Pois é, pelejei atrás de um texto, poema, crônica, conto de Ano Novo, achei os de sempre. Daí que navegando pelos arquivos dos meus documentos, achei Manoel de Barros e esse texto maravilhoso e pensei: uma analogia! É isso! Resolvida a peleja, li e reli e achei que falando da invenção do poema, bem que poderia ser a invenção do Ano Novo. Um ano que começaremos as cegas, assim como disse o mestre, se começa um poema. Depois piora? Depende. Depende da escrita, do verso, da rima...agora só lendo pra saber ;)

Feliz Ano Novo!


Como fiz um retrato de andarilho*

Manoel de Barros



..........O começo de um poema é quase sempre cego. Depois é que piora. Não se vê mais que um vislumbre, um lince. Diante do papel em branco sou agora um pobre indigente. Procuro um poema. Converso com letras, maluquinhos de mosca, com nódoas de parede (Toda vez que vejo uma parede, ela me entrega às lesmas. Não sei se isso é repetição de mim ou das lesmas.) Procuro coisas no meu caderno de rascunhos. Toda palavra é plissada - ele me diz. Tem muitos desdobramentos. É preciso apalpar suas dobras que a fenda cede. Tento um soneto erótico. Só me veio o primeiro verso. "Quero apalpar-lhe a polpa latifúndia". Acho muito vulgar. A fazeção de inventos é um ato de inércia. Estou fazendo um exercício de inércia? Vejo uma cor perto de mim tendendo a canto. Penso que preciso aprender a não saber nomes. Porque não sabendo os nomes tenho de me expressar por imagens. E é disso que o poeta precisa. Imagens não serão o resultado de uma pobreza vocabular? Separo isso para bobagem. Eu vi um girassol se apropriar da estrada. Estou a me distrair. Preciso de concentração. Quero montar uma indústria de fazer flautas mágicas. Lembrei de uma certa ave com um defeito vegetal na voz. Cantava e parecia planta. Ouço um pouco o silêncio das moscas. Chega a ser um escândalo o silêncio das moscas. Sou um sujeito letrato em dicionários. Resolvo ir ao Morris. Folheio, folheio. Passo para o Viterbo. No seu "Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usavam e que hoje naturalmente se ignoram", viajo sobre termos arcaicos, mas nada me repercute. Não acho nada. Um torpor animal de lagarto no mês de agosto me invade. Há um ponto na tarde com andorinhas tortas. Faço leituras, rabiscos. Tento uma colagem de urubu e lírio. Agora alguma água está iniciando um peixe. Em algum lugar. Penso nisso. Tento apalpar as intimidades do mundo. Abro um volume de contos do Mestre Machado de Assis. Estou lendo "Jogo do Bicho". Ali, quase ao final, um funcionário público de nome Camilo acerta o milhar da cobra. cento e vinte contos! Eram três horas da tarde. Quase fim do expediente. Camilo queria correr. Pensou em pedir ao chefe para sair mais cedo. Queria abraçar a mulher e a fortuna juntas. Mas havia um trabalho a ser entregue ao chefe. Havia uma cópia e a cópia estava borrada. Caíra sobre ela um vidro de tinta. Mestre Machado conta o episódio: "Camilo quis deitar a correr, mas o papel borrado de tinta o acenou que não. Foi ao chefe, contou-lhe o desastre e pediu para fazer a cópia no dia seguinte, viria mais cedo, levaria a cópia para casa.
....- Que estás dizendo? A cópia há de ficar pronta hoje>
....- Mas são quase três horas.
....- Prorrogo o expediente. Camilo teve vontade de prorrogar o chefe até o mar, se lhe era lícito dar tal uso ao verbo e ao regulamento".
..........O Mestre Machado enverbara uma insânia. Era preciso prorrogar o chefe até o mar. O verbo prorrogar saiu de seu contexto habitual de prorrogar uma data, prorrogar a entrega do imposto de renda, etc. - e veio espichar um chefe até o mar. Cioso de sua linguagem, o Mestre ainda pôs suas dúvidas sobre a licença poética, mas no fundo deve ter sorrido. Tinha ventas aquele neologismo inóspito! Ele enverbara uma insânia. Era preciso prorrogar os chefes até o mar. Nessa hora me veio uma clave de águas. Gosto mais das claves de água do que das claves de sol. Pensei no velho andarilho que só andava às beiras. Me veio o primeiro verso, que tinha alguma coisa a ver com espichar alguém até uma água. Eis o poema " Retrato de Andarilho".

....................Quando menino encompridava rios.
....................Andava devagar e escuro - quase formado em silêncio.
....................Queria ser a voz em que uma pedra fale.
....................Paisagens vadiavam no seu olho.
....................Seus cantos eram cheios de nascentes.
....................Um ser acrescentado em passarinhos. .

..........Como eu estava dizendo. É saudável fazer que os verbos delirem. É necessário que as palavras desatinem. Ó açucenas arregaçadas! É preciso prorrogar os chefes até o mar. É preciso molecar o idioma. Fazer neologismos semânticos. Fazer nascimentos linguísticos. (Ah! Os artistas existem para fazer nascimentos!). Eu desandei?

........

(*) Publicada na revista Poesia Hoje





Este é um fragmento do último poema de Sierguéi Iessiênin, antes de se enforcar num quarto de hotel em Leninegrado, St. Petersburg. Era madrugada do dia 27 de dezembro de 1925.

