O ano passado

O ano passado não passou,
continua incessantemente.
Em vão marco novos encontros.
Todos são encontros passados.

As ruas, sempre do ano passado,
e as pessoas, também as mesmas,
com iguais gestos e falas.
O céu tem exatamente
sabidos tons de amanhecer,
de sol pleno, de descambar
como no repetidíssimo ano passado.

Embora sepultos, os mortos do ano passado
sepultam-se todos os dias.
Escuto os medos, conto as libélulas,
mastigo o pão do ano passado.

E será sempre assim daqui por diante.
Não consigo evacuar
o ano passado.

Carlos Drummond de Andrade





Passagem do Ano

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
[e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gesto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Carlos Drummond de Andrade
1945. A Rosa do Povo (Poemas). Rio de janeiro, Livraria José Olympio Editora.



Que 2005 seja melhor para todos nós. Sem receitas pré-determinadas,
promessas que nunca serão compridas, como sempre, rss
Viver...apenas isso, um dia de cada vez, seguir o destino traçado por nós mesmos.
Virar o Ano, a vida pelo avesso e ver que os caminhos são muitos, mas apenas um é o seu.
Feliz Ano Novo!
Ah! E muito beijo na boca, antes, durante e depois da virada ;)
Bjus blues.angel



Cuidado.
O amor é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
que se desfia pouco a pouco. Guardo
silêncio para que possam ouvi-lo
desfazer-se.

Casimiro de Brito



"Ainda que chova, ainda que doa
Ainda que a distância
Corro a as horas do dia
E caia a noite sem estrelas
O mundo brilha um pouquinho mais
A cada vez que você sorri"

Pablo Neruda





Sonhos

Ter um sonho, um sonho lindo,


Noite branda de luar,


Que se sonhasse a sorrir...


Que se sonhasse a chorar...
Ter um sonho, que nos fosse


A vida, a luz, o alento,


Que a sonhar beijasse doce


A nossa boca... um lamento...
Ser pra nós o guia, o norte,


Na vida o único trilho;


E depois ver vir a morte
Despedaçar esses laços!...


É pior que ter um filho


Que nos morresse nos braços!

Florbela Espanca



Amor

Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
essa perna é tua?,
esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente á tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.

Eugenio Andrade






"Há alguma coisa aqui que me dá medo. Quando eu descobrir o que me assusta, saberei também o que amo aqui. O medo sempre me guiou para o que eu quero. E porque eu quero, temo. Muitas vezes foi o medo que me tomou pela mão e me levou. O medo me leva ao perigo. E tudo o que eu amo é arriscado."

Clarice Lispector





"Amar é querer estar perto, se longe; e mais perto, se perto."
Vinícius de Moraes





"Um beijo, mas afinal que é isso?
Um juramento feito de mais perto, uma promessa
Mais precisamente, uma confissão que se quer confirmar
Um ponto rosa no i do verbo aimer
É um segredo que usa a boca como uma orelha,
Um instante infinito que faz um som de abelha,
Uma comunhão com sabor a flor
Uma forma de se respirar um pouco o coração
E de se provar a alma na ponta dos lábios!"

Edmond Rostand






“Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.”
Clarice Lispector






"Por uma lógica singular, um sujeito apaixonado percebe o outro como um Tudo, e, ao mesmo tempo, esse Tudo parece comportar um resto que não pode ser dito. É o outro tudo que produz nele uma visão estética: ele gaba a sua perfeição; imagina que o outro quer ser amado como ele próprio gostaria de sê-lo, mas não por essa ou aquela de suas qualidades, mas por tudo, e esse tudo lhe é atribuído sob a forma de uma palavra vazia, porque Tudo não poderia ser inventariado sem ser diminuído."
Roland Barthes (Extraído de "Fragmentos de Um Discurso Amoroso")




Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer."

Do Desejo – 1992 - Hilda Hilst









Homenagem - Clarice Lispector


Será lançado no centro Cultural do Instituto Moreira Salles carioca, a edição especial dos Cadernos de Literatura Brasileira (revista semestral do IMS) dedicada à escritora Clarice Lispector (1920-1977), nesta quinta (09/12), a partir das 19h. Trata-se do aniversário de morte da ficcionista e véspera do dia de seu nascimento. O grande "furo" do novo número dos Cadernos está na seção Manuscritos, que apresenta pela primeira vez aos leitores os originais - literalmente manuscritos - de A Hora da Estrela, o último livro seu que Clarice Lispector - uma entusiasta da máquina de escrever - viu editado.

No IMS-Rio, o lançamento da publicação coincidirá com o vernissage de uma exposição de fotos, manuscritos, datiloscritos e objetos de Clarice Lispector. Na próxima segunda-feira (13/12), a partir das 19h, no Centro da Cultura Judaica de São Paulo também abriga o lançamento, com uma palestra da professora e crítica Berta Waldman, da Universidade de São Paulo, sobre a presença judaica no texto clariceano - que sempre foi discreta, já que a autora nunca se identificou muito com a religião.

Ensaios e teses

São 344 páginas em dois volumes, dissecando a obra e o gênio de Clarice Lispector. Em Ensaios, a publicação do Instituto Moreira Salles reúne textos do português Carlos Mendes de Sousa, da Universidade do Minho; de Benedito Nunes, da Universidade Federal do Pará; de Silviano Santiago, ficcionista e crítico literário; e das professoras Vilma Arêas (Universidade Estadual de Campinas), Berta Waldman (Unicamp/Universidade de São Paulo), Yudith Rosenbaum (USP) e Olga de Sá (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Em Confluências, a escritora é tema de depoimentos do economista Paulo Gurgel Valente, filho da autora; do escritor Lêdo Ivo; do jornalista Alberto Dines; e do poeta Ferreira Gullar. Ucraniana de Tchetchelnik, Clarice chegou ao Brasil em março de 1922 e aqui viveu em Maceió, Recife, Belém e Rio de Janeiro. Casada entre 1943 e 1959 com o diplomata Maury Gurgel Valente, passou temporadas na Itália, Suíça, Inglaterra e Estados Unidos.

Auto-retrato

Clarice por Ela Mesma constitui um amplo levantamento de suas declarações a respeito das obras que escreveu e de si - um autêntico auto-retrato. Avessa a se expor diante de repórteres, Clarice Lispector, no entanto, trabalhou em funções jornalísticas. Foi colunista feminina e escreveu crônicas para jornais. Aliás, sua atividade na imprensa é objeto de um encarte (que se vale parcialmente de estudos sobre o assunto realizados pela pesquisadora Aparecida Maria Nunes). Como sempre, os Cadernos se completam com as seções Geografia Pessoal, que mostra fotografias de Edu Simões realizadas nas cidades onde Clarice morou por mais tempo: Recife e Rio. Memória Seletiva, interessante painel cronológico, desta vez foi preparado com a consultoria de Nádia Battella Gotlib, da USP, biógrafa da autora.

No IMS-Rio, o lançamento da publicação coincidirá com o vernissage de uma exposição de fotos, manuscritos, datiloscritos e objetos de Clarice Lispector. O Instituto também promoverá um ciclo de filmes inspirados em sua literatura e sessão com contadores de histórias, que lerão livros de Clarice destinados ao público infantil. Confira a programação detalhada no site do IMS
(http://www.ims.com.br/).


A revista Cadernos de Literatura Brasileira - Clarice Lispector custa R$ 80,00.
Instituto Moreira Salles - Rua Marquês de São Vicente, 476; (21) 3284-7400.




Para sempre, Clarice.

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"Quero ter a liberdade de dizer coisas sem nexo como profunda forma de te atingir. Só o errado me atrai, e amo o pecado, a flor do pecado... Eu quero a desarticulação, só assim sou eu no mundo. Só assim me sinto bem... Eu na minha solidão quase vou explodir. Morrer deve ser uma muda explosão interna o corpo não agüenta mais ser corpo... E se morrer for um prazer, egoísta prazer?"

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"- Que é que eu faço, é de noite e eu estou viva. Estar viva está me matando aos poucos, e eu estou toda alerta no escuro."




"Não havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tornava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos."
( Repartição dos Pães)


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"Quero escrever noções, Sem o uso abusivo da palavra Só me resta ficar nua: Nada mais tenho a perder."



"É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo. Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando. Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas estou tão pouco preparada para entender. Mas como faço agora? Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê."

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Clarice Lispector


Fica a dica para os meus talentosos leitores. Boa sorte!




História inspiradora
Mànya Mille

Concurso Contos do Rio II

Lançado em 2003 para atender aos muitos pedidos de autores ou candidatos a autores que buscavam um espaço para mostrar seus trabalhos, o concurso Contos do Rio, promovido pelo caderno Prosa & Verso, mostrou que estava no caminho certo ao apostar no estímulo aos futuros escritores: os jurados receberam aproximadamente quatro mil textos de todo o país, dos quais 40 foram selecionados e serão premiados no próximo dia 15, numa cerimônia na Academia Brasileira de Letras. Agora já é hora, portanto, de abrir uma nova chance para que outros milhares de futuros autores mostrem seu talento. A segunda edição dos Contos do Rio está aberta oficialmente a partir de hoje.

O Rio continua sendo a referência obrigatória para o concurso, que nesta edição terá a memória como tema: o enredo dos contos deve ter como inspiração monumentos, personagens ou episódios históricos da cidade (de qualquer época), que podem ser o objeto principal da ficção ou apenas seu ponto de partida. Material, pois, é o que não falta para atiçar a imaginação de autores de todo o país.

Os contos, como na edição passada, deverão ser inéditos, inclusive na internet. E o ineditismo é apenas um dos pontos a serem cumpridos de acordo com o novo regulamento, publicado integralmente ao lado. Cada autor pode concorrer com um conto e não pode ter qualquer livro (de ficção ou não-ficção) lançado por editoras nacionais. A publicação é um critério de desclassificação. Desta vez, haverá dez finalistas, e não mais 40.


