Sérgio Porto
Stanislaw Ponte Preta
Irreverência essa é a palavra para descrever Sérgio Porto, ou Stanislaw Ponte Preta, como queiram.
Sérgio nasceu no dia 11 de janeiro de 1923, e ficou famoso anos depois sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, emprestado à Oswald de Andrade (vide Memórias de Serafim Ponte Grande.)
Um frasista incorrigível deixou pérolas inesquecíveis. Suas crônicas, algumas atualíssimas, levam a marca do carioca direto, esperto, debochado, tudo regado a muito bom humor.

Sérgio Porto é daqueles caras que nos faz rir sozinhos, quando lembramos de uma frase, de um texto inspirado, de um causo vivenciado por ele e virando lenda, repassado por muitos.
Com uma jornada de trabalho nunca inferior a 15 horas, sofreu o primeiro infarto aos 36 anos. Seguiu no seu ritmo alucinado até o ultimo dia de vida.
"Tunica, eu tô apagando". Essas foram as últimas palavras ditas pelo autor ao sofrer seu derradeiro infarto, no dia 29 de setembro de 1968. Dessa ele não escapou para tristeza (literalmente) nossa.


Sérgio Porto, por ele mesmo, "Auto-retrato do artista quando não tão jovem"



ATIVIDADE PROFISSIONAL: Jornalista, radialista, televisista (o termo ainda não existe, mas a atividade dizem que sim), teatrólogo ora em recesso, humorista, publicista e bancário.

OUTRAS ATIVIDADES: Marido, pescador, colecionador de discos (só samba do bom e jazz tocado por negro, além de clássicos), ex-atleta, hoje cardíaco. Mania de limpar coisas tais como livros, discos, objetos de metal e cachimbos.

PRINCIPAIS MOTIVAÇÕES: Mulher.

QUALIDADES PARADOXAIS:Boêmio que adora ficar em casa, irreverente que revê o que escreve, humorista a sério.

PONTOS VULNERÁVEIS: Completa incapacidade para se deixar arrebatar por política. Jamais teve opinião formada sobre qualquer figurão da vida pública, quer nacional, quer estrangeira.

ÓDIOS INCONFESSOS: Puxa-saco, militar metido a machão, burro metido a sabido e, principalmente, racista.

PANACÉIAS CASEIRAS: Quando dói do umbigo para baixo: Elixir Paregórico. Do umbigo para cima: aspirina.

SUPERTIÇÕES INVENCÍVEIS: Nenhuma, a não ser em véspera de decisão de Copa do Mundo. Nessas ocasiões comparativamente qualquer pai-de-santo é um simples cético.

TENTAÇÕES IRRESISTÍVEIS: Passear na chuva, rir em horas impróprias, dizer ao ouvido de mulher besta que ela não tão boa quanto pensa.

MEDOS ABSURDOS: Qualquer inseto taludinho (de barata pra cima).

ORGULHO SECRETO:Faz ovo estrelado como Pelé faz gol. Aliás, é um bom cozinheiro no setor mais difícil da culinária: o trivial.



Assinado, Sérgio Porto, agosto de 1963.



Leia: http://www.releituras.com/spontepreta_bio.asp

Plínio Marcos


Plínio Marcos foi de tudo um pouco e maldito sempre. Personagem de si mesmo, retratou o submundo como ninguém. Falou de homossexualismo, marginalidade, prostituição e violência. Escrevia no osso, como se diz na gíria. Não livrou a cara de ninguém, nem de si mesmo. Era uma personalidade forte e difícil, não abria mão de suas idéias, do que realmente queria dizer. Pagou o preço.

Nasceu em Santos (SP) a 29 de setembro de 1935. Depois de tentar tornar-se jogador de futebol e de trabalhar como palhaço de circo por cinco anos, escreveu, aos 22 anos, sua primeira peça, "Barrela", a qual chegou às mãos de Patrícia Galvão (Pagú), que ficou entusiasmada ao lê-la.
Pelas mãos dela, integra uma companhia de teatro. O bichinho do palco entra no sangue para nunca mais sair.
Época difícil, os milicos na rua, censura a tudo e a todos e Plínio caindo de pára-quedas no meio desse momento histórico. Lógico que seria censurado. A coisa foi tão violenta que nessa época pensou em desistir de tudo.

