"Amigos, não consultem os relógios quando um dia me for de vossas vidas... Porque o tempo é uma invenção da morte: não o conhece a vida - a verdadeira - em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira." -

Mario Quintana



O doce poetinha nos deixou num dia 05 de maio, nos deixou assim como seus versos uma nota de flor na boca, um aroma de outono nas mãos e um sorriso como o dele que mesmo sorrindo parecia conter uma tristeza suave.
Quintana não era ranziza, zangado, nem mesmo tímido, era apenas calado, introspectivo, daqueles que ao olharmos ficamos intrigados, procurando desfrutar de um riquíssimo mundo interior que certamente existia.
Tinha um humor único, uma fina ironia a pontuar seus comentários sobre o corriqueiro da vida.
Tenho a impressão de que conviver com ele devia ser leve como algodão doce, uma surpresa constante em qualquer coisa de sempre como no velho poste iluminando a rua ou mesmo pela janela onde abril se abria diferente todos os dias.



Inscrição Para Um Portão de Cemitério


Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela,
Quando se morre - uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!

Mario Quintana





Mario Quintana nasceu em 30/ 07/ 1906 em Alegrete - próxima à fronteira com a Argentina -, cidade banhada pelas margens do rio Ibirapuitan, cenário de muitas de suas poucas brincadeiras de criança. Poucas porque, apesar de ter dito inúmeras vezes que teve uma infância igual a de tantos outros, desde cedo teve uma inclinação natural à leitura.

Aos 7 anos foi alfabetizado pelos pais e já aos treze dominava a língua francesa - quando adulto, seus autores preferidos eram Rimbaud, Appollinaire e Verlaine. No primário, quando foi apresentado sem rodeios à gramática lusitana, recusou aceitá-la, alegando que não era aquela a língua que falava. Nisso acreditou até seu amadurecimento poético, pois sempre escreveu de forma coloquial todos os seus versos.


Na verdade, Quintana sempre escreveu de maneira simples o complexo da vida. Os poemas dele são como bordados ricos na complexidade dos pontos, mas formavam desenhos simples, desenhos que todos identificavam de imediato.
Graças a ele e suas traduções, os leitores brasileiros puderam ter acesso a Proust, Virgínia Woolf, Balzac e tantos outros, foram mais de cem livros traduzidos.
Publicou seu primeiro livro aos 34 anos, porque achava que quanto mais velho o poeta, "maior a tendência de ficar melhor, com estilo mais depurado".



Nunca ninguém sabe

Nunca ninguém sabe se estou louco para rir ou para chorar.
Por isso o meu verso tem esse quase imperceptível tremor...




Jardim Interior

Todos os jardins deviam ser fechados,
com altos muros de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.

Mario Quintana





O que nos mata, é não ter um poetinha como ele para nos falar de nossos jardins, dos pássaros, do céu, do vento e sua tristeza por não ser colorido, das estrelas que não paramos mais para olhar... quando foi que você antes de entrar apressado no carro ou em casa olhou estrelas no céu? Pois olhe hoje, uma delas é ele.




Noturno

Ninguém no cais deserto... Apagaram-se os grilos.
As estrelas estäo imóveis e tristes como um mapa sideral.


Mario Quintana




Leia: http://www.noxinvitro.com/carus/felix/?author=58







"Eu vivi metade da minha vida em Paris, não a metade que me fez, mas a metade na qual eu fiz o que fiz"
Gertrude Stein: 1874-1946


Paris era uma festa. Pablo Picasso, Matisse, Braque, Derain, Juan Gris, Apollinaire, Francis Picábia, Ezra Pound, Joyce, Hemingway e claro, Gertrude eram algumas das cabeças pensantes que freqüentavam a Paris do século passado.
Hemingway era apenas um aspirante a escritor que lia tudo que ela escrevia, Gertrude pendurava um quadro de Matisse em sua parede. Seria a primeira fazê-lo reconhecendo o gênio, assim como Juan Gris e Picasso. Em torno dela transitavam pintores, músicos, escritores. Gênios, grandes egos, discussões acirradas, opiniões fortes e rompimentos.
Gertrude era um gênio e sabia disso, falava de sua genialidade com a natural consciência de saber-se especial, o que a tornava irritante, o que causou grandes brigas por não tolerar que se destacassem mais do ela. Era do tipo que se amava ou odiava, não havia meio termo e acredito que ela mesma não gostaria de nada que não tivesse uma definição, ainda que para pior.





Gertrude Stein nasceu em Allegheny, Pensilvânia, em 3 de fevereiro de 1874. Viveu em Paris e teve obra fecunda. Foi mentora da arte moderna.
As características experimentais da obra de Gertrude Stein, no entanto, impediu que se tornasse popular até a publicação de The Autobiography of Alice B. Toklas (1933), apresentada como biografia da mulher com quem ela viveu durante quarenta anos, mas que era, na verdade, a sua própria história. Stein tornou-se uma lenda em Paris, em especial depois de ter sobrevivido à ocupação alemã na França e de haver protegido soldados americanos que a visitavam. Sobre essa experiência escreveu a crônica Wars I Have Seen (1945; As guerras que vi) e a novela Brewsie and Willie (1946; Brewsie e Willie).

Não foi a vanguarda e originalidade de sua obra que dariam a ela a fama que alcançou, mas seu romance com Alice B. Estamos falando dos anos 30, de uma mulher que apresentava sua companheira como esposa, que não escondia de ninguém a relação e os papéis de cada uma nela.
Stein quem assumia o papel de marido no casal, "escrevendo e discutindo arte com os homens", enquanto Alice cozinhava e tratava da casa e "se sentava a conversar sobre chapéus e roupas com as mulheres dos artistas que vinham de visita".