É importante também observar o tamanho do conto, que foi estipulado em 5.600 caracteres, incluindo espaços (a contagem é feita por qualquer programa de computador). O prazo de entrega dos textos encerra-se impreterivelmente em 31 de janeiro de 2005 e será observada a data de postagem no correio. Textos com carimbos postais além desse dia estarão automaticamente desclassificados.


“Sonho e ousadia têm que ser parte integrante da vida”


Todo trabalho e angústia certamente valerão a pena ao fim do concurso, tanto para o grande vencedor como para quem não chegar até essa etapa. É o que afirma Waldir Rodrigues Pereira, o vencedor da primeira edição do concurso, que no dia 15 vai receber na ABL seu troféu de primeiro colocado pelo conto “A vitória do amor”.

— O sonho e a ousadia têm que ser parte integrante da nossa vida e esse concurso é um veículo maravilhoso para exercitarmos isso, sejamos premiados ou não — disse Waldir, que tem 63 anos e mora em Brasília.

Servidor público que trabalha como redator de textos, Waldir também conta que a premiação deu um novo impulso ao seu sonho de se tornar escritor: ele já mandou o original de um romance inédito, chamado “O louco da minha rua”, para uma editora dar o seu parecer.

— Fiz isso inspirado pela premiação e ela abriu a porta para que eles (editores) me recebessem já com uma certa boa vontade.



Regulamento do Concurso:

1: O concurso “Contos do Rio” tem por objetivo estimular a produção literária, premiando obras inéditas do gênero, a serem criadas acerca do tema “memória”. A finalidade é a de incentivar a cultura, sem qualquer modalidade de sorteio, pagamento ou vínculo à compra, uso, bens, direitos ou serviços, sendo realizada pela INFOGLOBO COMUNICAÇÃO LTDA.

2: O conto deve ter como cenário o Rio de Janeiro, tomando como mote para o enredo ficcional seus monumentos, personagens ou episódios históricos de qualquer época.

3: O concurso é dirigido a autores desconhecidos, que apresentem textos totalmente inéditos, ainda não disponibilizados em nenhum suporte, incluindo a internet. É vedada a participação de escritores consagrados nos meios de comunicação.

3.1: É vedada a participação de candidatos que tenham textos publicados por editoras nacionais, sendo critério de desclassificação a publicação de livros. É igualmente vedada a participação de funcionários da INFOGLOBO.

4: Cada autor poderá participar com apenas um conto, observado o limite máximo de 5.600 caracteres (incluindo espaços), que deverá ser apresentado em seis vias impressas, e enviadas pelo correio para o endereço Prosa & Verso, Rua Irineu Marinho, 35/2 andar, CEP 20230-901. Admite-se o envio de material em disquete, desde que acompanhado do texto impresso.

5: Os textos devem ser assinados com pseudônimo. Dentro do envelope com o original e as cópias do conto deverá ser inserido um envelope menor, contendo o nome verdadeiro e os dados completos do candidato (nome, endereço, telefone e e-mail, se for o caso).

6: O prazo de entrega dos textos encerra-se em 31 de janeiro de 2005 (data de postagem no correio). Não serão aceitos os textos cuja data de postagem no correio ultrapasse esse dia.

7: A seleção prévia dos textos será realizada pela equipe do caderno Prosa & Verso e por outros jornalistas do GLOBO convidados pela equipe.

8: A mesma equipe será responsável pela seleção dos dez melhores contos, cujos autores serão premiados com publicação do texto no caderno Prosa & Verso.

9: Dentre os dez contos premiados, um júri de três especialistas selecionados pelo jornal escolherá o grande vencedor.

10: Os dez escolhidos receberão diplomas e o grande vencedor receberá uma placa de homenagem, em cerimônia realizada até dezembro de 2005, no Rio de Janeiro, em local a ser indicado pelo GLOBO.

11: Os ganhadores concordam em permitir a utilização de seus nomes e imagem, bem como os direitos autorais referentes à obra, podendo O GLOBO publicar o referido trabalho, a título gratuito.

12: A participação neste concurso acarreta aos participantes a aceitação total e irrestrita de todos os itens deste regulamento.

13: As dúvidas não previstas neste regulamento, bem como critérios para desempate, desclassificação, pontuação e adequação ao tema proposto serão julgadas exclusivamente por integrantes do jornal O GLOBO, cujas decisões serão soberanas e irrecorríveis.

14: Esta promoção tem caráter exclusivamente cultural, sendo realizada de acordo com o disposto na Lei Federal n 5.768/72 e no Decreto n 70.951/72, art. 30.
Continuando e agradecendo: Isso está virando um tratado, Well, um belíssimo tratado. Muito Obrigada!




Ulysses em Viena
(Antes do Amanhecer)



Se você (ainda) não viu “Antes do Amanhecer” e/ou “Antes do Pôr-do-sol”, o texto a seguir não é recomendável, pois comenta diversos elementos da trama, talvez tirando o prazer de se surpreender com dois belíssimos filmes.

Ser jovem é voar, as infinitas possibilidades embriagando, levando a um ritmo mais intenso que a própria realidade. Facilmente desenraizados, tais como as plantas-arame típicas do faroeste, permitimos que o vento nos leve a lugares que julgamos mais irrigados. Vento, vontade e velocidade, julgamos que nada pode nos impedir de sonhar e buscar, seja lá o que for.

..........Um trem em alta velocidade, trilhos que se cruzam, dois jovens se verão pela primeira vez.

.........Um casal discute em alemão. A jovem francesa, incomodada, vai mais para o fundo do vagão, onde vê de relance o jovem dos EUA. Ele também a avalia e parece aprovar o que viu. O casal (alemão, austríaco?) passa pelos dois, a discussão mais áspera do que antes, o que fornece assunto para conversarem (a tendência de casais perderem a capacidade de ouvir um ao outro, com o tempo, talvez uma adaptação para evitar o aniquilamento mútuo...rsrs). Perguntam pelo livro que o outro está lendo. Ela mostra uma coletânea de George Bataille
[1], ele a autobiografia de Klaus Kinski.[2] No seu cartão de visitas, ela já mostra suas preocupações e verniz intelectual. Ele se sente inferiorizado (e na realidade está, pois foi rejeitado pela antiga namorada, em Madri), daí o título do livro refletir tão bem o seu estado de espírito. Mas o contato foi feito, olhares trocados, aprovaram-se.

..........Vão para o vagão-restaurante. Falam dos respectivos países (assim como no início do segundo filme, que ainda estaria nove anos no futuro), dos preconceitos de sempre, do que fazem ali, dos planos. E, da maneira mais sincera, abrem-se. Mencionam a morte e ele faz um comentário crucial, sobre ter visto a bisavó (já morta) quando pequeno; narra o episódio da maneira mais natural e serena. Crucial porque, a partir daí, segundo as palavras dela, ele a conquistou. Mexem nervosamente com o que está às mãos, como o saleiro.

..........Pela janela, ela menciona que chegaram a Viena. Jesse sai, mas antes de desembarcar convence Celine a desfrutarem o dia juntos, sem eira nem beira. Sua argumentação é profética (e se, daqui a dez, quinze anos, insatisfeita com o eventual casamento, ela ficar pensando no que poderia ter sido, com alguém que ela mal tenha encontrado?), mas irônica, pois será ele que estará casado (e insatisfeito...).

..........Abandonam o trem (o espaço da velocidade, o fugaz, o descompromisso) e desembarcam na estação. A partir daí, o ritmo será muito mais lento (mesmo no bonde elétrico).[3] Dão-se as mãos e se dizem os nomes, pela primeira vez. O trajeto pode começar.

..........16 de junho, Bloomday, o dia eterno de “Ulysses”, de Joyce[4], o qual resolveu imortalizar a data do primeiro encontro com Nora, sua mulher e musa, nas peripécias de Leopold Bloom e Molly. Pois, na riqueza infinita da Odisséia, o clímax é o (re)encontro de Uysses e Penélope.

..........Conversam com dois vienenses, atores em uma peça non-sense. Ela se apresenta como se estivessem em lua-de-mel; Jesse se espanta, inicialmente, e depois se acostuma à idéia, inclusive acrescentando detalhes, “ela ficou grávida e casamos”. Novamente profético (e inconsciente), antecipa o que acontecerá em sua vida, mas com outra mulher, conforme será visto no filme seguinte.

..........Uma catedral, antes de começarem a conversar num bonde elétrico (análogo à visão de Notre Dame, no segundo filme, quando conversam no barco). Entre diversas passagens da conversa, uma se destaca: Celine comenta sobre sua primeira atração sexual, diz que ao final das férias prometeram se corresponder, mas “claro que nada escreveram”. De certa forma, Jesse intui que talvez aconteça o mesmo com eles. Em outra passagem, ela diz acreditar em “reencarnação”, enquanto que no segundo filme (já bem mais cética) descarta rapida e negativamente o tema.

..........Escutam “Come Here”, de Kath Bloom[5] em uma cabine de loja de discos. À música inebriante e espaço reduzido contrapõe-se o medo de se olharem, como o temor de sucumbir aos encantos das sereias.[6]

..........No cemitério dos desconhecidos, Celine fala que “quando as pessoas não sabem se você morreu ou não, de certa forma você está vivo”. Será o caso dos dois, durante nove anos...

.........Numa roda-gigante (a imobilidade, o deslocamento circular, a figura do Mundo) o primeiro beijo é trocado. A entrega dos dois é profunda, não só pelo prazer fugaz.

..........Andando, Celine menciona que a avó, apesar de parecer ser feliz no casamento, confidenciara a ela que “sonhava com outro homem por quem era apaixonada”. Dessa vez, é Celine quem profetiza, espelhada na parente a quem é mais chegada...

..........E, ao longo das horas que compartilham, são constantemente avisados por arautos, seja a quiromante ou o poeta à beira do rio. Depois, quando consegue negociar o vinho com o barman (tom persuasivo digno do original Ulysses), Jesse é lembrado: “À melhor noite de sua vida”.