Na década de 80, censura liberada, Plínio retoma seu lugar ao sol. Plínio novamente surpreendeu. Escreveu as peças "Jesus Homem" e "Madame Blavatsky" nas quais mostra um seu lado mais espiritualista. Em 1985, ganhou os prêmios Molière e Mambembe pela peça "Madame Blavatsky".

Entre suas melhores obras estão: "Barrela" (1958), "Dois Perdidos Numa Noite Suja" (1966), "Navalha na Carne" (1967), "Quando as Máquinas Param" (1972), "Madame Blavatsky" (1985).

Plínio era um homem de histórias, de causos, um grande prosador.
"Certa vez ele disse ao presidente Sarney que ambos eram imortais: Sarney por ser membro da ABL e ele por não ter onde cair morto".
Pois é, mas no dia 19 de novembro, esse herói da sobrevivência não resistiu e morreu em São Paulo (SP) a 19 de novembro de 1999 deixando-nos uma maldita lacuna.


Leia: http://www.estado.estadao.com.br/edicao/pano/99/11/19/ger891.html

T.S.Eliot
Histeria

"Enquanto ela ria eu percebia me envolver em sua risada e fazer parte dela, até que seus dentes eram apenas estrelas acidentais com um talento para cadência em conjunto. Eu era sugado por curtos arfejos, inspirado a cada recuperação momentânea, perdido finalmente nas negras cavernas de sua garganta, ferido pelas contrações de músculos invisíveis. Um idoso garçom de mãos trêmulas estava espalhando apressadamente uma toalha quadriculada rosa e branca sobre a mesa de ferro verde-enferrujado, dizendo: "Se a madame e o cavalheiro desejam tomar seu chá no jardim, se a madame e o cavalheiro desejam tomar seu chá no jardim..." Eu decidi que se o balançar de seus seios pudesse ser interrompido, alguns dos fragmentos da tarde poderiam ser recolhidos, e eu concentrei minha atenção com cuidadosa sutileza para esse fim."
T.S.Eliot




Thomas Stearns Eliot nasceu em St. Louis, Missouri, Estados Unidos, a 26 de setembro de 1888, e faleceu em Londres, com 76 anos de idade, a 4 de janeiro de 1965. Os Eliots eram descendentes de emigrantes ingleses.
Seu dedicava-se aos interesses industriais da família. Sua Henry Ware Eliot e Charlotte Chauncey Stearns, pais do poeta, casaram-se em 1868. Henry Ware diplomou-se pela Universidade de Washington, mas acabou por dedicar quase toda a sua vida aos interesses industriais da família, tendo chegado inclusive à presidência da Hydraulic Press Brick Company of St. Louis. A mãe, de rica família pertencente à aristocracia mercantil de Boston, era mulher intelectualmente dotada, possuidora de boa cultura humanística e de algum pendor literário.
Sua primeira influência literária, com certeza foi ela. T.S.Eliot tornou-se crítico, ensaísta e dramaturgo sendo um fenômeno de permanência literária da nossa época.
Sua vida no entanto esteve longe de ser um mar de rosas.
Eliot casou-se com Vivien que sofria de nevralgia, cólicas menstruais, desmaios, subnutrição, "catarro dos intestinos", gripe séptica, paralisia, histeria, ataques de pânico, paranóia, obsessão que a obrigava a lavar as mãos constantemente e também era maníaco-depressiva. Ela desgraçou a vida de Eliot tanto quanto ele a dela. Tranqüilizantes, principalmente morfina e éter, parecem ter prejudicado em vez de ajudar.