Sierguéi Iessiênin nasceu no dia 03 de outubro de 1895, na província de Ryazan , Rússia. Foi casado cinco vezes. Sua terceira esposa foi a bailarina Isadora Duncan. A grande diferença de idade entre os dois, ele era bem mais jovem, favoreceu as diferenças entre os dois. Isadora tinha o espírito livre e Iessiênin era um jovem apaixonado e extremamente sensível. A relação não durou muito e após uma excursão aos EUA, brigas públicas, eles se separaram. Iessiênin foi para a Rússia onde daria continuidade ao ofício de poeta. Já não era o mesmo. Seus versos tornaram-se carregados de cinismo. Ainda assim sua popularidade aumentava.
Os dois últimos anos de sua vida forma marcados por excessos de toda natureza. Casado com a neta de Tolstoi, não encontraria na última esposa, a felicidade que sempre perseguiu. Sua poesia adquire nessa época um tom sombrio. O fim estava próximo. Os amigos assistem a degradação do jovem poeta sem poder fazer nada.

Em 1925, ano do seu suicídio, Iessiênin estava destruído pela bebida e a cocaína. A depressão o atormentava, sofria com as alucinações e após algumas semanas internado num hospício, cometeu suicídio. Não lembrava em nada, o jovem loiro, de olhos azuis, famoso pelo modo como declamava poemas.
Não chegou a ter a fama e o reconhecimento de Maiakovski, mas poesia de Yesenin resistiu ao tempo e ainda hoje ganha novos leitores.

Iessiênin deixa um último poema para o amigo. Mayakovsky, obcecado em respondê-lo, replica-o em um célebre texto em que desponta o, várias vezes citado, verso que afirma ser preciso arrancar alegria ao futuro. Entretanto, também Mayakovsky sucumbirá à melancolia e, em 1930, tomará .o mesmo caminho de Iessiênin. Como pano de fundo, os (des)caminhos da Revolução Russa.

1. Último Poema de Iessiênin

Até logo, até logo, companheiro,
Guardo-te no meu peito e te asseguro:
O nosso afastamento passageiro
É sinal de um encontro no futuro.
Adeus, amigo, sem mãos nem palavras.
Não faças um sobrolho pensativo.
Se morrer, nesta vida, não é novo,
Tampouco há novidade em estar vivo.

(Tradução de Augusto de Campos)


**2. A Sierguéi Iessiênin - Mayakovsky


Você partiu,
como se diz,
para o outro mundo.
Vácuo. . .
Você sobe,
entremeado às estrelas.
Nem álcool,
nem moedas.
Sóbrio.
Vôo sem fundo.
Não, lessiênin,
não posso
fazer troça, -
Na boca
uma lasca amarga
não a mofa.
Olho -
sangue nas mãos frouxas,
você sacode
o invólucro
dos ossos.
Sim,
se você tivesse
um patrono no "Posto"(1) -

ganharia
um conteúdo
bem diverso:
todo dia
uma quota
de cem versos,
longos
e lerdos,
como Dorônin(2).
Remédio?
Para mim,
despautério:
mais cedo ainda
você estaria nessa corda.
Melhor
morrer de vodca
que de tédio !
Não revelam
as razões
desse impulso
nem o nó,
nem a navalha aberta.
Pare,
basta !
Você perdeu o senso? -
Deixar
que a cal
mortal
Ihe cubra o rosto?
Você,
com todo esse talento
para o impossível;
hábil
como poucos.
Por quê?
Para quê?
Perplexidade.
- É o vinho!
- a crítica esbraveja.
Tese:
refratário à sociedade.
Corolário:
muito vinho e cerveja.

Sim,
se você trocasse
a boêmia
pela classe;
A classe agiria em você,
e Ihe daria um norte.
E a classe
por acaso
mata a sede com xarope?
Ela sabe beber -
nada tem de abstêmia.
Talvez,
se houvesse tinta
no "Inglaterra"(3);
você
não cortaria
os pulsos.
Os plagiários felizes
pedem: bis!
Já todo
um pelotão
em auto-execução.
Para que
aumentar
o rol de suicidas?
Antes
aumentar
a produção de tinta!
Agora
para sempre
tua boca
está cerrada.
Difícil
e inútil
excogitar enigmas.
O povo,
o inventa-línguas,
perdeu
o canoro
contramestre de noitadas.

E levam
versos velhos
ao velório,
sucata
de extintas exéquias.
Rimas gastas
empalam
os despojos, -
é assim
que se honra
um poeta?
-Não
te ergueram ainda um monumento -
onde
o som do bronze
ou o grave granito? -
E já vão
empilhando
no jazigo
dedicatórias e ex-votos:
excremento.
Teu nome
escorrido no muco,
teus versos,
Sóbinov(4) os babuja,
voz quérula
sob bétulas murchas -
"Nem palavra, amigo,
nem so-o-luço".
Ah,
que eu saberia dar um fim
a esse
Leonid Loengrim!(5)
Saltaria
- escândalo estridente:
- Chega
de tremores de voz!
Assobios
nos ouvidos
dessa gente,
ao diabo
com suas mães e avós!
Para que toda
essa corja explodisse
inflando
os escuros
redingotes,
e Kógan(6)
atropelado
fugisse,
espetando
os transeuntes
nos bigodes.
Por enquanto
há escória
de sobra.
0 tempo é escasso -
mãos à obra.
Primeiro
é preciso
transformar a vida,
para cantá-la -
em seguida.
Os tempos estão duros
para o artista:
Mas,
dizei-me,
anêmicos e anões,
os grandes,
onde,
em que ocasião,
escolheram
uma estrada
batida?
General
da força humana
- Verbo -
marche!
Que o tempo
cuspa balas
para trás,
e o vento
no passado
só desfaça
um maço de cabelos.
Para o júbilo
o planeta
está imaturo.
É preciso
arrancar alegria
ao futuro.
Nesta vida
morrer não é difícil.
O difícil
é a vida e seu ofício.


