As mulheres de Clarice
José Castello



Uma crônica antiga, Clarice Lispector diz: “Eu queria poder usar a delicadeza que também tenho em mim, ao lado da grossura de camponesa que é o que me salva”. A crônica em questão chama-se “A descoberta do mundo” e faz parte, agora, de “Aprendendo a viver”, uma seleção das crônicas mais confessionais da escritora, que acaba de ser lançada pela editora Rocco. Delicadeza e grossura, ou, como se costuma pensar, feminilidade e masculinidade: é da constatação dessa dupla imagem, desse paradoxo, que Clarice Lispector retira sua identidade de mulher e de escritora. Sentimentos antagônicos, em estado de choque, que terminam por definir, em Clarice, o que é a mulher.

A mulher está no coração da literatura de Clarice Lispector. Não só como personagem, ou como narradora de seus livros, mas como um enigma. Os tradicionalistas atribuem ao masculino, em geral, a cultura, a ordem, a construção, a lógica. Ao feminino, destina-se a sensibilidade, a intuição, o irracional, a desordem. São clichês, muito vulneráveis. Com suas narrativas, Clarice Lispector nos mostra que as coisas não se passam bem assim. Que os dois elementos, “masculino” e “feminino”, convivem dentro da mulher.


Mulher: enigma a decifrar.


Outubro passado, “A paixão segundo G. H.”, seu romance mais importante e enigmático, completou 40 anos de publicação. É a história banal de uma mulher, identificada apenas pelas iniciais, G. H., que um dia resolve fazer uma faxina no quarto de empregada. Mas, como sempre, é do comum, do mais banal, que Clarice parte para seus mergulhos no mistério.

A literatura lhe veio muito cedo. Em 1944, aos 17 anos de idade — lá se vão 60 anos! — Clarice Lispector publicou seu primeiro romance, “Perto do coração selvagem”, saudado pelo crítico Antonio Cândido como um livro que capta os segredos da vida interior. Isso não se dá só porque “Perto do coração selvagem” é narrado por uma moça, Joana, personagem de sensibilidade incomum, que a coloca, sempre, “perto do coração selvagem da vida”. Se passa, sobretudo, porque Clarice escreve como quem decifra um enigma.

Essa primeira mulher de Clarice, a delicada Joana, é uma espécie de modelo de todas as mulheres que ela viria a criar, seres paradoxais, divididos entre o desamparo extremo e uma sensibilidade excepcional. Em “O lustre”, seu segundo livro, Virginia, a personagem principal, guarda também essa condição dupla, de fraqueza e força. Clarice o escreveu como uma “biografia interior”. Assim descreve Virginia: “Ela seria fluida durante toda a vida. Porém o que dominara seus contornos e os atraíra a um centro, o que a iluminara contra o mundo e lhe dera íntimo poder fora o segredo”. Em outras palavras: a condição fluida e sensitiva da mulher não exclui a presença de um centro, que lhe dá vigor — uma força, aliás, incomum.

Nas duas personagens, Joana e Virginia, surge um outro aspecto feminino, presente já na anatomia da mulher: a capacidade de reter e esconder dentro de si, sempre, o que é mais precioso. Há nas duas personagens, ainda, uma espécie disfarçada de maldade, expressa em seu poder de devassar o mundo, na coragem de desvendar seu avesso. Os livros de Clarice não apresentam mulheres assim, ou assado, não fornecem uma galeria de maneiras de ser, ou de tipos psicológicos. O feminino, em Clarice, não está na identidade sexual, nos aspectos anatômicos ou sensuais, mas sim no poder de revelar os aspectos ocultos do mundo.

Mesmo num personagem menos forte como Lucrecia Neves, de “A cidade sitiada”, o menos conhecido romance de Clarice, a aparente superficialidade não exclui uma visão aguda da vida. “Estava bruta, de pé, uma besta de carga ao sol”, o livro a descreve. “Essa era a espécie mais profunda de meditação de que era capaz”. Mesmo assim, sendo capaz de muito pouco, Lucrecia consegue penetrar nos segredos da existência.