Vivien tornou-se uma esposa possessiva. Ela gostava de embaraçar Eliot diante dos amigos e o incentivava a se afastar de muitos deles. Conrad Aiken conta que jantou certa vez com o casal. Vivien parecia um espantalho "trêmulo e hesitante", que trocava farpas cheias de ódio com o marido.
Certa vez, Edith Sitwell encontrou-a por acaso na rua. Vivien respondeu ao seu cumprimento dizendo-lhe: "Não, não, você me confundiu novamente com aquela mulher terrível que se parece tanto comigo e que sempre me mete em confusão." Ela disse a Virginia Woolf que guardava vespões debaixo da cama e a acusou de ter um caso com Eliot. Corriam rumores que andava com uma faca na bolsa.

Foi o grande inferno de sua vida. Inspiradora fase ruim. Sua peça, "A Reunião de Família" conta a história de um lorde inglês impelido pelas fúrias modernas a expiar a trágica morte da mulher é o que mais chega perto de uma obra-prima.
De certa maneira, Eliot exorcizava sua relação trágica com a esposa.
Mais tarde quando Eliot soube que ela morrera internada em 1947, pôs a cabeça entre as mãos e gritou: "Ó, Deus! Ó, Deus!"

Nos anos 20 e 30, Eliot foi de fato um "pedante insuportável", uma figura distante, intelectualmente arrogante, consumido pela culpa decorrente da aversão que sentia por sua mulher intolerável. Talvez, essa fosse sua defesa e única maneira de não sucumbir à loucura.
Ainda assim, o poeta alcançou alguma felicidade ao lado da segunda e última esposa, responsável, segundo alguns biógrafos pela suavização da obra dele em seus últimos anos de vida.


"A poesia não é uma liberação da emoção, mas uma fuga da emoção; não é a expressão da personalidade, mas uma fuga da personalidade. Naturalmente, porém, apenas aqueles que têm personalidade e emoções sabe o que significa querer escapar dessas coisas."

T.S.Eliot



Leia: http://www.opoema.libnet.com.br/tseliot/tseliot_db.htm


Neruda



"Nasci no começo do século, no centro do Chile. Mas, ainda bebê meus pais me levaram para o extremo sul do país, para Temuco. Era, na época, uma aldeiazinha. ... Temuco é minha paisagem, o essencial de minha poesia." E como se define o "essencial" na poesia de Ricardo Eliecer Naftali Reyes y Basoalto, ou seja, Pablo Neruda? Ele mesmo responde:
"É descrever o que se sente verdadeiramente, a cada instante da existência. Não acredito num sistema poético, numa organização poética. Irei mais longe: não creio nas escolas, nem no Simbolismo, nem no Realismo, nem no Surrealismo. Sou absolutamente desligado dos rótulos que se colocam nos produtos. Gosto dos produtos, não dos rótulos".

Um poeta como Pablo Neruda não se enquadra em rótulos, definições, escolas literárias, características de qualquer espécie. Ele era poeta, vocês sabem, aqueles que estão em castas superiores. Aqueles que dão cor as palavras, que levam som ao silêncio que transformam cinza em prata. Neruda foi um deles, era natural que não gostasse de rótulos.



"Foi tão belo viver enquanto vivias!
O mundo é mais azul
E mais terrestre de noite
Quando durmo
Enorme, dentro de tuas breves mãos"

Pablo Neruda



Um poeta que procurou dar "ao homem o que é do homem: sonho, amor, luz e noite, razão e paixão". Versou guerra, saudade, solidão, seu país, o mar e sobretudo ou em tudo, amor.
Em Neruda vida e poesia se coadunam e se entrelaçam ultrapassando os limites da própria inspiração poética e há de tudo em pouco: desde os versos amorosos da juventude em "Veinte Poemas de Amor", à maturidade tenra, sensual, melancólica e apaixonante de "Los Versos del Capitan" (1952), à imersa depressão do autor em solidão, num mundo de subterrânea escuridão e forças demoníacas de "Residência en La Tierra" (1925-31), até à poesia épica melhor representada em "Canto General" (1950), onde tenta reinterpretar o passado e o presente da América Latina, a luta de seu povo oprimido e subjugado nos seus ideais de libertação. Por sua inspiração político-social e por seu amor a seu povo, Neruda era frequentemente referido como "o poeta da humanidade escravizada".