(Tradução de Haroldo de Campos)

** O poema não esta com formatação original. Ela se encontra aqui.

Notas do Tradutor

(1) Alusão à revista Na Postu (De Sentinela), órgão da RAPP (Associação Russa dos Escritores Proletários), cujos colaboradores se mostravam muito zelosos em atacar os escritores que lhes pareciam transgredir a moral proletária.
(2) Referência ao poeta soviético 1. 1. Dorônin (n. em 1900).,
(3) Hotel em que lessiênin se suicidou.
(4) O famoso cantor L. V. Sóbinov (1872-1934) foi um dos participantes da homenagem à memória de lessiênin, que teve lugar no Teatro de Arte de Moscou, em 18 de janeiro de 1926, quando interpretou uma canção de Tchaikóvski.
(5) O papel de Loengrim, da ópera deste nome, de Wagner, constituiu um dos grandes êxitos da carreira artística de Leonid Sóbinov.
(6) O crítico P. S. Kógan (1872-1932), representante da crítica mais dogmática, com quem Myiakovsky manteve freqüentes polêmicas.


Leia: http://www.geocities.com/trotskyvive/TV04/TV04.htm
http://www.opoema.libnet.com.br/maiakovski/maiakovski_poema.htm

NATAL


Era um Papai-Noel mais subdesenvolvido do que - digamos - o Piauí. Uma barba mixuruquíssima, rala, encardida, que ele acabou por puxar para debaixo do queixo, na esperança de diminuir o calor.

Sim, porque fazia calor.

A calçada refletia por debaixo das calças dos transeuntes o seu bafo quente, o que ocorria também por debaixo das saias das passantes, mas esta imagem é mais refrescante e talvez não dê ao leitor a idéia do calor que fazia. A turba ignara ia e vinha, carregada de embrulhos, vítima da desonestidade dos comerciantes, mas, ávida de comprar presentinhos.

E o Papai Noel avacalhado ali na esquina, badalando. Era um sininho de som fino, que ele badalava meio sem jeito, como se estivesse disfarçando alguma coisa sem aquela dignidade de badalar de sino dos verdadeiros Papais- Noeis.

Também a roupa era mixa! A blusa não tinha aquela vermelhidão dos Papais-Noeis de capa de revistas. Nunquinha Madalena. Era cor-de-rosa, daquele cor-de-rosa das camisas que usam componentes de blocos de sujo, no Carnaval carioca. Isto, inclusive, talvez fosse verdade: aquele Papai-Noel era tão vagabundo que era bem possível que tivesse aproveitado o uniforme do Carnaval anterior, para o Natal.

Tia Zulmira, protegida pela sombra de uma marquise, aguardava condução e observava o Papai Noel. Observava, por exemplo, que o Papai-Noel usava tênis (bossa nova natalina), observava que o Papai-Noel não fazia anúncio de coisa nenhuma, ao contrário de seus coleguinhas de outras esquinas, que traziam às costas grandes cartazes coloridos com os nomes das lojas da cidade.

A velha, num lampejo, percebeu tudo. Viu logo que, naquele Papai-Noel, tinha truque. E, apenas para confirmar a sua teoria, abriu a bolsa, retirou um pedaço de papel e escreveu:

- 500 cruzeiros no grupo do gato - 1.675 pelos sete lados... NCr$ 200,00 - centena 463 (invertido) . . . NCr$ 150,00.

Enrolou o papelzinho no dinheiro correspondente e, saindo de debaixo da marquise, passou disfarçadamente pelo Papai-Noel e espalmou na sua mão a fezinha. Papai Noe1 apanhou tudo e disse baixinho:

- Obrigado, minha senhora. Um bom Natal para a senhora também.



Texto extraído do livro "Dez em Humor", Editora Expressão e Cultura - Rio de Janeiro, 1968, pág. 50.
Leia: http://www.releituras.com/spontepreta_conto.asp


Um grande beijo e um Natal maravilhoso para todos!

Marguerite Yourcenar



Certa vez, perguntaram a Marguerite por que deixara pronto seu túmulo com a inscrição 1903-19... "Não procuro apressar nem provocar, mas estou pronta. E mandei gravar os dois primeiros algarismos pois penso que o ano 2000 não é para mim."

