Peguei aqui.
Ezra Pound
"Num barraco precário,
Sem glória e sem salário,
O estilista acha abrigo
Contra o mundo inimigo.
A natureza o oculta.
Na amante calma e inculta
Exerce seus talentos.
E o solo acolhe os seus lamentos.
O abrigo dos requintes e contendas
Vaza por entre o zinco.
Ele faz comida suculenta.
A porta não tem trinco."

Ezra Pound






Irônico, sarcástico, mordaz. Ezra Pound. O poeta que marcou uma geração tinha muitas definições. Segundo críticos, Pound foi o responsável pelo modernismo nas letras, assim como Picasso foi para a pintura e Stravinski para a música. Loucura? Pode ser, mas é sem dúvida a vida desse poeta que poderíamos chamar de loucura...literalmente.

Ezra Pound nasceu em Hailey no estado de Idaho em 30 de outubro de 1885. Após concluir seus estudos lecionou por um curto período. Convencido que a poesia era a maior razão de ser em sua vida, Pound abandonou o meio universitário e viajou para a Europa em 1908. Segue, então a confirmação do talento poético de Pound.

Até aí, tudo vai indo muito bem para o ele, mas uma escolha errada marcaria sua vida para sempre. O escritor que nunca havia abraçado uma ideologia política, descobriu Mussolini e aderiu ao fascismo de corpo e alma. Em paralelo a sua obra poética, começou a escrever uma série de artigos, onde textos raivosos.

Essas atividades fizeram com que o escritor fosse levado para o cárcere de Pisa no dia 24 de maio de 1945. Depois de passar trinta dias na "jaula", Pound perdeu a memória e sucumbiu. Foi transferido para o hospital da prisão onde após uma pequena melhora concentrou todas suas energias na criação dos 10 "Cantos Pisanos". Meses mais tarde foi transferido para os Estados Unidos, onde seria julgado por alta traição. Submetido a uma junta de psiquiatras o escritor foi considerado insano, escapando do julgamento e da pena capital. Isso não o livrou de ser internado no pavilhão para loucos criminosos do Hospital St. Elizabeth em Washington. Ezra Pound só alcançou a liberdade em 18 de abril de 1958 quando seu processo foi arquivado.

Alguns críticos ainda confundem vida e obra, equivocadas (reconhecida por ele mesmo) posições políticas com obra literária. Ainda que seja impossível esquecer ou perdoar o passado fascista de Pound, como não pensar em mais de 10 anos preso no pavilhão dos loucos? Um alto preço pago, dívida quitada e uma obra que transcende o tempo.


Leia: http://www.revista.agulha.nom.br/ag25pound.htm
http://www.revistaetcetera.com.br




Essa melancolia de rua fracamente iluminada, fim de noite em outro tempo qualquer.
Lá fora é a chuva fina na janela embaçada, aqui dentro, uma ausência avoluma-se a ponto de preencher o ambiente. Passas do estado fluídico ao denso peso dos metais.
Nesse momento não há lugar nenhum no mundo para ir, ainda que por vontade própria ou imprópria intervenção do destino. Nesse momento, não há outro dia que se torne melhor, porque não tenho nada que não me faça chorar...

andrea augusto©angelblue83


Para o amigo e poeta Caticha que faleceu hoje.
Site do poeta Caticha Ellis: http://www.caticha.kit.net/



Léon Werth, ensaísta e novelista francês encontrou-se com Saint-Exupery no ano de 1931. Tornaram-se amigos. Eram opostos. Werth era vinte e dois anos mais velho que o amigo, autor de vários livros, tendo sua escrita um estilo surrealista. Nada mais diferente e nada que impedisse essa amizade. Saint Exupery dedicou-lhe dois livros (Carta a um Refém, O príncipe pequeno) e consultou Werth em mais três. Enquanto escrevia "O pequeno príncipe", em New York, Saint-Exupery pensava nos amigos e suas privações por causa da guerra. Teria dito na ocasião que diante da impossibilidade de retirar os amigos da Europa em guerra, preferia juntar-se a eles e assim o fez.
O fim da segunda guerra mundial, Antoine de Saint Exupery não viveu para ver. Em 31 de Julho de 1944, o general Gavoille confia-lhe uma missão. É o seu último vôo. Desaparece sem deixar vestígios.
Leon Werth diria ao fim da guerra: a "paz, sem Tonio (Exupery) não é inteiramente a paz." Leon Werth não leu o livro pelo qual foi em parte responsável senão cinco meses após a morte do seu amigo, quando recebeu edição especial da obra.