Antes de amar-te...


Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.



Pablo Neruda




A voz do poeta, Pablo Neruda, calou-se com sua morte no dia 23 de Setembro de 73, na Isla Negra , vítima de ataque cardíaco. Morre um regime e morre um grande poeta. Havia uma grande desolação na alma do povo chileno, tanto para os que ficaram oprimidos no país, quanto para os que se exilaram. Na verdade a leucemia já o havia debilitado sensivelmente, mas o coração do poeta se enfraquecera ainda mais ante ao que seus olhos viram ocorrendo no Chile que ele amou profundamente. Uma narrativa popular acerca de sua morte conta-nos que os militares foram culpados de negligência, por retardarem o envio de uma ambulância à isolada residência do poeta, com efeito deixando-o padecer até à morte sem assistência, numa evidência de que Neruda fora de fato um seu inimigo.



Leia: http://www.suigeneris.pro.br/cangerpn.htm
http://www.rabisco.com.br/08/neruda.htm



"Esteja descansado, pois, se alguém aqui lhe tocar um dedo, três dias e três noites não chegariam para enterrar seus mortos!"

Com essas palavras, Zé do Telhado, outro preso, assegurava a vida de Camilo que temia ser assassinado... Que Camilo? Camilo Castelo Branco, of course! Mas vamos mudar o rumo dessa prosa e começar do começo: a história de Ana Plácido e Camilo Castelo Branco, esse amor de perdição e salvação, como escreveu o autor português.



O ano era 1856, Ana Plácido, uma mulher casada se apaixona por Camilo Castelo Branco. Essa paixão plenamente correspondida os levaria para cadeia por um longo tempo. Naquela época, adultério era crime grave e quando envolvia um escritor de renome, virava um escândalo dentro da sociedade.
Ana era casada com um brasileiro Pinheiro Alves quando conheceu Camilo. Consta que Manuel Plácido, filho de Ana e - legalmente - do capitalista, tenha Camilo como progenitor. Manuel Plácido nasceu em 1858, altura em que Ana Plácido afirmava ao marido amar Camilo e ser este o único homem capaz de fazê-la feliz. Desesperado com a insistência de Ana em permanecer na companhia do amante, Pinheiro Alves instaurou um processo de adultério em 1860.
Em 1861, os amantes são presos por adultério. Ana é presa primeiro e Camilo se entrega logo em seguida. Amor de Perdição é escrito na cadeia em duas semanas e publicado no ano seguinte. O livro, sua obra mais conhecida, conta uma paixão que leva o protagonista ao crime e ao exílio. A própria Ana, influenciada por Camilo, começaria a escrever. Colaborou em diversas publicações, fez traduções, ajudou Camilo em alguns textos e dedicou-se, também, à poesia.
Os dois são absolvidos pelo juiz, curiosamente, pai de outra grande figura das letras, Eça de Queirós.
Mas, infelizmente essa história não tem um final feliz. O casal ainda teria dois filhos, ambos problemáticos. A perda progressiva da visão, problemas financeiros e os filhos, acabariam por deixar Camilo totalmente sem esperanças de melhora e apesar do grande sucesso que obteve como escritor acabaria cometendo o suicídio.
A poeta Ana Plácido morreria em 20/09/1895.

E o Zé do Telhado? Ah! Essa é outra história...


Leia: http://www.citi.pt/cultura/literatura/romance/c_castelo_branco/m_fatal.html
http://www.ipn.pt/literatura/camilo.htm


* Sobre o Gabriel, leia aqui.

The Wonder Years


"Growing up happens in a heartbeat. One day you're in diapers, the next day you're gone. But the memories of childhood stay with you for the long haul. I remember a place... a town... a house like a lot of other houses… a yard like a lot of other yards… on a street like a lot of other streets. And the thing is… after all these years, I still look back… with WONDER."

Tradução livre:

"Crescer acontece num piscar de olhos. Um dia você está de fraldas, no outro você já se foi. Mas as lembranças da infância ficam com você a longo prazo. Me lembro de um lugar... uma cidade... uma casa como muitas outras casas... um quintal como muitos outros quintais... numa rua como muitas outras ruas. E o negócio é que... depois de todos esses anos, eu ainda olho pra trás... maravilhado."


