"Não vou perguntar por que você voltou, acho que nem mesmo você sabe, e se eu perguntasse você se sentiria obrigado a responder, e respondendo daria uma explicação que nem mesmo você sabe qual é. Não há explicação, compreende? Eu também não queria perguntar, pensei que só no silêncio fosse possível construir uma compreensão, mas não é, sei que não é, você também sabe, pelo menos por enquanto, talvez não se tenha ainda atingido o ponto em que o silêncio basta? É preciso encher o vazio de palavras, ainda que seja tudo incompreensão? Só vou perguntar por que você se foi, se sabia que haveria uma distância, e que na distância a gente perde ou esquece tudo aquilo que construiu junto. E esquece sabendo que está esquecendo. "

Caio Fernando Abreu





ONDE ANDARÁ CAIO FERNANDO?



Impossível não falar do Caio. Do Caio F. Do Caio Fernando de Abreu, morto domingo, depois de passar os últimos meses da sua vida na casa dos pais, em Porto Alegre, num bairro chamado Menino Deus, a cuidar de si e de rosas.
Todos sabíamos que ele ia acabar no Menino Deus. Mas não sabíamos quando. Há mais de um mês ele não escrevia mais suas crônicas no Caderno 2 de domingo. Os amigos, aqui de São Paulo, desconfiavam. Mas ninguém dizia nada. Onde andará Dulve Veiga, ou melhor, Caio Fernando?
Na sexta-feira passada fui ao jornal buscar as minhas cartas. Na caixinha, cinco ou seis para o Caio. Olhei os remetentes: todas mulheres. As mulheres adoravam o Caio. E os homens, como eu, e tantos amigos comuns, também. O Caio tinha cara de santo, de anjo, de Dom Quixote. Não foi a doença que o deixou tão magro. Quando ela chegou, ele já não tinha mais o que emagrecer.
Durante seis meses, em 87, eu, ele e a Lu Vullares ficamos trancados numa suite do Eldorado preparando uma novela para a Manchete, sob a tutela do Wilker. A novela nunca saiu. Mas a amizade se consolidou ali. Conversávamos muito mais que do trabalhávamos. Me lembro que um dia chegou uma carta de Londres dando conta da morte de um amigo dele. Aids. Caio perdeu o bom humor por uma semana. Mas depois se levantou, criou personagens engraçadíssimos para a novela.

Ninguém me avisou de nada. Hoje cedo (é segunda-feira, nove da manhã) acordei, peguei o jornal e estava lá, na primeira página. E um texto lindo da Lygia Fagundes Telles, amiga e companheira dele há tantos anos. Bateu fundo, muito funfo. Meu Menino Deus.
Já havia até discutido o teor da crônica de hoje com o Aluizio Maranhão. Era algo polêmico. Conversei com ele ontem de noite e ele não me disse nada sobre o Caio. Talvez ainda não soubesse.

Impossível não falar do Caio.
Quando ele esteve pela última vez em São Paulo convidou a mim e ao Reinaldo Esteves para uma esticada (depois do lançamento do livro dele) até um local gay chamado A Louca. E foi n'A Louca que eu o vi pela última vez. Conversamos um pouco numa mesa, tomando cerveja. Depois teve um show da Laura Finokiaro com todas aquelas luzes. No meio da neblina, da fumaça e dos spots, vi o Caio sair do salão e passar por mim pela última vez, iluminado de azul e vermelho, com uma névoa de gelo seco em torno da sua cabeça. Sumiu com um anjo sem trombeta. Sabia que nunca mais o veria.

Ele iria cuidar do jardim de Menino Deus.
Caio escreveu um dia sobre sua (e minha) amiga Ana C. Retruquei com uma crônica/crônica para ele, aqui neste espaço. Ele me mandou uma carta, a última:
"Pratinha querido, obrigado pela carta que você me escreveu. Pensei em responder pelo jornal mesmo - para dizer principalmente que acho você muito mais Ouro do que Prata - mas ia ser muita veadagem toda essa jogação pública de confetes, não?

Hoje gostei mais ainda ao ler que choveram anjos na sua horta depois da crônica. Adorei aquela história do diário da gestação. Anjo-da-guarda é papo quente. Se bem que alguns são meio vadios e nem sempre cumprem horário integral.

Ando bem, mas um pouco aos trancos. Como costumo dizer, um dia de salto 7, outro de sandália havaiana. É preciso ter muita paciência com este virus do cão. E fé em Deus. E falanges de anjos-da-guarda fazendo hora extra. E principlamente amigos como você e muitos outros, graças a Deus, que são melhores que AZT.
Que tudo esteja em paz com você. Dá um abraço no Reinaldo e em quem perguntar por mim.
Um beijo do seu velho

Caio F.!"

