Charles Baudelaire
Nascido a 9 de abril de 1821 em Paris, Charles Baudelaire ficaria órfão de pai muito cedo. A mãe voltaria a casar-se com um militar, o comandante Aupick. A ausência do pai e o ressentimento contra a mãe causariam em Baudelaire um sentimento de carência afetiva que o perseguiria durante toda a sua vida. A relação difícil com o padrasto, para não dizer impossível afastaria o poeta de casa em sucessivas viagens.
Baudelaire viveu uma vida boêmia, travou conhecimentos e fez amizade com as grandes cabeças pensantes da época. Levou uma vida depravada e foi acabando rapidamente com o patrimônio da família. Nada que uma declaração de incapacidade não resolvesse, foi assim que os familiares resolveram o problema: no tribunal. Baudelaire foi considerado incapaz e colocado sob a tutela de um curador.

Uma tentativa frustrada de suicídio o reaproximaria da família por pouco tempo. Logo o poeta se envolveria com várias mulheres, de atrizes a prostitutas. Paralelamente foi construindo sua obra.
Em 1857 publica uma série de 18 poesias. Mas 1857 é o ano mais importante da produção literária de Baudelaire, no dia 25 de junho são publicadas Lês Fleurs du Mal que é logo violentamente atacado por Lê Figaro, o livro é recolhido poucos dias depois sob acusação de obscenidade e é condenado a um multa de 300 francos (reduzidos depois para 50) e o editor a uma multa de 100 francos e, mais grave, seis poemas devem ser suprimidos da publicação, condição sem a qual a obra não poderá voltar a circular.


A Solidão

Diz-me um jornalista filantropo que a solidão é má
Para o homem; e, em abono de sua tese, cita, como todos
Os incrédulos, palavras dos Padres da Igreja.
Eu sei que o Demônio é dado a freqüentar os sítios
Áridos, e que o espírito do homicídio e da lubricidade se
Inflama prodigiosamente nos ermos.Mas talvez esta solidão
Só fôsse um perigo para a alma ociosa e divagadora que a
Povoa de suas paixões e de suas quimeras.
Certo é que um tagarela, cujo supremo prazer consiste
Em falar do alto de uma cátedra ou de uma tribuna, se
Arriscaria muito a tornar-se louco furioso na ilha de
Robinson.Não exijo do meu jornalista as corajosas virtudes
De Crusoe, mas peço-lhe que não incrimine os amantes da
Solidão e do mistério.
Há em nossas raças palradoras indivíduos que aceitariam
Com menor repugnância o suplício máximo, se lhes fôsse
Permitido fazer do alto do cadafalso uma copiosa arenga,
Sem temer que os tambores de Santerre lhes cortassem
Intempestivamente a palavra.
Não os lastimo, porque adivinho que as suas efusões
Oratórias lhes proporcionam volúpias iguais àquelas que
Outros encontram no silêncio e no recolhimento; porém os
Desprezo.
Desejo, antes de tudo, que o maldito jornalista me deixe
Divertir-me a meu gôsto.
-Então o senhor não sente nunca - perguntou-me,
Com um tom nasal muito apostólico - a necessidade de
Compartir os seus prazeres?
Vejam lá o sutil invejoso! Êle sabe que eu desdenho os
Seus, e vem insinuar-se nos meus, o horrível desmancha-
Prazeres!
"A grande desgraça de não poder estar só!..."- diz
Algures La Bruyère, como para envergonhar os que
Procuram esquecer-se na multidão, temendo, sem dúvida, não se
Poderem suportar a si mesmos.
"Quase tôdas as nossas desgraças nos advêm de não
Têrmos sabido ficar em nosso quarto" - diz outro sábio,
Creio que Pascal, lembrando assim, na célula do recolhimento,
Todos os insensatos que buscam a felicidade no
Movimento e numa prostituição a que eu poderia chamar
Fraternitária, se quisesse falar a bela língua do meu século.

