou no sofá, a expectativa dançando nos seus olhos na voz de Sinatra.

— Comecei a sofrer por causa desse amor sem esperança, Bruno. Até que um dia, cheguei em casa chorando depois de tê-lo visto com a “ruiva”. Minha avó me viu chorando e me perguntou o motivo de tanta tristeza. E eu contei tudo para ela, que a razão de minha dor era um amor não correspondido. Lembro-me de que ela acariciou minha cabeça, sorriu e indagou: “Querida, se você está mesmo apaixonada, por que você não faz uma simpatia para conquistar o homem que ama?”.

Bruno arregalou os olhos, incrédulo, a boca levemente aberta.

— Eu não acreditava muito nisso — ela disse, e ele a viu abaixar a cabeça para logo em seguida voltar a encarar a janela à sua frente — Mas, estava tão triste, tão sem esperanças que, bem... eu fiz. Fiz exatamente como avozinha me ensinou a fazer.

Suspirando, ela continuou.

— Peguei um pedaço de papel branco e coloquei-o sobre um prato. Desenhei um coração do tamanho do fundo do prato, recortei o desenho e escrevi nas três primeiras linhas o seu nome. Nas outras três, escrevi meu próprio nome. Coloquei o desenho do coração no prato, derramei um pouco de mel sobre ele, juntamente com algumas pétalas de rosa branca... Depois, acendi uma vela branca bem no meio do prato, acendendo também as minhas esperanças de tê-lo, sempre pensando em você... Guardei o prato por sete dias. Depois, lavei as pétalas e coloquei-as dentro de um livro.

Bruno estava com uma expressão estranha no rosto.

— E o prato? O que você fez do prato?

— Deixei em um jardim onde existiam espinhos, como mandava a simpatia.

Havia um assim perto da minha casa...

— Sim, era o jardim do “seu” Almir... — ele murmurou.

— O que disse?

— Nada, amor, nada.

Ela voltou a suspirar e se virou para ele.

— Tudo o que sei é que, depois de um mês, você me chamou para ir ao cinema... e, bem... o resto você já sabe. Deus, eu já tinha me esquecido de tudo isso...

— E o que fez você se lembrar agora desta história toda?

— Ontem, quando eu estava arrumando a biblioteca, aproveitei para folhear alguns livros. Quando abri o “Cem Anos de Solidão”, vi as pétalas de rosa... e me lembrei de tudo! Ah, amor, me senti tão culpada! — afirmou, soluçando. — É por isso que você se casou comigo! Se não fosse a simpatia, se não fosse por aquela magia, nós jamais estaríamos aqui, juntos, esta noite!

Soluçando forte, ela foi para o quarto dos dois, fechando a porta atrás de si.

Justo na estrofe de “After you’ve gone”.

Bruno ficou sozinho na sala, pensativo. Mas não por muito tempo. Levantou-se e, deixando Frank cantando sozinho, dirigiu-se à biblioteca. Entrou, acendeu a luz e começou a procurar, entre seus próprios livros, uma edição que não via e folheava há muito tempo. Há dez anos, para ser exato. Depois de alguns minutos, “O pirotécnico Zacarias” estava em suas mãos e era ansiosamente folheado, até que as velhas pétalas de rosas brancas caíram de dentro do livro.

Ele se abaixou, pegou-as e puxou uma cadeira para sentar-se. As pétalas ressecadas em suas mãos o fizeram lembrar-se dos dias em que vivia amuado por não conseguir chamar a atenção da única garota que não conseguia conquistar. Dias em que poemas de amor o faziam suspirar e jurar que aquela metida da Ivete, que nunca olhava para ele, ainda seria dele. Dias em que arrumava qualquer desculpa para visitá-la e conseguir, talvez num acaso, romper as barreiras daquele coração feminino.

Houve um dia em especial que ele chegara de surpresa à casa de Ivete e não a encontrara; tinha saído com os pais. Convidado pela avozinha, entrou e, talvez influenciado pelo chocolate e pelos biscoitos caseiros, abriu-se com ela, sem citar o nome da neta. E a seguir ouviu uma espantosa sugestão:

— Se ama mesmo esta garota, por que não faz uma simpatia para conquistá-la?

Mesmo sem acreditar, ele a fez — afinal, não custava nada. Fez também “seu” Almir ficar 15 dias escondido atrás do muro de casa para descobrir quem estava colocando pratos sujos de mel no jardim. E, uma semana depois, sem muita esperança, ele convidou Ivete para ir ao cinema...