Onde andará Caio Fernando? Em Menino Deus, certamente. Eternamente.

Mario Prata - o Estado de S.Paulo - 1996



" Mesmo quando chove ou o céu tem nuvens (os dois amantes) sabem sempre quando a lua é cheia. E quando mingua e some, sabem que se renova e cresce e torna a ser cheia outra vez e assim por todos os séculos e séculos porque é assim que é e sempre foi e será .."
Caio Fernando Abreu, in O amor com olhos de adeus



Em 95, o escritor Caio Fernando Abreu, então colunista do jornal O Estado de São Paulo, publicou uma carta que teria sido escrita por Clarice Lispector a uma amiga brasileira. Ele comenta, no artigo, que não há nada que comprove sua autenticidade, a não ser o estilo-não estilo de escrita de Clarice Lispector. Ele dizia: "A beleza e o conteúdo de humanidade que a carta contém valem a pena a publicação..."

Berna, 2 de janeiro de 1947


Querida,

Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. Depois que uma pessoa perde o respeito a si mesma e o respeito às suas próprias necessidades - depois disso fica-se um pouco um trapo.

Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar e contar experiências minhas e dos outros. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Eu mesma não queria contar a você como estou agora, porque achei inútil. Pretendia apenas lhe contar o meu novo caráter, um mês antes de irmos para o Brasil, para você estar prevenida. Mas espero de tal forma que no navio ou avião que nos leva de volta eu me transforme instantaneamente na antiga que eu era, que talvez nem fosse necessário contar. Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu... em que pese a dura comparação... Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. Espero que no navio que me leve de volta, só a idéia de ver você e de retomar um pouco minha vida - que não era maravilhosa mas era uma vida - eu me transforme inteiramente.

Uma amiga, um dia, encheu-se de coragem, como ela disse e me perguntou: "Você era muito diferente, não era?". Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou esta calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com lassidão de mulher de cinqüenta anos. Tudo isso você não vai ver nem sentir, queira Deus. Não haveria necessidade de lhe dizer, então. Mas não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não queira fazer de você mesma uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse o único meio de viver.

Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia - será punida e irá para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Isso seria uma lição para mim. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade de alma.


Tua Clarice.


"Coisas assim, você sabe? Eu, sim: amar o mesmo de si no outro às vezes acorrenta, mas quando os corpos se tocam as mentes conseguem voar para bem mais longe que o horizonte, que não se vê nunca daqui. No entanto, é claro lá: quando os corpos se tocam depois de amar o mesmo de si no outro. Portanto, não se olham. E não sou eu quem decide, são eles. Não se deve olhar quando olhar significa debruçar-se sobre um espelho talvez rachado. Que pode ferir, com seus cacos deformantes."
Caio Fernando Abreu, in O rapaz mais triste do mundo





Em setembro de 1994, ao saber-se portador do vírus da AIDS, Caio Fernando Abreu retorna a Porto Alegre, onde volta a viver com seus pais. Põe-se a cuidar de roseiras, encontrando um sentido mais delicado para a vida. Foi internado no Hospital Menino Deus, onde faleceu no dia 25 de fevereiro de 1996.


Leia: http://www.releituras.com/caioabreu_menu.asp
http://www.marioprataonline.com.br/obra/cronicas/onde_andara_caio_fernando.htm


Esse é o epitáfio do poeta John Keats. Ao cuidar do irmão tuberculoso, Keats contaminou-se. Sua saúde declinou rapidamente e os últimos meses do poeta foram vividos em Roma, onde morreu em 23 de fevereiro de 1821. Prevendo o esquecimento, pediu que se gravasse em sua lápide: "Here lies One / Whose Name was writ in Water" ("Aqui jaz alguém / Cujo Nome foi escrito na Água"). Ocorreu o contrário: sua influência estendeu-se a simbolistas, pré-rafaelitas e até a modernos do início do século XX.

Poeta inglês do período romântico, Keats não fugiria a regra, teve um grande amor, morreu cedo, com apenas 26 anos, deixando uma obra reconhecida pela crítica. Sua poesia é essencialmente lírica e compreende alguns dos poemas mais perfeitos do gênero em língua inglesa.
E o grande amor? Não, eu não escapo desse tema, nunca! Vamos a ele.
Só se eterniza o amor que não se concretiza, que por um motivo ou outro, impossibilita os amantes de viverem o sentimento mútuo. Foi assim com Keats e Fanny. Ele ainda não era conhecido e eles já estavam profundamente envolvidos, mas a família da moça não via com bons olhos a união, Keats era pobre e não poderia, ainda que desejasse, casar-se com ela. Resolveu concentrar-se na carreira de escritor, precisava fazer um nome e dinheiro. Afastou-se de Fanny com esse objetivo. Nessa época a troca de cartas intensificou-se, as mesmas que a família de Fanny tratou de destruir após a morte do poeta. Keats conquistou crítica e público, era chegada a hora de viver seu grande amor, no entanto quis o destino que não fosse assim. Em 1820, o poeta já estava tomado pela doença e ao ver a mancha marrom no lenço teria dito: "eu sei a cor desse sangue; é sangue arterial... que essa gota do sangue é minha autorização da morte." No ano seguinte, o poeta morreria nos braços do amigo e pintor, Joseph Severn. Quando a Fanny, alguns anos mais tarde se casaria e teria três filhos. Fosse eu, teria beijado a boca cheia de sangue do poeta, aqui certamente não ficaria sem ele, mas isso é outra história...