Nada que tire o mérito de ambas por razões diferentes e como companheiras.
Durante a Primeira Grande Guerra, tanto ela como Alice fizeram questão de ficar em Paris. Compraram um Ford em muito mau estado, a que chamaram "Auntie" e usaram-no para ajudar a Cruz Vermelha e transportar feridos para a província. Durante a Segunda Grande Guerra trabalharam para a Resistência, conseguindo que os ocupantes nazis nunca descobrissem que eram judias.
Gertrude era uma personalidade, verdadeira, irônica que se manteve assim até o fim.
Morreu a 27 de Julho de 1946 e foi enterrada no cemitério Père Lachaise, em Paris. Dias antes, na cama do hospital onde estava internada, perguntara a Alice: "Qual é a resposta?" E, uma vez que a companheira não lhe respondeu, insistiu. " Então, qual é a pergunta?!". O seu humor e o seu gênio permaneceram intactos até ao fim.


E Alice?


Alice não queria acreditar "como é possível que tanta perfeição, tanta alegria, tanta beleza que estavam aqui comigo, tenham desaparecido". Como elo que a prendia à vida, dedicou-se então, a publicação da obra de Gertrude.
Aos 76 anos publicou um livro de receitas onde falava dos pratos favoritos de Gertrude. Morreu em 1967, pediu par ser enterrada no mesmo túmulo que Gertrude, mas quis que seu nome fosse escrito na parte de trás da lápide, em segundo plano, como sempre se colocou em relação a Gertrude. "Alice pensa em tudo e é perfeita para mim". "Para Gertrude, seus poemas são tudo. Neles, ela viaja pelo mundo para voltar para casa. Me sinto feliz em ser apenas sua companheira".



Leia: http://storm-magazine.com/arquivo/Artigos_Fev_Mar/Artes/a_mar2002_1a.htm
http://www.utrine.hpg.ig.com.br/html/gertrude.htm






Era o dia 10 de março de 1948, no sanatório o mesmo dia se repetia sempre, mas aquele seria diferente e entraria para a história. Naquele dia, um incêndio mataria Zelda Scott-Fitzgerald.
Há uma história que diz que ela teria disparado o alarme chamando os bombeiros e quando eles chegaram perguntando onde estava o fogo, ela bateu no peito e disse: "Aqui!". Verdade ou não, é o tipo de história que ilustra bem a personalidade conturbada de Zelda Scott.






A bela do Alabama nasceu no dia 24 de julho de 1900, era brilhante, inteligente e talentosa. Escreveu uma novela, diversos histórias e artigos curtos, foi dançarina e pintora.
Zelda morreria oito anos depois do marido, o brilhante escritor Scott Fitzgerald, de quem foi sombra, ainda que escandalosa por toda a sua vida.
É difícil dissociar um do outro e mais ainda ser isento ao julgar Scott quando Zelda começou a enlouquecer. Antes mesmo do fim trágico, dela e dele, a vida ao lado de um escritor de ego gigantesco que sufocou seu talento sistematicamente foi pontuada por grandes cenas, bebedeiras, viagens e claro, livros.
Algumas biografias vão mais fundo e atestam que Scott bebeu muito da fonte criativa de sua mulher e que o fato de não poder exercer todo o seu potencial criativo teria deflagrado nela, a esquizofrenia.
O fato é que hoje F. Scott Fitzgerald é lembrado pelos livros que escreveu, tais como: Suave é a noite, O grande Gatsby, Este lado do paraíso entre outros e Zelda apenas pela morte trágica, por ser uma bela mulher, marcar uma época vivendo até a última gota todos os prazeres da vida e travando uma luta inglória contra a loucura. O que não é pouco, mas infinitamente pequeno diante do que ela poderia ter sido.


"...Olho para os trilhos e vejo você chegando - emergindo da névoa e bruma, suas queridas calças amarrotadas correm com pressa para mim - Sem você, muito querido, queridíssimo, não enxergaria nem ouviria nem sentiria nem pensaria..."

Amante, Amante, Querido

Sua esposa

Trecho da carta de Zelda Fitzgerald a Francis Scott Fitzgerald.


Leia: http://www.zeldafitzgerald.com/chronology/chronology.asp







"Não consigo mais escrever, não há razão para viver", confidencia a um médico. Faltam alguns dias para o seu aniversário de 62 anos, aniversário que jamais faria.
Hemingway era um grande bebedor e adepto dos esportes radicais de sua época, como a tourada, o boxe, a pescaria e os safáris na África. Dizia que passava boa parte do tempo atirando nas feras para não ter que atirar em si mesmo. Quando percebeu que estava no fim sofrendo de paranóia, mergulhado numa profunda depressão e sob a suspeita de estar sofrendo de câncer gástrico, enfiou na boca uma espingarda de caça e detonou os miolos.

Ler Hemingway é um mergulho sem volta na essência humana. Dos temas mais simples, ele tece toda uma trama na qual o leitor não se dá conta a princípio, até ver-se envolvido, irremediavelmente tomado pela história. Tudo está nas entrelinhas, no subtexto, muitas vezes no que ele não escreveu, mas deixou lá, basta mais do que ver, enxergar as nuances do que ele nos diz.

Hemingway foi autor de grandes confrontos existenciais. Em "O sol também se levanta" o par romântico não poderia ser melhor: um impotente mutilado de guerra e uma ninfomaníaca vivem uma paixão impossível. Em "Adeus às Armas" um desertor proclama a paz em separado e foge da guerra com sua amada. Só que ela morre no parto e ele percebe que o destino é mais forte que os homens. Em "O sol também se levanta" Robert Jordan apaixona-se por uma jovem guerrilheira a quem dará a própria vida. Em "O Velho e o Mar", Santiago tenta provar a si mesmo e ao mundo inteiro que ainda é capaz de enfrentar o mar e pescar um enorme peixe espada. Sua batalha contra os tubarões e a precisão de seus monólogos deram ao autor o prêmio Pulitzer e o Nobel de Literatura.