Bruno correu para o quarto. Testou a maçaneta. Não estava trancada. Abriu a porta e deparou-se com Ivete sentada na beira da cama. Ela se ergueu e se dirigiu a ele, envergonhada e triste.

— Bruno, eu... — mas foi calada por um abraço e um beijo apaixonado, que fizeram sua cabeça rodopiar, exatamente como dez anos atrás. Exatamente como sempre.

Bruno olhou ternamente para a esposa e, perdido em seus olhos, disse:

— Casei-me contigo porque você é a mulher da minha vida.

Novamente se abraçaram e se beijaram. Bruno pegou-a no colo.

— Amor, tenho algo para te contar... — disse sorrindo, ao colocá-la na cama — mas pode ser amanhã. — Notou a curiosidade no olhar da esposa e, antes que ela perguntasse o que era, beijou-a novamente. E ao mergulhar na imensidão do amor de ambos, ainda pôde ouvir Frank cantar, lá da sala:

“Darling, down and down I go, round and round I go In a spin, loving the spin I’m in, under that old black magic called love”.


Maurício Luz


** Os Contos do Rio têm sido uma surpresa agradabilíssima que o encarte Prosa e Verso, do Globo tem nos dado. Esse delicioso conto foi dica do amigo Carlos. Puxem uma cadeira, peguem um cafezinho e leiam, tenho certeza de que vocês vão gostar.




CURRICULUM

sem nexo
perplexo
circunspecto

apenas faço
ligeiros
reparos
no intelecto


Nasci em Jaguarão, fronteira leste do Rio Grande do Sul, no dia 21 de março de 1957. Faço poesia desde os treze anos de idade, influenciado que fui, inicialmente por um autor infanto-juvenil chamado Sérgio Antônio Raupp. Em 1985, apaixonado por uma pernambucana, vim morar na Paraíba, onde tenho duas filhas, Mariana e Mayra. Descasei ano passado, mas, já tinha descoberto há mais tempo que paixão é uma coisa e casamento é outra. Minhas primeiras publicações aconteceram nas colunas literárias do Jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, isso foi lá por 1975 mais ou menos. Fiz muito folheto mimiografado, viajei por aí, de carona, levando a minha poesia. Desde 1978, tenho uma militância política que iniciou-se no PCB e depois fui para o PT. Atualmente nào tenho nem quero outro partido, além do meu coração. Voto em Lula porque acredito que é possível construir uma sociedade mais humana. Votarei contra ele se um dia chegar à presidência e não corresponder às expectativas do povo. Publico em diversos suplementos, revistas e jornais de poesia de várias partes do país. Por exemplo, O CApital, de Aracaju-SE; A Cigarra, de Santo André-SP; Telescópio, de Araçatuba-SP, Revista Blocos (RJ), Garatuja, de Bento Gonsalves, RS; Correio do Sul, de Varginha-MG (coluna do Zanoto) e muito soutros. Minha poesia também pode ser encontrada na internet, no site do Soares Feitosa (Jornal de Poesia), do Claudio Alex e da Tânia Regina (Mar de Poesia Diária), da Aninha Pozza (Castelo dos Sonhos) e outros, e outros... Tenho poemas em algumas antologias, como a "Mário Quintana 1985, publicada pelo Instituto Estadual do Livro do RS, Antologia da Poesia Paraibana Contemporânea, publicada pela Idéia Editora e pelo Sebo Cultural, mais recentemente, tive dois poemas incluídos na Antologia Mar de Poesia, publicado pela Editora MPD, SP. Em 1993, publiquei "O Comício das Veias", poemas meus e contos de Joana Belarmino. Em 1998, lancei "O Guardador de Sorrisos", meu primeiro livro individual, pela Editora Trema. Todos já esgotados (graças à Deus). Este livro recebeu o prêmio "Dom Quixote", do Jornal O Capital, de Aracaju. Ano passado esse prêmio foi para Leila Míccolis. Tenho alguma participação também como letrista, com parceiras registradas em três CDs de festivais de música. Dois deles aqui da Paraíba e um de Maringá, PR. Em outubro começa a ser gravado o CD do grupo Tocaia, a nova sensação da Música Paraibana, com 4 letras minhas. Se cabe no meu currículum, eu digo: Adoro Vivaldi. Tá bom, o resto é muito miúdo, aliás, mais do que isso aí de cima.

