"O amor que não ousa dizer o nome' nesse século é a grande afeição de um homem mais velho por um homem mais jovem como aquela que houve entre Davi e Jonatas, é aquele amor que Platão tornou a base de sua filosofia, é o amor que você pode achar nos sonetos de Michelangelo e Shakespeare. É aquela afeição profunda, espiritual que é tão pura quanto perfeita. Ele dita e preenche grandes obras de arte como as de Shakespeare e Michelangelo, e aquelas minhas duas cartas, tal como são. Esse amor é mal entendido nesse século, tão mal entendido que pode ser descrito como o `Amor que não ousa dizer o nome' e por causa disso estou onde estou agora. Ele é bonito, é bom, é a mais nobre forma de afeição. Não há nada que não seja natural nele. Ele é intelectual e repetidamente existe entre um homem mais velho e um homem mais novo, quando o mais velho tem o intelecto e o mais jovem tem toda a alegria, a esperança e o brilho da vida à sua frente. Que as coisas deveriam ser assim o mundo não entende. O mundo zomba desse amor e às vezes expõe alguém ao ridículo por causa dele."

Oscar Wilde
Essas foras as palavras do literato em seu primeiro julgamento, em 26 de abril de 1895.


Oscar Wilde desde cedo, sobressaía-se entre os demais estudantes. Temperamento forte, inteligência privilegiada e comportamento anticonvencional, faziam dele uma presença de brilho singular.
Teve uma vida de muito sucesso, sendo o período literário mais produtivo entre os anos 1887 a 1895. Nesse período lança o livro que o colocaria entre os escritores mais famosos de sua época, "O retrato de Dorian Gray" .
É durante esse apogeu que os problemas começam a surgir. Problemas que o levariam a prisão e a miséria total. Seu crime? Rumores de homossexualismo, um suposto envolvimento com Lord Douglas. Provavelmente uma verdade, mas nada que justificasse a destruição de uma vida. Seus livros são recolhidos das livrarias, assim como suas comédias tiradas de cartaz. O que lhe resta, acaba sendo leiloado para suas despesas do processo judicial.

Ainda assim, a poesia estava em suas veias e escreve mais duas obras: "A Balada do Cárcere de Reading", baseado na execução do ex-sargento Charles T. Woolridge dentro da Prisão de Reading e "De Profundis", uma longa carta ao Lord Douglas.

Mesmo em liberdade, torna-se recluso em hotéis decadentes, conhece a pobreza e o pior que dela pode vir. Vai destruindo-se aos poucos com a bebida que antes lhe rendeu frases memoráveis, o absinto.


Oscar Wilde, espirituoso e brilhante escritor, morreu de meningite e uma infecção no ouvido chamada "cholesteotoma" (doença muito comum antes do advento dos antibióticos) em um quarto barato de um hotel de Paris, ás 9 hrs 50 mins do dia 30 de novembro de 1900. Morreu sozinho, mas, não desmoralizado, pois havia deixado insubstituível obra que, mesmo depois de 1 século, ainda é admirada e relembrada, tamanho á sua genialidade.


Leia: http://www.avanielmarinho.com.br/biografia/oscarwilde1.htm


dez escritores discorrem sobre o amor
o amor nos tempos da internet




Dezamores - contos, poemas é o primeiro resultado em livro da produção literária de dez autores a partir de oficinas virtuais de João Silvério Trevisan, autor do prefácio.

Provenientes de diferentes partes do Brasil e de diferentes turmas, os autores decidiram continuar os encontros via Internet, depois de terminada a oficina, para criar textos e discuti-los em conjunto.

Os dez autores passeiam à vontade pela prosa ficcional e pela poesia, às vezes, misturando saudavelmente uma na outra, sempre em busca dos rastros tortuosos do amor e de suas peculiaridades. A temática que envolve o amor navega livre pela web e acaba caindo nas páginas de DeZamores. Pelos capítulos, cada um deles introduzidos por uma epígrafe que prepara o leitor para o que vem pela frente, vemos o "dezamor" caminhar ao lado do amor.


autores

Adriana Calabró Janaína Amado
Albano Martins Ribeiro João Peçanha
Ana Peluso sara fazib
Chico de Assis Thelma Guedes
Dora Castellar Wael de Oliveira



Mais: http://www.dezamores.kit.net/
http://www.escrituras.com.br/liv_dezamores.htm



Dezamores - contos, poemas
Gênero: conto, poesia
Formato: brochura, 14 x 21 cm
Número de páginas: 168
Preço de capa: R$ 28,00





Giovana Pasquini
Divulgação
Escrituras Editora
Rua Maestro Callia, 123 - Vila Mariana
04012-100 - São Paulo-SP
(11) 5082-4190
http://www.escrituras.com.br/
A Falta de Érico


Falta alguma coisa no Brasil
depois da noite de Sexta-feira
Falta aquele homem no escritório
a tirar da máquina elétrica
o destino dos seres,
a explicação antiga da terra.
Falta uma tristeza de menino bom
caminhando entre adultos
na esperança da justiça
que tarda - como tarda!
a clarear o mundo.
Falta um boné, aquele jeito manso,
aquela ternura contida, óleo
a derramar-se lentamente,
falta o casal passeando no trigal.
Falta um solo de clarineta.