Leia: http://ruialme.blogspot.com/2003_08_01_ruialme_archive.html
http://www.terravista.pt/ancora/2254/exupery.htm

"São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher..."

Vinicius de Moraes





Introspecção

Nuvens lentas passavam
Quando eu olhei o céu.
Eu senti na minha alma a dor do céu
Que nunca poderá ser sempre calmo.

Quando eu olhei a árvore perdida
Não vi ninhos nem pássaros.
Eu senti na minha alma a dor da árvore
Esgalhada e sozinha
Sem pássaros cantando nos seus ninhos.

Quando eu olhei minha alma
Vi a treva.
Eu senti no céu e na árvore perdida
A dor da treva que vive na minha alma.


Vinicius de Moraes

Rio de Janeiro, 1933
in O caminho para a distância
in Poesia completa e prosa: "O sentimento do sublime"




O lugar preferido da casa de Vinícius de Moraes era a banheira. Mas havia alguns pré-requisitos: as torneiras tinham de estar inclinadas em determinada direção para que o fio de água quente o acalmasse e o de água fria o mantivesse aceso. A tampa do ralo deveria ficar um pouco aberta para permitir a renovação da água. Uma tábua sobre as bordas da banheira servia de mesa, onde ele punha livros, pedaços de papel em que fazia anotações e a máquina de escrever para trabalhar horas a fio. Colocava também um espelho e o barbeador elétrico para fazer a barba. Se o cansaço batia, cochilava. Certo dia, num cochilo, os óculos escorregaram. Vinícius acordou de supetão e olhou os óculos enfiados num dos joelhos. "O que o Magalhães Pinto está fazendo aqui?", perguntou em voz alta, referindo-se ao calvo ex-governador de Minas Gerais. Tinha muita insônia e tentava curá-la no banho. Muitas vezes, no meio da noite, ia direto para a cama sem se enxugar. "Acordava com a cama ensopada. Outras noites, a casa ficava inundada", conta Gilda Matoso, a última das nove esposas.
Foi nesta mesma banheira que Vinicius morreu, no dia 9 de julho de 1980. Músico de muitos parceiros e homem de muitos casamentos, Vinicius de Moraes foi o Poeta Brasileiro, movido por muito amor à vida.

Conta-se que foi um enterro estranho. Não havia o menor sinal de desespero e, ao contrário da expectativa do poeta, revelada no poema A Hora Íntima, ninguém propôs solenemente a construção do seu pedestal. Quase sorrindo, as pessoas cantaram canções de despedida: "Se todos fossem iguais a você! Que maravilha viver". O rosto emergindo entre as flores, Vinicius, filho de Oxalá, era um morto sem metafísica, escreveria Geraldo Carneiro.
Morto? Não, o poetinha não morreu, foi apenas fazer poesia em outro lugar...


Uma música que seja

... como os mais belos harmônicos da natureza. Uma música que seja como o som do vento na cordoalha dos navios, aumentando gradativamente de tom até atingir aquele em que se cria uma reta ascendente para o infinito. Uma música que comece sem começo e termine sem fim. Uma música que seja como o som do vento numa enorme harpa plantada no deserto. Uma música que seja como a nota lancinante deixada no ar por um pássaro que morre. Uma música que seja como o som dos altos ramos das grandes árvores vergastadas pelos temporais. Uma música que seja como o ponto de reunião de muitas vozes em busca de uma harmonia nova. Uma música que seja como o vôo de uma gaivota numa aurora de novos sons...


in Para viver um grande amor (crônicas e poemas)
in Poesia completa e prosa: "A lua de Montevidéu"




Leia: http://www.blogger.com/www.viniciusdemoraes.com.br
http://www.palavrarte.com/Poeta_Lembrei/poelembrei_vinicius.htm
http://www.terra.com.br/istoe/biblioteca/brasileiro/musica/mus3.htm
http://www.releituras.com/viniciusm_menu.asp

Gerundismo
As pessoas precisam estar entendendo a maneira como esse vício maldito conseguiu estar entrando na linguagem do dia-a-dia.

