Voltando com a luxuosíssima participação do meu amigo Wellington, vou postar a segunda parte do texto dele. Nem preciso dizer que está excelente. Boa leitura!




O Amor é Labirinto, ou Eurídice em Paris
(Antes do Pôr-do-sol)


......................................................................................................Para Isabel



..........Numa livraria em Paris, debate sobre um livro. O autor, dos EUA, ouve atentamente às diversas indagações sobre a obra. Autobiográfica ? O que ocorreu depois ? Ela de fato existiu ? A todas responde evasivamente, enquanto o pensamento mais uma vez vagueia ao redor da lembrança do perfil dela. Para fugir, elabora sobre o plano de um novo livro. E, de repente, num relance, parece vê-la no final do corredor à sua direita. Pisca os olhos, encara os jornalistas e vira o pescoço. Sim, é ela, e seu pensamento e fala ficam desnorteados. Dante mais uma vez transfixado pelo vulto de Beatriz, tenta inutilmente afastar o fantasma. A entrevista termina.

..........Caminha alguns passos, certifica-se que é ela. Seu anfitrião (o livreiro), quando perguntado, informa-lhe sobre o vôo que irá partir em algumas horas; já providenciou o carro, as malas estarão devidamente acondicionadas. Ao ver a mulher, enfatiza o horário, como um coro grego a perceber o inevitável.

..........Jesse e Celine, dois mortais que se apaixonaram nove anos antes, em um único dia. Separaram-se, nunca mais se viram (ou talvez sim, mas tão de relance que não perceberam), reencontram-se. As escassas horas que os separam da partida do vôo presenciarão agora uma mistura de julgamento e esforço, impotência e esperança, amor e abandono.

..........Amor e Labirinto, ou melhor, Amor é Labirinto. Como escapar do seu apelo, das promessas caso cheguemos ao centro, experimentemos o êxtase e consigamos sair, para depois retornarmos, insones, uma nova incursão?

..........Geralmente é um trajeto solitário, imersos que estamos na própria paixão, incertos da reação do outro. Mas, pouquíssimas e especiais vezes, adentramos o Labirinto de mãos dadas, o gozo da presença do outro nos preenchendo. E a recompensa é maravilhosa, caso alcancemos o centro. E aí um novo problema surge: a saída solitária é muito, muito difícil, quase como se precisássemos replicar o modo como entramos.

..........Jesse e Celine entraram juntos, há nove anos. Perderam-se. Com a hubris típica dos jovens, achavam que isso fosse impossível. Desde então estão perdidos. O tempo foi generoso com o físico de Celine, as marcas estão mais profundas no semblante de Jesse. Afinal, ele foi ao encontro marcado, seis meses depois. A sensação de rejeição (e desamparo) o estilhaçou. Ela, impedida pela Morte, não pôde ir. Não sabe se ele foi, e nessa (conveniente) indefinição os anos passaram e a tortura foi (talvez) menor.

..........Seguem a vida, embora uma parte deles esteja irremediavelmente comprometida. Pensam no outro, seja em sonhos recorrentes, na escolha de uma universidade e cidade, no trajeto até o casamento (quando ele a vê, embora não acredite). Escolhem parceiros (ou mesmo esposa). O desgaste de Jesse talvez seja ainda maior por causa do filho (a quem ama incondicionalmente); quando se tem um filho, quando se cria uma vida, privilégio dos Deuses, os mortais se arriscam. Raramente Eles permitem uma passagem incólume, mesmo aos homens...

..........E Jesse, consciente do labirinto em que está mergulhado, incorpora Orfeu. Para achá-la, seja onde ela estiver, se no Labirinto, se no próprio Inferno, usa sua arte. Escreve um livro, mostrando o quanto ela foi importante. Catarse e garrafa de náufrago jogada no oceano de letras.

..........Ela lê o livro e aí percebe a dimensão do labirinto. Passa a saber que ele está casado, um filho, harmonia doméstica típica dos press-releases. Sim, pensa ela, fui importante, mas será que ainda sou?

..........Na livraria, o reencontro é casto, mal se tocam ao se beijarem. Saem dali e começam a atravessar diversas vielas, um trajeto irregular (saída do Labirinto?), em direção a um café. As primeiras palavras são completamente defensivas e de humor nervoso, sobre o caráter (emocional/sexual) das francesas, sobre o livro recém-publicado... E, de repente, ela faz a primeira pergunta crucial: “Você foi ao encontro”? Ele diz que não, e a decepção (muito mal disfarçada de alívio) é patente no olhar de Celine.