..........Fazem amor sob as estrelas, na grama do parque. O contato com a terra lembra o leito de Ulysses e Penélope, moldado a partir da raiz viva de uma oliveira. Sentem-se com a pessoa certa, sem dúvida na mente e alma, completos, ao contrário de muitas outras ocasiões “felizes”.

..........De manhã, as poucas horas se escoando até a despedida, têm cada vez mais certeza do que os une. A despedida é emocionante, prometem-se o reencontro.. Mas ao contrário do Bloomday[7], a odisséia durará vários anos.

E, no final, sucedem-se as imagens dos vários recantos percorridos, apenas memória, Labirinto em que se perderam. Uma anciã passará perto da garrafa vazia e dos copos, no parque, oferenda de um ritual mágico. Sem a presença um do outro, não saberão como sair. Tentarão levar a vida (como a canção de fechamento, “Living Life”, não cansa de repetir no refrão), buscarão se provar que tudo foi vaga ilusão
.[8] E Ulysses prolongará sua Odisséia, passando por Circe (e/ou Calypso), em busca de reencontrar Penélope, que nunca o terá esquecido.


[1] Incluindo “Minha mãe”, “Madame Edwarda” e “O Morto”. Bataille é autor cultuado e polêmico, que explora a fundo os temas da morte, (des)integração psicológica e erotismo.
[2] Kinski é ator consagrado, colaborador de Werner Herzog em diversos filmes, como “Aguirre, a Cólera dos Deuses”, “Nosferatu” e “Fitzcarraldo”. Sua autobiografia se denomina “All I need is love” (rsrs).
[3] No segundo filme, o ritmo também é lento (caminhar, barco ou carro em baixa velocidade).
[4] Há outras menções a Joyce, nos dois filmes. “Before Sunrise” também é o título da tradução de Joyce para uma peça do alemão Gerhart Hauptmann. A livraria em que Jesse divulga o livro (Shakespeare & Co.) tem o mesmo nome daquela de Sylvia Beach, editora de Joyce (a livraria não é a mesma, os atuais donos compraram de Beach os direitos quanto ao nome).
[5] Afinal, estamos num Bloomday...
[6] Esse compartilhamento de espaço exíguo, com o mesmo temor nos olhares, pode ser visto no segundo filme, na subida da escada em direção ao apartamento de Celine.
[7] Bloomday também significa dia do florescimento...
[8] O começo do segundo filme, em que se mostram os vários locais por onde os dois ainda passarão, em Paris, reforça a imagem de entrada/saída do labirinto.



Wellington Dantas de Amorim
(novembro de 2004)
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* Milton, amei a Campanha: Um blog para Wellington! Já estou cantando o rapaz e acho que ele tem mesmo muito a dizer e nada melhor do que um blog! Muito obrigada a você e aos leitores pelo carinho com esse amigo queridíssimo!
Voltando com a luxuosíssima participação do meu amigo Wellington, vou postar a segunda parte do texto dele. Nem preciso dizer que está excelente. Boa leitura!




O Amor é Labirinto, ou Eurídice em Paris
(Antes do Pôr-do-sol)


......................................................................................................Para Isabel



..........Numa livraria em Paris, debate sobre um livro. O autor, dos EUA, ouve atentamente às diversas indagações sobre a obra. Autobiográfica ? O que ocorreu depois ? Ela de fato existiu ? A todas responde evasivamente, enquanto o pensamento mais uma vez vagueia ao redor da lembrança do perfil dela. Para fugir, elabora sobre o plano de um novo livro. E, de repente, num relance, parece vê-la no final do corredor à sua direita. Pisca os olhos, encara os jornalistas e vira o pescoço. Sim, é ela, e seu pensamento e fala ficam desnorteados. Dante mais uma vez transfixado pelo vulto de Beatriz, tenta inutilmente afastar o fantasma. A entrevista termina.

..........Caminha alguns passos, certifica-se que é ela. Seu anfitrião (o livreiro), quando perguntado, informa-lhe sobre o vôo que irá partir em algumas horas; já providenciou o carro, as malas estarão devidamente acondicionadas. Ao ver a mulher, enfatiza o horário, como um coro grego a perceber o inevitável.

..........Jesse e Celine, dois mortais que se apaixonaram nove anos antes, em um único dia. Separaram-se, nunca mais se viram (ou talvez sim, mas tão de relance que não perceberam), reencontram-se. As escassas horas que os separam da partida do vôo presenciarão agora uma mistura de julgamento e esforço, impotência e esperança, amor e abandono.

..........Amor e Labirinto, ou melhor, Amor é Labirinto. Como escapar do seu apelo, das promessas caso cheguemos ao centro, experimentemos o êxtase e consigamos sair, para depois retornarmos, insones, uma nova incursão?

..........Geralmente é um trajeto solitário, imersos que estamos na própria paixão, incertos da reação do outro. Mas, pouquíssimas e especiais vezes, adentramos o Labirinto de mãos dadas, o gozo da presença do outro nos preenchendo. E a recompensa é maravilhosa, caso alcancemos o centro. E aí um novo problema surge: a saída solitária é muito, muito difícil, quase como se precisássemos replicar o modo como entramos.

..........Jesse e Celine entraram juntos, há nove anos. Perderam-se. Com a hubris típica dos jovens, achavam que isso fosse impossível. Desde então estão perdidos. O tempo foi generoso com o físico de Celine, as marcas estão mais profundas no semblante de Jesse. Afinal, ele foi ao encontro marcado, seis meses depois. A sensação de rejeição (e desamparo) o estilhaçou. Ela, impedida pela Morte, não pôde ir. Não sabe se ele foi, e nessa (conveniente) indefinição os anos passaram e a tortura foi (talvez) menor.

..........Seguem a vida, embora uma parte deles esteja irremediavelmente comprometida. Pensam no outro, seja em sonhos recorrentes, na escolha de uma universidade e cidade, no trajeto até o casamento (quando ele a vê, embora não acredite). Escolhem parceiros (ou mesmo esposa). O desgaste de Jesse talvez seja ainda maior por causa do filho (a quem ama incondicionalmente); quando se tem um filho, quando se cria uma vida, privilégio dos Deuses, os mortais se arriscam. Raramente Eles permitem uma passagem incólume, mesmo aos homens...

..........E Jesse, consciente do labirinto em que está mergulhado, incorpora Orfeu. Para achá-la, seja onde ela estiver, se no Labirinto, se no próprio Inferno, usa sua arte. Escreve um livro, mostrando o quanto ela foi importante. Catarse e garrafa de náufrago jogada no oceano de letras.

..........Ela lê o livro e aí percebe a dimensão do labirinto. Passa a saber que ele está casado, um filho, harmonia doméstica típica dos press-releases. Sim, pensa ela, fui importante, mas será que ainda sou?

..........Na livraria, o reencontro é casto, mal se tocam ao se beijarem. Saem dali e começam a atravessar diversas vielas, um trajeto irregular (saída do Labirinto?), em direção a um café. As primeiras palavras são completamente defensivas e de humor nervoso, sobre o caráter (emocional/sexual) das francesas, sobre o livro recém-publicado... E, de repente, ela faz a primeira pergunta crucial: “Você foi ao encontro”? Ele diz que não, e a decepção (muito mal disfarçada de alívio) é patente no olhar de Celine.

..........Ela explica porque não foi (a morte da avó muito querida) e, em pouco tempo, percebe que Jesse não havia dito a verdade. Não só tinha ido, como procurado incessante (e tolamente) por ela. Por dentro, ela sorri.

Passada a primeira salva de tiros (em que Jesse se abriu), retornam os dois à conversa sobre o mundo, as potências, o meio-ambiente. Em meio a miudezas e nem sempre concordando, o diálogo nunca se suprime. Amar não é concordar com tudo, pensar igual (Eros não é Narciso), é a incessante tentativa de construir pontes (mesmo que frágeis), a possibilidade de que, no metro seguinte, alguma convergência se faça. Amar é confiar que a crítica (necessária) não será destrutiva apenas pelo prazer de ferir ou se impor.

..........Entram no café, sentam-se, pedem algo para beber. O café e a bebida pedida por Celine serão sorvidos frugalmente (quatro goles espaçados, no caso de Jesse, dois no de Celine), afinal a saída do labirinto também é ritual que demanda jejum, a única substância a ser degustada é o fumo do cigarro, incenso hedonista) e começam a falar do que ocorreu nos nove anos.

..........Resolvem continuar andando, passeiam por jardins e Jesse comenta que fizeram amor em um parque, em Viena. Celine alega não se lembrar. Mais à frente, ela faz a segunda pergunta crucial: “ E se o mundo fosse acabar hoje, sobre o que estaríamos conversando ?”. Ele responde que sobre qualquer assunto, mas num quarto de hotel, fazendo amor intensamente. Ela retruca: “Mas por que num quarto de hotel? Por que não num parque?” E ele corre para um banco, faz com que ela se sente no seu colo. Ela diz que o mundo não acaba hoje e sai do colo, mas se senta ao lado, no banco, o braço dele sobre seu ombro, embora um pequeno volume (bolsa?) esteja entre os dois. Não importa. Ela agora se sabe desejada.

..........Continuam a andar e daqui a pouco surge a terceira pergunta crucial: “Como é o seu casamento ?” Eles se afastam fisicamente, pois um corrimão os separa, por alguns segundos. Ele logo percebe e resolve deslizar pelo corrimão, para não ficar distante. Depois de alguns detalhes, ela fala do seu relacionamento com um fotógrafo, quase sempre (e, de certa forma, convenientemente) ausente.

..........Chegam a um “bateau mouche”. Apesar dos avisos que ela lança, sobre o tempo se escoando até o vôo, ele resolve embarcar, apenas por um trecho do Sena. Avisam ao motorista, pelo celular, que os espere na próxima parada do barco, na Henrique IV (não por acaso, certamente, já que se trata de um dos maiores reis franceses, autor da frase “Paris bem vale uma missa”, por se ter convertido ao catolicismo para assumir o trono. O grande amor de sua vida foi Gabrielle d’Estrée, “A Bela Gabrielle”, apesar de casado formalmente com Marguerite de Valois. Não chegaram a se casar, apesar de três filhos e de Henrique ter solicitado ao papa a anulação do casamento com Marguerite; Gabrielle morreu de parto, esperando um quarto filho).