Carlos Drummond de Andrade




Quando Veríssimo morreu, em 28 de novembro de 1975, Carlos Drummond de Andrade lhe escreveu este poema elegíaco. Dava voz ao Brasil diante de tamanha perda.

O menino Érico vivia mais no mundo da imaginação do que na realidade. Era tímido, retraído, sem muita facilidade com números, mas muito bom em redação. Leitura e cinema o encantavam.
Em 1930 decide tornar-se escritor. Sábia decisão. Muitos livros depois e uma obra fecunda dão aval a essa escolha.
Sua temática é tipicamente brasileira e, mais que isso, regional, gaúcha. A tentativa de recriação genealógica e social da história do Rio Grande do Sul atingiu seu ponto culminante na trilogia O Tempo e o Vento: O Continente, O Retrato, e O Arquipélago.

Veríssimo costumava escrever em uma sala escura, praticamente vazia, onde apenas a máquina de escrever lhe vazia companhia. Tinha nos netos os maiores críticos, ao escrever um livro infantil, testava-o com eles, se gostavam, então era porque a história era boa.
Muito da biografia de Veríssimo se confunde com sua obra: seu tio Nestor e seu pai Sebastião inspiraram Toríbio e Rodrigo Terra Cambará de O Tempo e O Vento, e alguns episódios de sua vida encontram-se nas vidas de Vasco, Eugênio e Floriano, esse último uma alma gêmea filosófica do autor.
Tibicuera, herói de um de seus livros infantis, é o apelido pelo qual sua mãe o chamava.

Antes da crítica o reconhecer, mereceu amplo favor público, para afinal ser aceito em todas as áreas. Resistindo ao tempo, sua obra permanece nas livrarias em sucessivas edições.



Clarissa


Sem sono, Clarissa debruça-se à janela. A noite está clara. Refrescou.
Uma lua enorme, cheia, muito clara. Os quintais estão raiados de sombra e de luz. parece que o disco da lua se enredou entre a ramagem folhuda do plátano grande do quintal da casa onde D. Tatá morava.
O relógio, na sala, bate onze horas.
Cabeça encostada na vidraça, Clarissa pensa...
Como o tempo passou... Parece que o ano começou ontem. Entretanto, quanta coisa aconteceu! Sempre desejou voltar para casa. Mas agora que o dia da partida se aproxima, ela sente algo de esquisito no peito, uma espécie de saudade antecipada. Vai sentir falta de tudo isto, de todos estes aspectos de todas essas caras, de todos estes ruídos. Vai se lembrar sempre do papagaio que sabe dizer o seu nome, do gato que lhe roça preguiçosamente pelas pernas, da siá Andreza que vive na cozinha como uma
gata borralheira. Sentirá falta de tia Zina, do Tio Couto, de Amaro. E quem sabe se também de Ondina e Nestor; a vida é tão engraçada... Nunca mais lhe sairá da memória a risada contente do major...
Fora, o luar cresce, tênue, inundando a paisagem.
Clarissa infla as narinas. Parece-lhe que o luar tem um perfume todo especial. Se ela pudesse pegar o luar, fechá-lo na palma da mão, guardá-lo numa caixinha ou no fundo de uma gaveta para soltá-lo nas noites escuras...


Erico Veríssimo


Leia: http://www.releituras.com/everissimo_general.asp
http://www.suigeneris.pro.br/everissimo.htm



"Viver consiste em morrer. Em se estar preparado para a morte. Para morrer como um homem. Um homem se reconhece de dar sua vida. Não apenas numa batalha, mas em tudo aquilo que faz. Não apenas na morte - que, para um guerreiro, sobretudo, pode ser o ponto mais alto ou mais baixo de sua vida - mas a cada instante e ato de sua vida."

Hagakure




Todo samurai tem de estar pronto. Pronto para o embate, pronto para a morte, ainda que venha pelas próprias mãos.
Praticar o seppuku, dar-se à própria morte, era privilégio do samurai. Ele tinha o direito de usá-lo para se desagravar de uma injustiça, para manter sua honra, ou simplesmente para sugerir o caminho correto ao seu superior.
Havia um minucioso ritual para tais ocasiões solenes, mas em situações de emergência o samurai utilizava a própria wakizashi, a espada curta de que também se servia para decapitar os que vencera ou justiçara com a katana (espada longa). O uso desse par de espadas (dai-sho) era, igualmente, privilégio restrito ao samurai.