De alguma maneira esse texto que é sempre dito no seriado "Wonder Years, me veio a cabeça hoje.
Para quem não conhece a história desse seriado, aconselho que assista às 18:00 e pouquinho, de segunda à sexta, no Multishow. É apaixonante. De forma simples, direta e muito reflexiva, oculto por sua voz, o adulto, Kevin Arnold vai narrando os Anos Incríveis de sua infância e pré-adolescencia. O primeiro amor, as amizades, suas descobertas e sobretudo o que ficou nele pelo resto de sua vida. A cada episódio o fechamento é sempre comovente, é essa a palavra, comovente. A inocência dos Anos Incríveis que todos nós tivemos.

Hoje de forma especial relembrei esses anos que fizeram parte da minha vida. Eu e a Jack, minha melhor amiga, nossas experiências, nossas diferenças, ela tão pé no chão, pronta para comprar uma briga, eu tão sensível, a adolescente mais nova que ela que gostava "daqueles filmes estranhos", sempre algum clássico, "muito entediante" segundo ela que adorava um bom Jean-Claude Van Damme, que entrava e revolvia a parada. Se para ela tudo era preto ou branco, para mim as nuances das entrelinhas eram tão mais claras. A vida seguiu, crescemos e fomos Thelmas e Louises, cada uma a seu modo, os caras errados na hora certa, a hora errada para os caras certos. O que me faltava em força era dela que recebia, o que lhe faltava em sensibilidade, em subjetividade, era de mim que ela tirava.
Era assim, nós duas contra o mundo, uma amizade que percorreu metade das nossas vidas, perdemos nossos pais, primeiro eu, depois ela exatamente um ano depois. Choramos muito e rimos outro tanto. Ela tão explícita, eu tão implícita. Ela capaz de dizer no ato o que sentia, eu com um nó gigante procurando as palavras, as mãos, um jeito de dizer e sempre nunca na hora. Ela sabia. Era só olhar que ela sabia o que se passava. E bastava um momento e ela já estava me perguntando se determinada blusa lhe caia bem e eu olhava ainda do momento anterior, sem saber o que dizer, quando ainda tinha o que falar. Mas era sempre assim.
Hoje ela me ligou, disse que estava grávida e chorei tanto, tanto. Ela desejava muito, mesmo vivendo um momento difícil, ela queria muito. Chorei pela continuidade dela aqui na terra, pela sorte que as gerações futuras terão com essa criança, pelo que enxergarei da Jack nela, pelo que vai ficar perambulando pelos caminhos que conhecemos tão bem, por tudo que sei que vai viver, pelo o que a Jack não vai conseguir entender na sua lógica "vandammiana" e eu certamente falando de Freud e Piaget e eu sei que os meus anos incríveis terão continuidade e serão os melhores anos do resto da minha vida.


Oh, I get by with a little help from my friends
with a little help from my friends


Artist: Beatles - Joe Cocker - Song: With a Little Help of My Friends

andrea augusto©angelblue83

dia 29/01/03- a Jack me disse que esta grávida.





A repetição desse post é pra justificar a minha ausência e retribuir o carinho nos comentários e dos emails.
Essa irmã, que é uma amiga por um simples engano divino, vai ter bebê na sexta-feira, 19/09. Infelizmente, o marido adoeceu e eu me mudei para a casa dela pra "pagiar" como se diz em Minas. Tô cuidando dela e do Gabriel até que chegue o grande dia. Lá não tem internet, por isso ando meio ilhada. Mas tudo bem, é por um bom motivo. Na outra semana, acredito que tudo se normalize e eu poderei voltar a postar e a visitá-los. Certamente estarei mais rica com a presença do Gabriel por aqui.

bjus blues
angel.



