Brando foi a corporificação do herói sacrificável, o marginal arrogante que sempre encarou todos ao seu redor com um desprezo quase olímpico, passando de fúrias animalescas para a indiferença com a simplicidade ou o à-vontade de quem troca de camisa. Brando representou muitas vezes o emblema do herói que só pode ser entendido ou interpretado com as chaves de Freud. O único filme que dirigiu, o western A Face Oculta, é um compêndio de neuroses que fariam a delícia do pai da psicanálise. Tudo isso começou em casa, com certeza. Brando nasceu - curiosidade - no mesmo dia em que Doris Day. Um virou a representação da América rebelde, a outra, da América conformista. Talvez as coisas não fossem assim simples.
No livro autobiográfico que escreveu com o jornalista Robert Lindsey, Canções Que Minha Mãe Me Ensinou, Brando relembra a infância. Foi uma época triste de sua vida. Ajudou a moldar o adulto em que ele se transformou. A mãe era uma bêbada cujo hálito adocicado perseguiu o filho para sempre, complicando suas relações com as mulheres. O pai era um mulherengo que vivia correndo atrás de prostitutas. Violento, batia no filho. Os golpes doíam menos do que a frase que o garoto ouvia sempre: nunca seria nada na vida.


Errou feio Brando desafiou a rigidez do star-system e estabeleceu um padrão de comportamento e idiossincasia artística muitas vezes imitado, dificilmente igualado. Filmes como Espíritos Indômitos, os três com Kazan (Uma Rua Chamada Pecada, Viva Zapata! e Sindicato de Ladrões), O Selvagem e Júlio César, incursão shakespeariana de Joseph L. Mankiewicz, bastaram para estabelecer sua reputação e consagrá-lo como ícone de rebeldia. Brando não era só um corpo. Era um temperamento, uma voz.
Nos anos 1960, ele viveu seu primeiro inferno astral, enfilerando fracassos.Nos 70, estava tão por baixo que precisou de um teste para conseguir o papel de Vito Corleone em O Poderoso Chefão. O épico de Francis Ford Coppola o relançou. Brando ganhou o segundo Oscar. E veio a polêmica de Último Tango em Paris, de Bernando Bertolucci, que é muito mais do que o filme "da manteiga", como ficou conhecido na época.

Os últimos filmes voltaram a ser medíocres, com exceção de Apocalypse Now, de novo com Coppola, como se Brando não estivesse mais interessado com a carreira. Talvez não estivesse mesmo. Nos anos 1990 ele viveu seu apocalipse pessoal. Assassinato e suicídio em família.
Até o fim da vida, Brando não admitia fugir de seu padrão. Em A Cartada Final, seu último filme, brigou com o diretor Frank Oz e se recusava a gravar qualquer cena se o cineasta estivesse presente. O ator Robert De Niro teve de dirigir uma delas, com instruções dadas a ele por um assistente do diretor, que via tudo por um monitor em outra sala.Assim era Brando, uma antítese do próprio sobrenome.



"The more sensitive you are, the more likely you are to be brutalised, develop scabs and never evolve. Never allow yourself to feel anything because you always feel too much."



Esse post vai para o amigo e fotógrafo André Arruda (obrigada por Brando, the brander) e para o amigo Antonio Caetano que me deu uma tarde maravilhosa conversando sobre cinema.
Leia:
http://www.estadao.com.br/divirtase/noticias/2004/jul/02/62.htm

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