Foi assim que no dia 25 de novembro de 1970, Yukio Mishima pôs vim a própria vida, num longo e doloroso ritual, o seppuku.
Quando um guerreiro queria se livrar de uma grande desonra ou demonstrar lealdade, ele sentava-se à maneira japonesa no tatame e, com sua espada, furava a barriga, abrindo o corte até o outro lado. Mesmo durando horas, o sofrimento até a morte deveria ser suportado sem gritos ou choros pelo guerreiro, que agonizava em frente à família. Ao final, sua cabeça decepada era entregue aos parentes.
O ritual foi realizado diante da tropa das Forças Armadas de Tóquio, Mishima leu para os soldados uma declaração em que denunciava a decadência dos códigos de honra mais tradicionais do país, bem como a ocidentalização a que o Japão se submetia. Após o inflamado discurso, rumou até o gabinete do comandante e lá rasgou o ventre com a espada.


Mishima, escritor japonês, nome indispensável da literatura daquele país escolheu morrer do modo que viveu. Masoquista e homossexual, atormentado, genial, mas sobretudo contraditório. Intelectual, ele era também um militarista de direita que mantinha seu próprio exército particular. Um nacionalista que queria restaurar o poder do Imperador, ele era obcecado pela cultura ocidental e ofendia seu próprio povo adotando a imagem de uma celebridade no estilo ocidental.
Sua morte diz muito sobre sua vida e obra. Tudo em Mishima era extremo, carregado de tintas fortes. Seus romances repletos de personagens densos, apaixonantes, repugnantes. Lírico e irônico, nada em Mishima passa desapercebido. A batalha é constante. Seus conflitos, sua personalidade conturbada, a opção sexual, tudo é luta e desafio e nada passa impune, nem mesmo o leitor ao final de um livro seu será o mesmo. E é essa marca, indelével que faz a diferença entre a genialidade e a mediocridade.




As ruas sempre vão ficar

As ruas sempre vão ficar no mesmo lugar
Isso faz meus dias sempre iguais
A imagem na janela é sempre a mesma
Impossível viver dessa maneira
Na terra, esperando as lágrimas correrem de novo...
As ondas nunca vão ficar no mesmo lugar
Tudo que eu posso ouvir é a minha própria voz
O mar refugia horizontes vazios
E neles passaria a vida inteira
Esperando as luzes do porto
E desejando o que mais odeio.


Yukio Mishima

No elevador



Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas proposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu esse pequeno índice.

De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto. Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para e um hiato com gelo para ela.

Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto. Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula: ele não perdeu o ritmo e sugeriu um longo ditongo oral, e quem sabe, talvez, uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa.

Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto ia tomando conta dela inteira. Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.

Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou, e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos.

Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou pela janela, e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.


Autor: Sujeito Oculto



Fonte: Balaio Porret@ nº377
Proust



Atualmente ele é cultuado, reconhecido como um dos grandes reinventores do romance moderno, mas na sua época chegou a ser odiado por seus contemporâneos. Amado ou detestado, a verdade é que jamais passou desapercebido.
Sua mãe o chamava de mon petit jaunet (meu amarelinho), mon petit benêt (meu palerminha) ou mon petit nigaud (meu idiotinha) e mesmo assim ele levaria a vida escrevendo aquele que seria um marco da literatura francesa: Em busca do tempo perdido, romance em sete volumes que deixaria inacabado. A doença acabaria por vencê-lo.
Marcel Proust nasceu em Anteuil, perto de Paris, em 10 de julho de 1871. Com problemas de saúde desde a infância, foi uma criança cercada de cuidados especiais por sua mãe. Asmático, solitário, homossexual em conflito com sua própria identidade, Proust descobriu técnicas de descrever de maneira minuciosa, fascinante cada objeto ou cena de seus livros. Tornou-se referência.
Durante anos, Proust levou uma vida de prazeres, mundana. Costumava dormir de dia e exigia silêncio absoluto de sua mãe. As noites eram passadas na convivência vazia dos salões de Paris. Parecia estar se preparando para escrever a obra que somente a morte se encarregaria de interromper.

"Jamais vemos os entes queridos a não ser no sistema animado, no movimento perpétuo de nossa incessante ternura, a qual, antes de deixar que cheguem até nós as imagens que nos apresentam sua face, arrebata-as no seu vórtice, lança-as sobre a idéia que fazemos deles desde sempre, fá-las aderir a ela, coincidir com ela".

(Proust. No Caminho de Guermantes. ed. Globo, p. 126 )



Segundo Celeste Albaret, criada e enfermeira de Marcel Proust de 1913 a 1922, durante a madrugada de 18 de Novembro de 1922, data da sua morte, o escritor continuava a escrever a sua obra-prima.
O tempo foi seu algoz, Marcel Proust morreria em decorrência de complicações pulmonares, deixando seu nome eternizado em romances, ensaios críticos, traduções e vasta correspondência.


"Mas quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas - sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais mais persistentes, mais fiéis - o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação."

