Que atire a primeira ombreira aquele que esta na faixa dos seus 30/40 anos não lembra com saudades da década de 80. Impossível.
Tudo aconteceu nessa década e os jovens, esses sentem saudades do que não viveram. Curtem nossos ídolos que já morreram e descobrem pasmos que depois dos anos 80 pouca coisa aconteceu digno de se tornar inesquecível.
O rock Brasil explodia. Nunca em tempo algum tantos conjuntos surgiram. Uma verdadeira safra musical de estilos variados. Barão, Legião, Cazuza, Blitz, Ultraje, Titãs, Gang 90, Zero (alguém lembra do Guilherme Isnard?), Paralamas, Kid Abelha, João Penca, Plebe Rude, Capital Inicial, Heróis da Resistência, Bikini Cavadão, Lobão e os Ronaldos, Lulu Santos, Radio Táxi, Sempre Livre etc. Eram muitos. Alguns ficaram pelo caminho, outros resistem ate hoje e poucos tentam retornar com velhos sucesso. Melhor seria se ficassem apenas nas lembranças mais generosas dos fãs.
O rock internacional não fazia feio, ainda que a nostalgia nos faça lembrar do que era ruim achando o máximo. Essa mesma década nos deu bandas como: U2, The Cure, The Pretenders, Cult, Smiths, Jesus and Mary Chain, R.E.M., Tears for Fears (Tias Fofinhas, lembram? rs) Isso sem falar em Michael Jackson, Madonna, Eurythmics, Cindy Lauper, Aha, entre outros. Escrevendo esses nomes, consigo entender a minha adoração pelos dinossauros do rock/punk, Clash, Deep Purple, Rush, Rolling, Black Sabbath, Led Zeppelin, Pink Floyd, Doors, Ramones, Janis, Hendrix etc. Mas isso é outra história. Naquela época qualquer pré-adolescente explodia os pulmões aos berros cantando: Boys Don´t Cryyyyyyyy e achava o máximo. Eu não era diferente.

Sem idade suficiente para entrar nos lugares que só muito mais tarde fui conhecer, como Crepúsculo, Dr. Smith e Mariuzin (um cubículo maravilhoso em Copa), ficávamos pelo Baixo Leblon com uma turma bem mais velha que a gente e pasmem, não existiam pit boys, nem babaquices do gênero. Nessa época, a rebeldia era vestir-se de preto, pintar a unha da mesma cor e fazer o gênero "a vida não tem sentido". Foi aí que comecei a usar essa cor, típica punk de butique, tinha até conta na Boys and Girls. Até hoje o armário tem variações sobre o mesmo tom, rs. Desse tempo, além da cor, trago o gosto pelo rock dos anos 70 e as motos. Caso à parte e influência de um amigo, o Jean, dono de uma lojinha de tatuagem numa galeria imunda da Senador Vergueiro. Grande figura, estilo easy rider, motoqueiro, cheio de atitude, nada fake, ele era assim, não poderia viver de outra maneira. Dele herdei essa paixão pelo vento na cara, coisa que anos mais tarde, quando o primeiro namoradinho aconteceu, viveria plenamente, com direito até a queimadura na batata da perna.
Mas por que esse papo, logo eu que nunca ou quase nunca falo de mim nesse blog?
Saudade, muita saudade e essa saudade tem nome: CAZUZA. Pois é, vi o filme.

Antes de entrar nesse assunto, preciso abrir um parêntese por aqui.
Lembro que quando fui assistir o filme "The Doors", sai do cinema com vontade de jogar tudo para o alto, horários, vidinha previsível, aqueles dias que se somavam em horas, meses, anos, queria da vida o último gole e nem foi um grande filme. Cinema tem dessas coisas, ali no escurinho, olhos vidrados, telona, tudo a volta toma corpo e a atmosfera da época ao som de muito rock te envolve e convida a viver. Nunca mais senti isso, até ver o filme sobre a vida de Cazuza. Ver os bastidores da vida dele, enxergando ali a dimensão exata do que é viver até os limites da impossibilidade. Sai do filme me sentindo pequena, funcionária pública, burocrata de uma vidinha insossa. Ok, é over, concordo, mas a porrada, quando se tem de levar uma, que seja de frente, bem no meio da cara. É assim que gostos das minhas.
Não vou entrar no mérito da produção, nem falar no modo como a história foi contada, seus erros e acertos, nada. Hoje o papo é outro.
Falar de Cazuza é falar do tempo, esse tempo que não pára, mas que poucos têm a noção exata disso. Poucos levam a vida como se ela realmente pudesse acabar amanhã, e pode. Vivemos como se fossemos eternos. Na urgência do momento, ele, remanescente da ditadura dos anos cinzas, vê no processo criativo a maneira de dar forma ao grito preso na garganta. Talvez um dos motivos dos anos 80 serem tão fecundos tenha sido esse, a possibilidade de falar, de dar voz aos pensamentos. E ele deu, alias, ele nos deu, principalmente quando sua vida se extinguia, quando era patente que o tempo enfim pararia.
E parou, não para ele que certamente deu linha na pipa e esta curtindo em outro lugar, parou para nós mesmos que nunca mais teremos os anos 80 ou um equivalente a Cazuza no cenário musical brasileiro
Continuamos a vidinha de sempre olhando a cara da morte sem saber como resgatar a vida.



*republicando.