Marguerite Yourcenar, ou melhor, Marguerite Antoinette, Jean, Marie, Ghislaine de Crayencourt, nasceu em 18 de Junho de 1903 em Bruxelas, em uma família aristocrática. Perde a mãe ao nascer e o pai aos 26 anos e abandona os palacetes da aristocracia por uma vida errante de escritora.
Marguerite dedicou-se com afinco ao ofício, o que acabou por conduzi-la a Academia Francesa de Letras. Foi a primeira mulher eleita.
Dos anos de viagem com seu pai acumulou erudição que empregou como contista, romancista, ensaísta e tradutora. Os prêmios se sucederam e a sua literatura ganhou reconhecimento mundial.
Marguerite viveu 40 anos com a namorada, Grace Frick. Aos 76 anos conhece Jerry Wilson, quarenta e seis anos mais novo, com quem se lança numa louca viagem pelo mundo: o seu lápis de pau assinalará no mapa os locais que falta conhecer antes da morte: Caraíbas, Guatemala, Egito, Itália, Japão, Tailândia, Índia, Quênia, Marrocos, Europa, de novo. Atravessar o mundo loucamente, como se o tempo tivesse parado nos anos vinte e não houvesse nada mais a perder ou a ganhar até ao fim.
Desta espécie de última noite de glória, que foi a derradeira fase da vida de Marguerite, uma fotografia a preto e branco, tirada em Marrocos, encerra tudo o resto que ficou para trás. A face da escritora recorta-se em grande plano, terminado num minúsculo brinco de ouro que parece brincar sozinho no lóbulo arredondado da orelha. Traços longos e finos como hastes atravessam-lhe a testa, as fontes, a curva dos olhos. Ela própria se questiona sobre esse lento vestígio do tempo, impiedoso e cruel, com quem atravessou uma existência. E acaba por responder no alto do seu último livro. "O quê? A Eternidade".
Marguerite Yourcenar morreu um ano depois de seu último companheiro, no dia 17 de dezembro de 1987. Ela havia escrito profeticamente na juventude: "Solidão... Eu não acredito como eles acreditam. Não vivo como eles vivem. Não amo como eles amam... Eu morrerei como eles morrem."



Cantilena Para Um Tocador De Flauta Cego


Flauta da noite que se cerra,
Presença líquida de um pranto,
Todos os silêncios da terra
São as pétalas do teu canto.

Espalha teu pólen na alfombra
Do catre que por fim te acoite
Mel de uma boca de sombra
Como um beijo na boca da noite

Marguerite Yourcenar



Leia: http://diferencial.ist.utl.pt/edicao/22/yourcenar.htm
http://www.nossacasa.net/recomeco/default.asp?item=030
no ar.




Falando em voltar para casa, sem saber da gravidade de sua doença, Clarice Lispector morreu ontem no Hospital do INPS, no Rio, e será sepultada amanhã no Cemitério Israelita.
A família e os amigos pediram a todos que respeitassem um desejo antigo da escritora:
não fotografassem seu corpo morto.

10 de dezembro de 1977




Não ouve ainda quem contrariasse um antigo desejo da escritora: não ser fotografada depois de morta. De fotografias Clarice Lispector nunca gostou muito nem enquanto viveu, até ontem às 10h30 da manhã. Seu corpo, levado do Hospital do INPS da Lagoa, no Rio, onde permancera internada desde 16 de novembro no quarto de número 600, foi removido para o Cemitério Comunal Israelita, no bairro do Caju, e será sepultado amanhã às 11h. O velório de Clarice, que nasceu na Ucrânia e viveu no Brasil desde os dois meses de idade, só será realizado horas antes do enterro.



A escritora de 56 anos, não sabia da gravidade de sua doença, câncer generalizado, e muito menos que os médicos haviam perdido qualquer esperança de salvá-la após uma delicadíssima e frustrada intervenção cirúrgica no começo de novembro. Sua amiga e enfermeira particular Ciléia Borelli disse que ela passou em claro sua última noite, bastante agitada mas sempre lúcida: "Clarice conversava muito, mantinha-se sempre atenta, dando mostras de que era uma pessoa dotada de um espírito de observação privilegiado. Além disso, ela nada sabia sobre sua enfermidade e demonstrava, em todas as conversas, seu otimismo e sua vontade de voltar logo para casa.



A morte encerrou uma convivência de vários anos, pois Ciléia se tornara a dama de companhia da escritora há vários anos, quando ela teve que ser internada com várias queimaduras pelo corpo, sofridas durante um incêndio que destruiu a casa onde morava. No hospital, poucos amigos, as irmãs Elisa (também escritora) e Tânia, o filho Paulo, alguns parentes. E os escritores Nélida Piñon e Autran Dourado, que seguiram para o hospital após a notícia da morte. Nélida explicava ao repórteres sobre a proibição das fotografias; Dourado permaneceu vários minutos em silêncio junto ao corpo de Clarice coberto por um lençol, na capela. Outra amiga, a bailarina Gilda Murra, lembrava a alegria que sentiu ao ler uma crônica de Clarice sobre sua dança.



Os parentes, que esperaram durante horas a remoção do corpo para o Cemitério Israelita na improvisada e suja capela do hospital, não quiseram fazer declarações à imprensa. Elisa e Tânia, as irmãs, não choraram, mas as expressões de sofrimento e cansaço mostravam que elas já haviam feito isso antes. Pouco antes da chegada da ambulância da Santa Casa que levaria o corpo de Clarice ao cemitério, Vilma, a esposa do ministro Nascimento e Silva, da Previdência Social, compareceu à capela. Com um vestido escuro, fumando muito, ela falava da honra de ter recebido uma das últimas dedicatórias de Clarice, em seu recente livro "A Hora da Estrela".



__ O livro me foi entregue por Nélida Piñon, explicava Vilma, e a dedicatória foi feita com letra tremida. Fiquei sabendo que ela o autografou no próprio leito onde estava. Nós éramos grandes amigas dela e sentimos muito sua morte. Também será uma grande perda para a literatura brasileira.
A escritora, que submetera-se à operação na Clínica São Sebastião, acabou sendo removida para o Hospital do INPS graças ao interesse do ministro Nascimento e Silva. A ambulância esperada chegou às 15h, trazendo uma urna simples de madeira, onde foi colocado o corpo. Antes da saída, novamente o mesmo pedido de que fosse respeitado o desejo de Clarice e ninguém fizesse fotos. Ninguém fez.