"Amar é mudar a alma de casa."
Mário Quintana




No passeio pelo ideal amoroso na literatura encontramos em Roland Barthes, já citado antes, uma boa definição do que nos causa uma ausência ou o que fazemos com essa situação inevitável:

"Devo infinitamente ao ausente o discurso da sua ausência; situação com efeito extraordinário; o outro está ausente como referente, presente como alocutário. Desta singular distorção nasce uma espécie de presente insustentável; estou bloqueado entre dois tempos, o tempo da referência e o tempo da alocução; você partiu (disso me queixo), você está aí (pois me dirijo a você). Sei então o que é o presente, esse tempo difícil: um simples pedaço de angustia. A ausência dura, preciso suportá-la. Vou então manipulá-la: transformar a distorção do tempo em vaivém, produzir ritmo, abrir o palco da linguagem (a linguagem nasce da ausência: a criança faz um carretel, que ela lança e retoma, simulando a partida e a volta da mãe: está criado um paradigma). A ausência se torna uma prática ativa, um afã (que me impede de fazer qualquer outra coisa); cria-se uma ficção de múltiplos papéis (dúvidas, reprovações, desejos, depressões). Essa encenação lingüística afasta a morte do outro: diz-se que um pequeno instante separa o tempo em que a criança ainda acredita que a mãe está ausente daquele em que acredita que ela já está morta. Manipular a ausência, é alongar esse momento, retardar tanto quanto possível o instante em que o outro poderia oscilar secamente da ausência à morte."

Roland Barthes



E a ausência se transmuta em solidão, não há um caminho e nada ao redor chama atenção que não seja um vazio, essa imensidão de estar só no mundo.
Diria Nietzsche sobre a sua solidão. Solidão de doente, encarcerado dentro de si, cego pela dor de cabeça que muitas vezes duravam dias. Dias plenas de solidão e dor.

"Ó solidão! Solidão, meu lar!... Tua voz - ela me fala com ternura e felicidade! Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas. Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.
Ali as palavras e os tempos
poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar."


O desabitar constante de si, de seu corpo, da própria consciência sempre tão representativa do perder-se de amor encontra eco nos versos dos poetas de todos os tempos. O que move o poeta a dar voz àqueles que sofrem de amor, é toda dor que sente, ainda que não esteja amando, mas traz em si o estofo necessário de dores milenares.



Aqui está minha vida - esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.
Aqui está minha voz - esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.
Aqui está minha dor - este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança - este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.

Cecília Meireles




Talvez o poeta mais representativo dessa solidão intrínseca, ainda que nem sempre de fundo amoroso, seja Rilke. Ele, como ninguém dissemina ao longo da sua poesia todo o estado de solidão em que viveu. Era de fato seu combustível. Nele, a solidão encontrava-se em estado puro.


(...)

"Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. Que sentido teria, com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente? O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser; é uma grande exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe."


a solidão é como chuva.

sobe do mar nas tardes em declínio
das planícies perdidas na saudade
ela se eleva ao céu, que é seu domínio
para cair do céu sobre a cidade

goteja na hora dúbia quando os becos
anseiam longamente pela aurora
quando os amantes se abandonam tristes
com a desilusão que a carne chora
quando os homens, seus ódios sufocando,
num mesmo leito vão deitar-se: é quando

a solidão com os rios vão passando

rilke




O diálogo amoroso em versos foi visualizado por Paulo Mendes Campos, quando em uma das suas crônicas reuniu dois grandes escritores brasileiros: Cecília Meireles e Emílio Moura, dos maiores líricos da língua. A composição respeitou a integridade dos versos dos dois poetas, sendo utilizada a Obra Poética de Cecília Meireles e o Itinerário Poético de Emílio Moura. As afinidades do lirismo de ambos emprestam ao diálogo unidade e espontaneidade. Fiz questão de transcrever pela beleza e forma como foi feito.