..........No barco, admiram Notre Dame, ela comenta sobre lembranças que todas as pessoas deixam em nós, mesmo as mais fugazes. Enquanto ela fala, o olhar dele é o de um completo apaixonado. Depois é a hora de ele falar, das razões pelas quais casou; está infeliz, sem dúvida, por mais justificadas que elas parecessem à época.

..........Na chegada à parada, o carro o espera. Apesar de novamente alertado sobre o horário do vôo, ele pede para deixá-la em casa; confabulam com o motorista, que acede.

..........No mito de Orfeu, ele desce ao Inferno para tentar trazer Eurídice de volta. Hades e Perséfone, comovidos com o esforço do artista, concordam em devolvê-la. Segundo Junito de Souza Brandão, “impuseram-lhe, todavia, uma condição extremamente difícil: ele seguiria à frente e ela lhe acompanharia os passos, mas, enquanto caminhassem pelas terras infernais, ouvisse o que ouvisse, pensasse o que pensasse, Orfeu não poderia olhar para trás, enquanto o casal não transpusesse os limites do império das sombras. O poeta aceitou a imposição e estava quase alcançando a luz, quando uma terrível dúvida lhe assaltou o espírito; e se não estivesse atrás dele a sua amada? E se os deuses do Hades o tivessem enganado? Mordido pela impaciência, pela incerteza, pela saudade, pela “carência” e por invencível póthos, pelo desejo grande da presença de uma ausência, o cantor olhou para trás, transgredindo a ordem dos soberanos das trevas. Ao voltar-se, viu Eurídice, que se esvaiu para sempre numa sombra, “morrendo uma Segunda vez”. Ainda tentou regressar, mas o barqueiro Caronte não mais o permitiu.” (grifos no texto original)[1]

..........Olhar para trás. Ficar em dúvida, temer o passado, as raízes, afrontando a possibilidade de futuro. A cada vez que se repete o aviso de que o vôo partirá, Jesse providencia uma justificativa diferente para continuar a conversa, para mostrar a Celine (e aos Deuses) que não olhará para trás.

..........No carro, os dois se abrem mais ainda. Celine desfia toda a sua angústia perante a vida, aprofundada pelo livro de Jesse. O labirinto lhe ficou patente e a oprime, inexorável. Desesperada, pede ao motorista para parar. A muito custo, Jesse consegue demovê-la, e a única forma de lhe dar alguma serenidade é mostrar o quanto a vida dele é um tormento, com sonhos repetidos em que Celine é a protagonista, a musa nunca encontrada no trem, a mãe que ele deseja para seus filhos. Durante os comentários de cada um, entretidos em seu próprio inferno pessoal, não percebem que o outro quase o(a) acariciou, tentativa de aconchego.


..........Chegam perto da casa dela, ele se oferece para levá-la até a porta. Antes, ela havia lhe dado um abraço apertado de despedida, “para saber se ele explodiria em moléculas”... Trata-se do primeiro contato físico mais próximo, após mais de uma hora.. No portal do prédio, ele pede que lhe cante algo, resquício do que conversaram antes. Ela lhe promete, mais apenas uma música, e não deixa de novamente lhe lembrar do horário do vôo.

..........Sobem lentamente os lances de escada, o ritual se encaminhando para o clímax e, por isso mesmo, a imprescindível liturgia. A espiral os leva para mais perto da saída (do labirinto ou Hades), do céu, da luz. Entram no quarto, ele tira o paletó imediatamente (a segunda vez que o faz, anteriormente apenas no café), sabe que o final está próximo, seja ele qual for. Ela já sabe o quanto ele a ama, pergunta se quer chá. Mas ainda falta um teste: pergunta o que quer ouvir, dá-lhe três opções, embora dê pistas (uma é sobre um gato, outra sobre um ex-namorado, a terceira uma valsa). Claramente induzido à escolha da valsa (pois ela já o aprovou, afinal de contas), ele a solicita. A canção é justamente sobre o quanto ele representa para ela. E então, ainda que um pouco sem jeito, mas em nenhum momento indecisa, ela lhe oferece, em forma de arte, sua declaração e se abre completamente. A essa altura, as oferendas artísticas já foram trocadas, inequivocamente demonstrando o real significado de cada um para o outro. A partir dali, não há mais dúvidas, eles sabem disso, mesmo que gracejos tentem amenizar o impacto do momento.

..........De uma maneira perfeitamente natural, sem pedir licença, ele vai ao aparelho de som e escolhe uma música de Nina Simone, “Just in Time”, e ela reage dizendo que a adora. “Bem na hora, achei você bem a tempo. Antes de você chegar, meu tempo se arrastava, estava perdida. As apostas já perdidas, minhas ligações todas para trás, não tinha onde ir. Agora você está aqui e agora. Sei exatamente para onde vou, nenhuma dúvida ou medo, achei meu caminho. Porque o amor chegou bem a tempo. Você chegou bem na hora e mudou minha vida solitária.” E ela se solta, fazendo uma imitação extremamente sensual e despojada da cantora, totalmente à vontade, nenhuma dúvida restando naquele corpo, revelando-se em emoção para o homem que a merecia e que ela amava.

..........E quando, pela última vez, ela comenta que ele vai perder o avião (mas mais que um alerta, o tom já evoca um fato inquestionável), responde completamente relaxado, senhor de si, sorrindo por não ter olhado para trás. Orfeu diz para Eurídice, despreocupado e pensando apenas no futuro prazeroso que imagina para os dois: “Eu sei”.

..........Enquanto esse texto se encerrava, olhei a chuva na janela e me lembrei de “Sem Fantasia”, dueto de Chico e Bethania, “e agora que cheguei, eu quero a recompensa, eu quero a prenda imensa dos carinhos teus”.


[1] BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega (vol. II). Petrópolis, Vozes.2001. p. 142.
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Wellington Dantas de Amorim - novembro de 2004.




Conversando sobre o filme "Antes do pôr-do-sol" com o meu amigo, Wellington, convidei-o para escrever uma resenha sobre o filme. Por isso, hoje deixo-os com a luxuosa contribuição dele. Obrigada, Well.



Antes do pôr-do-sol




.....Em 1995, um filme de um diretor pouco conhecido surpreendeu muita gente e acabou se tornando cult. “Antes do Amanhecer”, de Richard Linklater (que depois filmou “Waking Life” e “Escola de Rock”, entre outros), com Ethan Hawke e Julie Delpy, mostrava, de forma inteligente, um encontro romântico entre um jovem dos EUA e uma francesa, que acabam passando quase um dia em Viena. Muitos diálogos, rumos pouco convencionais, química fina entre os protagonistas. Um final inconcluso (marcaram um encontro em Viena, seis meses depois), tom mais para melancólico, e ainda assim deixou marca entre os que o viram.

.....Nove anos se passaram. Linklater já é um diretor renomado e resolveu fazer a seqüência, “Antes do Pôr-do-sol”, elaborando a história novamente com Kim Krizan (atriz e escritora) e o roteiro com os dois protagonistas. Numa livraria de Paris, depois de um tour por várias cidades européias, Jesse faz a última apresentação para divulgar seu livro, inspirado nos acontecimentos de nove anos antes. Em meio às perguntas dos jornalistas e curiosos, olha para o lado e vê Celine. A partir daí, até a partida do avião de Jesse para Nova Iorque, os dois teriam pouco menos de duas horas para conversarem, já que não mais se viram desde Viena. Como em tempo real, a câmera não mais os abandonará. O fluxo de diálogos é intenso, engraçado, profundo, às vezes arrasador, mas nunca redundante. Os cortes são precisos e delicados, sem o nervosismo transgressor do Dogma 95, por exemplo, e ainda assim passando a sensação pura de fluidez e realidade. (O filme foi tão bem planejado que foi rodado em 15 dias). Roteiro precioso, em que cada movimento e palavra importa para o resultado final, com passagens inesquecíveis (e subliminares), como os dois caminhando pelo parque, muito juntos, e de repente o assunto passa a ser o casamento de Jesse, e surge uma escada, o corrimão os separa instantâneamente...

.....E os oitenta minutos (ao contrário dos 101 de “Antes do Nascer do Sol”) passam literalmente voando, a tensão reinante pela ditadura do horário reduzindo possibilidades, enquanto perguntas por vezes com respostas indefinidas ampliam a sensação de impotência. A interpretação dos protagonistas é uma delícia de autenticidade, e vida, amor, desencontros, dilemas, são expostos de maneira direta, irônica e estimulante.

.....Quanto ao final, embora brilhantemente inconcluso, uma dica: a música que está tocando é “Just in Time”, com Nina Simone. Repare também na última frase do filme...

.....Definitivamente, para ver e rever, para os que amam, para os que não mais amam, ou para os que ainda não perderam a esperança, talvez o melhor filme a tratar do assunto, desde “Uma História Pornográfica”.


Wellington Amorim


As mulheres de Clarice
José Castello



Uma crônica antiga, Clarice Lispector diz: “Eu queria poder usar a delicadeza que também tenho em mim, ao lado da grossura de camponesa que é o que me salva”. A crônica em questão chama-se “A descoberta do mundo” e faz parte, agora, de “Aprendendo a viver”, uma seleção das crônicas mais confessionais da escritora, que acaba de ser lançada pela editora Rocco. Delicadeza e grossura, ou, como se costuma pensar, feminilidade e masculinidade: é da constatação dessa dupla imagem, desse paradoxo, que Clarice Lispector retira sua identidade de mulher e de escritora. Sentimentos antagônicos, em estado de choque, que terminam por definir, em Clarice, o que é a mulher.