Marcel Proust, in No Caminho de Swann



Leia: http://www.oficinadeliteratura.hpg.ig.com.br/contmproust.htm
http://www.estadao.com.br/ext/frances/proustp.htm
"[...] tento, com a maior insistência, embora com tão
precário resultado (como se tornou evidente), incorporar
a linguagem que falo e escuto no meu ambiente nativo à
língua com que ganho a vida nas folhas impressas. Não
que o faça por novidade, apenas por necessidade.
Meu parente José de Alencar quase um século atrás vivia
brigando por isso e fez escola."


Rachel de Queiroz



Quando Rachel de Queiroz faleceu, a impressão que tive, foi a de perder alguém muito próximo. De certa forma ela era, afinal acompanhou-me por boa parte da infância e adolescência. Nesse dia bateu aquela melancolia de alguém distante, mas presente, ainda que no imaginário infantil.
Hoje Rachel faria 93 anos de uma vida que foi marcada por lutas e vitórias. Atuante, interessada no flagelo da seca, nunca se distanciou da sua terra.
Inserida no Modernismo, a prosa regionalista de Rachel de Queiroz retrata, numa linguagem enxuta e viva, o nordeste; mais precisamente o Ceará.
Seus dois primeiros romances - O Quinze e João Miguel - demonstram sua preocupação com os traços psicológicos do homem daquela região que, pressionado por forças atávicas, aceita fatalísticamente seu destino. Essa harmonização entre o social e o psicológico demonstra uma nova tomada de posição na temática do romance nordestino. A mesma abordagem se aplica aos dois romances seguintes: Caminho de Pedras e As Três Marias. O primeiro é conscientemente político-social e as características psicológicas estão aí valorizadas. No entanto, em As Três Marias elas atingem o seu máximo.
Em 1930, quando lançou seu primeiro romance O Quinze, recebeu de pronto seu primeiro prêmio. Nos anos que se seguiram, Rachel dedicou-se a crônica jornalística, ao teatro, traduções, sem abandonar a ficção.


Amor de acidentado


ACONTECEU ultimamente um caso que tem chamado atenção. Estava um moço noivo, de casamento marcado para daí a poucos dias, quando de repente, ao atravessar aquela avenida de mau agouro a que por isso mesmo teimam em chamar Getúlio Vargas, caiu-lhe em cima um automóvel desabrido, desses que não procuram saber se o cristão à sua frente é noivo ou é nada - querem é passante jeitoso para derrubar, como de fato este o derrubou. O mundo não é assim mesmo, incerto e enganoso? De nada vale um homem alimentar no seu coração qualquer espécie de sonhos preciosos ou de esperanças; nem vale o alto juízo que ele faça de si ou sequer o juízo que dele façam os outros; o destino está aí na sua frente, de boca aberta e dentes afiados, na figura de um automóvel, de um micróbio, de uma onda de mar, e tanto vai para o buraco o sonhador rico de promessas como o pobre desesperado para o qual a morte já chegou tarde.

Felizmente o nosso moço não chegou a ir para o buraco. Andou perto nas primeiras horas, rebentou muito osso e deitou muito sangue - mas foi socorrido a tempo, e parece que com bastante gaze, gesso e paciência acaba ficando tão perfeito ou quase tão perfeito quanto antes do desastre.
E agora chegando à parte que chama atenção e que todo mundo acha bonito: segundo foi dito antes, estava a vítima de casamento justo, juiz apalavrado, padre tratado. A noiva de vestido feito, os doces no forno e o champanha na geladeira. Em vista disso, achou o noivo que, acidentado ou não acidentado, não seria um simples capricho do chofer que iria inutilizar tantos preparativos. E pois não desdisse nada, não adiou os convites: apenas transferiu a cerimônia para a enfermaria do hospital, e em torno do seu leito de dores se procedeu ao enlace, completo e sem atraso de um minuto.
Bem fazem os que se admiram e acham bonito, porque nestes tempos cínicos e desesperados um caso assim é um sinal tangível de que o amor ainda existe no mundo na sua forma mais pura; e passados nove séculos sobre os túmulos de Abelardo e Heloísa, ainda os encontramos reencarnados na mesma fortaleza de paixão e na mesma integridade de sentimento.
Porque diante daquele homem incógnito, enfaixado, todo revestido de gesso, a moça não hesitou em encontrar o seu amado, o seu escolhido, o único que lhe serve e lhe apela à alma no meio dos bilhões de seres do planeta. Afinal, com isso se prova que o que ela amava não era o simples corpo que o automóvel massacrou - não eram aquelas pernas agora entaladas, aquelas costelas em colete de gesso, o rosto, os lábios, os olhos que a gaze está encobrindo, e que ela não pode jurar que sairão os mesmos da aventura. De tudo que havia dentro ou fora daquele corpo e desse corpo fazendo parte, é evidente que ela amava especialmente o escondido coração dentro do peito, ou a flama imortal e imponderável que sob o nome de alma costumamos dizer que mora dentro do coração.
Ele, por seu lado, ninguém pode dizer que amasse menos. Porque um indivíduo que sofreu tal subversão corpórea, mesmo que retorne à vida sem aparente alteração no seu aspecto físico, não é possível que ressurja para a vida com as mesmas disposições de espírito que costumava usar antes. O lógico é que o rapaz atrevido que caiu debaixo das quatro rodas assassinas saia do hospital um senhor morigerado, que olha duas vezes para cada esquina antes de a atravessar. E no entanto esse homem novo está pronto a endossar os compromissos do homem antigo, e não hesita e corre para o que deseja, sem faixa ou tala que o prenda - por quê? Só porque ama, porque acima da dor, e do receio físico e da preocupação com o conserto que lhe estão fazendo os doutores no triste corpo, estão as necessidades, as exigências da alma.
Vivemos em terra de muitos acidentes, e pois o problema do amor com acidentado deve estar entre nós constantemente se propondo; por isso damos publicidade ao caso do casamento no hospital e o apresentamos à meditação dos interessados. Todos nós poderemos, mais cedo ou mais tarde, estar na situação do moço ou da moça da história: e se a meditação não nos ajudar a fugir da sanha matadora do automóvel desconhecido, pelo menos nos ensinará a não perder as esperanças, e até - quem sabe - no meio da desilusão e da tristeza, de repente ver brotar um milagre.


