A maior pena que eu tenho, punhal de prata, não é de me ver morrendo, mas de saber quem me mata. O que se desatou num só momento, não cabe no infinito, e é fuga e vento...

Carlos Drummond de Andrade




"Quanto mais juntos, tanto mais sozinhos...
Mas, nem sequer ouviste o que eu não disse...
Sem nunca ter começo, teve fim...
O que de olhos abertos eu não via... "

Guilherme de Almeida




"Falo de mim porque sinto vergonha. Momentos assim, momentos como este. O tempo cura. Mas se o tempo for a doença? É como se às vezes tivéssemos que nos pendurar para continuar vivendo. Para viver, um olhar basta...
Engraçado, não sinto nada. É o fim e eu não sinto nada...
Todos que conheci, que ficam e ficarão na minha cabeça. Começa e sempre termina. Foi bom demais.
Enfim fora, na cidade, saber quem sou, em quem me tornei.
Estou ciente demais para estar triste. Esperei uma eternidade para ouvir uma palavra de carinho. Então, fui viajar. Alguém que me dissesse "Amo você" seria maravilhoso.
Vejo o mundo se desvendar diante dos meus olhos. Enche meu coração. Quando criança queria viver numa ilha. Mulher sozinha, gloriosamente só."

Asas do Desejo - Win Wenders



Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen




Soneto

E quando nós saímos era a Lua,
Era o vento caído e o amor sereno
Azul e cinza-azul anoitecendo
A tarde ruiva das amendoeiras.

E respiramos, livres das ardências
Do sol, que nos levara à sombra cauta
Tangidos pelo canto das cigarras
Dentro e fora de nós exasperadas.

Andamos em silêncio pela praia.
Nos corpos leves e lavados ia
O sentimento do prazer cumprido.
Se mágoa me ficou na despedida

Não fez mal que ficasse, nem doesse -
Era bem doce, perto das antigas.


Rubem Braga - (1947)



"Até quando terás, minha alma, esta doçura, este dom de sofrer, este poder de amar, a força de estar sempre - insegura - segura como a flecha que segue a trajetória obscura, fiel ao seu movimento, exata em seu lugar...?"

Cecília Meireles




"Recompôs-se, brusco. Não, melhor não falar nada. Admitia que não conseguisse controlar seus pensamentos, mas admitir que não conseguisse controlar também o que dizia lançava-o perigosamente próximo daquela zona que alguns haviam convencionado chamar loucura. E essa era a primeira vez que se descobria assim, tão perto dessas coisas incompreensíveis que sempre julgara acontecerem aos outros - àqueles outros distanciados, melancólicos e enigmáticos, que costumava chamar de os sensíveis -, jamais a ele. Pois se sempre fora tão objetivo. Suportava apenas as superfícies onde o ar era plenamente respirável, e principalmente onde os sentidos todos sentiam apenas o que era corriqueiro e normal sentir. Subitamente pensava e sentia e dizia coisas que nunca tinham sido suas. Então, admitiu o medo. E admitindo o medo permitia-se uma grande liberdade: sim, podia fazer qualquer coisa, o próximo gesto teria o medo dentro dele e portanto seria um gesto inseguro, não precisava temer, pois antes de fazê-lo já se sabia temendo-o, já se sabia perdendo-se dentro dele - finalmente, podia partir para qualquer coisa, porque de qualquer maneira estaria perdido dentro dela".

Caio Fernando Abreu, in O Ovo Apunhalado







Leminski

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