A viagem para o Cemitério Israelita durou 20 minutos. Apenas a ambulância entrou, ficando parents e amigos do lado de fora. Os grandes e pesados portões de ferro foram imediatamente fehcados, enqunto informava-se que o corpo estava sendo colocado em câmara mortuária onde permanecerá até amanhã, quando começarem as cerimônias judaicas. "Clarice não era devotada à religião, mas sua família resolveu dar-lhe um enterro conforme os rituais judáicos. Ela era um ser humano excepcional, uma pessoa profundamente delicada e discreta, que jamais dissociou sua obra da vida. Ela como ninguém conseguiu dominar a língua brasileira e, embora ucraniana de nascimento, acabou sendo mais brasileira do que muitos que aqui nasceram", disse Nélida, no lado de fora do cemitério. Disse também que Clarice não gostava muito de falar sobre sua obra nem dos projetos literários para o futuro, "embora fosse uma escritora com bastante vitalidade e vontade de trabalhar em seus livros".



Clarice Lispector era desquitada do diplomata Maury Gurgel Valente, atual embaixador brasileiro na ALALO, no Uruguai. O casal teve dois filhos: Paulo, que reside no Rio e assistiu à morte da mãe, e Pedro, o mais velho, que vive com o pai.


Acreditava que livro nascesse como árvore. Descobriu que não, e quis ser autora.





"Quando eu aprendi a ler, comecei a devorar milhares de livros. Achava que livro nascia assim como nasce uma árvore. Quando descobri que existia alguém que o escrevia, um autor, eu disse que também queria ser um". E em seguida a menina Clarice Lispector passou a escrever contos que enviava regularmente para um jornal de Recife. Nunca foram publicados, mas só muito mais tarde ela descobriu porque: "Eles descreviam sensações, ao contrário dos contos publicados, que narravam fatos".
Este foi o começo de sua carreira literária. Mas Clarice já se preparava para ela antes mesmo de saber ler, fabulando com uma amiga uma história que nunca terminava. Enquanto a escritora garantia que seus personagens estavam mortos, a amiga completava: "Eles não estavam tão mortos assim". E a história continuava. Isto foi contado pela própria autora num depoimento gravado em 1976, para o Museu da Imagem e do Som. Clarice contou fatos sobre toda sua vida, lembrou-se até de histórias anteriores a seu nascimento.
Ela tornou-se brasileira quase que por acaso. Ao saírem da Ucrânia, seus pais camponeses pensavam em transferir-se para a Alemanha em busca de uma vida melhor. Sua mãe grávida foi obrigada a descer do trem em Tcheschelnik, para que pudesse nascer. Com dois meses de idade já estava em Recife, onde aprendeu a falar, ler, escrever e gostar muito de caranguejo, coisa que jamais teria conhecido nos trigais de sua terra natal. Recordava-se de que foi uma criança muito alegre durante o curso escolar. Com a passagem para a adolescência mudou um pouco. Foi matriculada num ginásio pernambucano, mas mal teve tempo para conhecer as colegas. Sua família transferiu-se para o Rio.



Entre os 13 e 15 anos, Clarice freqüentou assiduamente a biblioteca de aluguel da rua Rodrigo Silva. E lia todos os livros de títulos bonitos. Assim, acabou conhecendo "O Lobo da Estepe", de Herman Hesse, "que me marcou profundamente. Depois desse livro adquiri consciência daquilo que desejava ser, como queria ser e o que desejava fazer". Terminando o ginásio, cursou Ciências Jurídicas. Mas só terminou o curso para desafiar uma amiga que a acusava de nunca acabar o que começava. Nessa época leu Dostoievsky, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado e Katherine Mansfield, com quem se identificou muito -- o que seria notado mais tarde por críticos literários do Brasil e de fora. Ao mesmo tempo, vivia sua segunda -- a primeira verdadeiramente importante -- experiência literária. Aos 9 anos, ainda em Recife, e entusiasmada por um espetáculo de teatro, ela escreveu uma peça "em três atos e três folhas de papel. Nenhum autor foi mais suscinto do que eu", lembrava rindo. Mas agora, no início da década de 40, era diferente. Clarice começara a trabalhar no jornal A Noite, estava no terceiro ano da faculdade, escrevia uma tese para o curso sobre o direito de punir. Preocupava-se com as idéias que surgiam de manhã em sua cabeça mas que à noite já estavam esquecidas. Começou a anotá-las. Daí, surgiu Perto do Coração Selvagem, seu passaporte de entrada no mundo literário brasileiro, em 1944.



O lançamento foi discreto, mas o livro interessou ao crítico Sérgio Milliet, que lhe dedicou um rodapé em sua coluna. Imediatamente outros fizeram o mesmo, "foi a realização". Logo depois Clarice casava-se com o namorado Maury e terminava seu curso de Direito. Maury Gurgel Valente tornou-se diplomata e Clarice acompanhou o marido, vivendo na Itália, Suíça (onde nasceu Pedro, o primeiro filho), Inglaterra, Estados Unidos, tendo residido seis anos em Washington, a cidade onde nasceu Paulo, o filho que vive no Rio. Por eles, juntou à sua obra duas narrativas infantis: O Mistério do Coelho Pensante, em 57, e A Mulher que Matou os Peixes, 11 anos depois. As duas histórias foram tiradas de fatos corriqueiros e domésticos e, na segunda, a personagem do título era a própria escritora que certa vez, ocupada com outros problemas, deixara os os peixes de seu aquário morrerem de fome.