Rachel de Queiroz
Texto extraído do livro "Quatro Vozes", Editora Record - Rio de Janeiro, 1998, pág. 29



Leia: http://www.nilc.icmsc.sc.usp.br/literatura/raqueldequeiroz.htm
Roland Barthes
No dia 12 de novembro de 1915, nascia Roland Barthes, o escritor do famoso "Fragmento do discurso amoroso. Cabe dizer que Barthes foi mais do que um escritor de um livro sobre paixões, para falar de modo resumidíssimo e simplista. Barthes foi crítico literário, semiólogo, ensaísta, sociólogo e filósofo. Um homem versátil que chegou ao meio acadêmico por caminhos transversais.

"Em uma "lição inaugural", no dia 7 de janeiro de 1977, Barthes fala do caráter pouco convencional de sua obra e manifesta o espanto por estar sendo aceito num meio onde "reinam a ciência, o saber, o rigor e a invenção disciplinada". Ele se descreve como alguém impuro e incerto, mas toda essa modéstia não esconde o óbvio: é justamente a "incerteza" e a abertura para o novo que constituem o diferencial e o valor de Barthes."

Teve uma vida rica literariamente e mesmo quando acusado de ser um tanto "volúvel" ideologicamente, por se interessar por diversos temas, a verdade é que esse ecletismo escondia sua proposta de não se prender a um único método de análise. Enfim, vamos ao que interessa, o Discurso Amoroso.


Sobre ele, Barthes escreveu:


"A necessidade deste livro está contida na seguinte consideração: o discurso amoroso é hoje em dia de uma extrema solidão. Este discurso é talvez falado por milhares de pessoas, mas não é defendido por ninguém." (R. B.)

Fragmentos dos Discurso Amoroso ou quem não viu esse filme antes?

Parceiros que se relacionam como se fossem uma só pessoa podem tirar do "não", contido na ruptura da relação, a experiência definitiva que Roland Barthes tão bem expressa: "ele diz uma palavra diferente (que pode ser o "não") e ouço rugir de um modo ameaçador todo um outro mundo, que é o mundo do outro". A frase de Barthes revela uma obviedade negada: "Eu não sou você, eu sou outra pessoa, eu existo com o meu desejo e o meu desejo não mais se dirige a você."






"A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contato: de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é: "eu te desejo", e libera-lo, alimenta-lo, ramifica-lo, fazê-lo explodir ( a linguagem goza de tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação."

O autor empresta aqui ao sujeito apaixonado a sua "cultura", em troca o sujeito apaixonado lhe passa a inocência do seu imaginário, indiferente aos bons costumes do saber.

Assim sendo é um enamorado que fala e que diz:

AUSÊNCIA: Todo episódio de linguagem que põe em cena a ausência do objeto amado - quaisquer que sejam a causa e a duração - e tende a transformar essa ausência em prova de abandono.


1.Grande quantidade de lieder1, de melodias, de canções sobre a ausência amorosa. E, no entanto, não se encontra essa figura clássica, no Werther. A razão é simples: lá, o objeto amado (Charlotte) não se movimenta; é o sujeito apaixonado (Werther) que, em determinado momento, se afasta. Ora, só há ausência do outro: é o outro que parte, sou eu que fico. O outro vive em eterno estado de partida, de viagem; ele é, por vocação, migrador, quanto a mim que amo, sou por vocação inversa, sedentário, imóvel, disponível, à espera, fincado no lugar, não resgatado como um embrulho num canto qualquer da estação. A ausência amorosa só tem um sentido, e só pode ser dita a partir de quem fica - e não de quem parte: eu, sempre presente, só se constitui diante de você, sempre ausente. Dizer a ausência é, de início, estabelecer que o sujeito e o outro não podem trocar de lugar, é dizer: "Sou menos amado do que amo."

