Ô Abre Alas que eu quero passar...

É tempo de Carnaval e nada mais justo do que falar de Chiquinha Gonzaga, a maestrina que abriu alas e passou triunfante pela história da música brasileira.
Num dia 28 de fevereiro de 1935, Francisca Edwiges Gonzaga, Chiquinha Gonzaga, compositora, pianista e maestrina brasileira iria para o andar de cima, cantar em outros cantos o que encantou aqui.

Como toda boa moça, Francisca Edwiges Gonzaga foi educada com primor e preparada para ser uma dama da sociedade. Fosse ela outra que não Chiquinha Gonzaga, talvez acatasse com alegria o destino que seu pai lhe impôs, casar com o jovem e promissor, Jacinto Ribeiro do Amaral. Com apenas 16 anos e sem muito o que fazer, aceitou seu destino.

Obviamente a música, os bailes de carnaval e os chorões, os músicos da época que tocavam choro, levaram Chiquinha para outros caminhos e ela descobriu que apesar de ser uma mulher separada e com um filho pequeno, havia vida após o casamento. Sorte nossa!

Antonio Calado, famoso chorão da época convidou-a para ser a pianeira de seu conjunto Choro Carioca. Chiquinha começou a tocar em bailes e teatros recebendo dois mil réis por noite. Chiquinha passou a frequentar festas e reuniões de chorões, compondo a polca Atraente, em 1877, que, editada na véspera de Carnaval, fez um enorme sucesso.

Foram muitas as privações que Chiquinha passou, o preconceito contra ela e o seu modo de vida eram patentes, mas ela era aquele tipo de mulher que é feita de material diferente, resistente, forte e decidida, abriu as alas que quis e terminou seus dias consagrada.
Essa pioneira que em 1913 batalhou e criou a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais – SBAT, tinha mesmo que sair vencedora e ainda hoje as alas se abrem para ver Chiquinha Gonzaga passar.

andrea augusto©angelblue83

Leia: http://www.info.lncc.br/dimas/chiq.htm


Para quem esta viajando e pretende enfiar o pé na jaca ou procurar uma jaca para enfiar o pé, bon voyage. Eu ficarei por aqui praticando meditação-zen-budista-em-posição-de-Lótus-voltada-para-o-Oriente, ou seja na falta de recursos monetários, meditação é um santo remédio. Ciao, baby!



dos diários

Como se o tempo pudesse de alguma forma falar, seria assim uma tentativa de voltar, de saber o que tinha e o que jamais teria. Se o tempo não fosse como os grãos de uma velha ampulheta descendo rápido, seria mais fácil continuar.
O afastamento depurou o que sinto e revestiu de sentido novo cada emoção como se fosse a primeira vez e o encontro eternizou-se no espaço tempo. Foi assim que em algum momento não nos encontramos, mas sim nos reconhecemos como se já soubéssemos da existência mútua e foi assim também que um dia cinza chegou, a noite veio e agora de forma clandestina retorno sempre àquele lugar que a ampulheta não alcança: o sótão onde a memória reside.


Não há precipitação alguma, um tempo todo de vagar
por aí
e ir aos poucos, como o sol para dentro do mar
como o sal para dentro da boca,
dessa lágrima água recorrente
de beber...

andrea augusto©angelblue83






AS TRÊS EXPERIÊNCIAS

Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou a minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. "O amar os outros" é tão vasto que inclui até o perdão para mim mesma com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida . Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.
E nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que, foi esta que eu segui. Talvez porque para outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.
Quanto aos meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência, e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o vôo necessário, e eu ficarei sozinha: É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.
Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia.
Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse a minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.

Clarice Lispector




Leminski.

"O nascer do sol não dura toda manhã, o pôr do sol não dura toda noite... todas as coisas passam".
All things must pass – George Harrison







Calado, sério, o menos extrovertido dos Beatles sempre pareceu fora do contexto naquele terninho “beatleniano”. Nada de mais, nem de menos, nem melhor, nem pior, apenas diferente e essa foi sua marca.
Falar de data de nascimento é infinitamente melhor do que aniversário de morte e num dia 25 de fevereiro do ano de 1943 nascia George Harrison, “my sweet lord”.