Tudo começou a estar acontecendo quando alguém precisou estar traduzindo manuais de atendimento por telemarketing. Daí a estar pensando que "We'll be sending it tomorrow" possa estar tendo o mesmo significado que "Nós vamos estar mandando isso amanhã" acabou por estar sendo só um passo.

Pouco a pouco a coisa deixou de estar acontecendo apenas no âmbito dos atendentes de telemarketing para estar ganhando os escritórios. Todo mundo passou a estar marcando reuniões, a estar considerando pedidos e a estar retornando ligações. A gravidade da situação só começou a estar se evidenciando quando o diálogo mais coloquial demonstrou estar sendo invadido inapelavelmente pelo gerundismo.

A primeira pessoa que inventou de estar falando "Eu vou tá pensando no seu caso" sem querer acabou por estar escancarando uma porta para essa infelicidade lingüística estar se instalando nas ruas e estar entrando em nossas vidas. Você certamente já deve ter estado estando a estar ouvindo coisas como "O que cê vai tá fazendo domingo?" ou "Quando que cê vai tá viajando pra praia?", ou "Me espera, que eu vou tá te ligando assim que eu chegar em casa".

Deus, o que a gente pode tá fazendo pra que as pessoas tejam entendendo o que esse negócio pode tá provocando no cérebro das novas gerações?
A única solução vai estar sendo submeter o gerundismo à mesma campanha de desmoralização à qual precisaram estar sendo expostos seus coleguinhas contagiosos, como o "a nível de", o "enquanto", o "pra se ter uma idéia" e outros menos votados.

A nível de linguagem, enquanto pessoa, o que você acha de tá insistindo em tá falando desse jeito?


Ricardo Freire



A você professor que "vai estar comemorando" o seu dia hoje: Feliz Dia dos Professores!!!

FERNANDO SABINO

Minhas primeiras lembranças de Sabino, são sempre os livros de crônicas que líamos no colégio. Recheadas de humor, as histórias nos pegavam pelo pé na primeira linha. Sabino era/é certeza do riso gostoso ao terminarmos a história. Fica a impressão de que ninguém conta ou reconta um caso como ele. E embora seja mineiro, de Belo Horizonte, tem uma carioquice marota que dá um molho todo especial aos textos que produz.
O escritor é antes de tudo um observador atento, ele sabe que muitas histórias estão ali, na sala, no quarto, no banheiro, nos bares, basta saber contá-las e ele sempre soube.
Lembro que quando li "Cartas perto do coração", que traz a correspondência de Sabino e Clarice, descobri o homem inteligentíssimo e culto que ele é. Sempre soube que para se escrever com humor, ou saber colocar humor em comentários, escritos, atitudes e na própria vida, é preciso ser muito inteligente. O humor bem colocado é para poucos, humor inteligente para raros.



Come e dorme


E minha amiga Glória Machado me conta que recebeu da empregada o seguinte recado:

- Seu doutor Alfredo telefonou dizendo que vai levar a senhora com ele hoje de noite no come e dorme.

Deixa o Alfredo falar! Ela sabia que o marido é surpreendente e dele tudo se espera - mas não a este ponto. Come e dorme! Que diabo vinha a ser aquilo?

Só foi entender quando mais tarde ele voltou do trabalho. Na realidade a convidava para um excelente programa: assistir naquela noite à apresentação no Rio da famosa orquestra de Tommy Dorsey.

Textos extraídos do "Livro aberto", Editora Record - Rio de Janeiro, 2001, páginas diversas. Este livro foi agraciado com o Prêmio Jabuti 2002 (Contos - Crônicas).