O escritor criava também cenas inusitadas e muitas vezes chocantes, como aquela do romance "As Verdes Colinas da África", em que o protagonista descreve uma hiena ferida que devora o próprio intestino enquanto agoniza. Em "Morte na Tarde", quando ele narra uma corrida de touros, dá ao seu leitor a sensação de estar vendo a arena à sua frente, com o touro e o toureiro bailando a dança da morte. Assim, sua narrativa sobre a savana após a passagem de um bando de babuínos enfurecidos pode trazer às nossas narinas o cheiro horrível daqueles primos distantes da raça humana. O mesmo se aplica à descrição de um campo de batalha dois dias depois da luta, com os cadáveres inchando ao sol, com as algibeiras reviradas pelo inimigo que já se foi.



Por quem os sinos dobram? Hoje, 21 de julho, dia de seu aniversário, dobram por ti, Hemingway.


Leia: http://www.tanto.com.br/jorgefernando-hemingway.htm
http://www.an.com.br/1999/jul/21/0ane.htm



Dizem que, quando menino, nas brincadeiras de 'passarinho voa', ele era sempre motivo de gozação das outras crianças. Isso porque na seqüência lúdica das perguntas - passarinho voa? Voa. Tico-tico voa? Voa. Coelho voa? Não. E homem, voa? - era sempre dele a voz tímida e baixinha que respondia sem hesitação: "voa".


Naquela época, os amiguinhos de Beto nem desconfiavam que pelas mãos dele o homem alcançaria os céus, pelo bem ou pelo mal.
Alberto Santos Dumont nasceu em Minas Gerais, em 20 de julho de 1873. Teve uma infância tranqüila, com poucos revezes. Sua irmã ensinou-o a ler e a partir daí, o imaginário infantil foi povoado pelas fantásticas histórias de Júlio Verne, Cinco Semanas em Balão, de Da Terra à Lua, de Vinte Mil Léguas Submarinas ou da Volta ao Mundo em Oitenta Dias, não importava, Alberto sonhava uma realidade.

Em 1897, pela primeira vez, consegue elevar-se aos ares. A partir daí, inúmeros balões, aviões e aeroplanos vão vencendo os desafios propostos e realizando o que antes era sonho.
Em 1910, doente e cansado, Dumont dá sua carreira por encerrada. Infelizmente, o tempo não o privaria de ver seu invento usado de forma distorcida.

No dia 23 de julho de 1932, Alberto Santos Dumont não desceu para almoçar. Ele se hospedava Grande Hotel de La Plage, Guarujá. Funcionários do hotel arrobaram a porta do quarto 152 e lá encontraram o inventor morto.

Na manhã daquele mesmo dia, Dumont foi até à praia e ajudou um menino a elevar o seu colorido papagaio de papel. Corrigido o peso da cauda, endireitada uma cana da estrutura, o papagaio sobe orgulhoso nos ares. O menino exulta e bate palmas. Dumont sorri ternamente e olha os céus. Nessa altura ouve-se um ruído crescente e na linha de horizonte cresce uma esquadrilha aérea. São aviões federais que vão bombardear um cruzador paulista ancorado em Santos. Brasileiros matam brasileiros servindo-se de uma máquina que ele inventou e foi aperfeiçoando, passo a passo, com tanto amor e ilusão...
Alberto Santos Dumont suicida-se nessa noite.



Leia: http://jbonline.terra.com.br/destaques/santosdumont/dumont1.html
http://www.vidaslusofonas.pt/santos_dumont.htm

Hoje o Literatus está de luto. Estaria de qualquer jeito, mesmo que não se tratasse do filho de alguém conhecido no meio literário, dentro e fora da net. Está de luto pelo Gabriel, pela sua família, mas sobretudo por nós mesmos que jamais saberemos quem foi Gabriel, como ele se sairia na Faculdade de Jornalismo, que causas abraçaria, as matérias que escreveria, que homem digno de formação exemplar formaria sua própria família. Perdemos nós, perdeu o mundo que ficou mais pobre sem a sua presença.
Abaixo está a matéria escrita por seu pai publicada no site Novae e hoje no Globo. O Jornal traz ainda a notícia da prisão do assassino, o protesto que será feito contra a violência e a possibilidade da Biblioteca local levar o nome de Gabriel. Que assim seja.










Gabriel foi para o Céu
Por Cláudio Alex Fagundes da Silva


Eu sou um homem tranqüilo. Sou professor e estou estudando para ser cada vez melhor professor. Tenho dois metros de altura, mas jamais na minha vida agredi a um ser humano ou animal. Entretanto, nunca fui um ser passivo. Sempre me coloquei do lado dos mais fracos e oprimidos e na defesa dos direitos dos seres subjugados pelo sistema perverso que a todos submete.

Meu filho foi criado num ambiente de respeito, de amor e de não violência. Ele era - e sempre será - o meu filho adorado. Porque era justo, íntegro, leal, honesto e, extremamente afetivo. Não gostava de estudar, não queria ser nada, queria escalar montanhas e ficar o mais perto possível do Céu. Dito assim parece palavras de um pai que só vê as coisas boas dos filhos. Não é assim. Meu filho tinha imperfeições, mas eram pequenas perto do imenso coração que transbordava de afeto e emoção em tudo que fazia. Era um pacifista. Detestava crueldades e era inconformado com esse mundo de desigualdades. Mas vivia sorrindo e cheio de alegria. Seu sorriso jamais será esquecido por todos que o conheceram.