* entrevista na íntegra aqui




Síntese

que a morte
me encontre
embriagado
e que não ria
ao me ver
do outro lado




Felina

teu corpo
é linguagem pura
frágil refúgio
da minha loucura
metade prazer
metade tortura






Barulho

palavra
por palavra
minha úlcera
de verbos
tece aos poucos
a membrana
do silêncio





Abstração

busco palavras
no escaninho
da memória
e o poema
dorme ao lado
numa pose
transitória



Aos predadores da utopia

dentro de mim
morreram muitos tigres
os que ficaram
no entanto
são livres






Feliz Aniversário, Lau!






Blog: http://poesiasim.blogs.sapo.pt/
http://www.sara.fazib.nom.br/ls.htm
http://www.secrel.com.br/jpoesia/lsiqueira.html#interino
http://www.geocities.com/SoHo/Lofts/1418/lau.htm


Glauber: a rocha que voa num labirinto



Há 21 anos, Glauber Rocha nos deixou, no dia 22 de agosto. Eu nunca tinha visto alguém morrendo, nunca vira o momento misterioso da passagem. Em volta da cama de sua agonia, os amigos se agarravam como náufragos nas bordas de um barco que ia partir.

Estávamos assustados, porque o Glauber era o pulmão por onde respirávamos, o coração que batia por nós e que agora fraquejava. Ele estava ali, ignorando-nos, concentrado não sei em que filme interior, em que roteiro para as estrelas. Parecia mesmo um astronauta, coberto de fios e tubos de respiração. Subitamente, Glauber se ergueu, como se fosse acordar, ressuscitar, como num milagre. Mas era a última convulsão e ele se aquietou e flutuou para longe.

Vocês, jovens que me lêem, podem pensar: "Deixe de idealizações com esse tal de Glauber... Afinal de contas, todo mundo morre..." Mas, não é literatura; morria ali a mais rica síntese das idéias de uma época brasileira: melancolia com esperança, a romântica fome de salvar o País, unindo poesia e política.

Esta semana surgem dois filmes sobre o nosso "profeta alado": o filme de Silvio Tendler, O Labirinto Glauber, e o documentário de seu filho, Eryk, A Rocha Que Voa. Neles se vê muito dessa fome de entendimento e salvação, que os garotos de hoje não têm mais, por sabedoria e... ignorância. "O sujeito que morre fica logo desinformado...", pensei, ao sair da Clínica Bambina, quando ele morreu e eu vi que o "incessante e vasto universo" continuava mudando, ali em Botafogo, menos o Glauber, coitado. Glauber, desinformado como todo morto, não soube da democratização de 85, não soube de Tancredo, nem de Sarney, nem de Collor, nem daquele que Glauber apelidara de "nosso Errol Flynn", FHC, "o príncipe da sociologia", com uma ponta de ironia.

Glauber preferiu morrer, porque sacou que seu desejo de absoluto era impossível. Ele percebeu que não ia suportar o mercadinho em que nos vendemos, não ia suportar a mediocridade anunciada em suas antenas de profeta. "Ahh... loucura..." - dirão os analistas -, "ele tinha um narcisismo patológico, fazia uma idealização da revolução..." Tudo bem... mas ele conseguiu momentos em seus filmes em que a arte parece tocar o real na tela. Em Deus e Diabo e Terra em Transe ele conseguiu explicar o Brasil.

Há o momento seminal de Terra em Transe, onde ele sintetiza as forças brasileiras que estão além da mera luta de classes, as oligarquias com sua cobiça e sua estupidez. Ali, no clímax da zona geral, o povo dança e canta entre ladrões, pelegos , demagogos, polícia, Igreja, bacharéis, prostitutas, todos num emaranhado barroco que culmina com o Jardel Filho tapando a boca de um sindicalista burro e falando para a tela: "Vocês já imaginaram o 'povo' no poder?" Foi a maior porrada na sociologia simplista dos derrotados de 64, o que lhe valeu o ódio eterno daqueles que vêem os pobres como uma divindade intocável e não como destituídos e manipulados. Daquela seqüência, saíram o teatro de Zé Celso e o tropicalismo, se bem que Caetano já era um prenúncio pós-moderno e Glauber, o último dos torturados "modernistas".