Seu livro de estréia provocou comparações com Virginia Woolf e James Joyce, autores que Clarice só leria depois. Ela tavez ficasse menos decepcionada se alguém tivesse se lembrado de D.H. Lawrence, "minha grande admiração literária. Me inflamo com ele. Tem todos os defeitos da espécie humana, mas é fogo puro". Publicou depois, O Lustre, Alguns Contos, A Maçã no Escuro (seu livro mais traduzido internacionalmente), A Paixão Segundo G.H., Aprendizado ou o Livro dos Prazeres, Felicidade Clandestina, Laços de Família e outros, inclusive crônicas, ensaios e reportagens.
Bonita, seus estranhos olhos oblíquos provocaram a admiração também de pintores famosos. Em seu apartamento carioca, no Leme, esta admiração estava assinada em retratos pintados por Giorgio De Chirico (durante o tempo em que viveu em Roma), Ismailovitch e Ceschiatti, entre vários outros. Há alguns anos quase morreu queimada num incêndio em sua casa, ficando com a mão direita parcialmente destruída e sofrendo dolorosas queimaduras. "Só posso dizer que passei três noites no inferno, aquele que -- dizem -- espera os maus depois da morte. Eu não me considero má e o conheci ainda viva".



Apaixonada por crianças, gatos, cães, galinhas e insetos, sofria de insônia ("se eu dormisse mais fumaria menos") e torcia pelo Botafogo ("por causa do Garrincha"). A escritora guardou até a morte um certo sotaque pernambucano. "Pernambuco marca tanto a gente que basta que nada, mas nada mesmo das viagens que fiz por este mundo contribuiu para o que escrevo. Mas Recife continua firme".



"Faço poesia não porque seja poeta mas para exercitar a minha alma."


Frase de Ulisses, uma das personagens de Clarice.




Leia: http://caracol.imaginario.com/autografos/claricelispector/index.html
"Não há amor de viver sem desespero de viver".
Albert Camus





No dia 4 de julho de 1960, o homem que ganhou o Prêmio Nobel de 57 e que gastou metade do cheque na compra de um palacete no campo, recebeu a visita de seus inseparáveis amigos Anne, Janine e Michel Gallimard. Eles o fizeram desistir de uma passagem de trem para voltarem juntos de carro a Paris. O carro, um Facel-Véga dirigido por Michel Gallimard, seu editor, na altura da Rodovia 5, se arrebentou contra um plátano, entre as pequenas localidades de Champigny-sur-Yonne e Villeneuve-la-Guyard, na França. O relógio do painel do carro foi encontrado bloqueado às 13h55m, provavelmente a hora exata de sua morte. Anne e Janine saíram ilesas e Michel morreu cinco dias depois.

Encerrava-se assim uma vida urgente. Camus tinha urgência em viver, pressa e desespero, como se soubesse que a sua vida seria curta, tão curta como ele mesmo dizia ser a vida.
Albert Camus nasceu em Mondovi a 7 de Novembro de 1913. Filho de pai operário e mãe empregada doméstica e analfabeta, desde cedo buscou nos estudos um meio de fuga e compreensão da realidade. Nascido e criado entre contrastes fundamentais, desde cedo percebeu a miséria de um país colonizado, mas que paradoxalmente proporcionava o conforto na natureza de sol e mar da África.

Camus cresceu assim, num pequeno apartamento, vivendo com a sua mãe, a avó, um tio doente e um irmão. Garoto de rua, vivia misturado com as outras crianças da sua vizinhança (judeus, napolitanos, gregos, entre outros). A pobreza não o faz mais infeliz, tinha dentro de si a alegria de uma vida ao ar livre.
Dedicando-se aos estudos como um meio de transformação, teve a sorte de ser apoiado pelos professores. Consegue assim uma bolsa e vai para o Liceu. E lá, pela primeira vez sofre com o preconceito dos outros alunos, sente-se um estrangeiro. Nessa mesma época é acometido de tuberculose, nada porém que faça dele uma pessoa amarga, como disse certa vez ao referir-se a doença: (...) quando uma doença grave me tirou provisoriamente a força da vida que, em mim, tudo transfigurava, apesar das imperfeições invisíveis e das novas fraquezas que nela encontrava, pude conhecer o medo e o desânimo, jamais o amargor.

"Fui colocado a meio-caminho entre a miséria e o sol", escreveu Camus em O avesso e o direito. Camus soube como ninguém usufruir desse paradoxo entre miséria e sol e mesmo com os revezes causados pela doença, o sentimento trágico do absurdo, extraiu o máximo da vida, do desespero que tinha em absorve-lhe horas, minutos e segundos. Ele dizia que " que o único papel verdadeiro do homem, nascido em um mundo absurdo, era o de viver, de ter consciência de sua vida, de sua revolta, de sua liberdade."

Camus era humanista, um auto-crítico e crítico do entusiasmo excessivo de seus colegas pela esquerda, um homem de frágil, multifacetado, polifônico e admiravelmente sedutor. Com uma história de vida fascinante, que se desenrola em meio a décadas de um século atravessado por guerras, soube extrair uma lição disso tudo, a de o absurdo da vida não pode ser um fim, mas apenas um começo e o importante são as conseqüências e as regras de que se tira dela. Marcado pela precariedade da vida, Camus nos adverte para a necessidade de aproveitá-la ao máximo. Quando o Camus morreu, Jean-Paul Sartre disse: " O seu humanismo insistente, limitado e puro, austero e sensual, travava um controle doloroso contra os acontecimentos maciços e disformes deste tempo. O escândalo desta morte é a abolição da ordem dos homens pelo inumano."