2


Dar nome aos bois é coisa que mineiro não faz, nem mesmo em Uberaba. Ainda me lembro da eleição para Presidente da República em 55, quando, no mais aceso da campanha, Juarez Távora entrou por Minas adentro e encontrou várias cidades cheias de faixas e cartazes aclamando a sua candidatura. Algum tempo depois é que pôs reparo na sutileza daquela manifestação de apoio:a adesão dos mineiros se exprimia através das palavras "Salve o Nosso Candidato!", "Viva o Futuro Presidente da República!". O nome do candidato não aparecia, por uma questão menos de esperteza que de economia: as faixas e cartazes eram os mesmos, serviam para qualquer um deles.

O texto acima é parte do que foi publicado em "A Falta Que Ela Me Faz", e foi extraído do livro "Fernando Sabino - Obra Reunida - Volume II", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1996, pág.706.


O menino possui a visão primeira, tudo é novo. Há a inocência do descobrir, a curiosidade natural que empurra, que leva a continuar, aventurar-se pelo mundo e suas possibilidades. Um dia nos descobrimos adultos e o menino nos olha de um tempo distante onde a vida era mais simples. Nesse momento, alguns viram as costas e seguem, outros como Sabino, escrevem.

Feliz Aniversário, menino!



Leia: http://www.releituras.com/fsabino_comocomecei.asp
http://www.releituras.com/fsabino_comocomecei.asp
João Cabral de Melo Neto



Morreu um poeta. Toda morte é um prejuízo, mas a morte de um poeta representa uma agressão ao patrimônio humano. Morrer um homem, já é um prejuízo. Mas o poeta, com ser poeta, além de ser homem, amplia enormemente a perda.
Não é só a saudade não é só a pessoa que se perdeu. O poeta era em si uma riqueza, mas não riqueza comum, porém única e insubstituível.
Aquela voz que deixou de se ouvir não tinha similar, não tinha companheiros, não se fazia em coros. Era uma voz de nota única pessoal e solitária. Ninguém podia cantar por ele, ninguém poderá cantar por ele. Aquela voz se acabou.
É isso o que representa a perda de um grande poeta. O espaço ocupado por ele fica para sempre vazio. Podem brotar dezenas de poetas, novos, até mesmo de grandes poetas: o espaço ocupado por João Cabral de Melo Neto será para sempre dele. Uma vez que ele morreu, que não produzirá poesia nova, esse espaço ficará em branco, inocupado.
Quando morre um poeta como João Cabral cria-se um rombo, um vácuo. A gente fica sem ter o que dizer pois era ele que preenchia a nossa necessidade de expressão.
Como vou falar de angústia, se eu procurava na poesia dele a expressão da minha própria angústia? O poeta é na verdade a nossa língua. Não para tudo, mas no que a era parte dele dentro de nós. Nossa tristeza, nosso amor, nossa consciência do mundo - íamos procurar nele, nosso intérprete pessoal.
Sempre sentimos isso quando perdemos um grande poeta que ao mesmo tempo fosse o nosso poeta. Ele que falava por nós, que preenchia nossa falta de inspiração. Como iria fazer, dar forma, feitio e expressão literária, se me falta o poeta que dizia isso por mim?
De repente nos sentimos mudos. Verdade que ficou a obra escrita, ainda é o que nos salva. Mas já não temos as invenções do poeta que iriam dar corpo vivo às nossas invenções. Com ele calado, nós também nos calamos.
João era um silencioso. Mas tinha uma maneira sutil de exprimir a irmandade com um toque de mão, com um sorriso calado. Ele estando junto era como se nos dissesse: "Conte comigo, eu estou aqui. Já passei tudo que você está passando." Isso que estávamos passando poderia ser a angústia de um momento, uma tristeza sem voz.
Engraçado a dualidade que se estabelece entre os silêncios do poeta e tudo o que ele é capaz de dizer até com esses silêncios. É que, em poesia, as pausas também falam.
Você ou eu, que escrevemos prosa, temos de falar tudo bem explicado, bem correto; prosa clara, define os mestres. Já o poeta pode se esconder em obscuridades. Nós seguimos procurando o fio da meada, já que a poesia é sempre um desafio. O que ela sugere a você não sugere a mim.
E pode mesmo ter um terceiro segredo escondido. A poesia é um mistério, com todo o direito às suas nebulosidades. Cada leitura, ou cada leitor de um poema podem descobrir nele um sentido oculto, que varia a cada interpretação.
Aliás, creio que será esse o grande segredo do poeta. O que ele fala ou o que ele canta procura os sentimentos, não propriamente a inteligência.
Os poetas antigos cantavam os seus versos e os poetas populares de hoje ainda os cantam. Será que o hermetismo de um João Cabral poderia ser expresso em música? Claro. A sua obra mais conhecida Vida e Morte Severina é toda musicada. E talvez não pudesse ser entendida se não fosse a cantoria. E talvez João a tivesse recebido com surpresa pois não a concebera para cantar.



