"A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contato: de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é: "eu te desejo", e libera-lo, alimenta-lo, ramifica-lo, fazê-lo explodir ( a linguagem goza de tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação."

Roland Barthes


Apelo

Porque não vens agora, que te quero,
E adias esta urgência?
Prometes-me o futuro, e eu desespero.
O futuro é o disfarce da impotência...

Hoje, aqui, já, neste momento
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento...
O desejo é o limite dos mortais.

Miguel Torga, in "Antologia Poética"



"Parece que existe no cérebro uma zona específica, que poderíamos chamar memória poética, que registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à nossa vida... o amor começa no momento em que uma mulher se inscreve com uma palavra em nossa memória poética."

"A Insustentável Leveza do Ser", de Milan Kundera


"Ele parece não ter noção de seu poder. Para mim que penetro no segredo de meu coração, fica claro que até hoje não escrevi uma só linha que ele não tenha inspirado. Não vejo nada, não ouço nada, sem imediatamente pensar: O que diria ele?
Abandono minha emoção e conheço apenas a sua. Parece-me mesmo que, se ele não estivesse aqui para me definir, minha própria personalidade se desfaria em contornos vagos; não me reúno nem me defino, senão em torno dele. Por qual ilusão pude acreditar até hoje que o formava a minha semelhança ? Ao passo que, ao contrário, era eu quem me dobrava à sua, e não me apercebia! Ou melhor: por um estranho cruzamento de influências amorosas, nossos dois seres, reciprocamente, se deformavam. Involuntariamente, inconscientemente, cada um de dois seres que se amam molda àquele ídolo que contempla no coração do outro..."

Andre Gide - livro Moedeiros Falsos



"...Só tu tens o poder de me entristecer, de me fazer feliz ou trazer consolo; és tu o credor de enorme dívida, especialmente agora, quando acabo de cumprir tuas ordens de forma tão completa que, quando sentia em mim fraquejar as forças para fazer-te oposição, me comprazia em encontrar energia no teu plano para me destruir. Fiz mais. Por estranho que soe, meu amor atingiu tais atmosferas de loucura que se destituiu do que mais prezava, para além de qualquer esperança de recuperação, quando ao teu imediato comando troquei minhas vestes e com elas meus pensamentos para provar que és o único senhor do meu corpo e minha vontade. Deus é testemunha de que nunca busquei em ti nada além de ti; eras tu o que eu simplesmente desejava, e nada do que era teu. Não busquei laços de casamento, poção casamenteira, e não busquei gratificar meu próprio prazer e meus desejos, como bem sabes, mas os teus. O nome de esposa pode parecer mais sagrado ou aceitável, mas para mim a palavra mais doce sempre será amante, ou, se me permitires, concubina ou puta."

Trecho de uma carta de Heloísa a Abelardo - séc. XII


"Deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver nascer uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado... "

Caio Fernando Abreu - Para uma avenca partindo - O Ovo Apunhalado

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