A mulher está no coração da literatura de Clarice Lispector. Não só como personagem, ou como narradora de seus livros, mas como um enigma. Os tradicionalistas atribuem ao masculino, em geral, a cultura, a ordem, a construção, a lógica. Ao feminino, destina-se a sensibilidade, a intuição, o irracional, a desordem. São clichês, muito vulneráveis. Com suas narrativas, Clarice Lispector nos mostra que as coisas não se passam bem assim. Que os dois elementos, “masculino” e “feminino”, convivem dentro da mulher.


Mulher: enigma a decifrar.


Outubro passado, “A paixão segundo G. H.”, seu romance mais importante e enigmático, completou 40 anos de publicação. É a história banal de uma mulher, identificada apenas pelas iniciais, G. H., que um dia resolve fazer uma faxina no quarto de empregada. Mas, como sempre, é do comum, do mais banal, que Clarice parte para seus mergulhos no mistério.

A literatura lhe veio muito cedo. Em 1944, aos 17 anos de idade — lá se vão 60 anos! — Clarice Lispector publicou seu primeiro romance, “Perto do coração selvagem”, saudado pelo crítico Antonio Cândido como um livro que capta os segredos da vida interior. Isso não se dá só porque “Perto do coração selvagem” é narrado por uma moça, Joana, personagem de sensibilidade incomum, que a coloca, sempre, “perto do coração selvagem da vida”. Se passa, sobretudo, porque Clarice escreve como quem decifra um enigma.

Essa primeira mulher de Clarice, a delicada Joana, é uma espécie de modelo de todas as mulheres que ela viria a criar, seres paradoxais, divididos entre o desamparo extremo e uma sensibilidade excepcional. Em “O lustre”, seu segundo livro, Virginia, a personagem principal, guarda também essa condição dupla, de fraqueza e força. Clarice o escreveu como uma “biografia interior”. Assim descreve Virginia: “Ela seria fluida durante toda a vida. Porém o que dominara seus contornos e os atraíra a um centro, o que a iluminara contra o mundo e lhe dera íntimo poder fora o segredo”. Em outras palavras: a condição fluida e sensitiva da mulher não exclui a presença de um centro, que lhe dá vigor — uma força, aliás, incomum.

Nas duas personagens, Joana e Virginia, surge um outro aspecto feminino, presente já na anatomia da mulher: a capacidade de reter e esconder dentro de si, sempre, o que é mais precioso. Há nas duas personagens, ainda, uma espécie disfarçada de maldade, expressa em seu poder de devassar o mundo, na coragem de desvendar seu avesso. Os livros de Clarice não apresentam mulheres assim, ou assado, não fornecem uma galeria de maneiras de ser, ou de tipos psicológicos. O feminino, em Clarice, não está na identidade sexual, nos aspectos anatômicos ou sensuais, mas sim no poder de revelar os aspectos ocultos do mundo.

Mesmo num personagem menos forte como Lucrecia Neves, de “A cidade sitiada”, o menos conhecido romance de Clarice, a aparente superficialidade não exclui uma visão aguda da vida. “Estava bruta, de pé, uma besta de carga ao sol”, o livro a descreve. “Essa era a espécie mais profunda de meditação de que era capaz”. Mesmo assim, sendo capaz de muito pouco, Lucrecia consegue penetrar nos segredos da existência.

Mas é em “A maçã no escuro”, importante romance de 1956, que a mulher se agiganta. Nele, a mulher se divide em duas: Vitória, a enérgica dona de uma fazenda, e sua frágil prima Ermelinda. Elas contracenam com Martim, o personagem masculino, um homem que acredita ter assassinado sua mulher. Vitória crê firmemente na objetividade das coisas e na clareza das palavras. Mas esse saber a destrói. Ela pensa: “E eu, que sei de tudo, e tudo o que sei envelheceu na minha mão e se tornou um objeto”. Ermelinda, ao contrário, é confusa e se deixa vencer pela angústia. “Eu só quero ser feliz, mas não ter todo esse trabalho horrível de me fazer feliz”, ela medita. Duas maneiras de expressar o feminino, seja pela afirmação de força, seja pela entrega ao outro.

Em “A paixão segundo G.H.”, o romance que acaba de completar 40 anos, a mulher retorna à introspecção. Na faxina que faz no quarto de serviço, G.H. depara com uma barata. Sem pensar, ela a esmaga, e do inseto sai uma massa branca e repulsiva. Em pânico diante da agonia da barata, G.H. decide provar da massa branca que lhe sai de dentro. Nesse contato com a matéria bruta, para além de todo nojo, a personagem de Clarice se despersonaliza, deixa de ser uma máscara feminina — para se dissolver no mundo primitivo e sem palavras da matéria. Outra vez o coração selvagem da vida. Só assim, se despersonalizando, ela consegue descobrir o que de fato é. Nada da identidade fácil fornecida pelas grifes da moda, estilistas, psicólogos de revista, ou mesmo pela carteira de identidade. A identidade de uma mulher, Clarice nos diz, é algo mais complexo. Para ser, é preciso primeiro deixar de ser, experimentar o nada e viver exatamente o contrário do que se é. Com essa definição da existência, Clarice torna o feminino não um trejeito, ou um efeito da anatomia, mas uma maneira de estar no mundo.

A mulher volta à vida cotidiana e à experiência do amor em “Uma aprendizagem, ou o livro dos prazeres”, belo romance de 1969. Mais uma vez, as meditações solitárias de uma mulher, Lóri, intercaladas com seus diálogos com o amado, Ulisses. É um livro sobre a paixão — e sobre as possibilidades que se abrem à mulher com a experiência amorosa. Lóri é movida pelo desejo de se comunicar, de se entregar. Isso, que parece tão simples, contudo, é algo que se conquista muito devagar. Não está apenas no instinto, ou na natureza. É algo que se deve aprender. Ser mulher, então, é um longo caminho — não um destino. Mas esse caminho não é necessariamente de conhecimento. É mais se entregar que conhecer. Como a própria Lóri diz a seu amado: “É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos é que começamos a saber”.


Macabéa começa do nada.


A imagem da mulher se dissolve completamente em “Água viva”, o mais radical romance de Clarice, que ela definiu como um livro “abstrato”. Ela o escreveu como se pintasse um quadro, ou compusesse uma música clássica, pouco interessada na ordem cronológica, no enredo, ou na caracterização dos personagens. “Água viva” é um conjunto de fragmentos, que servem de ponte para os pensamentos de uma mulher. A narradora do romance é uma pintora. Pouco interessada na organização das palavras como sua personagem, Clarice o chamou, primeiro, de “Atrás do pensamento”. Tanto Clarice como sua pintora desejam se libertar da existência do objeto, ou, como se diz em relação à arte figurativa, da figura. Querem chegar ao miolo das coisas — despir-se, não por fora, mas por dentro. “Preciso sentir primeiro o it dos animais”, ela diz. Antes de ser mulher, a mulher é. A isso Clarice quer chegar, ao que vem antes de tudo o que é humano — inclusive antes do pensar.

Não é por outro motivo que a literatura de Clarice deságua numa mulher totalmente simples, desprovida de luxos, analfabeta — a Macabéa, de “A hora da estrela”. Uma mulher carente de palavras e de pensamentos, que se distrai ouvindo a Rádio Relógio e que, em sua pequenez, se faz perguntas elementares. Macabea é uma mulher crua, fora da cultura, metida numa brutal realidade. Uma mulher tão insuficiente que o livro é narrado não por ela, mas por um homem, Rodrigo S. M. “Eu não inventei essa moça. Ela forçou dentro de mim a sua existência”, ele diz. Macabéa é uma mulher que começa do nada, ou do quase nada. Que, em seu encontro com um homem, tem pela frente todo um destino a construir.

Ser mulher não é fácil, Clarice nos diz com seus romances. Não é algo natural, como uma fruta, ou uma paisagem. É algo que precisa ser conquistado, passo a passo, e a trilha deve ser percorrida desde o início, ou não se chega ao fim.


*retirado daqui

Francisca Júlia, a "Musa Impassível"


"Isto não é verso de mulher! Deve ser uma brincadeira do Raimundo Correa!..."
Exclamou João Ribeiro ao ler numa das revistas mais conceituadas da época os versos de Francisca Júlia.Não se tratava de brincadeira, era uma mulher, uma jovem tão talentosa que no seu próximo livro, o próprio João Ribeiro se encarregaria de prefaciar. Escreveria ele na ocasião:

"Nem aqui, nem no sul nem no norte, onde agora floresce uma escola literária, encontro um nome que se possa opor ao de Francisca Júlia. Todos lhe são positivamente inferiores no estro, na composição e fatura do verso, nenhum possui em tal grau o talento de reproduzir as belezas clássicas com essa fria severidade de forma e de epítetos que Heredia e Leconde deram o exemplo na literatura francesa."

Apesar dos rasgados elogios em torno de sua estréia literária o sucesso não subiu a cabeça da jovem e já consagrada poetisa, então com 24 anos. Ao contrário, cada vez mais incentivada por amigos de peso, dedica-se integralmente à atividade poética, traduzindo para o português versos do poeta alemão Heine. Apesar de parnasiana na forma, Francisca Júlia também teve alguma passagem pelo simbolismo, introduzido no Brasil nessa última década do Século XIX.Vários poetas famosos não deixaram de manifestar, em crônicas emocionadas, vibrantes elogios à mais nova produção literária de Francisca Júlia, entre eles, Vicente de Carvalho e Coelho Neto. Nessa época chegou a ser convidada para a Academia Paulista de Letras, mas decidiu-se por dedicar-se ao marido, grande amor de sua vida.

Na segunda década do século, Francisca Júlia já era uma poetisa há muito consagrada. Aos 46 anos, recebe a maior homenagem que lhe prestaram em vida, quando um grupo de admiradores organizou, em 1917, uma sessão literária e ofereceu seu busto à Academia Brasileira de Letras. Era a consagração da talentosa artífice de versos, da "Musa Impassível", como ficou conhecida.
Em 1920, consagrada, realizada na vida literária e pessoal, Francisca Júlia, vê parte de sua vida ir embora quando seu marido falece.