Mas é em “A maçã no escuro”, importante romance de 1956, que a mulher se agiganta. Nele, a mulher se divide em duas: Vitória, a enérgica dona de uma fazenda, e sua frágil prima Ermelinda. Elas contracenam com Martim, o personagem masculino, um homem que acredita ter assassinado sua mulher. Vitória crê firmemente na objetividade das coisas e na clareza das palavras. Mas esse saber a destrói. Ela pensa: “E eu, que sei de tudo, e tudo o que sei envelheceu na minha mão e se tornou um objeto”. Ermelinda, ao contrário, é confusa e se deixa vencer pela angústia. “Eu só quero ser feliz, mas não ter todo esse trabalho horrível de me fazer feliz”, ela medita. Duas maneiras de expressar o feminino, seja pela afirmação de força, seja pela entrega ao outro.

Em “A paixão segundo G.H.”, o romance que acaba de completar 40 anos, a mulher retorna à introspecção. Na faxina que faz no quarto de serviço, G.H. depara com uma barata. Sem pensar, ela a esmaga, e do inseto sai uma massa branca e repulsiva. Em pânico diante da agonia da barata, G.H. decide provar da massa branca que lhe sai de dentro. Nesse contato com a matéria bruta, para além de todo nojo, a personagem de Clarice se despersonaliza, deixa de ser uma máscara feminina — para se dissolver no mundo primitivo e sem palavras da matéria. Outra vez o coração selvagem da vida. Só assim, se despersonalizando, ela consegue descobrir o que de fato é. Nada da identidade fácil fornecida pelas grifes da moda, estilistas, psicólogos de revista, ou mesmo pela carteira de identidade. A identidade de uma mulher, Clarice nos diz, é algo mais complexo. Para ser, é preciso primeiro deixar de ser, experimentar o nada e viver exatamente o contrário do que se é. Com essa definição da existência, Clarice torna o feminino não um trejeito, ou um efeito da anatomia, mas uma maneira de estar no mundo.

A mulher volta à vida cotidiana e à experiência do amor em “Uma aprendizagem, ou o livro dos prazeres”, belo romance de 1969. Mais uma vez, as meditações solitárias de uma mulher, Lóri, intercaladas com seus diálogos com o amado, Ulisses. É um livro sobre a paixão — e sobre as possibilidades que se abrem à mulher com a experiência amorosa. Lóri é movida pelo desejo de se comunicar, de se entregar. Isso, que parece tão simples, contudo, é algo que se conquista muito devagar. Não está apenas no instinto, ou na natureza. É algo que se deve aprender. Ser mulher, então, é um longo caminho — não um destino. Mas esse caminho não é necessariamente de conhecimento. É mais se entregar que conhecer. Como a própria Lóri diz a seu amado: “É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos é que começamos a saber”.


Macabéa começa do nada.


A imagem da mulher se dissolve completamente em “Água viva”, o mais radical romance de Clarice, que ela definiu como um livro “abstrato”. Ela o escreveu como se pintasse um quadro, ou compusesse uma música clássica, pouco interessada na ordem cronológica, no enredo, ou na caracterização dos personagens. “Água viva” é um conjunto de fragmentos, que servem de ponte para os pensamentos de uma mulher. A narradora do romance é uma pintora. Pouco interessada na organização das palavras como sua personagem, Clarice o chamou, primeiro, de “Atrás do pensamento”. Tanto Clarice como sua pintora desejam se libertar da existência do objeto, ou, como se diz em relação à arte figurativa, da figura. Querem chegar ao miolo das coisas — despir-se, não por fora, mas por dentro. “Preciso sentir primeiro o it dos animais”, ela diz. Antes de ser mulher, a mulher é. A isso Clarice quer chegar, ao que vem antes de tudo o que é humano — inclusive antes do pensar.

Não é por outro motivo que a literatura de Clarice deságua numa mulher totalmente simples, desprovida de luxos, analfabeta — a Macabéa, de “A hora da estrela”. Uma mulher carente de palavras e de pensamentos, que se distrai ouvindo a Rádio Relógio e que, em sua pequenez, se faz perguntas elementares. Macabea é uma mulher crua, fora da cultura, metida numa brutal realidade. Uma mulher tão insuficiente que o livro é narrado não por ela, mas por um homem, Rodrigo S. M. “Eu não inventei essa moça. Ela forçou dentro de mim a sua existência”, ele diz. Macabéa é uma mulher que começa do nada, ou do quase nada. Que, em seu encontro com um homem, tem pela frente todo um destino a construir.

Ser mulher não é fácil, Clarice nos diz com seus romances. Não é algo natural, como uma fruta, ou uma paisagem. É algo que precisa ser conquistado, passo a passo, e a trilha deve ser percorrida desde o início, ou não se chega ao fim.


*retirado daqui

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