Março 1820
(Itália)

Adorável Fanny,

Você teme, algumas vezes, que eu não a ame tanto quanto você deseja? minha querida Garota, eu a amo sempre e sem reserva. Quanto mais eu a conheci mais eu a amei. De toda forma - mesmo meus ciúmes tem sido agonias do Amor, no mais forte acesso que eu jamais tive eu teria morrido por você. Eu a tenho irritado muito, mas por Amor! Que posso fazer? Você está sempre nova para mim. O último de seus beijos foi sempre o mais doce, o último sorriso o mais brilhante, o último movimento o mais gracioso. Quando você passou na janela de minha casa ontem eu me enchi de tanta admiração como se eu a tivesse visto pela primeira vez.
Você proferiu uma queixa, uma vez, que somente amei sua Beleza. Não tenho mais nada a amar em você que isto? Não vejo um coração naturalmente provido de asas emprisionado comigo? Nenhuma expectativa de doença foi capaz de mover meus pensamentos em você para longe de mim. Isto talvez seja tanto um assunto de tristeza como alegria - mas eu não falarei sobre isso. Mesmo se você não me amasse eu não poderia evitar uma completa devoção a você: imagine quanto mais profundo deve ser meu amor, sabendo que você me ama. Minha mente tem sido a mais descontente e impaciente que alguém jamais colocou num corpo, que é muito pequeno para ela. Eu nunca senti minha mente repousar sobre nada com felicidade completa e sem distração, da maneira que repousa em você.
Quando você esta no quarto meus pensamentos nunca voam para fora da janela: você sempre concentra todos os meus sentidos inteiramente. A ansiedade mostrada acerca de nosso Amor em sua última carta é um imenso prazer para mim; entretanto você não deve sofrer tais especulações que a molestem: nem posso eu acreditar que você tenha o menor ressentimento contra mim. Brown partiu - mas aqui está Mrs. Wylie.Quando ela se for eu estarei acordado para você.

Lembranças à sua mãe.

Seu apaixonado
J Keats
John Keats
(1795-1821)

______

Carta endereçada a Fanny Brawne, vizinha de Keats pela qual ele se apaixonou, não podendo porém se casar, pois, os médicos já tinham diagnosticado a doença que mataria o poeta inglês um ano depois, a tuberculose.


Leia: http://www.blocosonline.com.br/literatura/prosa/cl/cl03/cl031201.htm
http://www.geocities.com/ceifadordasalmas/biografias/b_keats.htm
"Não escreva sob o império da emoção.
Deixe-a morrer, e a evoque logo. Se for
capaz então de revivê-la assim como era,
a arte chegou na metade do caminho."


Horacio Quiroga


Horacio Quiroga nasceu em Salto, no rio Uruguai, e teve diversos episódios trágicos em sua vida, envolvendo pessoas queridas. Seu pai, cônsul argentino, morreu acidentalmente com um tiro quando Quiroga era ainda criança. Seu padrastro se matou em 1902. Em 1914, Quiroga matou, acidentalmente, um amigo enquanto mexiam em uma arma. Sua primeira esposa e pupila, Ana Maria Cires se envenenou e morreu após uma semana de sofrimentos. Os dois filhos desse primeiro casamento se mataram quando adolescentes.
Uma vida de morte e sofrimento que fica clara dentro de sua obra, com a obsessão com a morte, a convicção de que o homem não pode escapar de seu destino e a ênfase no bizarro e monstruoso.

Alguns críticos ainda teimam em dissociar obra de autor, como se fosse possível separar corações e mentes, ainda que embasados em muitas argumentações, ainda prefiro que o meu humilde “achismo” considere tal hipótese impossível. Naquele que escreve, que consegue colocar no papel a dimensão do sentimento humano, há sempre uma angústia, um diferencial que o faz ter o dom de escolher as palavras certas, na medida exata do que querem dizer. Para isso, não raras vezes, faz-se necessário trazer à tona as memórias mais remotas, reabrir feridas cicatrizadas e outras que nunca fecharão. Ser escritor é isso: transmutar emoção em palavras.