Ele sobreviveu aos beatles, ao terninho, ao cabelinho (não resmunguem, eu posso falar, sou fanzaça) e seguiu rumo ao seu verdadeiro caminho aquele que aparecia nas entrelinhas, no modo introspectivo e observador, um enigma, disseram certa vez. Na verdade, ele era ligado nas coisas do mundo, no mundo real e não no efêmero mundinho das celebridades. Apesar de John ser considerado o “politizado” da turma, foi ele que se insurgiu contra os impostos altíssimos pagos para o “leão britanico” compondo Taxman.

Esse filho de motorista de ônibus de Liverpool teve seu destino mudado por vias transversas, com famoso passeio de Paul a um festival de verão. Lá Paul se impressionaria com uma banda de nome Quarrymen, cujo o líder interpretava canções de Eddie Cochran e Little Richard. O líder da tal bandinha também se impressionaria com Paul que “por acaso” trazia a guitarra consigo. Era sementinha do que no futuro se tornaria a banda mais famosa que Jesus Cristos, o Beatles.

George era o mais novinho, o que causou grandes problemas logo no início. Chegou a ser deportado pelas autoridades alemãs durante uma turnê. Mas os tempos eram outros e havia uma fidelidade, uma proteção em relação ao caçula do grupo. Ele foi, mas voltou selando seu destino.
O sucesso chegou de forma arrebatadora e o caçula, ora veja, logo ele, sacou que não era essa a “busca” .
Tempos mais tarde e muitas ressacas depois diria: "A princípio todos nós pensávamos que queríamos a fama e tudo mais", disse ele em 1988. "Pouco depois nós percebemos que a fama não era exatamente o que estávamos buscando, mas sim os frutos dela. Após a empolgação inicial ter passado, eu fiquei deprimido. Isto é tudo o que procuramos na vida? Sermos perseguidos por uma multidão de lunáticos de um quarto de hotel ruim para outro?"
O resto é história, os Beatles se separaram e a liberdade se abriu a sua frente. Agora poderia ser ele mesmo. Ele e suas canções, desde a belíssima Something (sempre erronêamente atribuída a John e Paul) até uma das minhas prediletas: "While my Guitar Gently Weeps".

O jeito calado, a pouca exposição na mídia passavam a falsa impressão de ter sido menos bem sucedido dos Beatles. Não foi, não era. George era feliz.

Feliz Aniversário, my sweet lord!

Leia: http://www.glssite.net/colunistas/barteldes/univ37.htm
http://www.nuxnet.com.br/harrison/biografia.htm