Ele e Ela


ELE: Por que não te conheci menina?
ELA: Fui morena e magrinha como qualquer polinésia, e comia mamão, e mirava a flor da goiaba. E as lagartixas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras...
ELE: Por que não te conheci quando ias ao colégio?
ELA: Conservo-te o meu sorriso para, quando me encontrares, ver que ainda tenho ares de aluna do paraíso.
ELE: Teu sorriso é tão puro que te ilumina toda.
ELA: Quero apenas parecer bela.
ELE: Nunca te entendo, tantas te vejo. Qual a que vive, qual a que inventas?
ELA: A vida só é possível reinventada.
ELE: E a vida o que é?
ELA: Ando à procura de espaço para o desenho da vida. Saudosa do que não faço, do que faço arrependida.
ELE: De repente, tudo se torna tão irreal que te sinto invisível.
ELA: Digo-te que podes ficar de olhos fechados sobre o meu peito, porque uma ondulação maternal de onda eterna te levará na direção do mundo.
ELE: Tudo em ti é viagem.Viagem até mesmo ao redor de tua inacreditável imobilidade.
ELA: Até sem barco navega quem para o mar foi fadada.
ELE: Eis a nossa fraqueza: essa necessidade de compreender e de sermos compreendidos, essa febre de ser, esse espanto...
ELA: Agora compreendo o sentido e a ressonância que também trazes de tão longe em tua voz.
ELE: Eu queria que me pertencesses como a cor à luz, como a poesia ao poeta.
ELA: Tenho fases como a Lua. Fases de andar escondida, fases de vir para a rua...Perdição da minha vida! Perdição da minha vida! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha.
ELE: Tenho medo de mim, de ti, de tudo...Cada gesto que fazes é uma aventura nova que se inicia.
ELA:Nunca eu tivera querido dizer palavra tão louca...
ELE: Quero-te muito. É como recriar uma rosa.
ELA: Sou como todas as coisas: e durmo e acordo em tua cabeça, com o andar do dia e da noite, o abrir e o fechar das portas.
ELE: Sonho.És sonho.É tarde, é cedo ?
ELA:Quero um dia pra chorar. Mas a vida vai tão depressa!
ELE:Ah! ser contraditório, dividido, disperso !
ELA: Somos um ou dois? Às vezes, nenhum. E em seguida, tantos.
ELE: Vieste do Cântico dos Cânticos: " Os teus cabelos são como um rebanho de cabras ..."
ELA: Já fui loura, morena, já fui Margarida e Beatriz. Já fui Maria e Madalena. Só não pude ser como quis.
ELE: Sonho que surges diante de mim como quem desce do Líbano.
ELA: Serás o Rei Salomão? Por isso, meu corpo vão brotando em mornos canteiros, incenso, mirra, e a canção.
ELE: Fabrico uma esperança como quem apaga algo sujo num muro e ali, rápido, escreve: Futuro.
ELA: Uma palavra caída da montanha dos instantes desmancha todos os mares e une terras mais distantes.
ELE: É sonho o sonho ?
ELA: Nunca existiu sonho puro, tão puro como o da minha timidez.
ELE: Na verdade, eu já te esperava desde o princípio.
ELA: O mar imóvel dos teus olhos...
ELE: És linda como a manhã que nasce. Que amor o meu! Olha, até parece que somos eternos, livres e eternos.
ELA: Tu és como o rosto das rosas, diferente em cada pétala.
ELE: E a rosa, a rosa o que será?
ELA: A surda e silenciosa, e cega e bela e interminável rosa.
ELE: Quanto mais nos falamos, mais sinto necessidade de ti. Que nos ficou de tudo o que não fomos?
ELA: Nada sei. De nada. Contemplo.
ELE: Estou diante de ti. Nu e silencioso. Por que não prevaleces deste instante e não me revelas quem sou ?
ELA: AH! Se eu nem quem sou...
ELE: Para onde vão teus caminhos? De onde vêm eles?
ELA: Primeiro, foram os verdes e as águas e pedras da tarde, e maus sonhos de encontrar-te. Mas depois houve caminhos pelas florestas lunares, e, mortos em meus ouvidos mares brancos de palavras. E eram flores encarnadas, por cima das folhas verdes. (E entre os espinhos de prata, só meus sonhos de perde-te...)
ELE: Aqui estou, tímido e humilde.
ELA: Pois aqui estou, cantando.
ELE: Agora que estou diante de ti, já não me pertenço.
ELA: Nossas perguntas e respostas se reconhecem como olhos dentro dos espelhos. Olhos que choraram.
ELE: Tua presença me invade como a revelação do irreal.
ELA: Conversamos dos dois extremos da noite,como praias opostas.
ELE: Diante de meus olhos matinais, as coisas se ordenam simples e perfeitas: o céu, o mar, teu corpo. Ah!, o teu corpo!
ELA: Por mais que me procure, antes de tudo ser feito, eu era amor.
ELE: Que tudo o mais está perdido...