Alcoólatra e com problemas mentais, Quiroga cometeu suicídio em 19 de fevereiro de 1937 com uma grande dose de cianureto, enquanto ainda estava na clínica de recuperação.


Leia: http://www.librairie.hpg.ig.com.br/Horacio-Quiroga%20-Decalogo-do-perfeito-contista.htm

Lou-Andreas Salomé


A primeira vez que li sobre Lou-Andreas Salomé foi atravês de Rilke, Nietz e Freud. Estranho uma mulher ser o elo de ligação entre homens famosos pelas suas indiscutíveis qualidades e talentos, pensei. Depois descobri o por quê do fascinío que Lou exercia sobre os homens. Não era somente sua beleza delicada, era muito mais do que isso e só podia ser mesmo. Naquele tempo as mulheres eram criadas para a perfeição, verdadeiras bonequinhas que com a ajuda da natureza ou não, tinham cada uma a seu estilo meios de conseguir seu pretendente. Mas Lou ia além e o fascínio dela estava justamente num grande diferencial, ela não possuia a beleza vazia de uma boneca, ela era uma intelectual, culta, viva, escrevia com desenvoltura e estava sempre pronta para uma discussão no mesmo nível dos mestres já citados. Ora, imagine isso aliado a beleza? Impossível resistir. Mas vamos a ela ou melhor a um pouco da sua história.


Lou nasceu na Rússia, no dia 12 de Fevereiro de 1861 em S. Petersburgo, de pais alemães e foi a sexta criança e a primeira mulher da família. O pai, Gustav von Salomé, era um general do exército russo dependente dos Romanov.
Enquanto criança, Lou foi descrita como rebelde e inconvencional, embora fosse a preferida do pai. A sua mãe Louise Wilm pertencia a uma próspera família cujo negócio era a exploração e manufaturação de açúcar. As relações entre as duas não foram as melhores e existiu sempre uma enorme tensão.

Mudou-se para Roma quando completou 21 anos de idade, para estudar com Nietzche. Embora o considerasse um dos mais brilhantes pensadores de sempre, ela era demasiado independente para aceitar a proposta de casamento de Nietzche, cujos ciúmes dela contribuíram para o progressivo processo de loucura que o levou à morte.



Em 1887, com 26 anos, aceitou casar com Friedreich Carl Andreas (41 anos), uma união que durou 43 anos. O casamento, ao invés de lhe retirar a liberdade, como era costume na época, permitiu-lhe continuar a escrever ficção e a viajar onde a sua curiosidade intelectual a impelia. Alguns dos historiadores que se debruçaram sobre a sua vida comentam mesmo que este casamento nunca teria sido consumado.

Lou viria a conhecer Rilke em Munique, no ano de 1897, mantendo com o poeta um caso amoroso, até que a dependência de Rilke por ela a levou a partir de novo. Rilke sofreria muito com a separação.

A produção literária de Lou esteve sempre muito ligada aos seus envolvimentos amorosos e da relação com Rilke, aos 36 anos, resultaram obras fundamentais da escritora como "A humanidade da mulher" e "Reflexões sobre o problema do amor".
Durante o ano de 1911, conheceu Freud, o fundador da psicanálise e depressa ficou fascinada por ele e pelo seu trabalho, com o qual colaborou. Escreveu diversos artigos sobre o assunto que foram publicados em jornais da especialidade e estabeleceu uma clínica psiquiátrica que alcançou razoável êxito na Alemanha. Em 1931 publicou ‘A minha gratidão a Freud’ em homenagem ao seu mestre.

A chegada ao poder dos nazis em 1930 foi uma ameaça para ela, porque estes consideravam a psicanálise como uma ‘ciência judaica’ e apontavam para a sua eliminação. Nessa altura, Lou estava doente e não podia deixar o país. Acabou por morrer em 1937, apenas um mês antes de completar 76 anos. Dias depois da sua morte, os nazis confiscaram toda a sua obra e documentos pessoais. Ao todo, Lou escreveu 20 livros e mais de 100 ensaios e artigos.


Um pouco do pensamento de Lou Andreas-Salomé, seus escritos, sua vida, suas paixões:


A paixão de Lou pela vida transparecia em seu próprio físico. Freud lhe escreveu um dia: "você tem um olhar como se fosse Natal". E a escritora Helena Klinkberg (citado por Peters): "O sol se levantava quando Lou entrava numa sala". Era um ser luminoso, transparente e lúcido.