A perda do companheiro tão querido foi arrasadora para a sensível poetisa, cuja emoção não pode conter, em nada demonstrando ser a autora daqueles versos frios, impassíveis. Confessou aos amigos que sua vida não tinha mais sentido sem a companhia do marido e deixou claro que "jamais poria o véu de viúva" (seria uma indicação de suicídio?). Retirou-se para repousar em seu quarto e ingeriu excessiva dose de narcóticos. No dia seguinte, em 01 de novembro de 1920, ao abraçar o caixão onde jazia o corpo inerte do esposo, num último e emocionado adeus, Francisca Júlia falecia aos 49 anos. Seu corpo foi enterrado no Cemitério do Araçá, em São Paulo, ao meio-dia de 2 de novembro.

Noturno

Pesa o silêncio sobre a terra. Por extenso
Caminho, passo a passo, o cortejo funéreo
Se arrasta em direção ao negro cemitério...
À frente, um vulto agita a caçoula do incenso.

E o cortejo caminha. Os cantos do saltério
Ouvem-se. O morto vai numa rede suspenso;
Uma mulher enxuga as lágrimas ao lenço;
Chora no ar o rumor de misticismo aéreo.

Uma ave canta; o vento acorda. A ampla mortalha
Da noite se ilumina ao resplendor da lua...
Uma estrige soluça; a folhagem farfalha.

Francisca Júlia


Leia: http://vbookstore.uol.com.br/biografias/francisca_julia.shtml





Seu verdadeiro nome era Jean Louis Lebris de Kerouac, mas pra quem se tornaria um dos protagonistas da beat generation, era pomposo demais.Falar de Jack Kerouac é correr o risco de misturar vida, obra e personagem. Talvez seja a melhor maneira de tentar entende-lo.O próprio Kerouac, dois anos antes de morrer, para livrar-se da "gaiola" em que o haviam posto depois do sucesso - exposição que sempre o mantivera, assim mesmo, num obtuso ostracismo -, disse numa entrevista a Paris Review: "Estou tão empenhado em entrevistar a mim mesmo em meus romances e estive sempre tão empenhado em escrever essas auto-entrevistas, que não vejo por que tive de sofrer ano após ano, nos últimos dez anos, repetindo e repetindo a quem quer que me entrevistasse o que já expliquei nos próprios livros... Não tem sentido".

Somente no segundo romance, On the road (Pé na estrada), ele alcança a eternidade. Recusado durante sete anos pelos editores antes de ser publicado em 1957, é um monumento ao amigo, retratado com o nome de Dean Moriarty. Escrito em apenas três meses e considerado sua obra-prima, encontramos aí descrita a experiência que se tornará modelo de vida para a "beat generation": a viagem, ou melhor, o nomadismo, e a aventura; a recusa da opulência americana e a clara contraposição ao mundo adulto; o jazz; a fuga no álcool e nas drogas. Na realidade, o que Kerouac faz não quer ser um protesto, mas uma busca. Numa entrevista em que lhe perguntam se a "beat generation" está em busca de alguma coisa, ele responde: "Deus. Quero que Deus me mostre seu rosto".

A vida de Jack Kerouac transcorreu sob o signo da perda e da solidão. Perda de seu irmão Gérard, morto os quatro anos de idade, e, em sua obra, símbolo da inocência, paradoxalmente projetada em Neal Cassady, delinqüente e devasso, mas que, para Jack, era um santo. Perda de sua língua natal, o dialeto franco-canadense (só foi falar inglês na escola). Na década de 1930, seu pai Leo perdeu sua gráfica e suas posses me uma inundação. Seu melhor amigo de infância, George Sampas (irmão de sua mulher Stella) morreu na guerra. É como se a inundação do rio Merrimack em 1936 fosse, simbolicamente, uma correnteza levando embora seus entes queridos, sua língua natal, seus amigos e seus laços comunitários. Sua obra foi uma tentativa de nadar contra essa correnteza, contra o Tempo. Uma viagem impossível, que o consumiu e esgotou. A correnteza acabou jogando-o na margem. A crônica de seus últimos anos é patética: sempre bêbado, dialogando com fantasmas, repetindo variações do mesmo monólogo.

Talvez por isso sua memória obsessiva ia a lugares da sua infância, às raízes da sua existência. A fuga em On the road nunca é sem volta. As grandes distâncias americanas, os pores-do-sol e as auroras irreais, o ritmo sincopado do jazz que acompanha a pessoa ao longo do caminho, os salões de bilhar, as mulheres e os encontros ocasionais são, em Kerouac, um parêntesis da precariedade que vive. De fato, escrevia num momento ardente: "Outubro é o mês mais doce. Em outubro, todos vão para casa".

E foi em outubro no dia 21, no ano de 1969, aos 47 anos, perto de sua mãe que Jack Kerouac morreu de hemorragia interna causada pela cirrose hepática. Os funerais foram realizados em Lowell, e Jack será sepultado no Edson Cemetery, o cemitério católico. Na sua cidade, sua casa, para onde apesar de todas as estradas que percorreu sempre voltou. A raiz da sua vida.



"Os jogos musculados do sexo são uma enorme seca mas Billie e eu divertimo-nos imenso enquanto fazemos amor e é por isso que conseguimos filosofar assim e estamos sempre de acordo e rimo-nos os dois numa doce nudez. "Oh querido somos os dois malucos, podíamos viver numa velha cabana de toros na montanha e não dizermos sequer uma palavra durante anos e anos, estava escrito que havíamos de encontrar-nos" - Enquanto ela diz estas e muitas outras coisas uma ideia começa a formar-se no meu espírito: "Já sei, Billie, vamos sair da Cidade e levamos o Elliott connosco para passarmos uma semana ou duas na cabana de Monsanto lá na floresta, longe de tudo" - "Ótimo, eu vou ligar já ao meu patrão e peço-lhe duas semanas de folga, Oh Jack vamos embora" - "E vai ser bom para o Elliott, poder afastar-se destes teus amigos sinistros, meu deus" - "O Perry não é sinistro". "Havemos de casar-nos, partiremos daqui e teremos uma casa de campo nas Andirondacks, e à noite jantaremos frugalmente com o Elliott à luz da lamparina" - "E eu farei sempre amor contigo" - "Mas nem sequer serás obrigada a isso porque ambos compreenderemos que somos doidos varridos... a verdade estará escrita em todas as paredes da nossa casa e mesmo que o mundo inteiro venha sujá-la com grandes manchas negras de ódio e mentira nós viveremos embriagados pela verdade" - "Bebe um café" (...).

Jack Kerouac - (in "Big Sur", 1962; tradução: Paulo Faria, Colecção Mil folhas, Lisboa, 2003)







"No Banquete de Platão, a profetisa Diotima de Mantinéia resaltou para Sócrates, com a sincera aprovação deste, que 'o amor não se dirige ao belo, como você pensa; dirige-se a geração e ao nascimento do belo'. Amar é querer 'gerar e procriar', e assim o amante 'busca e se ocupa em encontrar a coisa mais bela na qual possa gerar'. Em outras palavras, não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra o seu significado, mas no estímulo a participar da gênese das coisas. O amor é afim à transcendência; não é senão outro nome para o impulso criativo e como tal carregado de riscos, pois o fim da criação nunca é certo."

Amor Líquido - Zigmunt Bauman




"Quero que o meu amor te seja leve como se dançasse numa praia uma menina."
Lya Luft, in Canção do Amor Sereno




"(...) então sim pedi com os olhos que voltasse a me pedir e então me pediu e eu queria dizer sim minha flor da montanha e primeiro abracei-o e o trouxe para cima de mim para que pudesse sentir meus seios todos os perfumes sim e o coração que batia igual um louco e sim eu disse sim quero. Sim."
James Joyce



Amor

Talvez seja verdade que não existimos enquanto não houver quem veja que nós existimos, que não falamos enquanto não houver quem ouça o que estamos a dizer, no fundo, não estamos completamente vivos enquanto não formos amados.
Poucas coisas são tão estimulantes e simultaneamente aterrorizadoras como saber que somos o objecto do amor de alguém, já que para quem não está completamente convencido de que merece ser amado, ser alvo de carinho é como receber uma grande honra sem perceber bem porquê.
Assim que se resolve descobrir sinais de atração mútua, tudo o que o ser amado diz ou faz pode ser interpretado como significando praticamente o que se quiser.
Só nos apaixonamos quando não sabemos por quem estamos apaixonar-nos.
Se nos apaixonamos com tanta rapidez, talvez seja porque a vontade de amar precede o objeto do amor.
Apaixonamo-nos na esperança de não encontrarmos no outro aquilo que sabemos existir em nós - covardia, fraqueza, preguiça, desonestidade, acomodação e estupidez.

Alain de Botton -" Ensaios sobre o amor"




Diálogo entre Hélio Pellegrino e Clarice Lispector.


CL: Hélio, diga-me agora, qual a coisa mais importante do mundo?
HP: A coisa mais importante do mundo é a possibilidade de ser com-o-outro, na calma, cálida e intensa mutualidade do amor. O Outro é o que importa, antes e acima de tudo. Por mediação dele, na medida em que recebo sua graça, conquisto para mim a graça de existir. É esta a fonte da verdadeira generosidade e do autêntico entusiasmo ¿ Deus comigo. O amor ao Outro me leva à intuição do todo e me compele à luta pela justiça e pela transformação do mundo.
* trecho do livro “Lucidez Embriagada”, Ed. Planeta.


"De que natureza, era então, este amor?"