The End
"Nós sempre teremos Paris".

Teremos Paris, a serra, aquela música que teima em tocar, um cheiro ou um entardecer. Ou pior, quando tudo isso já passou e o coração ficou ali, impermeável, sem contato manual, a espera...do que?




Leminski

Meu coração lá de longe
faz sinal que vai voltar
mas meu peito escreve em bronze
não há vaga nem lugar
para que serve um negócio
que não pára de bater
até parece um relógio
que acabou de enlouquecer
pra que serve quem chora
quando estou tão bem assim
o vazio vai lá fora
cai macio dentro de mim?


De tudo que ainda não se teve. Do novo, do inusitado, do encaixe perfeito, ainda que a imperfeição seja cotidiana.
Chopin foi feliz ao escrever sobre essa impossibilidade:

"A única infelicidade consiste nisso, saímos da oficina de um Mestre célebre de algum stradivarius sui generis, que não existe mais para nos consertar. Mãos inábeis não sabem tirar de nós novos sons, então, por falta de um alaudeiro, recalcamos no fundo de nós mesmos o que ninguém nos sabe arrancar".

Chopin.


Passeando pela literatura, pelos poemas, poetas e textos, o tema se torna recorrente.
Amor, desencontro e solidão...







"Como se chama esse sujeito que insiste num erro, ao contrário de todos e contra todos, como se tivesse diante dele a eternidade para se enganar? Chama-se um relapso. Seja de um amor ao outro ou no interior de um mesmo amor, não paro de recair numa doutrina interior que ninguém divide comigo. ... Paradoxo difícil: todo mundo me ouve, mas só me escutam os sujeitos que têm exatamente e presentemente a mesma linguagem que eu. Os enamorados, diz Alcebíades, se parecem com aqueles que foram mordidos por uma cobra: Diz-se que eles não querem falar do que lhes aconteceu com ninguém, a não ser com aqueles que também foram vítimas da mesma coisa, como se fossem os únicos aptos a conceber e desculpar tudo que eles ousaram dizer e fazer durante a crise das suas dores. Pequeno grupo dos Mortos de Fome, dos suicidas de amor aos quais nenhuma grande linguagem (a não ser, fragmentariamente, a do Romance passado) emprestou sua voz."
"Fragmentos de um Discurso Amoroso", de Roland Barthes

Barthes nos mostra que o discurso amoroso é hoje em dia de uma extrema solidão.
"Este discurso é talvez falado por milhares de pessoas, mas não é defendido por ninguém." segundo ele.
A verdade situa-se num ponto de solidão infinita, sem retorno, ou avançamos ou perecemos. Assim, sem saída somos empurrados de encontro ao outro que nem sempre nos espera. E desespera saber que estar pronto não é suficiente, é preciso ser acolhido.


dos diários

é sobre essa solidão singular que a vida se estende em sombras,
sobras sempre espalhadas pelo caminho
é dessa impossibilidade recorrente de ter a frente um futuro branco,
um tempo limite e dormente.
é na incongruência latente da vida que procuro a redenção
num ponto de tangência
e o porvir em algum lugar que não estou, passará com urgência
antes mesmo que a noite vire dia.

andrea augusto©angelblue83


A diferença se destaca na vontade que se manifesta. No livro, "A insustentável leveza do ser" tudo fica claro quando se lê:

"...deitar com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não somente diferentes mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma série inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (este desejo diz respeito a uma só mulher)."





"E nós, Rick?". E ele responde do alto de sua integridade:
"Nós sempre teremos Paris".