Essa paixão pela vida, ela a transmitia aos outros, fazendo com que as pessoas ao seu contato desenvolvessem e dessem o melhor delas próprias. O que fez alguém escrever: "Quando Lou se interessa apaixonadamente por um homem, nove meses depois este homem dá à luz um livro". Um interesse pelo outro que o leva a crescer e produzir - mesmo quando esse crescimento e essa produção implicam o sofrimento.

Pois Lou Andreas-Salomé conseguiu realizar, em seus 76 anos de vida, o que nós todos gostaríamos e deveríamos fazer sempre - e não o fazemos por descaso, indolência, medo: tornar a vida o exercício apaixonada de uma busca. Sua exploração em todos os possíveis. Isto que requer a fruição intensa e incessante de coisas e pessoas que nos cercam, de modo que o mundo exterior em nós penetre e a nós se incorpore. Pois a vida, como o dizia Rainer Maria Rilke a propósito de Rodin, "está nas pequenas coisas como nas grandes: no que é apenas visível e no que é imenso".

Antes mesmo do seu encontro com Rilke, Louise von Salomé já intuía essa verdade: desde muito cedo encontramos nela um grande apetite de aprender e de amar - e o objeto de sua atenção podia ser a psicanálise, a curtição de uma paisagem, de uma flor, de um esquilo na floresta ou de um corpo amado.

(.....) Lou escreveu vários ensaios sobre o Erotismo. O primeiro deles data de sua ligação com Rilke. Intitulado reflexões sobre o problema do amor, traz as evidentes marcas da embriaguez física e espiritual que sua autora estava vivendo. Aqui ela assinala, em páginas de um admirável lirismo, a capacidade que tem a paixão amorosa de nos abrir o caminho ao sentimento da totalidade da vida e sua faculdade de nos colocar em estado criativo. O ato amoroso "nos enche a alma inteira (...) de ilusões e de idealizações espirituais, forçando-nos o mesmo tempo a nos chocar brutalmente, sem possibilidade de se esquivar, ao dispensador de uma tal desordem; ao corpo". E Lou escreve:

"Pois, sobretudo, resulta no indivíduo uma espécie de interação ébria e exuberante das mais altas energias criadoras do seu corpo e a exaltação mais alta da alma. Enquanto nossa consciência se interessa vagamente, habitualmente, por nossa vida psíquica, como por um mundo que conhecemos mal e que controlamos ainda pior, que ao que parece forma um com ela, mas com o qual normalmente ela se entende mal - eis que se produz subitamente entre eles uma tal comunhão de enervação que todos os seus desejos, todas as suas aspirações se inflamam ao mesmo tempo."

Por essa exaltação da alma através dos sentidos, por essa impressão que o ato amoroso nos dá de haver ido muito longe, e tocado o indizível, é que ele pode influenciar e favorecer a criação, a "pátria do dizível", como escreveu Rilke. E Lou: "O Mundo da criação e do amor significa: volta ao país natal, entrada no paraíso; o a impossibilidade de criar, ou do amor morto, é, ao contrário, um exílio onde os deuses nos abandonam".

A atividade criadora se apaixona por tudo aquilo que é vida em nós, que é indício do que em nós lateja de mais secreto, e que atinge as raízes do ser. O espírito descobre forças que não possuía ou das quais não se apercebia. Pode voltar àquele estado de inocência primeira que possuiu na infância, redescobre a "novidade" das coisas, com o frescor de uma sensação primitiva: o olhar da criança sobre o mundo que descobre maravilhada; o olhar de Adão diante de Eva recém-saída de si.

Confrontado com os seus longes, o amado vê a si mesmo, e ao mundo exterior, como algo recém-criado. Por isso, às vezes a gente sai do amor como quem saiu de uma catedral, redescobrindo o mundo aqui fora com os olhos renovados. O ato amoroso, vivido em plenitude, obriga os amantes a concentrar em si mesmos tudo aquilo de que são capazes, passível de germinar com a força das plantas na primavera.

O ato amoroso transforma o parceiro num "conto estranho e maravilhoso". A Paixão amorosa é uma porta, diferente de todas as outras portas, "em sua arquitetura ornada de elementos ricos de sentido, em virtude de um simbolismo singular". É o caminho por excelência que nos leva a nós mesmos. Por ela "nós não somos um mundo de realidade, somos apenas o espaço e o metteur en scène de um mundo onírico, todo-poderoso, irresistível".

Assim, o amor durará enquanto os amantes forem capazes de oferecer ao outro essa entrega, que dá acesso de modo vital à capacidade de se concentrar neles mesmos, de ser um mundo para si por causa do outro.

A esta altura, a gente poderia se perguntar - não seria esta uma visão demasiado idealizada do amor? Mas Lou não se deixa embalar incondicionalmente pelo êxtase da paixão: esta grande amorosa foi também, segundo a expressão de Freud, uma "compreendedora".