Charles Baudelaire
Tradução de Aurélio Buarque de Holanda

Em vida, Baudelaire causou mais espanto que admiração, mas a maior decepção viria de seus compatriotas ao ver repudiada a sua candidatura a Academia. Diante das reações negativas retira a candidatura e vai para Bélgica. Doente e só, reaproxima-se da mãe, agora viúva e é nos braços dela que morre no dia 31 de agosto de 1867, após longa agonia, com apenas 46 anos.


Leia: http://www.noxinvitro.com/carus/sonus/?author=7





dos diários

Todos os dias tenho saudades. Nos dias de chuva, os pingos agravam, dilatam o estado de saudade.
"saudade é do rio a outra margem / mudança de estação / estiagem..." escrevi há tanto tempo e foi ontem, é hoje sempre. Essa melancolia de rua fracamente iluminada. Fim de noite em outro tempo qualquer.
Lá fora é a chuva fina na janela embaçada, aqui dentro a tentativa de sol todos os dias sempre e pontualmente falha. A chuva continua a cair a despeito das tentativas. Uma ausência avoluma-se a ponto de preencher o ambiente. Sempre foi assim, passas do estado fluídico para ausência presente. Quando olho para trás o passado não se transforma em estátua de sal, há nele os mesmos sons e cheiros, inocência de que a vida é para sempre e o amor eternizado naquele azul dos teus olhos. Nesse momento não há lugar nenhum no mundo para ir, ainda que por vontade própria ou imprópria intervenção do destino.
Chove.




no way out

pelo olho giramundo
um buraco no escuro
transitam sombras

pende um corpo
parapeito imundo
de onde se jogou
da janela para o mundo.


andrea augusto©angelblue


Num anônimo quarto da cidade de Turim, no dia 27 de agosto de 1950, ele está sozinho. Passa suas últimas horas telefonando para conhecidos, ninguém vai vê-lo. Viveu só e assim morreu. Com uma forte dose de sonífero, suicida-se.


Cesare Pavese


Cesare Pavese nasce, em 1908, em Santo Stefano Belbo, nas Langhe, colinas que circundam Turim e que serão o pano de fundo de toda a sua obra literária. Estuda em Turim e termina o curso universitário com uma tese sobre a poesia de Walt Whitman.
Trabalha como tradutor, ofício que exerce com paixão. Seu contato com a literatura através das traduções contribuem para seu desenvolvimento poético. O sentimento trágico da vida, o contraste entre a infância e a vida adulta, a função do destino, o fascínio pelo Mito, são características de Pavese.


Virá a morte e terá os teus olhos

Virá a morte e terá os teus olhos
esta morte que nos acompanha
da manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra vã,
um grito emudecido, um silêncio.
Assim os vejo todas as manhãs
quando sobre ti te inclinas
ao espelho. Ó cara esperança,
nesse dia saberemos também nós,
que és a vida e és o nada.

Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como deixar um vício,
como ver no espelho
re-emergir um rosto morto,
como ouvir lábios cerrados.
Desceremos ao vórtice mudo.

(tradução de Jorge de Sena)



A vida de Pavese situa-se entre duas grandes guerras. Realidade brutal em que se vê confrontado. A solidão, a incompreensão e sobretudo o sentimento de estar deslocado no mundo entre perdas, desilusões e uma tristeza diante de momento histórico, do qual recusa-se a participar precipitam sua fuga e refúgio nas montanhas.

O sentimento da inutilidade da vida, a angústia do quotidiano, todo "o mal de viver" está profundamente presente na obra pavesiana.
Tudo se descobre através das recordações. O Passado determina o Presente e o Futuro. A única realidade que conta é aquela que precede a realidade, isto é a realidade mitológica, o Mito. Esta realidade é aquela da Infância, que é o ponto de partida de toda a posterior realidade humana. Todas as relações humanas se caracterizam pela falta de comunicação e pela constante infelicidade.

Segundo o poeta, os deuses riem porque conhecem o destino; já os homens, riem exatamente por desconhecê-lo. No confronto entre deuses e homens da pessimista interpretação pavesiana, talvez apenas a morte identifique a espécie humana.

"Esse cansaço e essa paz, depois dos clamores do destino, talvez sejam a única coisa que é de fato nossa."

Cesare Pavese.