GRATIDÃO AOS LIVROS

"Ali estão eles esperando silenciosos. Comprimem-se, chamam e nada exigem. Estão calados, enconstados na parede.
Parecem dormir, no entando os seus nomes parecem olhares que nos fixam. O olhar, as mãos passam por eles, mas, não chamam suplicando, não se adiantam. Nada exigem. Esperando até serem abertos: só então eles se oferecem. Primeiro, silêncio em volta de nós, silêncio dentro de nós; estamos, então preparados para eles: uma noite ao voltarmos cansados de um passeio, uma tarde quando fatigados dos homens, uma manhã despertando atordoados por um pesadelo.
Podemos ter um diálogo e querer contudo estar sós. Aproximamo-nos da estante com o agradável presentimento de uma doce sensação: cem olhos, cem nomes, olham-nos paciente e mudamente à procura do olhar indagador, como escravas de um harem, para o senhor, aguardando humildes o chamado, e felizes ainda, se escolhidos, de serem úteis. Depois, o dedo como que tateia sobre o teclado para encotar o som da melodia que vibra intimamente: curva-se na mão o ser alvo e surdo, como violino guardado no qual dormem as vozes de Deus. Abrimos um deles, lemos uma linha, um verso: no momento, porém, não soa claro. Desiludidos, quase brutais, repomos o livro na estante. Nova busta até que encontramos o preciso, o próprio para o momento; de repente somos abraçados, sentimos uma respiração estranha, como se ao lado, prostrado pelo calor, estivesse o corpo de uma mulher. E, como o levamos para baixo de uma lâmpada, o livro, o feliz escoilhido brilha por igual com luz interior. A magia produziu-se, da nuvem
delicada dos sonhos ascende a fantasmagoria. As estradas se alargam e a distância acolhe os teus sentimentos apagados. Em qualquer parte bate um relógio. Este, porém, não urge nesse tempo que foge. As horas, aqui, passam de outro modo. Ali há livros que andaram muitos séculos antes que suas palavras chegassem aos nossos lábios; outros jovens, alí estão, nascidos ontem, gerador na confusão e necessidade de moços imberbes; falam, porém, uma língua mágica, e uns e outros agitam e aceleram a nossa respiração. Se irritam, também consolam; se enganam, acalmam ao mesmo tempo os sentidos abertos. E, à medida que mergulhamos neles, encontramos em sua melodia, calma e contemplação, abandonando enlevo, um mundo do outro lado do mundo. Como vos agradecer, a vós livros, os mais fiéis e silenciosos dos companheiros, os momentos puros passados longe do tumulto dos dias? como agradecer a vossa constante solicitude, eterna elevação e a infinita calma da vossa presença? Que vos acontece nos dias sombrios de solidão, nos hospitais e campos de batalha, nas prisões e nos leitos de dor! Sentinelas constantes em toda parte,
oferecestes sonhos aos homens e mãos cheia de calma na inquietação e no martírio! Podeis, sempre doces imans divinos, atrair as almas diariamente soterradas; tendes em vós mesmos um céu íntimo que estendeis sobre nós, novamente, nos momentos sombrios. Pequenos pedaços do incomensurável, fiscais ocultos em nossas casas, enfileirados na singela parece. Todavia a mão vos liberta se o coração vos toca, e então, saltais invisivelmente do lugar de todos os dias, e vossas palavras nos elevam como um carro de fogo, da estreiteza para a eternidade."

Stefan Zweig






Stefan Zweig tinha uma personalidade ciclotímica, era frágil, intuitivo e delicado. Oscilava entre recolhimentos prolongados a uma vida mundana. Talvez o isolamento, o ensimesmamento e o sentimento de perda irreparável de seu mundo acabaram por levá-lo ao suicídio. Afinal, ele tinha vindo para o Brasil fugindo da guerra, sentia-se perdido e fora do seu lugar. Junte-se a isso, o momento político do Brasil, do ponto de vista de Zweig, a situação era humilhante, havia uma forte censura sobre os meios de comunicação e uma desconfiança grande em relação a ele por parte dos meios intelectuais de esquerda simpatizante do comunismo. Para alguém que transitava pelo mundo como escritor internacional, chegar aqui e ser considerado apenas um refugiado, foi uma grande decepção.

Mesmo assim, Zweig tinha uma ligação de amor com o Brasil. Ainda que digam que seu livro "Brasil, o país do futuro" teria sido pago por Getúlio e feito portanto de encomenda, amigos e historiadores atestam o contrário. Zweig não era o tipo de escritor e mesmo de pessoa que necessitasse fazer algo assim, segundo eles.

O pacto de morte, o suicídio, o encontro do corpo junto ao da esposa gerou enorme surpresa entre amigos e seu próprio editor. Nada, nem o caráter depressivo dele denunciaram sua intenção. Os dois, que cometeram suicídio tomando um copo de veneno, foram encontrados abraçados na cama.
Apesar de Zweig ter fugido para o Brasil para escapar da perseguição nazista, continuava a sofrer pela Europa, continente que chamava de pátria. Na casa do escritor, foi encontrado um bilhete. “Deixo um adeus afetuoso a todos os meus amigos. Desejo que eles possam ver, ainda, a aurora que virá depois dessa longa noite. Eu, impaciente demais, vou antes disso”. Era um dia 23 de fevereiro de 1942, pleno Carnaval.

Zweig escreveu, entre outros livros: O Mundo que eu Vi e a novela A Partida de Xadrez, sendo que esta última foi escrita em apenas um mês e considerada por muitos críticos uma de suas melhores obras. Deixou três obras inacabadas: duas biografias, a de Balzac e a de Montaigne e um romance: Clarissa.