...que se procure o sol enquanto há tempo...

leia: http://zonanon.com/non/letras/ensai_2.html






Carta a um jovem poeta
Paris, 17 de fevereiro de 1903,

Meu estimado senhor:


Recebi sua carta há poucos dias. Quero lhe agradecer a grande e amável confiança que esta representa. Mas pouco mais posso fazer. Não examinarei os seus versos, pois sempre fui alheio a qualquer intenção crítica. Para penetrar uma obra de arte, nada pior do que as palavras da crítica, que somente levam a mal-entendidos mais ou menos infelizes. Nem tudo se pode saber ou dizer, como nos querem fazer acreditar. Quase tudo o que sucede é inexprimível e decorre num espaço que a palavra jamais alcançou. E nada mais difícil de definir do que as obras de arte - seres misteriosos cuja vida imperecível acompanha nossa vida efêmera.
Após isso, apenas acrescento que os seus versos não revelam uma maneira própria. Possuem, é certo, sinais de personalidade, porém ainda tímidos e ocultos. Senti-o no seu último poema, "Minha Alma". Neste, qualquer coisa peculiar procura achar solução e forma. E em toda a formosa poesia "A Leopardi" se sente uma espécie afinidade com este príncipe, este solitário. Entretanto, as suas poesias não têm existência própria, nem mesmo a última, nem mesmo a que é dedicada a Leopardi. Na sua missiva encontrei a explicação de certas insuficiências que, ao lê-lo, já havia percebido, mas a que não me foi possível dar nome. Indaga-me se os seus versos são bons. Pergunta a mim, depois de Ter perguntado a várias pessoas. Manda-os para as revistas, compara-os a outros versos e alarma se quando certos jornais repelem os sus ensaios poéticos. Doravante (já que me permite aconselhá-lo) peço-lhe que renuncie a tudo isso. O seu olhar está voltado para o exterior. Eis o que não deve tornar a acontecer. Ninguém pode dar-lhe conselhos nem ajudá-lo - ninguém! Só existe um caminho: penetre em si mesmo e procure a necessidade que o faz escrever. Observe se esta necessidade tem raízes nas profundezas do seu coração. Confesse à sua alma: "Morreria, se não me fosse permitido escrever?" Isso, principalmente. Na hora mais tranqüila da noite, faça a si esta pergunta: Sou de fato obrigado a escrever?"Examine-se a fundo, até achar a mais profunda resposta. Se ela for afirmativa, se puder fazer face a tão grave interrogação com um forte e simples "Sou", então construa a sua vida em harmonia com essa necessidade. A sua existência, mesmo na hora mais indiferente e vazia, deve tornar-se sinal e testemunho de tal impulso. Aproxime-se então da natureza. Depois procure como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite, de início, os temas demasiado comuns: são os mais difíceis. Nos assuntos em que tradições seguras, às vezes brilhantes, se mostram em grande número, o poeta só pode realizar obra pessoal na plena maturidade de sua força. Fuja dos grandes assuntos e aproveite aqueles que o dia-a-dia lhe oferece. Fale de suas tristezas e dos seus desejos, dos pensamentos que o tocam, da sua fé na beleza. Diga tudo com sinceridade calma e humildade. Utilize, para se exprimir, os objetos que o rodeiam, as imagens dos seus sonhos, as suas lembranças. Se o quotidiano lhe parece pobre, não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser muito poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador nada é pobre, não há lugares mesquinhos e indiferentes. Mesmo num cárcere cujas paredes abafassem todos os ruídos do universo, não lhe ficaria sempre a sua infância, essa preciosa, essa esplêndida riqueza, esse tesouro de recordações? Volte, para esta direção, o seu espírito. Procure fazer regressar à superfície as impressões submersas desse longínquo passado. A sua personalidade fortificar-se-á, a sua solidão povoar-se-á, tornando-se, nas horas incertas do dia, uma espécie de moradia fechada aos sons exteriores. E se lhe vierem versos deste regresso a si próprio, deste mergulho no seu cosmo, não pensará em indagar se são bons ou não, não tentará conseguir que periódicos se interessem pelos seus trabalhos, porque desfrutará deles como de uma posse natural, como de uma de suas formas de vida e expressão. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade: é a natureza da sua origem que a julga. Por isso, meu prezado senhor, apenas me é possível dar-lhe este conselho: mergulhe em si próprio e sonde as profundidades de onde jorra a sua vida. Só desta maneia encontrará resposta à pergunta: "Devo criar?" De tal resposta recolha o som, sem desvirtuar o sentido. Talvez chegue à conclusão de que a Arte o chama. Neste caso, aceite o seu destino e siga-o, com o seu peso e a sua majestade, sem jamais exigir uma recompensa que possa vir de fora. O criador deve ser um mundo para si próprio, tudo encontrar em si e nesse pedaço de natureza com que se identificou. Pode suceder que, depois dessa descida em si mesmo, ao âmago solitário de sim mesmo, tenha de renunciar a ser poeta. (Basta, no meu entender, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo.) Mesmo assim, a introspecção que lhe peço não terá sido inútil. A sua vida, desde aí, encontrará caminhos próprios. Que estes sejam bons, ricos e largos, é que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.
Que poderei acrescentar? Acredito ter abordado o essencial. No fundo, apenas fiz questão de aconselhá-lo a progredir segundo a sua lei, de modo grave e sereno. Não lhe seria possível perturbar mais violentamente "para fora", do que esperando "de que fora" as respostas que apenas o seu sentimento mais secreto, na hora mais silenciosa, poderá talvez proporcionar-lhe.
Gostei de encontrar na sua carta o nome do professor Horacek. Dediquei a esse sábio uma grande estima e uma gratidão que já duram anos. Quer transmitir-lhe isso da minha parte? É bondade dele, que muito aprecio, lembrar-se ainda de mim.
Restituo-lhe os versos que me confiou tão amigavelmente e mais uma vez lhe agradeço a cordialidade e a amplitude da sua confiança.
Procurei, nesta reposta sincera, feia o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, na minha qualidade de estranho.
Com toda a dedicação e toda a simpatia.