Leia: http://insensatezz.no.sapo.pt/palavras/cpavese.htm
http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT535366-1661,00.html
Jorge Luis Borges
Limites

Há uma linha de Verlaine que tornarei a recordar,
Há uma rua próxima que está vedada a meus passos,
Há um espelho que me viu pela última vez,
Há uma porta que fechei até o fim do mundo.
Entre os livros da minha biblioteca (estou vendo-os)
Há algum que já nunca abrirei.
Este ano completarei cinqüenta anos;
A morte me desgasta, incessante.

Jorge Luis Borges





Sua primeira língua foi o inglês, só algum tempo depois o espanhol. Aos sete anos, inspirado nas leituras de Cervantes, escreveu seu primeiro conto: "La Visera Fatal". Quando tinha nove anos traduziu "O Príncipe Feliz" de Oscar Wilde, para o jornal "El País". Quem era o talentoso rapaz? O aniversariante de hoje: Jorge Luis Borges.



Borges nasceu em Buenos Aires, Argentina, numa manhã de 24 de agosto de 1899.
Em 1914, sua família partiria para a Suíça em busca de tratamento para o pai. O mesmo problema oftalmológico que atingiria o poeta mais tarde, deixaria seu pai cego. Foi ali que o escritor argentino manteve o primeiro contato com as letras de Schopenhauer, uma grande influência em sua formação.

No seu primeiro livro, o poeta tentava recuperar a Bueno Aires de sua infância, mas foi com suas histórias fantásticas, onde criava uma vida imaginária para nomes famosos, como Hitler, por exemplo, que o escritor se tornaria conhecido. Era o jeito Borges de escrever. Jeito que teve seguidores, como Garcia Márquez, mas nenhum superaria o mestre.

Entre livros e letras, Borges teve seus romances, naturalmente e cada um o marcaria de modo diferente.
O mais quente caso de amor do escritor argentino foi com Estela Canto, que depois lançou o livro de memórias "Borges à Contraluz". Moderna e liberada para a época, Estela encantou e assustou Borges. Ele conta em sua biografia que a pediu em casamento. "Eu aceitaria, Georgie", respondeu ela. "Mas não podemos casar sem antes dormir juntos." Borges ficou de cabelo em pé e desapareceu, era muito para ele. Em 1967, o escritor argentino casou com Elsa Astete. O casamento durou três anos e acabou com Borges fugindo de casa, sem coragem para discutir a separação. A segunda mulher foi a sua ex-aluna Maria Kodama. Borges casou-se com Maria dias antes de morrer, em 1986.


"Amamos o que não conhecemos, o já perdido./ O bairro que foi arredores./ Os antigos que não nos decepcionarão mais/ porque são mito e esplendor./ Os seis volumes de Schopenhauer que jamais terminamos de ler./ A saudade, não a leitura, da segunda parte do Quixote./ O Oriente que, na verdade, não existe para o afegão, o persa ou o tártaro./ Os mais velhos, com quem não conseguiríamos/ conversar durante um quarto de hora./ As mutantes formas da memória, que está feita do esquecido./ Os idiomas que mal deciframos./ Um ou outro verso latino ou saxão que não é mais do que um hábito./ Os amigos que não podem faltar porque já morreram./ O ilimitado nome de Shakespeare./ A mulher que está a nosso lado e que é tão diversa./ O xadrez e a álgebra, que não sei."

Poema: "O Nosso" - Borges


Borges - para quem a vida era "assombro contínuo, uma contínua bifurcação do labirinto" - foi um mestre do conto, ensaísta, tradutor e um poeta singular, daqueles que nascem para o ofício da escrita.
Ele nos deixaria no 14 de Junho de 1986 com oitenta e seis anos de idade.


Leia: http://zonanon.org/artes/pm_030315.html
http://www.geocities.com/marco_lx_pt/bgsbio.htm






Finalmente acabei! Apesar de estar com uma sensação de final de livro, quando acabamos a última página e sabemos o final de cada personagem. Quando fica aquele gosto agridoce, uma melancolia tímida de quem não vai mais conviver com aquelas pessoas, situações e momentos. Estranho, né? Estou feliz por ter entregue, por ter feito, acredito, do jeitinho que ela queria e triste pela saudade prévia que sinto.
Enfim, terminei o site da poeta Sara Fazib. Uma menina que adoro, uma poeta que é uma porrada de tão boa. De um talento para tão pouca idade, surpreendente. Foi uma honra fazer, uma felicidade conviver e estar lá entre eles, ainda que não mereça.