Poeta, diplomata, obsessivo, angustiado e fascinante, essas são algumas palavras que definem aquele que foi um marco dentro da literatura brasileira, João Cabral de Melo Neto.

Sua obra desencadeia uma revolução formal das mais importantes na história da poesia do nosso país e representa a maturidade das conquistas estéticas mais radicais do século XX. Opondo-se ao principal curso da poética nacional que sempre fora sentimental, retórica, ornamental, João Cabral de Melo Neto constrói uma poesia não-lírica, não-confessional, presa à realidade e dirigida ao intelecto.

Em vida recebeu vários prêmios, mas dizia não acreditar neles. Foi durante anos forte candidato ao Nobel de Literatura, fato que não o abalou em nada. Seguiu sua vida, acreditando ou não em prêmios recebendo vários deles. Traduzido em diversas línguas, João Cabral de Melo Neto é daqueles raros poetas cuja obra honraria qualquer país do mundo. No Brasil, nos últimos 40 anos, talvez nenhum outro poeta tenha exercido tanta influência sobre gerações posteriores quanto ele.

João Cabral era atormentado por uma dor de cabeça que não o deixava de forma alguma. Ao saber, anos atrás, que sofria de uma doença degenerativa incurável, que faria sua visão desaparecer aos poucos, o poeta anunciou que ia parar de escrever. Já em 1990, com a finalidade de ajudá-lo a vencer os males físicos e a depressão, Marly, sua segunda esposa, passa a escrever alguns textos tidos como de autoria do biografado. Foi a forma encontrada para tentar tirá-lo do estado depressivo em que se encontrava. O poeta, no entanto, já entregue, quase não falava. E no dia 09 de outubro de 1990, aos 79 anos, apaga-se a voz de significação universal, com a singularidade do seu verso: João Cabral de Melo Neto.



"...E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."

(João Cabral de Melo Neto - Morte e Vida Severina)




Leia: http://www.tvcultura.com.br/aloescola/literatura/joaocabral/
http://www.releituras.com/joaocabral_bio.asp




São duas as categorias do concurso:

LIVRE - Para todos os que não estão estudando e são maiores de idade

ESTUDANTIL - para todos os que estão matriculados em alguma instituição de ensino

Para participar, basta inscrever seu soneto e preencher a ficha de inscrição até o dia 19 de outubro. Boa sorte.


Relembrando...



O que é um soneto?




Todo soneto tem 14 versos, que em geral são divididos em duas estrofes de 4 versos, chamadas quartetos, e 2 estrofes de três versos, chamadas tercetos.

O exemplo a seguir demonstra essa disposição:


SONETO DE ANIVERSÁRIO
Vinicius de Moraes

Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.

Esta estrutura, chamada 4433, segue o modelo clássico, conhecido como soneto italiano.

Outra maneira de dividir as estrofes é a 4442, ou seja, três quartetos juntos e um dístico. Mas na tradição da poesia em língua portuguesa esse modelo é pouco usado.