Ainda outro dia no jornal, a matéria de capa perguntava pelos nossos ídolos. E lá mesmo numa constelação de nomes estava a resposta, a grande maioria morreu, o que sobrou, se enquadrou, envelheceu, os que estão surgindo não possuem o estofo necessário para serem ídolos, a não ser de si mesmos. Cansa. Faz tempo que o dia não nasce feliz. Faz tempo que a geração cara pintada não vai as ruas, não bate panelas, não tem uma ideologia que os faça lutar. Que nos faça lutar. O tempo não pára. Foi-se a urgência de vida, já sabemos que ninguém tem "uma vida toda pela frente" e às vezes o tempo é pouco pra tanta sede. Não disse Janis certa vez: "É preferível viver 10 anos intensamente à 70 anos vegetando na frente de uma televisão." Ele não teve nem 10 anos de carreira, foram exatos 9 anos e a eternidade pela frente.

O que há para dizer de Cazuza que já não foi dito. Que ele era um poeta, um letrista fantástico, um burguês bem nascido que sabia que no Brasil ainda se morre de fome? Tudo isso e muito mais já foi dito, contado e cantado. Mas só entende quem perdeu, quem vê o tempo passar, quem tem a angústia de viver uma vida com as horas contadas, distribuídas regularmente ao longo da semana. Quem tem agenda e sabe que muito provavelmente a consulta marcada vai se realizar. O tédio da rotina, das coisas certas e acertadas. O prazo e a data. Ele não. Ele virava a noite, o dia nascia e ele ia dormir.


No one

Quem deve ser eu e aonde deve estar você, meu amor?
eu poeta afogado em rima sem gosto de vida
e você a vida rindo pra mim, ainda que invisível?
a vida feia em você e eu pintor visionário
tentanto retocar o que é cruel mas pulsa e faz sentido?

Mas certo que eu seja um romântico anacrônico
e você um trem que por distração eu tenha perdido.
(o tempo não espera por ninguém e já foi tudo dito)

Cazuza -1981



O poeta faria 46 anos em 04/04/04, certamente chegaria na madrugada da semana seguinte com letras, amigos e todo um tempo pela frente.
Cazuza viveu o amor até a última gota e isso não é uma questão de opção sexual, isso pouco importa, cada um tem a sua, é uma questão de optar por viver e se entregar e-x-a-g-e-r-a-d-a-m-e-n-t-e. Mergulhar de cabeça, se arrebentar todo e lamber as feridas num canto. Cauterizar palavras, cicatrizar e se jogar de novo e de novo e sempre, num espaço azul céu fictício de uma boca qualquer.



Brigitte Bardot

Deus é amor sem segredo
nos olhos do cachorro
e a todo animal que ele quis que visse
sua obra já pronta.
Morro de medo dos teus olhos sem palavras
bigorrilhos, duques e xerifes
porque me viciei em sons codificados
porque eu sei que amar é abanar o rabo
lamber, latir e dar a pata.

Cazuza -1978



A setença de morte veio e ele se recusava a morrer. A criatividade transbordava e o corpo definhava. Antítese de si mesmo em vida e na agonia. Continuava caústico como sempre e ironizava como nunca.
Jamais seria santo e cantou o Céu e Inferno a sua maneira, "O reino dos Céus é do chato/ Do chato, do chato/ Do otário e do cagão".
"Se você quer saber como eu me sinto/ Vá a um laboratório ou num labirinto/ Seja atropelado pelo trem da morte/ Vá ver as cobaias de Deus (...) Nós somos as Cobaias de Deus."



Fase

Depois que eu descobri que era triste
as tardes ficaram mais azuis
eu descobri. Eu sou triste
depois que eu levei porrada
que os urubus se mostraram
depois da ingenuidade
entrei numa fase estranha
não reviro cores
não explodo a luz
estou sentado esperando
como os velhos palhaços do blues
o namorado que levou um bolo
um garoto perdido dos pais.

Cazuza - 1988



O século XXI caiu nos anos 80, os ídolos chegaram, deram seu recado e como o mundo anda se repetindo demais, é tudo a mesmice de sempre, puxaram o carro, foram para outro lado. Por aqui ficaram as histórias, os lugares, um tempo na memória, o resto está impresso no vinil da vida que teima em continuar...



Lembre-se de mim


Se você ver um par de sapatos, um pra cima outro pra baixo
Ou um surfista elegante, de sociedade
Se você sentir que está ventando demais e não tiver agradável
O vento que tava tão bom
Então se lembre de mim
Com minha hipocrisia
Um amor como o nosso está fadado a acabar
E eu já não tenho mais fôlego pra soprar a fogueira
Você parece uma barata tonta, envenenada por Rodox
E teu barato tá muito descoordenado
E desse jeito não vai dar
Então se você ver um tarado na escada
Lembre-se de mim
Um vira-lata emocionado
Lembre-se de mim
Lembre-se de nós e a nuvem alaranjada
Lembre-se do nosso amor
Com as decisões que tomamos juntos
Das nossas músicas malucas
E esse talento de tomar a cena de assalto
Pagamos o preço, por não sermos medíocres
E gargalhamos de tudo
Lembre-se disso quando for falar mal de mim
Quando me atacar pelas costas
Lembre-se da nuvem e da luz
Alaranjada do lustre do quarto


Cazuza - 1989






Leia: http://www.cazuza.com.br/cazuza.htm
http://www.legiao-urbana.com.br/cazuza/index.htm


* Vi o filme do Cazuza ontem e por uma dessas coincidências malucas, reencontramos o Cebola, um amigo dos tempos do baixo. Dono do último posto de gasolina antes de se subir em direção a Lagoa-Barra. Posto São Sebastião, que em breve deixará de existir também, contou-nos triste. Foi vendido. Se tudo se concretizar, vamos ter um prédio ali.
Não parecia que anos tinham se passado. Incrível. Abraço apertado, recordações mútuas, algumas dele, outras nossas e o filme, com todas músicas, passagens e paisagens que conhecíamos e hoje já não estão mais lá.
É, o tempo não pára, foi só o que pensei, qdo ele se afastou de moto pra dentro da noite...

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