Visitem e gostem :)

bjo meu procês

angel

ps: Agora vou poder visitá-los, matar as saudades...pelo menos até o próximo livro, digo site!
Cora Coralina


(Poema Ressalva, extraído do livro Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais)



"Cora Coralina, quem é você?".
" - Sou mulher como outra qualquer. / Venho do século passado / e trago comigo todas as idades"...
"- Sou mais doceira e cozinheira / do que escritora, sendo a culinária / a mais nobre de todas as Artes: / objetiva, concreta, jamais abstrata / a que está ligada a vida e a saúde humana."



Cora Coralina, foi o nome escolhido por Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas para a poeta que vivia dentro dela. Nasceu em 20 de agosto de 1889 e faleceu em 10 de abril de 1985. Teve quatro filhos, 15 netos e 29 bisnetos. Renomada doceira, profissão que exerceu por mais de vinte anos, chegou a deixar um livro de receitas. Embora escrevesse desde os 14 anos, tinha 76 quando seu primeiro livro foi publicado e quase 90 anos quando sua obra chegou as mãos de Carlos Drummond de Andrade, responsável por sua apresentação no mercado.



...

"Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida – A vida mera das obscuras."


(fragmento do poema: Vive dentro de mim)


Carta de Drummond a Cora Coralina.

Rio de Janeiro, 7 de outubro de 1983.

Minha querida amiga Cora Coralina: Seu "VINTÉM DE COBRE" é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia ( ...). Não lhe escrevi antes, agradecendo a dádiva, porque andei malacafento e me submeti a uma cirurgia. Mas agora, já recuperado, estou em condições de dizer, com alegria justa: Obrigado , minha amiga! Obrigado, também, pelas lindas, tocantes palavras que escreveu para mim e que guardarei na memória do coração.

O beijo e o carinho do seu

Drummond.

Extarído de Textos e Contextos




Meu Epitáfio


Morta... serei árvore
serei tronco, serei fronde
e minhas raízes
enlaçadas às pedras de meu berço
são as cordas que brotam de uma lira

Enfeitei de folhas verdes
a pedra de meu túmulo
num simbolismo
de vida vegetal

Não morre aquele
que deixou na terra
a melodia de seu cântico
na música de seus versos.

Cora Coralina




Frequentou somente o curso primário e recebeu o título "Honoris Causa" pela Universidade Federal de Goiás de Doutora Feita pela vida.
Doutorada por seus olhos de poeta, pela sabedoria que vem da terra, sem grandes estudos e técnicas, simples como massa de pão, comovente como terra depois da chuva.

Quem era Cora? Uma poeta que fazia doces, uma doceira que escrevia, uma mulher que exercia seu ofício poético com as mãos, escrevendo ou não. Essa era Cora Coralina.



Leia: http://jbonline.terra.com.br/destaques/coracoralina/cora_2.html
http://jbonline.terra.com.br/destaques/coracoralina/cora_5.html


Carlos Drummond de Andrade




"Precisava de um amigo/ desses calados, distantes,/ que lêem verso de Horácio/ mas secretamente influem/ na vida, no amor, na carne/ Estou só, não tenho amigo/ E a essa hora tardia/ como procurar um amigo?" (A bruxa - trecho)


Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro - MG, em 31 de outubro de 1902. De uma família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por "insubordinação mental". Esse episódio marcou o poeta, mais pela injustiça, do que a expulsão em si.
Poeta modernista, Drummond fez parte da segunda geração desse movimento. Da terceira geração faria parte o grande poeta que perdemos ontem, Haroldo de Campos.