[...]

"Eu sou odioso."

MONSTRUOSO: O sujeito se dá conta bruscamente que ele envolve o objeto amado numa rede de tiranias: ele se sente passar de miserável a monstruoso.

2. O discurso amoroso sufoca o outro, que não encontra lugar algum para sua própria fala nesse dizer maciço. Não é que eu o impeça de falar, mas sei como fazer deslizar os pronomes: 'Eu falo e você me ouve, logo nós somos' (Ponge). Às vezes, com terror, me conscientizo dessa inversão: eu, que me acreditava puro sujeito (sujeito submisso: frágil, delicado, miserável), me vejo transformado em coisa obtusa, que avança cegamente, que esmaga tudo sob seu discurso: eu que amo, sou indesejável, faço parte do rol dos importunos: aqueles que pesam, atrapalham, abusam, complicam, pedem, intimidam (ou apenas simplesmente: aqueles que falam). Me enganei, monumentalmente.

(O outro fica desfigurado pelo seu mutismo, como nesses sonhos terríveis onde certa pessoa amada aparece com a parte inferior do rosto inteiramente apagada, sem boca; e eu que falo, também fico desfigurado: o solilóquio faz de mim um monstro, uma língua enorme.)"


[...]

frustração teria por figura a Presença (vejo o outro todo dia, mas isso não me satisfaz: o objeto está lá, na realidade, mas continua a me fazer falta imaginariamente). Quanto à castração, teria por figura a Intermitência (aceito deixar um pouco o outro "sem chorar, assumo o luto da relação, sei esquecer). A ausência é a figura da privação; desejo e preciso ao mesmo tempo. O desejo se abate sobre a carência: aí está o fato obsedante do sentimento amoroso. ("O desejo aí está, ardente, eterno: mas Deus está acima dele, e os braços erguidos do Desejo não atingem nunca a plenitude adorada." O discurso da Ausência é um texto de dois ideogramas: há os braços erguidos do Desejo, e há os braços estendidos da Carência. Oscilo, vacilo entre a imagem pálida dos braços erguidos e a imagem acolhedora e infantil dos braços estendidos.)

Me instalo sozinho, num café; as pessoas vêm me cumprimentar; me sinto rodeado, solicitado, lisonjeado. Mas o outro está ausente; eu o convoco em mim mesmo para que ele me mantenha à margem dessa amabilidade mundana, que me espia. Apelo para a sua "verdade" (a verdade cuja sensação ele me dá) contra a histeria da sedução onde sinto que escorrego. Torno a ausência do outro responsável pelo meu mundanismo; invoco sua proteção, sua volta: que o outro apareça, que me retire, como uma mãe que vem buscar seu filho, do brilho mundano, da fatuidade social, que ele me devolva "a intimidade religiosa, a gravidade" do mundo amoroso. (X...me dizia que o amor o tinha protegido do mundanismo: associações, ambições, promoções, conspirações, alianças, secessões, funções, poderes: o amor tinha feito dele um detrito social, e ele se regozijava disso.)

Roland Barthes


Esse tema é recorrente na literatura. Acredito que nunca se falou tanto sobre os desencontros amorosos como nos tempos de hoje. Vivemos no dia-a-dia, encontramos em livros e assistimos em filmes. Muitas perguntas e nenhuma resposta que dê solução ao caso e talvez resida aí o grande barato, a busca, o caminho. Se vamos chegar, se vamos encontrar nossos sonhos ou melhor o que de real podemos encontrar no que sonhamos, é só um detalhe, por ora, só nos resta seguir...


Leia: http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2000/10/01/cad866.html





A escritora, nascida no Rio de Janeiro em 7 de novembro de 1901, foi criada pela avó materna após ficar órfã de pai e mãe. Formou-se professora primária aos 16 anos e aos 18 publicou seu primeiro livro de poemas, "Espectros". Foi menina solitária e quando reclamavam de seu isolamento dizia que sentia não poder desfrutar da companhia de muitas pessoas, realmente preciosas, numa alusão a perda de seus pais. Desde muito Cecília teria intimidade com a morte e saberia como ninguém as relações entre o efêmero e a etermidade. A infância daria a ela duas coisas que parecem ruins: o silêncio e a solidão. E foi justamente nessa área, segundo ela, que os livros se abriram e deixaram sair suas realidades e sonhos.




Surdina

Quem toca piano sob a chuva,
na tarde turva e despovoada?
De que antiga, límpida música
Recebo a lembrança apagada?