Teve apenas uma namorada. Uma única moça que ele amou completamente e foi plenamente correspondido. Viviam felizes, riam brincavam na minha casa. Foram dois anos de tranqüilidade e muito amor. Os dois juntos faziam um casal lindo. Amoroso, carinhosos um com o outro. Gabriel amava à Tainá como ao dia e às montanhas que era sua escada para o Céu, como na música do Led Zepelin.

Mas atendendo aos apelos do pai, da mãe e dos avós, e tentando ser um homem melhor para a Tainá, Gabriel fez um esforço, estudou passou no vestibular e ingressou na Faculdade Helio Alonso, onde desejava se especializar em jornalismo ambiental. Soubemos disse, eu e ele, no dia 2 último e eu estava no Rio - moro em São Paulo há três meses - com ele e tive o prazer de desfrutar os melhores dias de toda a sua vida e do nosso relacionamento de pai e filho. Estávamos os dois extremamente felizes, ficamos juntos o tempo todo, todos os 3 dias que estive no Rio no começo do mês. Saímos, conversamos, brincamos. Com mais intensidade do que das últimas vezes, que tinham sido tomadas por preocupações até mesmo de sobrevivência. Queria dar mais para o meu filho, mas não podia. Meu salário de funcionário público foi muito desgastado nos últimos anos.

Mas desta vez eu e ele brincamos como passei toda a vida brincando com ele. Nós nos entendíamos como irmãos, como amigos, como duas almas muito parecidas. Eu compreendia perfeitamente tudo que ele me dizia diretamente ou que lia em seus pensamentos e sentimentos. Eu brincava com ele, como um irmão que ele não teve. Nos últimos dias que passamos juntos revivemos tempos em que montávamos verdadeiras cidades no chão do apartamento, quando jogávamos juntos videogame.

Foi o último momento que passamos juntos. Falamos algumas vezes pelo telefone. Ele me disse que ia para Búzios, o lugar mais bonito do mundo que eu conheço. E eu disse que ele aproveitasse, mas se cuidasse, pois teria uma vida nova pela frente. Pedi especialmente que não exagerasse na bebida. Pedi muito que ele se cuidasse.

Foi a última vez que nos falamos.

Na madrugada entre sábado e domingo eu estava dormindo com minha esposa Liliam, quando acordei sobressaltado às 3 horas da manhã. Levantei e vim para o computador me distrair com um game que eu e Gabriel adorávamos jogar. Foi quando o telefone tocou e eu ouvi que era de Búzios e meu coração sobressaltou. O médico me passou a notícia que eu sempre tive medo de ouvir. Uma bala havia levado a vida de meu menino. Uma bala que atingiu justamente aquilo que ele tinha de melhor: o seu coração. Atravessou-o de lado a lado e rompeu a aorta. Mesmo que ele estivesse aqui no Instituto do Coração em São Paulo. Não haveria jeito. Ainda tentei confortar o médico que o atendeu. O médico chorava. O tiro foi no coração, os jornais falam de "tiro na cabeça". Estão errados. Tenho a certidão de óbito: foi um tiro no coração que matou o meu menino.

Fui para o Rio e não fui ao cemitério. Não quis vê-lo morto. Eu quis ficar com a imagem dos últimos dias que passamos juntos. Procurei consolar os velhos. Mas eles foram mais fortes do que eu. Resolveram as coisas práticas. Meu irmão foi buscar o corpo de meu filho no IML de Cabo Frio, não dá para descrever a dor e o amor com que ele fez isso. Não dá para descrever a dor que todos sentem. O bairro inteiro de Laranjeiras está de luto. Gabriel foi enterrado com a camisa do Fluminense que eu mesmo lhe dei de presente, pois somos tricolores de coração. Todos.

E também um pouco de São Paulo onde tenho amigos e onde vivo atualmente com minha atual esposa, Liliam, meu segundo casamento, e que me acompanhou o tempo todo nesse percurso doloroso de São Paulo-Rio-São Paulo. Percurso que eu fiz mais de 100 vezes nos últimos 3 anos para dar atenção ao meu filho e ficar com a mulher que amo.

Não sou homem que pensa em vingança. Jamais me passou pela cabeça desejar o mal de ninguém. Não desejo, pessoalmente e do fundo do coração, que as pessoas que mataram o Gabriel sofram ou sejam mal-tratadas. Mas existe uma responsabilidade social a ser apurada, pois houve um crime contra a sociedade e essas pessoas devem ser encontradas, presas e julgadas - todos os cinco - e que o crime seja devidamente qualificado como latrocínio e por motivo fútil, e por motivo torpe, pois eram pessoas fortes armadas contra rapazes fracos e desarmados. Eles foram encostados na parede e meu filho foi executado porque reclamou que seu celular estava sendo roubado. Não gritou, não pediu socorro apenas disse: "Vocês estão me roubando". E roubaram o celular dele. E o fuzilaram a queima-roupa. Mataram meu filho por causa de um aparelho que não custa mais do que 200 reais em suaves prestações.

E aos homens da justiça, aqui na Terra, por favor, não sejam coniventes com o crime que foi cometido. O jornal "O Dia" (edição impressa do dia 15 de julho de 2003) publicou a insinuação de um policial militar que eu não gostei. Algumas de suas observações feitas não foram bem aceitas pela família. Foram ditas coisas que ensejam a impunidade. E o jornal o "O Dia" deveria ser mais cuidadoso para não ser um porta-voz do crime e sim da justiça que é o papel da boa imprensa. Foi um crime covarde, um latrocínio e por motivo torpe. Exijo essa qualificação.

Mataram meu filho talvez por que ele fosse um rapaz muito bonito. Tinha um sorriso de anjo: o anjo Gabriel que voltou pro Céu, talvez para se preparar para anunciar, novamente, a volta de Cristo, desta vez para julgar os sentimentos dos homens.

Sou católico, e desejo para todos o que Cristo nos legou.
Para todos - sem exceção - desejo a Paz de Cristo.