A POESIA

"Não lamento, na minha carreira intelectual, nada que tenha deixado de fazer. Não fiz muita coisa. Não fiz nada organizado. Não tive um projeto de vida literária. As coisas foram acontecendo ao sabor da inspiração e do acaso. Não houve nenhuma programação. Não tendo tido nenhuma ambição literária, fui mais poeta pelo desejo e pela necessidade de exprimir sensações e emoções que me perturbavam o espírito e me causavam angústia. Fiz da minha poesia um sofá de analista. É esta a minha definição do meu fazer poético. Não tive a pretensão de ganhar prêmios ou de brilhar pela poesia ou de me comparar com meus colegas poetas. Pelo contrário. Sempre admirei muito os poetas que se afinavam comigo. Mas jamais tive a tentação de me incluir entre eles como um dos tais famosos. Não tive nada a me lamentar. Também não tenho nada do que me gabar. De maneira nenhuma. Minha poesia é cheia de imperfeições. Se eu fosse crítico, apontaria muitos defeitos. Não vou apontar. Deixo para os outros. Minha obra é pública.
"Mas eu acho que chega. Não quero inundar o mundo com minha poesia. Seria uma pretensão exagerada".

"Não serei o poeta de um mundo caduco/ Também não cantarei o mundo futuro/ Estou preso à vida e olho meus companheiros/ Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças" (Mãos dadas - trecho)



Drummond lançou vários livros, suas obras foram traduzidas para o espanhol, inglês, francês, italiano, alemão, sueco, tcheco e outras línguas. Foi seguramente, por muitas décadas, o poeta mais influente da literatura brasileira em seu tempo, tendo também publicado diversos livros em prosa.
Levou uma vida discreta e sossegada. E quando o fim chegou 17 dias depois de sua filha, Maria Julieta Drummond de Andrade, descobriu-se um poeta capaz de escrever versos sensuais, uma amante de longa data e a possibilidade de suicídio. Se ele se matou ou não, nunca saberemos, talvez tenha se deixado morrer discretamente como viveu. O poeta nos deixou no dia 17 de agosto de 1987.


A língua girava no céu da boca.


A língua girava no céu da boca. Girava! Eram duas bocas, no céu único.

O sexo desprendera-se de sua fundação, errante imprimia-nos seus traços de cobre. Eu, ela, elaeu.

Os dois nos movíamos possuídos, trespassados, eleu. A posse não resultava de ação e doação, nem nos somava. Consumia-nos em piscina de aniquilamento. Soltos, fálus e vulva no espaço cristalino, vulva e fálus em fogo, em núpcia, emancipados de nós.

A custo nossos corpos, içados do gelatinoso jazigo, se restituíram à consciência. O sexo reintegrou-se. A vida repontou: a vida menor.


Extraído do livro "O amor natural", Editora Record - Rio de Janeiro, 1992, pág. 29.




Leia: memória viva
http://www.releituras.com/drummond_bio.asp
"- Se eu pudesse dormir, Sr. Doutor, se eu pudesse dormir, que felicidade!
- Sossega que vais dormir, rapariga...
- Então que ninguém me acorde, minha Mãe... Que ninguém me acorde...
E ninguém mais a acordou."
Miguel Torga



"É da brevidade com que usa as palavras como as diz o homem do campo que Torga retira a sua grandeza. E é a olhar para dentro de si mesmo e dos outros que ele compõe as suas melhores páginas."
Miguel Torga, poeta que eu adoro, era o pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha.
Nasceu em 1907 em S. Martinho de Anta, conselho de Sabrosa, Trás-os-Montes. Veio para o Brasil e ficou até 1925 quando regressou a Coimbra onde se formou em Medicina.