Rainer Maria Rilke - Poeta alemão / 1875 - 1926 - Simbolista


"Mas como podem eles, que já se atiraram uns aos outros e não mais se delimitam nem se distinguem, quer dizer, que nada mais possuem de seu, encontrar uma saída em si mesmos, no fundo de sua solidão já derramada?"

Rainer Maria Rilke


Rilke teve durante toda a sua vida uma companhia, a solidão. Filho único, foi educado pela mãe dentro de um rigoroso catolicismo como uma menina e obrigado pelo pai a freqüentar uma escola de cadetes, onde se sentia terrivelmente só. Talvez fosse mais um outsider, pensando bem, e como é bem próprio daqueles que não se encaixam em lugar nenhum, viajou pelo mundo durante boa parte de sua vida.


a solidão é como chuva.

sobe do mar nas tardes em declínio
das planícies perdidas na saudade
ela se eleva ao céu, que é seu domínio
para cair do céu sobre a cidade

goteja na hora dúbia quando os becos
anseiam longamente pela aurora
quando os amantes se abandonam tristes
com a desilusão que a carne chora
quando os homens, seus ódios sufocando,
num mesmo leito vão deitar-se: é quando

a solidão com os rios vão passando

rilke



Sua obra mais conhecida é "Cartas a um jovem poeta" onde ele mantém correspondência com o jovem Kappus, leitura indispensável para quem tem dúvidas. Dúvidas de que? De tudo, sobre tudo, sobre a real necessidade de seguir uma vocação ou apenas ter um trabalho, um título, uma vida dentro dos padrões.
Não parte daí nenhum julgamento do que é certo ou errado, mas sim o que move o ser humano no que ele tem de essencial, vital. No caso, o jovem poeta ainda em dúvida sobre sua vocação escreve a rilke e lhe pede ajuda no sentido de saber se deve ou não prosseguir pelo caminho das letras. As cartas entre os dois são trocadas entre 1903 e 1908. Não se sabe se Kappus tornou-se um poeta por profissão, mas sabe-se que muitos que vieram após ele e tiveram nas mãos este livro descobriram-se poetas.
Assim conta a história...


a hora inclina-se e toca em mim
com claro bater metálico
os sentidos me tremem. sinto: eu posso...
e colho o dia plástico.

nada estava acabado antes de eu ver:
todo o devir aguardando em quietude.
maduros meus olhares: a cada um
como uma noiva, chega a coisa ansiada.

nada é pequeno para mim: gosto de tudo
e tudo eu pinto sobre ouro com grandeza
e bem alto o levanto
sem saber de quem vai a alma libertar

rilke




Nascido em Praga, no dia 04 de dezembro de 1875, Rainer Maria Rilke viajou pela África do Norte e pela Europa e, na França, tornou-se secretário do escultor François Rodin. Escreveu em alemão várias obras em prosa, mas é mais conhecido por suas poesias, que se caracterizam pela nota espiritual e pelo gosto das imagens, como acontece em Elegias de Duíno, escritas entre 1912 e 1922.
Ao conhecer Lou Andréas-Salomé (que adoro e de quem já falei aqui), Rilke inicia um Diário: O diário de Florença. São as impressões do jovem poeta, de apenas 22 anos, completamente apaixonado por Lou, mulher culta e inteligente, amiga de Freud, Tolstói e Nietzsche, quinze anos mais velha do que ele, a musa inspiradora deste livro. "Sinto que minha alegria permanece impessoal e sem brilho, enquanto dela não participares como confidente", escreve Rilke nas primeiras linhas de seu diário. A relação tumultuada deu origem a um belo livro que não se furta em falar de tudo e não apenas da mola propulsora, sua paixão por ela.


se ao menos uma vez tudo se aquietasse
se se calassem o talvez e o mais ou menos
e o riso à minha volta...
se o barulho que fazem meus sentidos
não perturbasse mais minha vigília...

então, num pensamento multifário
poderia eu pensar-te até aos teus limites
e possuir-te (só o tempo de um sorriso)
e oferecer-te a vida inteira, como
um agradecimento



Rilke faleceu no dia 29 de dezembro de 1926 em Valmont (Suiça). Deixou mais que belos versos, prosas regadas de poesia em puro estado, deixou-nos uma interrogação, um outro olhar, um sentido maior de visão primeira direcionada para o interior porque somente ali estão todas as respostas.

"Só o que é interno é perto; o mais, distante.
E esse interno é tão denso e a cada instante
Mais denso ainda. Impossível descrevê-la.
A ilha é como uma pequena estrela
Que o espaço esqueceu..."

rilke



Leia: http://www.opoema.libnet.com.br/rainermariarilke/rainermariarilke_db.htm
http://www.pmresende.rj.gov.br/asillo.htm