Naquela seqüência de Terra em Transe, estava o País de hoje, nessa suja orgia pré-eleitoral. Seus filmes trouxeram a idéia da complexidade contra os dualismos fáceis. Ele não era o guerreiro radical que pensam hoje. Ele trouxe a sobredeterminação, a dúvida para as certezas fáceis, o choque dos contrários. Quem fez isso antes? Ele foi o primeiro a apontar as razões da derrota em 64, ele foi o primeiro a falar em alianças, e teve a coragem de tentar (oh, ingênuo patriota...) cooptar o poder militar para um projeto nacional. Desesperado com a burrice das esquerdas, paralisadas por dogmas, tentou o saudável sacrilégio de imaginar uma adesão de militares para a abertura que vinha com Geisel, para além de qualquer vitimização rancorosa e masoquista. As patrulhas só faltaram empalá-lo como 'reacionário', 'adesista', logo ele, que buscava uma saída qualquer para a ditadura e o subdesenvolvimento.


O que morreu com o Glauber? É dificil explicar para os jovens do mercado.


Antes, lutávamos contra uma realidade complexa (que subestimávamos), sonhando com uma solução utópica e totalizante. Era o 'uno' contra o 'múltiplo'. Hoje, é o contrário; esboça-se entre neo-revolucionários uma luta que é diversificante, contra o totalitarismo das corporações capitalistas. Hoje, a luta é para dissolver, não para unir. Agora, os novos combatentes não sonham com o absoluto; sonham com o relativo. São defensores do vazio, da ecologia, da cultura não-descartável, do inútil, do que não é 'mercável'. Eles lutam contra inimigos sem rosto: a eficiência corporativa, a abolição do humano pela máquina (a máquina como o homem produtivo perfeito). Hoje, o inimigo principal não é mais a 'burguesia' gorda e fumando charuto; o inimigo é um método empresarial. Antes, as esquerdas pensavam em unidade. Hoje, o capitalismo corporativo é que almeja uma 'unidade'. Glauber não desejava uma revolução simpática, para dar comidinha aos pobres. Ele queria um terremoto épico, cheio de som e fúria, com explosões de tragédias e apoteoses, ele queria uma revolução que esmagasse a mediocridade, uma celebração do impossível e não a prudente organização social apenas. Hoje, o Brasil está parecidíssimo com Terra em Transe.

Glauber era uma espécie de Rimbaud, buscava uma felicidade social imensa, queria, como ele, "olhar o céu e ver praias infinitas cobertas de brancas nações em júbilo!". Por isso, não havia lugar para ele no mundo. O protagonista de Terra em Transe diz: "A poesia e a política são demais para um homem só." Mas, mesmo sabendo disso, Glauber tentou até o fim. E morreu disso.

Arnaldo Jabor- 2002


* Glauber Rocha nasceu no dia 14/03/1939



Poema do Amor

Tudo talvez se defina
na conspiração
da poesya e
da infecção,
estou no começo da vida
mas não sei se a saúde resiste
o mundo profetiza guerra global
e corta o mistério da existência
nos projetando nos braços vitais
revolucionando o prazer, essência.

Glauber Rocha - Junho, 1981.




Desejo

Queria você profundamente aberta
Num beijapaixonado sem memória e futuro
Queria
prazer desintegrado no infinitamor de nossos corpos desconhecidos

Queria um rio negro
como branco
contando a Vytoria
De uma tragycomedia morta

Queria o maramoroso
De tua pele viva
E a poesia da madrugada

Glauber Rocha




site oficial: http://www.tempoglauber.com.br/principal/index2.htm


"O tango, essa diabrura,
os atarefados anos desafia,
feito de pó e tempo o homem dura
menos que a leve melodia
que só é tempo..."

Borges






Anos 70, uma sensação de liberdade no ar, pílula, soutiens queimados e um filme. Na verdade uma ousadia de Bernardo Bertolucci. "O último tango em Paris", ousadia que os tacanhos moralistas chamaram de pornográfico, obsceno e que ainda hoje causa espanto.
Não o espanto pela famosa cena da manteiga, afinal sexo anal é feito a rodo pelas mocinhas burguesas com opções que vão de lubrificantes a própria manteiga, sem maiores problemas. É no seu clima intimista, atmosfera sufocante de um apartamento vazio onde um casal improvável se encontra e, sem dizerem os nomes, conversam, transam, brigam e procuram um sentido para suas vidas. Ele, Marlon Brando, está em crise porque a mulher acaba de cometer suicídio, sem deixar qualquer explicação. Ela, Maria Schneider, está em crise porque não sabe se o futuro que deseja para si é um casamento com um jovem cineasta. Para ele, o mundo acabou; para ela, está começando. Para ele, as coisas perderam o sentido; para ela, os sentidos ainda são muito complicados. Entre estes dois seres tão diferentes, há apenas uma ponte: o sexo.