Resignação

Como todas as mulheres da montanha, que no meio do gosto do amor enviuvam com os homens vivos do outro lado do mar, também ela teria de sofrer a mesma separação expiatória, a pagar os juros da passagem anos a fio, numa esperança continuamente renovada e desiludida na loja da Purificação, que distribuía o correio com a inconsciente arbitrariedade dum jogador a repartir as cartas dum baralho.
-O teu homem tem-te escrito, Maria? - perguntava o prior de Páscoa a Páscoa.
-Ele não, senhor. Há quinze anos...
Não acrescentava a mínima queixa à resposta. Fiel ao amor jurado, deixava que todos os encantos lhe mirrassem no corpo, numa resignação digna e discreta. Com o filho sempre agarrado às saias, como um permanente sinal de que já pagara à vida o seu tributo de mulher, mourejava de sol a sol para manter as courelas fofas e gordas. Depositária do pobre património do casal, queria conservá-lo intacto e granjeado. Se o outro parceiro desertara, mais uma razão para se manter firme e corajosa ao leme do pequeno barco.
-Nada, Maria? - O prior já nem se atrevia a alargar a pergunta.
-Nada.
Respondia sem revolta ou renúncia na voz. Objectivava a situação, lealmente. O que sentia por dentro era o segredo da sua serenidade.

Miguel Torga - Contos da Montanha (1941)



A vida no Brasil não lhe foi suave, uma tia rude no trato com o menino sensível o marcaria por longo tempo. No entanto, anos depois ao voltar, descobriu emocionado que trazia o Brasil tatuado na alma e a reconciliação que se dera no plano da saudade ao escrever sobre sua adolescência: "Foi um fermentar que nunca mais acabou em mim, porque se deu no meu corpo dos ossos ao coração. Nada que se possa dizer em palavras, porque não tem expressão condigna a quentura deste lume que recebi de uma terra incendiada de vida, de força e de liberdade", confirmava-se naquela visita a antiga fazenda em Minas Gerais.


Apelo

Porque não vens agora, que te quero,
E adias esta urgência?
Prometes-me o futuro, e eu desespero.
O futuro é o disfarce da impotência...

Hoje, aqui, já, neste momento
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento...
O desejo é o limite dos mortais.

Miguel Torga, in "Antologia Poética" -


Torga começou conhecido como poeta, tendo mais tarde ganho notoriedade com os seus contos ruralistas e os seus dezesseis volumes de Diário, estes publicados entre 1941-1995. Várias vezes indicado para o Prémio Nobel da Literatura, tornou-se um dos mais conhecidos autores portugueses do século XX.
Morreu em 17 de Janeiro de 1995, sendo enterrado em S. Martinho da Anta, junto dos pais e irmã.


A Ceia
...
Nunca mais
Meus olhos terão de ver
Tanta solidão sem fim:
- Ser dono desta desgraça
De não ter terra onde nasça
Uma flor que cresça em mim...

Miguel Torga



A um Secreto Leitor


No silêncio da noite é que eu te falo
Como através dum ralo
De confissão.
Auscultadores impessoais e atentos,
Os teus ouvidos são
Ermos abertos para os meus tormentos.

Sem saber o teu nome e sem te ver
- Juiz que ninguém pode corromper -,
Murmoro-te os meus versos, os pecados,
Penitente e seguro
De que serás um búzio do futuro,
Se os poemas me forem perdoados.

Miguel Torga





Leia mais: http://www.vidaslusofonas.pt/miguel_torga.htm
http://www.bragancanet.pt/filustres/torga.html


Aos 15 anos, os pais o internaram em uma clínica para doentes mentais, por ter fugido de um seminário protestante. Privado, como ele mesmo diria mais tarde, da alegria de viver, começou a ter pensamentos suicidas. Andava com uma arma comprada dentro do próprio sanatório.
Tentativa fracassada e 50 anos pela frente de viagem em busca de si mesmo.
Hesse definiu essa busca como "viagem infernal". Uma viagem feita através de seus livros, a tentativa de entendimento de si mesmo, do mundo e das questões que o assombravam.


Nascido em 2 de julho de 1877, na cidade de Calw, na Alemanha, morto em 9 de agosto de 1962, na Suíça, Hermann Hesse era o tipo de escritor que provocava imediata identificação do leitor com as questões que abordava. Lançou seu primeiro livro aos 27 anos e teve aceitação plena de crítica e público.

De inspiração surrealista pela valorização do sonho e da fantasia, influências herdadas da psicanálise de Carl Jung e Freud, influências da filosofia oriental, teor autobiográfico, são alguns traços comuns das obras de Hesse.
O Lobo da Estepe, escrito em 1927, é o romance fundamental de Hesse. É o ponto de convergência de todos os temas de sua obra; marca a ruptura entre a consciência exasperada pela superação de idéias antagônicas e a paz, a serenidade que o autor finalmente encontra em sua vida pessoal, cristalizada no Jogo das Contas de Vidro.