Em primeiro lugar, é uma experiência a dois, mas isto não quer dizer que seja uma a mesma coisa pra cada um. Há o que ama e o que é amado, e estes dois eram diferentes como o dia da noite. Muitas vezes o amado é apenas um estímulo para todo o amor acumulado, durante todo o tempo e até àquele momento, pelo amante. De algum modo, cada amante sabe que é assim. Sente no seu íntimo que seu amor é solitário. Depois, conhece uma nova e estranha solidão, que o faz sofrer ainda mais. De qualquer maneira só lhe resta fazer uma coisa. Deve abrir-lhe dentro de si, o melhor que puder, este amor; deve criar um mundo só seu, intenso e único. Diga-se ainda que este amante de que se fala agora, não precisa, necessariamente, de ser jovem nem destinado ao casamento - pode ser homem, mulher, criança, uma qualquer criatura terrena. E quanto ao amado, também pode ser de qualquer espécie ou natureza. O estímulo do amor pode ser provocado pelo ser mais díspar ou exótico. Um homem pode ser avô e decrépito e ainda amar uma rapariga que viu, uma tarde, nas ruas de Cheeehaw, há mais de vinte anos. o pregador pode apaixonar-se pela mulher perdida. O ser amado pode ser pérfido, ter o cabelo oleoso ou maus hábitos. Sim, e o amante pode ver isto também como qualquer outra pessoa, sem que isso afete o seu amor. A pessoa mais insignificante pode ser objeto de um amor selvagem, extravagante e belo como os lírios venenosos do pântano. Um homem normal pode estimular um amor ao mesmo tempo violento e humilhante, como um louco pode provocar na alma de outra pessoa um idílio simples e terno. Portanto, o amor e a qualidade do amor é decidido apenas pelo próprio amante. É por esta razão que muitos preferem amar a ser amados. Quase toda a gente quer ser amante. E a verdade nua e crua é esta: no íntimo, o fato de ser amado é intolerável para muita gente. O amado teme e odeia o amante, e pela melhor das razões. O amante quer sempre mais e intensamente ao seu amado, ainda que isto lhe cause somente dor.

Carson Mc Cullers, em Balada do Café Triste.


“Aquele que conheceu apenas a sua mulher, e a amou,
sabe mais de mulheres do que aquele que conheceu mil."
Leon Tolstoi




"Você já amou? É horrível, não? Você fica tão vulnerável. O amor abre o seu peito e abre o seu coração e isso significa que qualquer um pode entrar em você e bagunçar tudo. Você ergue todas essas defesas. Constrói essa armadura inteira, durante anos, para que nada possa lhe causar mal. Aí uma pessoa idiota, igualzinha a qualquer outro idiota, entra em sua vida. Você dá a essa pessoa um pedaço seu, e ela nem pediu. Um dia, ela faz alguma coisa besta como beijar você ou sorrir, e de repente sua vida não lhe pertence mais. O amor faz reféns. Ele entra em você. Devora tudo que é seu e lhe deixa chorando na escuridão. E então uma simples frase como "talvez devêssemos ser apenas amigos" se transforma em estilhaços de vidro rasgando seu coração. Isso dói. Não só na sua imaginação ou mente. É uma dor na alma, uma dor no corpo, é uma verdadeira dor-que-entra-em-você-e-o-destroça-por-dentro. Nada deveria ser assim, principalmente o amor.

“Odeio o amor" - Neil Gaiman.



Para o psicanalista Samuel Katz, o amor e paixão não se confundem.

O amor possui uma temporalidade mais longa, enquanto que a paixão é imediata.
"A paixão diz respeito a objetos parciais, como um jeito, um cheiro, um par de pernas" diz Katz.
O sujeito apaixonados se expande, e com isso invade o terreno daquele que é objeto de sua paixão.
O sentido de alteridade se vê comprometido com a experiência, já que o "eu" e o "outro" se confundem.
Diz ainda Katz: "nós não temos ciúmes; é ele, este sentimento, que nos tem".


Fragmentos 107

"Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram, daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poeta românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico. Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista."

Fernando Pessoa




O amor é cego, mas nem tanto...


Já ouvi dizer que o melhor para casar, é uma pessoa igualzinha à gente. Já ouvi também, o contrário. Que o melhor é alguém bem diferente, para agir como um elemento complementar.
Já li uma pesquisa, feita por computador, mostrando como as pessoas se escolhem por semelhança. E já encontrei, pela vida, um sem número de casais, bem casados, ditos cheios de diferenças.
Entretanto, responda depressa: o que é alma gêmea? Se respondeu "uma alma igualzinha à da gente", errou. Acertou se disse "aquilo que todos procuram". Errou na primeira hipótese porque uma alma igualzinha à da gente não existe.

Se compararmos almas, ditas gêmeas, entre si, veremos que não são forçosamente parecidas uma com a outra.
Basta que uma alma nos tangencie naqueles pontos mais sensíveis - os que consideramos constitutivos de nossa personalidade - para dizermos que ela é nossa alma gêmea.
Aqueles que se casam considerando-se idênticos descobrem, com o passar do tempo, a limitação desta identidade. E aqueles que se casam atraídos pelas diferenças, surpreendem-se adiante, por serem tão mais semelhantes do que imaginavam. O mecanismo é óbvio. Na hora da escolha, aquilo que mais nos atrai no outro nos torna cegos para o resto.
Gradativamente, porém, recuperamos a visão, nosso olhar se faz mais abrangente e passamos a ver nosso parceiro em sua totalidade. Passamos a perceber então aqueles pontos que havíamos ignorado porque não nos tocavam diretamente.
Com o tempo também, já estabelecida a convivência, e superado o medo inicial da entrega, estamos em condições de descartar o artifício da alma gêmea. Não só começamos a conhecer de fato o outro, como passamos para um estágio em que, atribuindo-lhe defeitos que antes não víamos, fazemos questão de não nos identificarmos com eles. O que é importante agora são as diferenças.


Quando você acha que entendeu tudo e pára de prestar atenção na canoa, cuidado, que ela pode virar.
Você é uma pessoa com quinze anos, outra com vinte, uma terceira com trinta e assim por diante.
Idem com os outros. Inclusive com aquele que você escolheu para ser seu parceiro porque era tão igual a você. Ou diferente. E que possivelmente , com o passar do tempo, deixou de ser uma coisa ou outra.
O problema é em que direção a gente está mudando, e se esta direção serve ao parceiro.
Não é nada que se possa realmente controlar. Ou que se deva controlar. Dá para se ter um jogo de cintura, negociar um tanto, operar com um pouco de estratégia. O que não se pode é apelar para o gesso, tentar imobilizar, para garantir.

A mudança tem sua graça. É dele que um bom casamento vive e se alimenta. Quando dá certo, costumamos chamá-lo renovação. Mas também pode virar desgraça. É quando o casamento se torna mau, nos envenena.
E voltamos à estaca zero, à pergunta mais óbvia: o que contém menos risco, escolher um parceiro parecido ou diferente de nós?
O risco está em escolher alguém, seja quem for. Mas é um daqueles riscos que vale a pena correr, assim como todos os dias escolhemos o risco de viver. Isto posto, temos uma série de possibilidades a considerar. O ideal seria escolher alguém, não pelo que é em relação a nós, mas pelo que é em relação a si mesmo. Teoricamente fica lindo.

Na prática é dificílimo. Simplifiquemos. O melhor é escolher alguém pelo que representa como pessoa e não como espelho para você. Tendo em vista que, passados os primeiro meses de cegueira, é com a pessoa que vamos ficar, não com o espelho, me parece uma estratégia bastante razoável. Dentro de um conceito mais prático, prefiro um máximo de semelhanças nos pontos básicos e, no resto, o que Deus quiser.
Pontos básicos são aqueles sobre os quais não estamos dispostos a transigir e sem os quais não conseguiríamos sequer nos reconhecer. São aqueles pontos que nos definem.
Mas uma coisa é inquestionável: seja qual for a escolha, não pode ser feita às custas da individualidade de nenhum dos parceiros.

Marina Colassanti







* Esse post é pra você amor.

Crescer

"Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam:
- Que é que você quer ser quando crescer?
Hoje não me perguntam mais.
Se me perguntassem, eu diria que quero ser menino."


Fernando Sabino.


No dia 12 de outubro de 1923, nascia o menino Fernando Tavares Sabino. Hoje, 12 de outubro de 2004, o menino completaria 81 anos. Esse menino foi antes de tudo, um precoce.
Com 12 anos incompletos, em 1935, torna-se locutor do programa infantil "Gurilândia". aos 17 anos, está decidido a ser gramático. Escreve um artigo de crítica sobre o dicionário de Laudelino Freire, que tem o orgulho de ver estampado no jornal de letras "Mensagem", graças ao diretor Guilhermino César, escritor mineiro que se torna amigo de Fernando Sabino e seu grande incentivador.


Minhas primeiras lembranças de Sabino, são sempre os livros de crônicas que líamos no colégio. Recheadas de humor, a história nos pegava pelo pé na primeira linha. Sabino era/é certeza do riso gostoso ao terminarmos a história. Fica a impressão de que ninguém conta ou reconta um caso como ele. Embora mineiro, de Belo Horizonte, tem uma carioquice marota que dá um molho todo especial aos textos que produz.
O escritor é antes de tudo um observador atento, ele sabe que muitas histórias estão ali, na sala, no quarto, no banheiro, nos bares, basta saber contá-las e ele sempre soube.
Lembro que quando li "Cartas perto do coração", que traz a correspondência de Sabino e Clarice, descobri o homem inteligentíssimo e culto que ele é. Sempre soube que para se escrever com humor, ou saber colocar humor em comentários, escritos, atitudes e na própria vida, é preciso ser muito inteligente. O humor bem colocado é para poucos, humor inteligente para raros.



Come e dorme


E minha amiga Glória Machado me conta que recebeu da empregada o seguinte recado:

- Seu doutor Alfredo telefonou dizendo que vai levar a senhora com ele hoje de noite no come e dorme.

Deixa o Alfredo falar! Ela sabia que o marido é surpreendente e dele tudo se espera - mas não a este ponto. Come e dorme! Que diabo vinha a ser aquilo?


Só foi entender quando mais tarde ele voltou do trabalho. Na realidade a convidava para um excelente programa: assistir naquela noite à apresentação no Rio da famosa orquestra de Tommy Dorsey.

Textos extraídos do "Livro aberto", Editora Record - Rio de Janeiro, 2001, páginas diversas. Este livro foi agraciado com o Prêmio Jabuti 2002 (Contos - Crônicas).