"Vou falar-lhe de segredos de família, essa sagrada instituição que pretende incutir virtude em selvagens. Repita o que vou dizer: sagrada família, teto de bons cidadãos. Diga! As crianças são torturadas até mentirem. A vontade é esmagada pela repressão. A liberdade é assassinada pelo egoísmo. Família, porra de família!"


Com essa fala e um tablete de manteiga, Bertolucci, abre as portas de todos os quartos, desvenda segredos, joga na cara falsos pudores. Levanta questões e ultrapassa limites.
No filme todas as cenas são necessárias, nada esta fora do lugar, é perfeito e a atuação de um Brando atormentado é digna da posteridade que obteve. O que faz a diferença é o espectador, olhos que enxergam além das cenas, as nuances, entrelinhas, tudo que não é dito, tudo que a nudez parcial escancara, diz e mostra. Aos olhos desse espectador, "O último tango em Paris" é só o começo.

Em tempo, está em cartaz no Telecine Emotion, da Net nos dias: 18/03 às 19:45 e 27/03 às 19:45. Arrisquem-se...

Dra.Nise da Silveira

No Dia Internacional da Mulher, escolhi falar de uma mulher, que infelizmente não é tão conhecida e reconhecida como deveria. Uma mulher pela qual tenho admiração e respeito. Ela era brasileira, e possuía entre muitas qualidades, uma que acho, é o grande diferencial entre os que fazem acontecer e os que passam pela vida, é a paixão em estado puro. Ela era uma apaixonada pela profissão, pelo ser -humano e por seus pacientes.
Hoje no Dia Internacional da Mulher, o post sobre a Dra. Nise da Silveira.



"[...] o mundo interno do psicótico encerra insuspeitadas riquezas e as conserva mesmo depois de longos anos de doença, contrariando conceitos estabelecidos. E dentre as diversas atividades praticadas na nossa terapêutica ocupacional, aquelas que permitiam menos difícil acesso aos enigmáticos fenômenos internos eram desenho, pintura, modelagem, feitos livremente."

Nise da Silveira






Dra.Nise da Silveira

Formada em medicina no ano 1926, Nise da Silveira começa a dedicar-se a psiquiatria. Ao ter contato com os métodos vigentes de tratamento: internação, os eletrochoques, a insulinoterapia e a lobotomia, revolta-se. Teria início uma verdadeira revolução.
Nise revolucionou o tratamento dados aos esquizofrênicos, criando a Casa das Palmeiras e o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro. Seu trabalho, pioneiro no Brasil, tornou obsoletos métodos de terapia terríveis como o eletrochoque e rompeu o isolamento em que viviam os doentes. Uma de suas inovações foi a introdução de animais como co-terapeutas, prática bastante utilizada hoje em dia em diversos países, que baseia-se no fato de que os seres humano criam mais facilmente um elo com um animal doméstico, do que com outro ser humano.

Nise percebeu e sentiu agudamente, o quanto o ambiente hospitalar conspirava contra o que ele deveria promover: a cura. Imbuída de profunda compaixão pela dor e fragilidade daquelas pessoas, movida pelo desejo de compreender o que acontecia no seu mundo interno e de investigar os misteriosos meandros da psique humana, Nise foi, com enorme disposição e paciência, adubando a sólida árvore que plantara.

Lidar com papel, com costura, dança, argila. Lidar com os sentimentos, a emoção, os medos e prazeres. Acima de tudo, lidar com o diferente. Essa foi a grande descoberta da doutora Nise. Seus métodos, admirados pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) -- em cujas idéias ela se baseou --, devolveram a humanidade a pessoas antes tratadas simplesmente como alienadas e esquecidas por médicos e familiares nos manicômios.
O trabalho de Nise foi desenvolvido por ela até o final de sua vida, quando estava presa a uma cadeira de rodas em conseqüência de uma fratura. Mesmo enfraquecida fisicamente, ela não deixou de se dedicar a 'seus' doentes e à luta contra os métodos convencionais de tratamento.

Uma mulher como a Dra. Nise da Silveira já seria motivo suficiente para a existência do Dia 08 de março.