Na sua literatura, Hesse não constrói personagens, conceitos ou estereótipos, mas tipos ideais. Seria, então o Lobo da Estepe um tipo ideal. Essa noção é dada pelo próprio autor no Tratado do Lobo da Estepe, terceira parte do livro: "O lobo da estepe tem um destino nem singular nem raro", é uma "violentação do real em favor de uma explicação plausível" porque "todas as tentativas de tornar as coisas compreensíveis se fazem por meio de teorias, de mitologias, de mentiras" assim sendo "o lobo da estepe também é uma ficção".

Os livros de Hesse lêem-se com facilidade, mas para poder escrever assim há que ter vivido antes da mesma maneira, ainda que para isso seja necessária uma longa viagem ao inferno de si mesmo.




Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave.
Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo.

Hermann Hesse





Leia: http://www.ccba.com.br/asp/cultura/descubra-de/hermanhesse.asp
http://www.poppycorn.com.br/literatura/literatura_nil03.php



"...não ter posição marcada, idéias, opiniões, fala desvairada.
Só de não ditos ou de delicadezas se faz minha conversa, e para não ficar louca e inteiramente solta neste pântano, marco para mim o limite da paixão, e me tensiono na beira: tenho de meu (discurso) este resíduo. Não tenho idéias, só o contorno de uma sintaxe (= ritmo)."

ana cristina césar


Ana Cristina César nasceu num dia 2 de junho, 1952. "... Disposição ambígua (signo de gêmeos)", dirá em Correspondência Completa, em uma das muitas referências autobiográficas.

Há quem não goste e nem leve em consideração definições astrológicas de caráter e jeito de ser, particularmente acho mesmo que não dá para fazer disso uma referência do ponto de vista do valor literário dela, mas pessoalmente... bem, quem é de gêmeos sabe do que estou falando. Ambíguidade de poço profundo lâmina luminosa sem alcance do sol. É assim.

No dia 29 de outubro de 1983, tarde de um sábado, Ana se jogou do 8º andar de um prédio. Tinha 31 anos, já fazia parte do cenário literário local, falava várias línguas, tinha viajado o mundo, era formada em literatura, tinha mestrado em comunicação e pós-graduação em tradução literária feita fora do Brasil. Por que?




"Parece que há uma saída exatamente aqui onde eu pensava que
todos os caminhos terminavam. Uma saída de vida. Em pequenos
passos, apesar da batucada. Parece querer deixar rastros. Oh yea
parece deixar. Agora que você chegou não preciso mais me roubar. E
como farei com os versos que escrevi?"

ana cristina césar





Psicografia

Também eu saio á revelia
E procuro uma síntese nas demoras
Cato obsessões com fria têmpera e digo
Do coração: não soube e digo
Da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
Na vida) e demito o verso como quem acena
E vivo como quem despede a raiva de Ter visto.

ana cristina césar





Apenas 40 minutos antes o poeta e amigo, Armando Freitas Filho conversará com ela ao telefone. Alguma desconfiança do porvir? Não. Apenas o telefonema da mãe comunicando o ocorrido horas depois. Por que?


"Tenho uma folha branca / e limpa à minha espera: / mudo convite / tenho uma cama branca / e limpa à minha espera: / mudo convite / tenho uma vida branca / e limpa à minha espera". ana cristina césar



Aos 4 anos, Ana ditava poemas para sua mãe, aos 7 ela mesma os escrevia e ainda criança começou a publicar seus escritos no Suplemento Literário da Tribuna da Imprensa. Ana fez parte da geração de poetas mais importantes dos anos 70. Considerada uma das principais poetas da chamada "geração-mimeógrafo". Novos poetas foram revelados no livro do qual ela fazia parte, 26 Poetas Hoje. Por que?