Cláudio Alex Fagundes da Silva. Professor e Pesquisador do IBGE. Pai de Gabriel Araújo Fagundes da Silva, a quem muito amei e amarei por toda a eternidade.
Escrevo esta matéria para ser publicada no site http://www.novae.inf.br. Reproduções deverão citar essa fonte.

"Uma mulher sentada e a olhar para o fogo é o tema de uma das últimas esculturas da minha pobre irmã...
Quando acontece lembrar-me da minha alma, é assim que eu a veria... Sentada e a olhar para o fogo. Todos morreram ou é como se assim fosse...."

Paul Claudel, La vie et le rosaire








Camille Claudel, Cartas do Asilo.


" Tenho pressa de deixar este lugar...Não sei se você pretende me deixar aqui, mas é muito cruel para mim!...Dizer que a gente está tão bem em Paris e que é preciso renunciar a isso por causa das bobagens que vocês têm na cabeça...não me abandone aqui sozinha..."


"....Parece que meu pobre atelier - alguns pobres móveis,algumas ferramentas forjadas por mim mesma - meu pobre pequeno lar, excitava ainda a cobiça deles!..."




"....é realmente forte demais!....E me condenar à prisão perpétua para que eu não reclame! "Tudo isso no fundo sai do cérebro diabólico de Rodin. Ele só tinha uma idéia,a de que ele morrendo eu tomasse impulso como artista e me tornasse maior que ele: ele precisava manter-me em suas garras depois de morto como em vida. Era preciso que eu fosse infeliz com ele morto como o fui com ele vivo. Ele venceu em tudo, ponto por ponto, pois quanto a ser infeliz, de fato o sou!...Eu me aborreço muito com esta escravidão..."


" Hoje faz quatorze anos que tive a desagradável surpresa de ver entrar no meu atelier dois esbirros armados até os dentes, com capacetes e botas, absolutamente ameaçadores. Triste surpresa para uma artista; ao invés de uma recompensa, foi isso que me aconteceu! É comigo que acontecem coisas assim..."



Quem foi Camille Claudel?


Camille Claudel nasceu no dia 8 de dezembro de 1864, em Villeneuve-sur-Fére, na França em uma pequena cidade do Tardenois, nos arredores de Paris. Contava com o apoio do pai e vivia em conflito com a mãe e a irmã. Incentivada pelo pai, pôde desenvolver sua vocação artística, dedicando-se aos primeiros estudos de escultura. Teve alguns professores até conhecer Rodin de quem além de aluna, se tornaria amante. Por esse motivo, ser amante assumida de Rodin e ainda uma escultora sofreu rejeição da sociedade da época. Camille era talentosa e suas obras tinham reconhecido valor artístico. Trabalharam juntos em comunhão de idéias, arte e amor por 15 anos, até Rodin optar por se casar com outra mulher. Após a ruptura, que marcaria profundamente Rodin e sua obra, o sentimento de fracasso afetivo e a solidão encaminharam a frágil estrutura emocional de Camille Claudel ao desespero, ao ressentimento e ao ódio de seu antigo companheiro. Passou a viver isolada em seu atelier, restrita a um espaço úmido e mal-conservado. Passou a ter manifestações de uma paranóia persecutória, naufragada na miséria, na solidão e no desespero da falta de reconhecimento. Dessa maneira, melancolicamente foi internada por sua família num asilo de alienados, no ano de 1913, uma semana depois da morte de seu pai, que sempre a protegera ou auxiliara na medida do possível. No hospício a que foi destinada, ficaria reclusa e quase esquecida de seus poucos amigos e de seus familiares, até falecer em 1943. Procedeu-se assim a uma espécie de condenação e cumprimento de uma silenciosa pena de prisão perpétua, que durou trinta anos e extingüiu a chama do talento e da vivacidade de uma grande escultora.

essa foi Camille Claudel...

É para lá que eu vou.



Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.

À ponta do lápis o traço.

Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.

Na ponta dos pés o salto.

Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou.

Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero. E para lá que eu vou.

Na ponta da palavra está a palavra. Quero usar a palavra "tertúlia" e não sei aonde e quando. À beira da tertúlia está a família. À beira da família estou eu. À beira de eu estou mim. É para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim é um eu que anuncio.

Não sei sobre o que estou falando. Estou falando de nada. Eu sou nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.

É para o meu pobre nome que vou.

E de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. Eles me responderão. Enfim terei uma resposta. Que resposta? a do amor. Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.

À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.

Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto.

Oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo. E feneço lentamente.

Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós.



Clarice Lispector - in "Onde estivestes de noite" - 7ª Ed. - Ed. Francisco Alves - Rio de Janeiro - 1994



** Infelizmente o computador ainda esta com problemas e aqui do trabalho é meio complicado postar. Deixo o registro da saudade. bjo meu. angel.






Atualmente ele é cultuado, reconhecido como um dos grandes reinventores do romance moderno, mas na sua época chegou a ser odiado por seus contemporâneos. Amado ou detestado, a verdade é que jamais passou desapercebido.
Sua mãe o chamava de mon petit jaunet (meu amarelinho), mon petit benêt (meu palerminha) ou mon petit nigaud (meu idiotinha) e mesmo assim ele levaria a vida escrevendo aquele que seria um marco da literatura francesa: Em busca do tempo perdido, romance em sete volumes que deixaria inacabado. A doença acabaria por vencê-lo.
Marcel Proust nasceu em Anteuil, perto de Paris, em 10 de julho de 1871. Com problemas de saúde desde a infância, foi uma criança cercada de cuidados especiais por sua mãe. Asmático, solitário, homossexual em conflito com sua própria identidade, Proust descobriu técnicas de descrever de maneira minuciosa, fascinante cada objeto ou cena de seus livros. Tornou-se referência.
Durante anos, Proust levou uma vida de prazeres, mundana. Costumava dormir de dia e exigia silêncio absoluto de sua mãe. As noites eram passadas na convivência vazia dos salões de Paris. Parecia estar se preparando para escrever a obra que somente a morte se encarregaria de interromper.