2


Dar nome aos bois é coisa que mineiro não faz, nem mesmo em Uberaba. Ainda me lembro da eleição para Presidente da República em 55, quando, no mais aceso da campanha, Juarez Távora entrou por Minas adentro e encontrou várias cidades cheias de faixas e cartazes aclamando a sua candidatura. Algum tempo depois é que pôs reparo na sutileza daquela manifestação de apoio:a adesão dos mineiros se exprimia através das palavras "Salve o Nosso Candidato!", "Viva o Futuro Presidente da República!". O nome do candidato não aparecia, por uma questão menos de esperteza que de economia: as faixas e cartazes eram os mesmos, serviam para qualquer um deles.

O texto acima é parte do que foi publicado em "A Falta Que Ela Me Faz", e foi extraído do livro "Fernando Sabino - Obra Reunida - Volume II", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1996, pág.706.



O menino possui a visão primeira, tudo é novo. Há a inocência do descobrir, a curiosidade natural que empurra, que leva a continuar, aventurar-se pelo mundo e suas possibilidades. Um dia nos descobrimos adultos e o menino nos olha de um tempo distante onde a vida era mais simples. Nesse momento, alguns viram as costas e seguem, outros como Sabino, escrevem.


Feliz Aniversário, menino!


Fernando Sabino será sepultado às 11h desta terça-feira.

RIO - O corpo do escritor Fernando Sabino está sendo velado no cemitério São João Batista, em Botafogo, zona sul, onde será enterrado nesta terça-feira, às 11h. Diversos amigos, entre eles o cartunista e escritor Ziraldo, os escritores Affonso Romano de Sant'anna e Marina Colassanti, e o jornalista Wilson Figueiredo, compareceram ao velório. Sabino sofria de um câncer no fígado há dois anos e, segundo amigos, passou os últimos dois dias sedado. A pedido do escritor, seu túmulo terá a inscrição: "Nasci homem, morri menino". Fernando Sabino morreu nesta segunda-feira, por volta de meio-dia, na véspera de completar 81 anos.



Em algum lugar do passado...a lembrança que fica.




WASHINGTON, 11 out (AFP) - O ator norte-americano Christopher Reeve, que ficou famoso interpretando o herói das histórias em quadrinhos Super-Homem em quatro adaptações para o cinema, morreu neste domingo nos Estados Unidos devido a uma parada cardíaca, aos 52 anos de idade, informou seu porta-voz, Wesley Combs.

Reeve, que havia ficado tetraplégico em 1995 ao cair de um cavalo, morreu às 17h30 locais (18h30 de Brasília) no Hospital Northern Westchester de Nova York. Ele tinha entrado em coma no sábado, quando sofreu um ataque cardíaco em casa enquanto era atendido por causa de uma ferida, fato comum em pessoas paraplégicas.

"A ferida estava gravemente infectada. Reeve entrou no Hospital Northern Westchester no sábado e não voltou a recuperar a consciência. Sua família esteve a seu lado no momento de sua morte", informou o porta-voz.

Reeve ficou conhecido mundialmente ao interpretar o Super-Homem no filme homônimo lançado em 1978, dirigido por Richard Donner. O ator voltou a interpretar o "Homem de Aço" em outras três produções. Outra produção de grande sucesso em que participou foi a história romântica "Em Algum Lugar do Passado" (Somewhere in Time) (1980).

Após o acidente que o deixou sem movimentos do pescoço para baixo, o ator se engajou na luta pelo uso das células-tronco no tratamento de doenças.Uma das últimas participações de Reeve como ator foi no seriado de televisão "Smallville", que conta as aventuras do adolescente Clark Kent antes de se tornar o Super-Homem.

Nascido em Princeton (EUA) no dia 25 de setembro de 1952, Reeve debutou aos 14 anos no teatro, para passar mais tarde a televisão e ao cinema, em 1977, com "Alerta vermelha: Netuno fundo", dirigido por David Greene.

Esse mesmo ano foi selecionado para interpretar o papel de ClarkKent em "Superman", um filme que foi um autêntico sucesso debilheteria. Entre os filmes interpretados por Reeve estão "Somewhere in time" (Em algum lugar do tempo), "A armadilha da morte", "As bostonianas","Interferências" e "Village of the Damned", um filme de terrordirigido por John Carpenter.Em 1998, Reeve participou de uma nova versão do clássico de Hitchcock "A janela indiscreta".
No dia 28 de maio de 1995 fraturou duas vértebras do pescoço e acoluna vertebral ao cair do cavalo com o qual participava de umconcurso hípico.O ator, que ficou tetraplégico, assistiu em março de 1996, em cadeira de rodas e valendo-se de um respirador artificial, acerimônia dos Oscar, onde foi aclamado em uma emotiva recepção. Ativista da Unicef, Anistia Internacional e da ecologia, Reeve é fundador, junto com Susan Sarandon e Alec Baldwin, da "CoalizãoCriativa", um grupo de ajuda a pessoas sem casa.

Em abril de 1997 debuta como diretor com um filme que narra a história de um jovem doente de aids que volta a sua casa para morrer junto a sua família.Também escreveu a biografia "Still Me", cuja transcrição em disco lhe valeu o Grammy de Melhor Álbum falado de 1999, ao que se soma outro livro publicado em 2002 e chamado "Nothing is Impossible; Reflections of a New Life". O espírito que demonstra neste último livro é o que lhe fez continuar com sua carreira como ator, diretor e produtor. Desde 1996, o ator que encarnou "Superman" preside a Fundação Christopher Reeve para a Paralisia, dedicada a pesquisa detratamentos para curar lesões medulares da espinha dorsal.

Reeve morreu de um ataque de coração no dia 10 de outubro de 2004 aos 52 anos no hospital Norteen Wetcheter, onde tinha sido transferido no dia anterior depois de entrar em coma em seu domicílio. Reeve estava casado desde 1992 com a atriz Dana Morosini, com quem tem um filho. Anteriormente esteve casado com a modelo inglesa Gae Exton, com a qual tem dois filhos.



Certamente não foi um dos maiores atores que o mundo teve. Não fez grandes filmes, nada que entre para a história do cinema como sétima arte, mas o registro nesse caso, é pessoal e intransferível. Ele foi a personificação do Superman para uma geração inteira e como não podia deixar de ser, "Em algum lugar do passado" marcou corações e mentes das mocinhas românticas nos anos 80, na qual eu me incluo, sem qualquer constrangimento, pelo contrário, amor pra mim é assim, atemporal, intenso, pelo qual se morre e se vive. Sem meias palavras, tudo que se eterniza é marcado pela intesidade que o move, no amor não é diferente, pelo menos pra mim, claro.



Em um post distante...



Ao tocar a décima oitava variação de Rapsódia, de Rachmaninoff, inspirada em O Capricho no. 24, para violino solo, de Paganini, desconfiei que mais uma vez não dormiria cedo. Se alguém ainda não sabe, qual o filme tem esse tema é Em algum lugar do passado. Conta a história de Richard Collier (Christopher Reeve), jovem teatrólogo, após a estréia de uma de suas peças, recebe das mãos de uma velha senhora um antigo relógio de bolso e ouve dela uma frase enigmática: "volte para mim" . Em 1980, Richard se hospeda no Grande Hotel e, numa sala dedicada aos eventos históricos do hotel, descobre o retrato de uma linda mulher, Elise McKenna (Jane Saymour), atriz famosa do início do século, cujo rosto, não apenas o impressiona pela beleza, como também lhe parece familiar ... A revelação da imagem de Elise transforma-se numa fixação romântica. Pelas pesquisas e depoimentos, Richard fica sabendo quem foi a atriz e, através da auto-hipnose, regride até o ano de 1912 - sem, contudo, perder a consciência. Reencontra Elise e ambos revivem a aventura amorosa que, por algum motivo, fora subitamente interrompida.

Eu sei, é daqueles filmes considerados água com açucar, melodramáticos, talvez seja mesmo, mas o amor é sempre uma idealização enquanto não se concretiza. Quando vi o filme pela primeira vez, nem sabia que podia ser assim, e foi, mas isso é outra história.

Se eu tivesse que comparar, seria mais ou menos como no livro: "O amor no tempo do cólera" de Gabriel Garcia Marquez. O ponto forte do livro é o amor. Mais precisamente o amor de Florentino Ariza e Fermina Daza. Conta o amor platônico de Florentino Ariza por Firmina Daza que durou mais de cinqüenta e um anos. Neste período ele não ficou recluso e ensimesmado. Muito pelo contrário, viveu, trabalhou e construiu sua própria vida. Esteve pronto para o dia em que sua amada estivesse livre para ele novamente. Este fato só acontece quando o marido dela morre. E os dois se vêem livres para se envolverem.Na última página do livro, eles estão num navio, Florentino responde ao comandante que deseja ir e vir no navio, já o tinha feito antes, e o comandante pergunta por quanto tempo isso duraria?
Florentino Ariza tinha a resposta preparada havia cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com as respectivas noites.
— Toda vida — disse

É disso que falo. Eles tinham vivido tempo suficiente para perceber que o amor, era maior sempre em qualquer tempo e em qualquer parte, mas tanto mais denso ficava quanto mais perto da morte.


Passam os séculos, mudam os anos e os tempos modernos nos falam da independência amorosa, das noites onde o desencontro esta marcado em algum bar, festa ou lugar, onde estamos, mas ele nunca esta. Ele? Ele mesmo, esse tipo de amor ou melhor vontade de amar que o tempo não supera ou apaga. Esse que quando estamos sem ele, o objeto amado, continuamos sentindo sua presença onde não mais se encontra. Ou que telefonamos, escrevemos só para nos certificarmos de sua presença no mundo. É quando se percebe que mesmo o desejo de esquecê-lo é o mais forte estímulo para dele se lembrar. Não há solução, como disse Nietz, quando descobriu "a fórmula da grandeza do homem : amor fati". Não evitar nem se conformar e muito menos dissimular, mas afirmar o necessário, amar o que não pode ser mudado.