..........Ela explica porque não foi (a morte da avó muito querida) e, em pouco tempo, percebe que Jesse não havia dito a verdade. Não só tinha ido, como procurado incessante (e tolamente) por ela. Por dentro, ela sorri.

Passada a primeira salva de tiros (em que Jesse se abriu), retornam os dois à conversa sobre o mundo, as potências, o meio-ambiente. Em meio a miudezas e nem sempre concordando, o diálogo nunca se suprime. Amar não é concordar com tudo, pensar igual (Eros não é Narciso), é a incessante tentativa de construir pontes (mesmo que frágeis), a possibilidade de que, no metro seguinte, alguma convergência se faça. Amar é confiar que a crítica (necessária) não será destrutiva apenas pelo prazer de ferir ou se impor.

..........Entram no café, sentam-se, pedem algo para beber. O café e a bebida pedida por Celine serão sorvidos frugalmente (quatro goles espaçados, no caso de Jesse, dois no de Celine), afinal a saída do labirinto também é ritual que demanda jejum, a única substância a ser degustada é o fumo do cigarro, incenso hedonista) e começam a falar do que ocorreu nos nove anos.

..........Resolvem continuar andando, passeiam por jardins e Jesse comenta que fizeram amor em um parque, em Viena. Celine alega não se lembrar. Mais à frente, ela faz a segunda pergunta crucial: “ E se o mundo fosse acabar hoje, sobre o que estaríamos conversando ?”. Ele responde que sobre qualquer assunto, mas num quarto de hotel, fazendo amor intensamente. Ela retruca: “Mas por que num quarto de hotel? Por que não num parque?” E ele corre para um banco, faz com que ela se sente no seu colo. Ela diz que o mundo não acaba hoje e sai do colo, mas se senta ao lado, no banco, o braço dele sobre seu ombro, embora um pequeno volume (bolsa?) esteja entre os dois. Não importa. Ela agora se sabe desejada.

..........Continuam a andar e daqui a pouco surge a terceira pergunta crucial: “Como é o seu casamento ?” Eles se afastam fisicamente, pois um corrimão os separa, por alguns segundos. Ele logo percebe e resolve deslizar pelo corrimão, para não ficar distante. Depois de alguns detalhes, ela fala do seu relacionamento com um fotógrafo, quase sempre (e, de certa forma, convenientemente) ausente.

..........Chegam a um “bateau mouche”. Apesar dos avisos que ela lança, sobre o tempo se escoando até o vôo, ele resolve embarcar, apenas por um trecho do Sena. Avisam ao motorista, pelo celular, que os espere na próxima parada do barco, na Henrique IV (não por acaso, certamente, já que se trata de um dos maiores reis franceses, autor da frase “Paris bem vale uma missa”, por se ter convertido ao catolicismo para assumir o trono. O grande amor de sua vida foi Gabrielle d’Estrée, “A Bela Gabrielle”, apesar de casado formalmente com Marguerite de Valois. Não chegaram a se casar, apesar de três filhos e de Henrique ter solicitado ao papa a anulação do casamento com Marguerite; Gabrielle morreu de parto, esperando um quarto filho).

..........No barco, admiram Notre Dame, ela comenta sobre lembranças que todas as pessoas deixam em nós, mesmo as mais fugazes. Enquanto ela fala, o olhar dele é o de um completo apaixonado. Depois é a hora de ele falar, das razões pelas quais casou; está infeliz, sem dúvida, por mais justificadas que elas parecessem à época.

..........Na chegada à parada, o carro o espera. Apesar de novamente alertado sobre o horário do vôo, ele pede para deixá-la em casa; confabulam com o motorista, que acede.

..........No mito de Orfeu, ele desce ao Inferno para tentar trazer Eurídice de volta. Hades e Perséfone, comovidos com o esforço do artista, concordam em devolvê-la. Segundo Junito de Souza Brandão, “impuseram-lhe, todavia, uma condição extremamente difícil: ele seguiria à frente e ela lhe acompanharia os passos, mas, enquanto caminhassem pelas terras infernais, ouvisse o que ouvisse, pensasse o que pensasse, Orfeu não poderia olhar para trás, enquanto o casal não transpusesse os limites do império das sombras. O poeta aceitou a imposição e estava quase alcançando a luz, quando uma terrível dúvida lhe assaltou o espírito; e se não estivesse atrás dele a sua amada? E se os deuses do Hades o tivessem enganado? Mordido pela impaciência, pela incerteza, pela saudade, pela “carência” e por invencível póthos, pelo desejo grande da presença de uma ausência, o cantor olhou para trás, transgredindo a ordem dos soberanos das trevas. Ao voltar-se, viu Eurídice, que se esvaiu para sempre numa sombra, “morrendo uma Segunda vez”. Ainda tentou regressar, mas o barqueiro Caronte não mais o permitiu.” (grifos no texto original)[1]

..........Olhar para trás. Ficar em dúvida, temer o passado, as raízes, afrontando a possibilidade de futuro. A cada vez que se repete o aviso de que o vôo partirá, Jesse providencia uma justificativa diferente para continuar a conversa, para mostrar a Celine (e aos Deuses) que não olhará para trás.