saberias então que hoje, nesta noite, diante desta gente,
não há ninguém que me interesse e meus versos
são apenas para exatamente esta pessoa que deixou de vir
ou chegou tarde, sorrateira, de forma que não posso,
gritar ao microfone com os olhos presos nos seus olhos
baixos, porque não te localizo e as luzes da ribalta
confundem a visão, te arranco, te arranco do papel,
materializo minha morte, chego tão perto que chego
a desaparecer-me, indecência, qualquer coisa de
excessivamente
oferecida, oferecida, me pasmo de falar para quem
falo, com que alacridade
sento aqui neste banco dos réus, raso,
e procuro uma vez mais ouvir-te respirando
no silêncio que se faz agora
minutos e minutos de silêncio, já.


ana c.




Em 1982 sairia A Teus Pés, seu único livro de poemas publicado em vida. Sua obra póstuma inclui os livros Inéditos e Dispersos (1985), Escritos na Inglaterra (1988) e Crítica e Tradução (1999).
Ana virou mito, não só pelo suicídio, esse ato extremo não faz de ninguém um grande talento. Sua obra, testamento de sua competência, não deixa nenhuma dúvida. O que fica é: por que? Qual angústia última deu solução a janela aberta? Um vazio todo branco numa tarde de sábado. Se lançar assim no espaço tempo com todo um passado pela frente. O futuro seria jamais. Hoje, de Ana só nos resta ontem e uma vontade doida de saber quem realmente foi Ana C.



Que deslize

Onde seus olhos estão
as lupas desistem.
O túnel corre, interminável
pouco negro sem quebra
de estações.
Os passageiros nada adivinham.
Deixam correr
Não ficam negros
Deslizam na borracha
carinho discreto
pelo cansaço
que apenas se recosta
contra a transparente
escuridão.

ana c.



Leia: http://www.an.com.br/1999/dez/07/0ane.htm
http://www.na-cp.rnp.br/~murgel/textos/poema2.htm



** Esse post é para o amigo Milton e claro, para aqueles que ainda não leram e gostam de Ana Cristina César. Já tinha postado, mas como os meus arquivos desapareceram...ei-la de volta.





Quase duas horas de espera. Era dezembro e a noite estava gelada. Ele não apareceu. Na verdade, eles jamais iriam se conhecer. Naquele dia os astros desaconselhavam tal encontro, diriam depois no meio literário.
Pela descortesia, ela recebeu dele um livro, era Mensagem e trazia a seguinte dedicatória:


A Cecília Meireles, alto poeta, e a Correia Dias,
artista, velho amigo e até cúmplice (vide "Águia" etc....),
na invocação de Apolo e de Atena,
Fernando Pessoa
10-XII-34.



Em outubro de 1934, Cecília Meireles estava em Lisboa com seu primeiro marido, Fernando Correia Dias, em missão jornalística, ela como cronista, o marido como ilustrador. Cecília era uma jovem e promissora poeta e Fernando já absorvia os frutos da publicação de seu livro Mensagem.
O casal ficou 60 dias por lá e nesse tempo, ela não conseguiu conhecer o poeta de quem seria a grande divulgadora no Brasil: Fernando Pessoa.


Há quem veja na obra de Cecília alguma influência de Pessoa e sobre isso, a poeta falou certa vez, em entrevista:


"Eu creio bem que intimamente nos pareçamos, como se parecem as pessoas de origem comum. Não só descendemos ambos de açorianos, o que é uma psicologia especialíssima, como tivemos ambos grandes mergulhos na literatura inglesa. Ele até escreveu em inglês. E esses mergulhos já vinham, a meu ver, tanto nele como em mim, por uma necessidade que se poderia chamar talvez de 'insular' - um sentido de separação, de ausência, de mar em redor... E por todos esses motivos, você sabe que os açorianos, os irlandeses, os celtas são criaturas tão de sonho que estar acordado já é um grande sacrifício... Tanto ele como eu nos aproximamos de investigações místicas e mágicas do mundo. Ele chegou mesmo a ser astrólogo de renome, segundo ouvi dizer. Eu, apenas fiquei pasmada diante das feitiçarias do mundo."


E como disse o sábio Vinicius de Moraes: "a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida". E nesse caso, o desencontro entrou para a história.