Neste mesmo ensaio, ela nos lembra que no êxtase amoroso, por mais que desejemos nossa fusão com o amado, sempre somos, em última análise, remetidos a nós mesmos. A reconciliação que se fará aqui será sobretudo entre o sujeito e ele próprio, através do outro, mais do que entre o sujeito e o objeto amado.

Num ensaio sobre o erotismo, datado de 1910, e num ensaio posterior, quando Lou já se engajara definitivamente à psicanálise, intitulado Anal e Sexual, ela nos lembra que na união física "a gente não possui um ao outro por meio do corpo, mas apesar do corpo, que, como todo mundo sabe, não se identifica jamais (...) completamente com o todo da pessoa, mas aparece sempre como uma parte dela e resiste à dominação mais viva".

(....) A fusão inteira do nosso ser com o outro, por mais querido que seja, não seria desejável. É preciso que sejamos cada vez mais nós mesmos, para poder ser um mundo para o outro. A relação erótica, remetendo-nos a nós próprios, é uma ocasião de constante renovação: cada vez ela inaugura em nós um ser novo; como um ato de linguagem, cada vez que eu falo a um Tu, é um Eu diferente que fala a um novo Tu: quando digo Eu, já não sou aquela que falava há pouco. A relação erótica é, assim, nela mesma, criação. E o amor um elemento de produção: somos a cada instante outros, encontramos no outro cada vez um elemento novo, diferente, desconhecido, misterioso até - o que dá à relação erótica sua riqueza.

E Lou analisa esta necessidade de renovação e da existência do mistério na relação amorosa:

"Pois, nos seio mesmo da paixão, nunca se deve tratar de "conhecer perfeitamente o outro": por mais que progridam neste conhecimento, a paixão restabelece constantemente entre os dois este contato fecundo que não pode se comparar a nenhuma relação de simpatia e os coloca de novo em sua relação original: a violência do espanto que cada um deles produz sobre o outro e que põe limites a toda tentativa de apreender objetivamente este parceiro. É terrível de dizer, mas , no fundo, o amante não está querendo saber "quem é" em realidade seu parceiro. Estouvado em seu egoísmo, ele se contenta de saber que o outro lhe faz um bem incompreensível... os amantes permanecem um para o outro, em última análise, um mistério."

Assim, o amor não seria um encontro, mas uma busca. Não quer dizer que chegamos, mas que estamos próximos.

Rilke perguntava-se na Primeira elegia de Duíno: "Não é tempo daqueles que amam libertar-se do objeto amado e superá-los, frementes? Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo mais do que ela mesma". E nas cartas a um jovem poeta, em maio de 1904:

"Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento, cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. (...) O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo por si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser: é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe."

Se o amor é uma busca, se o estudo é uma busca, a arte uma busca, a vida inteira é também busca. E o amor e a paixão são a mola dessa busca.
É preciso buscar com amor, com paixão. Amar a vida, amá-la mesmo e sobretudo quando ela chega ao fim, e o espírito e o corpo vêem limitados seu campo de ação. Nos Cadernos íntimos dos últimos anos, Lou Andreas-Salomé dá um balanço de sua vida. Em fevereiro de 1934, isto é, três anos antes de morrer, ela escreve:

"Distingue-se entre os humanos aqueles que se sentem divididos em um passado e um futuro e aqueles que vivem o presente com cada vez mais densidade, sempre mais plenitude. Os orientais acham natural insistir menos sobre a morte do que se passa do que sobre a perfeição do que se acaba, como aprofundamento da realidade. Nós, ao contrário, começamos a ver aquilo que nos chega, apenas sob o aspecto sempre mais sinistro da morte - como tudo o que se observa de um olhar exterior, logo mortífero."

É preciso amar a vida em todas as suas fases e amar até mesmo a morte. Aqui Eros e Thanatos se dão as mãos - são forças complementares e não contrárias. A morte é a redenção da vida individual, escreve Lou num artigo sobre o misticismo russo. Nossa morte não nos separa dos seres que amamos; ela nos entrega de modo mais completo a eles:

No dia em que eu estiver no meu leito de morte

Faísca que se apagou -,
Acaricia ainda uma vez meus cabelos
Com tua mão bem-amada
Antes que devolvam à terra
O que deve voltar à terra,
Pousa sobre minha boca que amaste
Ainda um beijo.
Mas não esqueças: no esquife estrangeiro
Eu só repouso em aparência
Porque em ti minha vida se refugiou
E agora sou toda tua [Hino à morte]


A morte desfaz, assim, a distância entre os amantes, que agora vivem um no outro, sem que o individualismo os separe. A morte não é uma partida, uma volta: um retorno do indivíduo àquela união primitiva com as cosias. Por isso não a devemos temer.