..........No carro, os dois se abrem mais ainda. Celine desfia toda a sua angústia perante a vida, aprofundada pelo livro de Jesse. O labirinto lhe ficou patente e a oprime, inexorável. Desesperada, pede ao motorista para parar. A muito custo, Jesse consegue demovê-la, e a única forma de lhe dar alguma serenidade é mostrar o quanto a vida dele é um tormento, com sonhos repetidos em que Celine é a protagonista, a musa nunca encontrada no trem, a mãe que ele deseja para seus filhos. Durante os comentários de cada um, entretidos em seu próprio inferno pessoal, não percebem que o outro quase o(a) acariciou, tentativa de aconchego.


..........Chegam perto da casa dela, ele se oferece para levá-la até a porta. Antes, ela havia lhe dado um abraço apertado de despedida, “para saber se ele explodiria em moléculas”... Trata-se do primeiro contato físico mais próximo, após mais de uma hora.. No portal do prédio, ele pede que lhe cante algo, resquício do que conversaram antes. Ela lhe promete, mais apenas uma música, e não deixa de novamente lhe lembrar do horário do vôo.

..........Sobem lentamente os lances de escada, o ritual se encaminhando para o clímax e, por isso mesmo, a imprescindível liturgia. A espiral os leva para mais perto da saída (do labirinto ou Hades), do céu, da luz. Entram no quarto, ele tira o paletó imediatamente (a segunda vez que o faz, anteriormente apenas no café), sabe que o final está próximo, seja ele qual for. Ela já sabe o quanto ele a ama, pergunta se quer chá. Mas ainda falta um teste: pergunta o que quer ouvir, dá-lhe três opções, embora dê pistas (uma é sobre um gato, outra sobre um ex-namorado, a terceira uma valsa). Claramente induzido à escolha da valsa (pois ela já o aprovou, afinal de contas), ele a solicita. A canção é justamente sobre o quanto ele representa para ela. E então, ainda que um pouco sem jeito, mas em nenhum momento indecisa, ela lhe oferece, em forma de arte, sua declaração e se abre completamente. A essa altura, as oferendas artísticas já foram trocadas, inequivocamente demonstrando o real significado de cada um para o outro. A partir dali, não há mais dúvidas, eles sabem disso, mesmo que gracejos tentem amenizar o impacto do momento.

..........De uma maneira perfeitamente natural, sem pedir licença, ele vai ao aparelho de som e escolhe uma música de Nina Simone, “Just in Time”, e ela reage dizendo que a adora. “Bem na hora, achei você bem a tempo. Antes de você chegar, meu tempo se arrastava, estava perdida. As apostas já perdidas, minhas ligações todas para trás, não tinha onde ir. Agora você está aqui e agora. Sei exatamente para onde vou, nenhuma dúvida ou medo, achei meu caminho. Porque o amor chegou bem a tempo. Você chegou bem na hora e mudou minha vida solitária.” E ela se solta, fazendo uma imitação extremamente sensual e despojada da cantora, totalmente à vontade, nenhuma dúvida restando naquele corpo, revelando-se em emoção para o homem que a merecia e que ela amava.

..........E quando, pela última vez, ela comenta que ele vai perder o avião (mas mais que um alerta, o tom já evoca um fato inquestionável), responde completamente relaxado, senhor de si, sorrindo por não ter olhado para trás. Orfeu diz para Eurídice, despreocupado e pensando apenas no futuro prazeroso que imagina para os dois: “Eu sei”.

..........Enquanto esse texto se encerrava, olhei a chuva na janela e me lembrei de “Sem Fantasia”, dueto de Chico e Bethania, “e agora que cheguei, eu quero a recompensa, eu quero a prenda imensa dos carinhos teus”.


[1] BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega (vol. II). Petrópolis, Vozes.2001. p. 142.
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Wellington Dantas de Amorim - novembro de 2004.



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