Imagens do Museu Imagens do Inconsciente 





Leia: http://www.museuimagensdoinconsciente.org.br/silveira.htm - site oficial


Ontem à noite


Ontem à noite, depois da sua partida definitiva, fui para aquela sala do rés-do-chão que dá para o parque, fui para ali onde fico sempre no mês de junho, esse mês que inaugura o Inverno. Tinha varrido a casa, tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral. Estava tudo depurado de vida, isento, vazio de sinais, e depois disse para comigo: vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que acaba. Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas, estava tudo limpo, o meu corpo, o meu cabelo, a minha roupa, e também aquilo que encerrava o todo, o corpo e a roupa, estes quartos, esta casa, este parque. E depois comecei a escrever...

Marguerite Duras - Tradução de Tereza Coelho - Textos Secretos, Quetzal Editores, 1992 - Lisboa, Portugal



Yann Andréa tinha apenas 27 anos quando se apaixonou por Marguerite Duras, naquela época uma senhora de 65 anos. No início dos anos 70, Yann tomou conhecimento daquela que seria seu grande amor, atravês de seus livros. A partir desse momento, deixou de lado todos os outros livros (Kant, Hegel, Espinoza, Stendhal, Marcuse) e leu toda a obra da autora. Em 1975 a veria pela primeira vez e teria a confirmação, nunca mais a deixaria. Seguiram-se muitas cartas e finalmente o encontro. Em 1980, tomou coragem e bateu à sua porta em Trouville, ficaram juntos por 16 anos até o dia do falecimento de Marguerite, no dia 03/03/1996.

A vida com esse monstro sagrado estava longe de ser tranquila. Foram anos turbulentos, onde a personalidade forte de Marguerite dominava todo o ambiente e a própria relação. Sua vida não tinha sido fácil apesar de marcada pelo sucesso. Yann fazia parte dela e seria apenas o capítulo final de uma história que começaria em 1914.


Marguerite Duras - o pseudônimo do seu verdadeiro nome, Marguerite Donnadieu - nasceu pouco antes do eclodir da I Guerra Mundial, a 4 de Abril de 1914, em Gia Dinh, na Indochina. Passou a infância e a adolescência nessa antiga colónia francesa, sempre fascinada pela figura da mãe e assombrada pela imagem do irmão mais velho, Pierre.

Aos dezoito anos, viaja até Paris, onde se dedica ao estudo do Direito, Matemática e Ciência Política. Em 1943, publica o seu primeiro romance, "Les Impudents" , no mesmo ano em que entra no núcleo de acção de François Mitterrand, na altura o chefe da resistência Morland. Sete anos depois, o livro "Uma Barragem Contra o Pacífico" coloca Duras na linha da frente para o prestigiado prémio literário Goncourt. Acaba por não o ganhar. No entanto, o galardão chega-lhe às mãos em 1984, aquando da publicação de "O Amante", o seu mais mediático romance, adaptado ao cinema pelo realizador francês Jean-Jacques Annaud, em 1991. Duras não gostou e cortou definitivamente as estreitas relações que, até então, mantinha com o mundo cinematográfico - com efeito, o seu nome ficou para sempre associado a um filme de referência, "India Song", que realizou em 1975.

Os seus ataques de mau gênio, bem como o seu radicalismo político - ao aderir a movimentos feministas ou quando refere que o lançamento de bombas atómicas sobre os Estados Unidos seria a única hipótese de pôr termo ao sofrimento dos vietnamitas -, eram sobejamente conhecidos. Contudo, soube criar meticulosamente a sua lenda, construindo um universo próprio, misturando realidade e ficção.

Em 1995, o ano que precedeu a sua morte, Duras estava consciente de que a sua vida tinha chegado ao fim, depois dos seus sucessivos comas etílicos e do deambular eterno pelos labirintos da solidão. "Creio que terminou. Que a minha vida acabou. Já não sou nada. Tornei-me completamente assustadora. Já não me aguento. Vem depressa. Já não tenho boca, rosto." Morre em Paris, a 3 de Março de 1996, aos 81 anos de idade.

Mas nunca gostou que contassem a sua vida. Porque, como disse um dia: "A história da minha vida não existe. Isso não existe. Nunca há centro. Nem caminho, nem linha. Há vastas passagens em que se insinua que houve alguém, mas é certo que não houve ninguém." M.T.S.



Leia: http://www.publico.pt/cmf/autores/margueriteDuras/perfil.htm
http://www.ambafrance.org.br/abr/label/label24/letras/duras.html