A grande biografia de Lou Salomé ainda não foi escrita. Mas, pelo que dela nos resta, fica uma lição final de amor, de paixão, de totalização da vida. Por isso Lou desejou ser cremada e que suas cinzas fossem jogadas no jardim de sua casa, em Gottingen: para que seu corpo pudesse se incorporar à terra e ser transformado em planta e flor.

Well, deu para entender o por quê de inspirar tanta paixão? Pois é, esse é só um pedacinho da vida dessa grande mulher. Recomendo que comprem o livro, "ouçam o disco, vejam o filme", qualquer coisa que venha de Lou jamais passará por nós impunimente, acreditem.



Leia: http://www.mulherportuguesa.com/index.cfm?Categoria=19&UltimaLinha=12
http://www.cefetsp.br/edu/eso/paixaolouandreassalome.html




A boca feminina guarda beijos antigos, segredos,poemas, peças de teatro, romances, palavras, encantamento, meias, paisagens invisíveis, silêncios. Mulher, Hilda Hilst é Hilda Hilst, escritora e poeta brasileira, de um Brasil que inverte seus vices, que se deixa levar por vulgaridade, pelas sombras, por essa frase medíocre sempre feita da boca dos algozes. Hilda Hilst é essa mulher querer ficar ausente. Não lhe interessa mais abrir os braços para as tardes. É possível que o dia não exista mais. Falar o quê? Nada tem a falar para ninguém. As palavras secaram no lábio de vinho. Falar o quê, para quem e para quê? Hilda Hilst é Hilda Hilst. Mas quem é essa mulher que, com um vestido longo, um xale de lã, ouve Beethoven às 10 horas da manhã? Quem é essa mulher de olhos claros, olhar generoso? Está cansada de falar. De escrever. Escreveu a vida inteira. Quem lê Hilda Hilst? Não esconde o desconforto. É uma dor que não merecia. Quem é essa mulher que, ao abrir as grandes janelas de sua casa enorme no meio das árvores, tem nas mãos um copo de vinho do Porto? Quem é essa mulher que se mostra cansada e que se nega a escrever mais? Quem é essa mulher que há mais de 30 anos refugiou-se num sítio na região de Campinas e vive cercada de perso-nagens calados no fundo dos livros? Lembranças antigas povoam sua imensa sala de estar. A figura de seu pai, poeta e fazendeiro, Apolônio de Almeida Prado Hilst. Sua mãe, Bedecilda Vaz Cardoso. Os primeiros estudos na Colégio Santa Marcelina, em São Paulo. Oito anos de colégio interno. Depois o Mackenzie. E ainda a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde se formou advogada, profissão que nunca exerceu. Nasceu na cidade de Jaú, interior de São Paulo, em 1930. Seu pimeiro livro, Presságio, foi editado em 1950. Tinha 20 anos. Era ainda estudante. Muitas lembranças percorrem as paredes da "Casa do Sol", onde vive com cerca de 60 cães. Quase todos têm nome. Andam pela casa o dia inteiro. Sobem nas poltronas, dormem nos tapetes. Têm absoluta liberdade dentro dos cômodos. Muitos são carentes e estão sempre à procura da dona. Hilda Hilst afaga seus cachorros, diz a eles palavras doces. Hilda Hilst, que já escreveu tudo que tinha de escrever na vida. Mais de 50 anos escrevendo. E para quê, para quem, meu Deus? Não vale a pena escrever tanto. Não vale a pena nada. Absolutamente nada. Os últimos livros são pornográficos. Um deboche, mas um debode de Hilda Hilst. Alguns amigosatése afastaram dela. Disseram que ela perderia todo o seu prestígio. Mas que prestígio? Lia trechos dos originais a um crítico. Ele se escandalizava. Publicou sua pornografia com palavras vãs, com palavras vis. Perder prestígio? Que pestígio? Prestígio também significa ilusão. Hilda Hilst cansou de ilusão. Chega. Por isso pára. Agora só lê. Lê o dia inteiro. Não existe mais motivo algum para que volte a escrever peças de teatro, prosa, poemas. Os motivos acabaram. Também não quer mais falar. Não sente nenhuma necessidade de falar com ninguém. Fala com seus cães, e isso lhe basta. É uma pessoa ressentida, sem nenhum sonho. Não há sonho a sonhar. Ressentida, não amargurada, Fazer algumas fotos? Fotos para quê? Não quer se arrumar para mais ninguém. Não quer pentear seus cabelos porque alguém vai visitá-la. Quer ficar em paz. Não quer esperar ninguém. Não quer mais perguntar: "Quem bate à minha porta?". As palavras morreram. Pelo menos as suas palavras. As que estão sufocadas por dentro. Há dias quietos, em que pega seus livros e lê. Diz: "São coisas belas, porque ninguém lê?". Tudo de repente ficou pequeno, minúsculo. Agradece tudo que Deus lhe deu. Tem saudade de tantas pessoas. Umas desapareceram, outras se foram para sempre. Sente saudade. "Fodi muito bem com belos homens. Uns ricos, outros pobres. Fodi, fiz tudo o que tinha de fazer. Isto é o que me basta", afirma com palavras azuis. "Faz 20 anos que não fodo com ninguém. Eu esqueci. Está tudo seco em mim, dentro de mim, no fundo de mim,". Hilda Hilst parece alguém que salta de uma valsa. Fala hoje a linguagem dos cães. E quer falar como os cães. O ressentimento não tem tamanho. A falta de reconhecimento num cenário dominado por gente desonesta. Muitos dizem: "Ah , ela já foi traduzida para vários idiomas". Mas o que significa isso? Dois livros seus estão sendo lançados em Paris. Mas isso não significa nada para ela. Tem vários livros publi-cados em outros países. Nunca recebeu um centavo. De vez em quando as editoras estrangeiras lhe mandam um livro. Um único livro. Ela olha, conta as páginas, analisa a capa e sorri. Não sabe porque nasceu no Brasil, porque tem sempre um destino incerto. Tem muito medo da morte. Deus? Não conhece Deus. Nunca viu Deus. Tem medo de pensar em suicídio. O suicídio tem de ser num hotel, onde se deve pedir um quarto para, no mínimo 48 horas. Tem de colocar na porta todos aqueles avisos para não ser perturbado, em todas as línguas possíveis. Depois tem de tomar 40 comprimidos. É só. Não pode ser em casa porque no outro dia, logo cedo, alguém vai chamar e descobre. Tem de ser num hotel. Reuniu 70 poemas de amor de toda sua obra. Quem vai publicar?A mágoa é visível, escancarada. Eles não querem poemas de amor. Fala ao telefone: "Meu amor, estou muito triste hoje, estou muito triste". A voz ao telefone desaparece nas paredes e nos móveis escuros da sala, nos quadros, nos retratos de tantos amigos que há muito tempo não vê. Ah, os poemas de amor: "Que boca há de roer tempo? Que rosto/Há de chegar depois do meu? Quantas vezes/O tule do meu sopro há de pousar/Sobre a brancura fremente do teu dorso?/Quantas vezes dirás: vida, vésper, magma-marinha/E quantas vezes direi: és meu. E as distendidas/ Tardes, as largas luas, as madrugadas agônicas/ Sem poder tocar-te. Quantas vezes amor/Uma nova vertente há de nascer em ti/E quantas vezes em mim há de morrer".