"Jamais vemos os entes queridos a não ser no sistema animado, no movimento perpétuo de nossa incessante ternura, a qual, antes de deixar que cheguem até nós as imagens que nos apresentam sua face, arrebata-as no seu vórtice, lança-as sobre a idéia que fazemos deles desde sempre, fá-las aderir a ela, coincidir com ela".

(Proust. No Caminho de Guermantes. ed. Globo, p. 126 )



Segundo Celeste Albaret, criada e enfermeira de Marcel Proust de 1913 a 1922, durante a madrugada de 22 de Novembro de 1922, data da sua morte, o escritor continuava a escrever a sua obra-prima.
O tempo foi seu algoz, Marcel Proust morreria em decorrência de complicações pulmonares, deixando seu nome eternizado em romances, ensaios críticos, traduções e vasta correspondência.


"Mas quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas - sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais mais persistentes, mais fiéis - o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação."

Marcel Proust, in No Caminho de Swann





Leia: http://www.oficinadeliteratura.hpg.ig.com.br/contmproust.htm
http://www.estadao.com.br/ext/frances/proustp.htm





Ok, ok, Frida Kahlo sempre gerou discussões acaloradas sobre o valor de sua pintura. Nem vou entrar no mérito da questão porque não tenho o conhecimento necessário para esse tipo de análise, agora verdade seja dita, foi sim, uma grande mulher.
Frida tinha tudo para dar errado, tudo para não ser nada, mas uma personalidade forjada pela dor, pelo sofrimento até o limite do impossível fizeram dela mulher, amante, pintora apaixonada e apaixonante.


A terceira filha do judeu alemão Wilhelm Kahlo com a mexicana Matilde Calderón González, nasceu em Coyacán, subúrbio da Cidade do México, no dia 06 de julho de 1907. No entanto, Magdalena Carmem Frieda Kahlo Calderón dizia-se filha da Revolução Mexicana, portanto nascida em 1910.
Ainda criança, Frida foi vítima de poliomielite, o que provocou o atrofiamento de sua perna direita, tornando-a coxa. Era apenas o começou. Tempos depois um acidente horrível deixou-a mutilada. Ela sofreu multiplas fraturas e uma barra de ferro atravessou-a entrando pela bacia e saindo pela vagina. Por causa deste último fez várias cirurgias e ficou muito tempo presa em uma cama. Durante a recuperação começou a pintar.


''Pintar completou minha vida. Perdi três filhos e uma série de outras coisas, que teriam preenchido minha vida pavorosa. Minha pintura tomou o lugar de tudo isso. Creio que trabalhar é o melhor.''

Da autobiografia datada de 1953.



O drama pessoal de Frida não se limitou ao corpo. Ela mesma costumava dizer que sofreu dois acidentes em sua vida: a tragédia com o ônibus e seu relacionamento com o pintor Diego Rivera. Casaram-se, separaram-se e casaram de novo. Uma verdadeira novela mexicana repleta de casos extraconjugais, dele e dela. Entre os amantes de Frida, o mais famoso foi o revolucionário russo Leon Trotski.

Diego Rivera foi o grande amor de Frida, sua obsessão até o fim da vida. A sua vida com o marido sempre foi bastante tumultuada. A maior dor de Frida foi a impossibilidade de ter filhos (embora tenha engravidado mais de uma vez, as seqüelas do acidente a impossibilitaram de levar uma gestação até o final), o que ficou claro em muitos dos seus quadros.



''Diego está na minha urina, na minha boca, no meu coração, na minha loucura, no meu sono, nas paisagens, na comida, no metal, na doença, na imaginação.'' Frida Kahlo



Ainda em vida, Frida obteve reconhecimento como pintora surrealista. Em Nova York fez sua primeira exposição individual, porém mais uma vez sua saúde piorou.

"Em 1946 sua coluna precisou ser operada. Com fortes dores na perna direita, em 1950 é tratada no Hospital Inglês durante todo o ano. Mas continua pintando. Os médicos diagnosticam a amputação da perna e ela entra em depressão. Pinta suas últimas obras, como 'Natureza Morta (Viva a Vida)'. Em um ano (1950-1951), passa por sete operações na coluna, que infeccionam, graças ao colete de uso obrigatório."


"Amputaram-me a perna há 6 meses, deram-me séculos de tortura e há momentos em que quase perco a razão. Continuo a querer me matar. O Diego é que me impede de o fazer, pois a minha vaidade faz-me pensar que sentiria a minha falta. Ele disse-me isso e eu acreditei. Mas nunca sofri tanto em toda a minha vida. Vou esperar mais um pouco...'' Frida Kahlo






Em 27 de julho de 1953, Frida tem a perna direita amputada até a altura do joelho. Em seu diário, encontra-se o desenho da perna amputada como uma coluna rodeada de espinhos, com a legenda: ''Piés para qué los quiero si tengo alas pa' volar''


Frida Kahlo viveu como Diego Rivera recomendou, um dia, a ela: 'Pega da vida tudo o que ela te der, seja o que for, sempre que te interesse e possa dar certo.' Ela costumava dizer que 'a tragédia é o mais ridículo que há' e 'nada vale mais do que a risada'. E na madrugada de 13 de julho de 1954, Frida, com 47 anos, foi encontrada morta em seu leito. Oficialmente, a morte foi causada por 'embolia pulmonar', mas há suspeita de suicídio.

No diário, deixou as últimas palavras: "Espero alegre a minha partida - e espero não retornar nunca mais."



