"Mas como podem eles, que já se atiraram uns aos outros e não mais se delimitam nem se distinguem, quer dizer, que nada mais possuem de seu, encontrar uma saída em si mesmos, no fundo de sua solidão já derramada?"

Rainer Maria Rilke




Rilke teve durante toda a sua vida uma companhia, a solidão. Filho único, foi educado pela mãe dentro de um rigoroso catolicismo como uma menina e obrigado pelo pai a freqüentar uma escola de cadetes, onde se sentia terrivelmente só. Talvez fosse mais um outsider, pensando bem, e como é bem próprio daqueles que não se encaixam em lugar nenhum, viajou pelo mundo durante boa parte de sua vida.



a solidão é como chuva.

sobe do mar nas tardes em declínio
das planícies perdidas na saudade
ela se eleva ao céu, que é seu domínio
para cair do céu sobre a cidade

goteja na hora dúbia quando os becos
anseiam longamente pela aurora
quando os amantes se abandonam tristes
com a desilusão que a carne chora
quando os homens, seus ódios sufocando,
num mesmo leito vão deitar-se: é quando

a solidão com os rios vão passando

rilke




Sua obra mais conhecida é "Cartas a um jovem poeta" onde ele mantém correspondência com o jovem Kappus, leitura indispensável para quem tem dúvidas. Dúvidas de que? De tudo, sobre tudo, sobre a real necessidade de seguir uma vocação ou apenas ter um trabalho, um título, uma vida dentro dos padrões.
Não parte daí nenhum julgamento do que é certo ou errado, mas sim o que move o ser humano no que ele tem de essencial, vital. No caso, o jovem poeta ainda em dúvida sobre sua vocação escreve a rilke e lhe pede ajuda no sentido de saber se deve ou não prosseguir pelo caminho das letras. As cartas entre os dois são trocadas entre 1903 e 1908. Não se sabe se Kappus tornou-se um poeta por profissão, mas sabe-se que muitos que vieram após ele e tiveram nas mãos este livro descobriram-se poetas.
Assim conta a história...




a hora inclina-se e toca em mim
com claro bater metálico
os sentidos me tremem. sinto: eu posso...
e colho o dia plástico.

nada estava acabado antes de eu ver:
todo o devir aguardando em quietude.
maduros meus olhares: a cada um
como uma noiva, chega a coisa ansiada.

nada é pequeno para mim: gosto de tudo
e tudo eu pinto sobre ouro com grandeza
e bem alto o levanto
sem saber de quem vai a alma libertar

rilke






Nascido em Praga em 1875, Rainer Maria Rilke viajou pela África do Norte e pela Europa e, na França, tornou-se secretário do escultor François Rodin. Escreveu em alemão várias obras em prosa, mas é mais conhecido por suas poesias, que se caracterizam pela nota espiritual e pelo gosto das imagens, como acontece em Elegias de Duíno, escritas entre 1912 e 1922.
Ao conhecer Lou Andréas-Salomé (que adoro e de quem já falei aqui), Rilke inicia um Diário: O diário de Florença. São as impressões do jovem poeta, de apenas 22 anos, completamente apaixonado por Lou, mulher culta e inteligente, amiga de Freud, Tolstói e Nietzsche, quinze anos mais velha do que ele, a musa inspiradora deste livro. "Sinto que minha alegria permanece impessoal e sem brilho, enquanto dela não participares como confidente", escreve Rilke nas primeiras linhas de seu diário. A relação tumultuada deu origem a um belo livro que não se furta em falar de tudo e não apenas da mola propulsora, sua paixão por ela.





se ao menos uma vez tudo se aquietasse
se se calassem o talvez e o mais ou menos
e o riso à minha volta...
se o barulho que fazem meus sentidos
não perturbasse mais minha vigília...

então, num pensamento multifário
poderia eu pensar-te até aos teus limites
e possuir-te (só o tempo de um sorriso)
e oferecer-te a vida inteira, como
um agradecimento




Rilke faleceu no dia 29 de dezembro de 1926 em Valmont (Suiça). Deixou mais que belos versos, prosas regadas de poesia em puro estado, deixou-nos uma interrogação, um outro olhar, um sentido maior de visão primeira direcionada para o interior porque somente ali estão todas as respostas.




"Só o que é interno é perto; o mais, distante.
E esse interno é tão denso e a cada instante
Mais denso ainda. Impossível descrevê-la.
A ilha é como uma pequena estrela
Que o espaço esqueceu..."

rilke





Leia: http://www.opoema.libnet.com.br/rainermariarilke/rainermariarilke_db.htm
http://www.pmresende.rj.gov.br/asillo.htm

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