O soneto clássico tem dez sílabas poéticas, que são diferentes das sílabas gramaticais, pois são definidas pelas sílabas tônicas e átonas.

É o que podemos ver no primeiro verso do "Soneto de Fidelidade", de Vinicius de Moraes:

De/tu/doao/meu/a/mor/se/rei/a/ten/...

O decassílabo clássico costuma ter três tônicas mais fortes, que caem na segunda, sexta e décima sílabas.

De TUdo ao meu aMOR serei aTENto

Além dos decassílabos, existem outros tipos de sonetos com diferentes contagens de sílabas. Os Alexandrinos, por exemplo, têm 12 sílabas, os Sonetilhos podem ter nove ou menos sílabas e existem ainda os sonetos de verso livre, que admitem qualquer número de sílabas.


SONETO DE FIDELIDADE
Vinicius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


As rimas seguem o esquema abba/abba/cde/dec.

ento [a]
anto [b]
anto [b]
ento [a]

ento [a]
anto [b]
anto [b]
ento [a]

ure [c]
ive [d]
ama [e]

ive [d]
ama [e]
ure [c]

Outros esquemas podem ser usados, variando a quantidade e a combinação das rimas, mas essa é a mais tradicional.

O soneto sem rimas é muito raro, mas também existe. Chama-se soneto de verso branco.
Os sonetos devem desenvolver um tema, que pode ser uma história, uma descrição, uma sátira.

O importante é que esse tema seja desenvolvido de maneira lógica, com começo, meio e fim (no caso de contar uma história) ou com introdução, exposição e conclusão (no caso de transmitir uma opinião ou defender uma tese).

Num soneto, o autor deixa para o último verso o argumento mais forte ou a informação de maior impacto, como se fosse uma conclusão da idéia que vem sendo desenvolvida ao longo do soneto.

Por isso, o décimo quarto verso costuma ser chamado de "Chave de Ouro".
Todo soneto tem que ter um estilo próprio, que se define pelo tom que o poeta imprime, pelas palavras escolhidas, enfim, pelo jeito com que ele expressa suas idéias.

Um mesmo poeta pode experimentar estilos variados. O "Soneto da Rosa" e o soneto "Judeu Errante", ambos de Vinicius de Moraes, são um exemplo.

Quando fala sobre a rosa, Viniicus usa um estilo de exaltação à natureza.
Já em "Judeu Errante", o estilo é lúgubre, desanimado.

Vinicius de Moraes criou um estilo único. Apesar de ser um poeta moderno, seus sonetos são perfeitos na métrica e na rima e sua temática é preferencialmente rômantica.


(Créditos: Glauco Mattoso. site oficial - Vinicius de Moraes)


Agora é só ler o regulamento, fazer a inscrição e torcer! Boa sorte!!!



O poeta

Em meus arroubos de infância
numa doce ignorância
julgava eu que os poetas
pelas mãos de Deus,benditos
eram homens pudicos, profetas

E adolescente ainda
pensava, coisa mais linda
viajar todo o universo
retendo entre as mãos a sorte
de voar do sul ao norte
nas asas de um só verso

Não sei bem porque, um dia
juntei toda a fantasia
daqueles sonhos de infância
à dura realidade da minha maturidade
E fiz primeira instância
Desde então versei saudade
tristeza, amor, liberta
Tudo quanto a vida ensina

Compreendi que ser poeta
não é profissão ou meta
é dom natural, é sina

Todos têm a mesma sorte
o direito à vida e à morte
E quando o fim se aproxima
a diferença é uma só
muitos retornam ao pó
o poeta...vira rima"

V.Bauer





A beleza é triste pois ela está no lugar de algo que se foi.
O tempo perdido não pode ser recuperado.
Sua beleza só pode ser vivida como ausência: a beleza dói...
Magia é isto: invocar o que se foi, mas que continua a nos habitar. Ou será poesia?

Rubem Alves






Parem, eu confesso, sou poeta.
Cada manhã que nasce me nasce uma rosa na face.
Parem, eu confesso, sou poeta.
Só meu amor é meu deus, eu sou o seu profeta.

Paulo Leminski