Leia: http://www.antroposmoderno.com/textos/FridaKahlo.shtml
http://www.ig.com.br/paginas/cultura/materias/090001-090500/90441/90441_1.html
http://www.claque.com.br/juliana/jumi050703.htm


** Soube agora que ficarei uma semana sem PC. Vou tentar atualizar do trabalho, mas não garanto. As visitinhas farei como sempre, dou minhas escapulidinhas na hora do almoço ou no final do expediente. De resto fica a saudade prévia de vocêSS. bjus blues.angel







Carta para Hilda Hilst



Pôrto Alegre, 29 de dezembro de 70


Hildinha querida, estou chegando agora mesmo de uma semana na praia - chegando e encontrando o melhor presente de Natal ou Ano Nôvo que poderia receber. Fiquei demais comovido com o livro, com a dedicatória, com o "Lázaro" para mim, com o meu nome no prefácio. Orgulhsíssimo. Que bom, Hildinha, que recompensador pensar que tôdas aquelas nossas tardes batendo máquina, aquêles papos infindáveis à noite, as dúvidas, a pesquisa - pensar que tudo isso de repente ganhou forma concreta e comunicável aos outros. Você não imagina como tudo isso é importante para mim. Poucas horas atrás, no ônibus com um amigo, pensava em você, em Dante, na fazenda, pensava em tôda aquela fôrça mental que a gente desprendeu e me perguntava ao mesmo tempo "pra quê?". A resposta é o "Fluxo-Floema", é você dizer que não me esqueceu. Eu sei lá, estou demais feliz com êsse negócio. Está tudo tão limpo, tão solar.

70 também não foi muito bom para mim, pelo menos no sentido humano ou afetivo. Em têrmos de trabalho foi altamente recompensador, mas você sabe com eu sou carente e inseguro, talvez mesmo ávido. A semana passada decidi ir para a praia com mais cinco amigos. Ficamos lá 8 dias. Então eu acho que consegui me reencontrar quase que inteiramente. E lembrei muito de você. Não consegui compreender o teu silêncio, que me doía barbaramente. Pensei muito. Sabe, consegui uma visão bastante clara de tôdas as minhas falhas e precariedades. Isso me abriu em amor. De certa forma fui ingrato e injusto com você e Dante. Falei sôbre tudo isso com meu amigo, no ônibus, então foi extraordinário chegar em casa e encontrar o teu livro. Tudo aquilo que eu havia pensado e concluído abstratamente foi arrematado e definido pela chegada do "Fluxo-Floema". É demais mágico, Hildinha. Vou reler todo, palavra por palavra, e sei de antemão que vai ser ainda melhor que das outras vêzes. Antes de ser a grande escritora que você é, há o imenso ser humano, carregado de amor e bondade que você é de maneira ainda mais completa - isso é o que vou encontrar outra vez nas suas novelas. E na hora justa em que preciso. Como nunca. Tenho certeza que através dêsse livro outras pessoas vão aprender contigo tudo o que eu aprendi, e que é imenso. Muito bom, Hildinha, muito bom MESMO. Vais ver como agora as coisas vão mudar - eu sinto e sei.

Estou por ir ao Rio para lançar o meu "Limite Branco", que já está pràticamente pronto. Espero apenas o telegrama da editôra me chamando para a tarde de autógrafos. Vou com alguns amigos, todos dispostos a ficar por lá, trabalhando em artesanato, teatro, cinema, vivendo numa comuna. Pensei em passar antes por São Paulo, para ver você e Dante. Isso seria daqui a uma ou duas semanas, não sei se vocês estarão na fazenda, mas acho que isso não é problema, pois com o telefone fica tudo fácil. Telefonarei antes, marcando bem. Você não imagina o quanto eu queria passar uns três dias aí com vocês, a saudade que sinto é uma coisa quase absurda. Talvez também você pudesse me avisar quando será a tarde de autógrafos em SP, eu gostaria demais de estar lá: se você me avisasse com alguma antecedência eu poderia dar um jeito de estar presente.

Vou dar o outro livro que você me mandou ao Carlos Jorge Appel, que é o crítico mais quente daqui. Vou também escrever um artigo sôbre, não sei se sairá porque o meu nome está demais queimado nas "esferas políticas da imprensa gaúcha". Depois de algumas entrevistas e uma crítica sôbre o filme "If..." os diretores do jornal foram pressionados a cortarem as colaborações e a coluna de crítica cinematográfica. Milhares de coisas aconteceram, e o que ficou de imagem minha foi a de um escritor "underground", profunda e naturalmente maldito, o que é verdadeiro até certo ponto e não completamente agradável. Agora com a saída do romance talvez as coisas mudem.

Outra coisa: seria muito bom que mandasses o livro aos críticos do suplemento da imprensa oficial de Minas Gerais. É o único suplemento decente do Brasil, com um nível muito alto e uma linha bem definida. Podes crer que não é desperdício mandar a êles. Os nomes são: Murilo Rubião, Carlos Roberto Pellegrino, Humberto Verneck e Luiz Gonzaga Vieira; o enderêço: Suplemento Literário de Minas Gerais, Av. Augusto de Lima, 270, B. Horizonte, Minas Gerais. Aproveita e pede também para te enviarem o suplemento, é demais interessante, o único movimento literário "por dentro", no Brasil, é êsse de Minas.

Minha mãe te manda muitos abraços e deseja felicidades mis ao livro. Ela está muito bem, terminou seu curso de pós-graduação em Orientação Educacional, está de orientadora no melhor colégio do estado e com uma proposta para montar um gabinete particular de Orientação. Já disse a ela que nêsse passo acaba candidata a deputada e capa da manchete. Meu pai também está ótimo, de carro nôvo e tal. Os irmãozelhos idem, Márcia entrou para o ginásio com notas altíssimas em Português - vê só, parece que está pintando mais um escritor (a) na família.