Minha vida, numa poltrona
jaz, diante da janela aberta.
Vejo árvores, nuvens, - e a longa
rota do tempo, descoberta.

Entre os meus olhos descansados
e os meus descansados ouvidos,
alguém colhe com dedos calmos
ramos de som, descoloridos.

A chuva interfere na música.
Tocam tão longe! O turvo dia
mistura piano, árvore, nuvens,
séculos de melancolia...

Cecília Meireles


Na solidão silenciosa, a menina Cecília encontrava suas respostas na palavra escrita. Muito antes de saber escrever, compunha versos, ainda que não fizesse poesia. Naquele momento, seus versos eram sementes que a eternidade se encarregaria de cultivar.



Por mais que procure antes de tudo ser feito,
eu era amor. Só isso encontro.
Caminho, navego, vôo,
- sempre amor.
Rio desviado, seta exilada, onda soprada ao contrário
- mas sempre o mesmo resultado: direção e êxtase.

Cecília Meireles
Sem palavras...

Morre no Rio a escritora Rachel de Queiroz

Morreu hoje no Rio de Janeiro a escritora cearense Rachel de Queiroz, que completaria 93 anos no dia 17 de novembro. Ela foi vítima de um infarto do miocárdio, por volta das 6h, enquanto dormia em sua casa no bairro do Leblon, na zona sul, segundo a família. A escritora já havia sofrido um derrame em agosto de 1999.

O velório será na ABL (Academia Brasileira de Letras) e a previsão era de que o corpo chegasse ao local às 11h. Diferentemente do que havia sido inicialmente informado pela assessoria da ABL, o enterro será feito somente amanhã, no mausoléu da família da escritora no Cemitério São João Batista, em Botafogo (zona sul).

Leia: ilustrada.





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Essa carta de Betinho para sua esposa, Maria, é uma das belas declarações de amor que já li. Escrita para ser lida após a sua morte, conta sua história com Maria, mas sobretudo fala de amor, não só o que eles viveram, mas do amor que Betinho tinha pela humanidade. A primeira vista parece apenas o relato de uma vida a dois, repleta de companheirismo, muito amor, força e todos os obstáculos que alguém pode ter na vida. Lembro de ter lido certa vez, que Betinho nunca foi saudável. Sempre e de alguma forma estava doente. Não podia ser criança na sua plenitude por causa da hemofilia, não podia se ferir, coisa corriqueira entre crianças. Flamenguista doente não podia sequer jogar uma pelada. Quinze dias depois de nascer, teve uma hemorragia no umbigo que quase o matou. Aos seis anos foi internado com hemorragia nos dentes. Aos 14 anos, ficou tuberculoso e foi isolado pela família, em tratamento intensivo e praticamente desenganado. Sobreviveu. E acreditava na cura da AIDS, era um sobrevivente obstinado.
Dois dias antes de morrer, o brasileiro que reinventou a palavra cidadania pesava 39 quilos, sofria em silêncio e de hora em hora era submetido a uma verificação geral de seus órgãos vitais por uma enfermeira. Nascido em 03 de novembro de 1935, viria a falecer dia 14 de agosto de 1997 nos deixando seus sonhos, e uma espécie de amor que ultrapassa os limites do corpo e da alma, o amor pela humanidade e os excluídos.



"Não posso ser feliz diante da miséria humana. O fim da miséria não é uma utopia."




Uma Carta Para Maria - Itatiaia, janeiro de 1997


Carta escrita por Herbert de Souza (o Betinho) para sua mulher Maria e lida, um ano após sua morte, pelo ator Jonas Bloch, durante a cerimônia no CCBB.

"Este texto é para Maria ler depois da minha morte que, segundo meus cálculos, não deve demorar muito. É uma declaração de amor.

Não tenho pressa em morrer, assim como não tenho pressa em terminar esta carta. Vou voltar a ela quantas vezes puder e trabalhar com carinho e cuidado cada palavra. Uma carta para Maria tem que ter todos os cuidados. Não quero triste, quero fazer dela também um pedaço de vida pela via de lembrança que é a nossa eternidade. Nos conhecemos nas reuniões de AP (Ação Popular), em 1970, em pleno Maoísmo. Havia uma clima de sectarismo e medo nada propício para o amor.

Antes de me aventurar andei fazendo umas sondagens e os sinais eram animadores, apesar de misteriosos. Mas tínhamos que começar o namoro de alguma forma. Foi no ônibus da Vila das Belezas, em São Paulo.
Saímos em direção ao fim da linha como quem busca um começo. E aí veio o primeiro beijo, sem jeito, espremido, mas gostoso, um beijo público. A barreira da distância estava rompida para dar começo a uma relação que já completou 26 anos!