para um amado senhor

Nave
Ave
Moinho
E tudo mais serei
Para que seja leve
Meu passo
Em vosso caminho.
(I)

(Hilda Hilst - Poesia: 1959-1979 - São Paulo: Quíron; [Brasília]: INL, 1980.)



Uma vez se perguntou dentro de um poema: "E se eu ficasse eterna?". Em outro poema, calou por dentro seu próprio destino:"Se refazer o tempo, a mim, me fosse dado/Faria do meu rosto de parábola/Rede de mel, ofício de magia". Num poema a García Lorca, ela afirmou: "Ah, se soubesses como ficou difícil a poesia". Vale para hoje as constatações de tantos anos, do tempo que escorreu pela face, o rosto transformado, o tempo guardado para sempre no bolso do casaco, como luas inexistentes que povoam seu espelho. Universal, Hilda Hilst não tem mundo para habitar, senão o desassossego, a inquietação, esse oceano noturno que sempre bate à janela, visita inesperada. Vivesse Hilda Hilst num país civilizado, a história seria diferente.


Hilda Hilst 21 de abril de 1930 (23horas e 45 minutos) - 4 de fevereiro de 2004 (4 horas da manhã).

Texto na íntegra: http://www.lumiarte.com/luardeoutono/hildaesp.html
04/02/2004 - 05h42

Morre em Campinas a escritora Hilda Hilst - Folha Online

A escritora paulista Hilda Hilst morreu nesta madrugada em Campinas aos 74 anos. Ela estava internada desde o dia 2 de janeiro no Hospital das Clínicas da Unicamp.

A escritora sofreu uma queda e quebrou a perna, mas houve complicações hospitalares.

Hilda Hilst é autora de 41 livros. A maior parte das obras da escritora é formada por poesias. Ela nasceu em Jaú, no interior de São Paulo, mas morava há 40 anos em Campinas.

* Em breve colocarei um post sobre ela, por enquanto só nos resta digerir a perda.

Leia: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u41157.shtml