Comigo, as coisas clareando aos poucos. Inúmeras experiências novas. As mais insólitas. Uma reviravolta completa no terreno sexual. Te contarei pessoalmente, sentado na sala branca, à luz de lampiões.

Antes que eu esqueça: Maciel andou por aqui durante dois mêses (voltou para a Europa a semana passada), maravilhoso, ganhando prêmios na Bienal de Veneza. Falamos muito em vocês. Ele gosta demais de ti e sempre diz que aquêles dias passados na fazenda foram das melhores coisas da vida dêle. Voltou agora para morar na Europa indefinidamente: é uma boa ponte para mim. Pretendo ir logo que tenha condições.

Queria que desses um grande abraço em Dante. Desejo a vocês um 71 divino, cheio de criatividade e amor. Um grande-grande-grande beijo do teu


Caio


PS- Na noite de natal na praia, fizemos uma vibração em azul, em conjunto pensando nas pessoas que amávamos. Você recebeu?


** Do livro: Caio Fernando Abreu: cartas- ed.Aeroplano




"Se este avião caísse, com ele cairia um homem que pelo menos
entenderia a fábula da folha que se desprendeu e desaparecia;
e assim seu coração, na terra, no mar e no céu, como
de triste e maduro caísse, não se surpreenderia, nem reclamaria;
pois se esse aflito coração, de ter amado e sofrido, na
amplitude de morte se conformaria..."

Paulo Mendes Campos - in: Moscou-Varsóvia - fragmento (1956).



Meu primeiro contato com Paulo Mendes Campos foi através da sua prosa deliciosa. Do poeta, só muito tempo depois fui saber. Outra deliciosa descoberta.

"Sobre seus poemas, o crítico Geraldo Pinto Rodrigues afirmou: "poesia toda ela (ou quase toda) feita de uma saudade pungentemente melancólica, ligada às mais legítimas e puras vertentes da lírica luso-brasileira, os versos de Paulo Mendes Campos revestem-se de um ingênuo encantamento e lhe dão a medida exata de sua alma e de seu modo de ser".

Quem teve o privilégio de conhece-lo de perto, diz que esse mineiro tímido era um excelente contador de histórias e um frasista contumaz. Ainda assim, ouvia mais do que falava e vendo sem ser visto, enxergava as nuances do cotidiano, aqueles detalhes que passam desapercebidos aos olhos comuns do dia-adia. E foi assim silenciosamente que Paulo Mendes Campos nos deixou.


"Um resfriado forte, com ares de pneumonia, resultaria, no intervalo de uma semana, em um fulminante derrame cerebral. Na madrugada de 1 de julho de 1991 Paulinho acordou passando mal. Sua mulher o levou ao banheiro mas um infarte fulminante o liquidou. A cena toda durou um par de minutos. O tempo exato de uma despedida. Sem concessões para tributos ou manifestações de pesares. Bem do jeito de Paulinho, que ficaria levemente ruborizado com a empreitada de Flávio Pinheiro. Ou repetiria, assim como quem não quer nada, as linhas finais de seu "Poema didático": "De todo, se multipliquei a minha dor, também multipliquei a minha esperança".





Segredo


'Há muitas coisas que a psicologia não nos explica. Suponhamos que você esteja em um 12º andar. Em companhia de amigos, e, debruçando-se à janela, distinga lá embaixo, inesperada naquele momento, a figura de seu pai, procurando atravessar a rua ou descansando em um banco diante do mar. Só isso. Por que, então, todo esse alvoroço que visita a sua alma de repente, essa animação provocada pela presença distante de uma pessoa da sua intimidade? Você chamará os amigos para mostrar-lhes o vulto de traços fisionômicos invisíveis: 'Aquele ali é papai'. E os amigos também hão de sorrir, quase enternecidos, participando um pouco de sua glória, pois é inexplicavelmente tocante ser amigo de alguém cujo pai se encontra longe, fora do alcance do seu chamado.
Outro exemplo: você ama e sofre por causa de uma pessoa e com ela se encontra todos os dias. Por que, então, quando esta pessoa aparece à distância, em hora desconhecida aos seus encontros, em uma praça, em uma praia, voando na janela de um carro, por que essa ternura violenta dentro de você, e essa admirável compaixão?
Por que motivo reconhecer uma pessoa ao longe sempre nos induz a um movimento interior de doçura e piedade?
Às vezes, trata-se de um simples conhecido. Você o reconhece de longe em um circo, um teatro, um campo de futebol, e é impossível não infantilizar-se diante da visão.
Até para os nossos inimigos, para com as pessoas que nos são antipáticas, à distância, em relação ao desafeto, atua sempre em sentido inverso. Ver um inimigo ao longe é perdoá-lo bastante.
Mais um caso: dois amigos íntimos se vêem inesperadamente de duas janelas. Um deles está, digamos, no consultório do dentista, o outro visita o escritório de um advogado no centro da cidade. Cinco horas da tarde; lá embaixo, o tráfego estridula; ambos olham distraídos e cansados quando se descobrem mutuamente. Mesmo que ambos, uma hora antes, estivessem juntos, naquele encontro súbito e de longe é como se não se vissem há muito tempo; com todas as graças da alma despertas, eles começam a acenar-se, a dar gritos, a perguntar por gestos o que o outro faz do outro lado. Como se tudo isso fosse um mistério.
E é um mistério'.



Paulo Mendes Campos - In: Livro: Para Gostar de Ler, volume 4 - Crônicas


Leia: http://www.descubraminas.com.br/destinosturisticos/hpg_pagina.asp?id_pagina=1001.
http://www.geocities.com/TheTropics/8662/paulomendes.htm