O Maoísmo estava na China, nosso amor no São João. Era muito mais forte que qualquer ideologia. Era a vida em nós, tão sacrificada na clandestinidade sem sentido e sem futuro. Fomos viver em um quarto e cozinha, minúsculos, nos fundos de uma casa pobre, perto da Igreja da Penha. No lugar cabia nossa cama, uma mesinha, coisas de cozinha e nada mais. Mas como fizemos amor naquele tempo! Foi incrível e seguramente nunca tivemos tanto prazer.

Tempos de chumbo, de medo, de susto e insegurança. Medo de dia, amor de noite. Assim vivemos por quase um ano. Até que tudo começou a "cair". Prisões, torturas, polícia por toda a parte, o inferno na nossa frente. Fomos para o Chile. E ali, chamado por Garcez para elaborar textos, acabei no agrado de Allende, que os usou em seus discursos oficiais. Foi a primeira vez que eu vi amor virar discurso político... Depois passamos por muita coisa até voltar. Até que a anistia chegou e nos surpreendeu. E agora, o que fazer com o Brasil?
Foi um turbilhão de emoções: o sonho virou realidade! Era verdade, o Brasil era nosso de novo. A primeira coisa foi comer tudo que não havíamos comido no exílio: angu com galinha ao molho pardo, quiabo com carne moída, chuchu com maxixe, abóbora, cozido, feijoada. Um festival de saudades culinárias, um reencontro com o Brasil pela boca.

Uma das maiores emoções da minha vida foi ver o Henrique surgindo de dentro de você. Emoção sem fim e sem limite que me fez reencontrar a infância.

Depois do exílio, nossas vidas pareciam bem normais. Trabalhávamos; viajávamos nas férias, visitávamos os amigos, o Ibase funcionava, até a hemofilia parecia que havia dado uma trégua. Henrique crescia, Daniel aos poucos se reaproximava de mim, já como filho e amigo.

Mas como uma tragédia que vem às cegas e entra pelas nossas vidas, estávamos diante do que nunca esperei. A Aids. Em 1985, surge a notícia da epidemia que atingia homossexuais, drogados e hemofílicos. O pânico foi geral. Eu, é claro, havia entrado nessa. Não bastava ter nascido mineiro, católico, hemofílico, maoísta e meio deficiente físico.

Era necessário entrar na onda mundial, na praga do século, mortal, definitiva, sem cura, sem futuro e fatal. E foi aí que você, mais do que nunca, revelou que é capaz de superar a tragédia, sofrendo, mas enfrentando tudo e com um grande carinho e cuidado. A Aids selou um amor mais forte e mais definitivo porque desafia tudo, o medo, a tentação do desespero, o desânimo diante do futuro. Continuar tudo apesar de tudo, o beijo, o carinho e a sensualidade.

Assumi publicamente minha condição de soropositivo e você me acompanhou. Nunca pôs um "senão" ou um comentário sobre cuidados necessários. Deu a mão e seguiu junto como se fosse metade de mim, inseparável. E foi. Desde os tempos do cólera, da não esperança, da morte do Henfil e Chico, passando pelas crises que beiravam a morte até o coquetel que reabria as esperanças. Tempo curto para descrever, mas uma eternidade para se viver.

Um dos maiores problemas da Aids é o sexo. Ter relações com todos os cuidados ou não terá Todos os cuidados são suficientes ou não se deve correr riscos com a pessoa amada? Passamos por todas as fases, desde o sexo com uma ou duas camisinhas até sexo nenhum, só carinho. Preferi a segurança total ao mínimo risco.

Parei, paramos e sem dramas, com carências, mas sem dramas, como se fosse normal viver contrariando tudo que aprendemos como homem e mulher, vivendo a sensualidade da música, da boa comida, da literatura, da invenção, dos pequenos prazeres e da paz. Viver é muito mais que fazer sexo. Mas para se viver isso, é necessário que Maria também sinta assim e seja capaz dessa metamorfose como foi.

Para se falar de uma pessoa com total liberdade é necessário que uma esteja morta e eu sei que este será o meu caso. Irei ao meu enterro sem grandes penas e principalmente sem trabalho, carregado. Não tenho curiosidade para saber quando, mas sei que não demora muito.

Quero morrer em paz, na cama, sem dor, com Maria do meu lado e sem muitos amigos, porque a morte não é ocasião para se chorar, mas para celebrar um fim, uma história. Tenho muita pena das pessoas que morrem sozinhas ou mal acompanhadas, é morrer muitas vezes em uma só. Morrer sem o outro é partir sozinho. O olhar do outro é que te faz viver e descansar em paz. O ideal é que pudesse morrer na minha cama e sem dor, tomando um saquê gelado, um bom vinho português ou uma cerveja gelada.

Te amo para sempre,

Betinho,


Extraída do "Jornal da Orla" de Santos, SP, ao dia 24 janeiro 1999.

"Temos sociólogos bons e medíocres. Uns acabam professores, outros presidentes da República"

Herbert de Souza, sociólogo.


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