Leia: http://www.estado.estadao.com.br/jornal/suplem/zap/pcentral10/pc10b.html
http://www.tau.ac.il/eial/III_2/kestler.htm






"O amor nunca morre de morte natural. Morre porque nós não sabemos reabastecer sua fonte. Morre de cegueira e dos erros e das traições. Morre de doença e das feridas; morre de exaustão, das devastações, da falta de brilho"


Anais Nin


Em 21 de fevereiro de 1903, nascia Anais Nin e com ela a literatura erótica feminina anos depois ganharia tons mais fortes. Anais manteve sua escrita atravês de seus diários. Ali ela relatava tudo que lhe acontecia com riquezas de detalhes, despudoradamente. Foi ali que relatou o romance com Henry Miller que durou boa parte de sua vida.
Anais escrevia diários desde os 11 anos de idade e apesar de ter escrito outros livros, foram os diários que a tornaram conhecida. Diários, alias, que corriam de mão em mão sem qualquer censura da própria Anais. Na sua rodinha de amigos, escritores e intelectuais da época.
Sua maneira de escrever e consequentemente seus diários passaram uma imagem de mulher libertina, solta, livre. Somente em 1960, ela teve algum reconhecimento como escritora e terminou seus dias com os prêmios que lhe cabiam.



diário - I


Quero estar onde quer que você esteja. Deitada ao seu lado mesmo se você estiver dormindo. Henry, beije meus cílios, ponha seus dedos sobre minhas pálpebras. Morda minha orelha. Empurre meu cabelo para trás. Aprendi a desabotoar a sua roupa com rapidez. Tudo, em minha boca, chupando. Seus dedos. O calor. O frenesi. Nossos gritos de satisfação. Um para cada impacto do seu corpo contra o meu. Cada golpe, uma pontada de prazer. Perfurando numa espiral. O âmago tocado. O útero suga, para a frente e para trás, aberto, fechado. Os lábios adejando, línguas de cobra adejando. Ah, a ruptura - uma célula de sangue explodida de prazer. Dissolução.



Trecho do Diário de Anais Nin


diário - II


É o papel de Fred, inconscientemente, envenenar minha felicidade. Ele enfatiza as incongruências do amor de Henry. Eu não mereço um amor pela metade, diz ele. Mereço coisas extraordinárias. Mas o meio amor de Henry vale mais para mim do que todos os amores de mil homens.


Imaginei por um momento um mundo sem Henry. E jurei que no dia que perder Henry, eu matarei minha vulnerabilidade, minha capacidade para o verdadeiro amor, meus sentimentos, com a devassidão mais frenética. Depois de Henry não quero mais amor. Só foder, por um lado, e solidão e trabalho, por outro. Nada mais de mágoa.


Depois de não ver Henry por cinco dias por causa de mil obrigações, não pude suportar. Pedi a ele para se encontrar comigo durante uma hora entre dois compromissos. Conversamos por um momento, então fomos para um quarto do hotel mais próximo. Que necessidade profunda dele. Só quando estou em seus braços as coisas parecem direitas. Depois de uma hora com ele, pude continuar o meu dia, fazendo coisas que não quero fazer, vendo pessoas que não me interessam.


Um quarto de hotel, para mim, tem a implicação de voluptuosidade, furtiva, fugaz. Talvez o fato de não ver Henry tenha aumentado a minha fome. Eu me masturbo frequentemente, com luxúria, sem remorso ou repugnância. Pela primeira vez eu sei o que é comer. Ganhei dois quilos. Fico desesperadamente faminta, e a comida que como me dá um prazer duradouro. Nunca comi desta maneira profunda e carnal. Só tenho três desejos agora: comer, dormir e foder. Os cabarés me excitam. Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar-me em corpos, beber um Benedictine ardente. Belas mulheres e homens atraentes provocam desejos em mim. Quero dançar. Quero drogas. Quero conhecer pessoas perversas, ser íntima delas. Nunca olho para rostos inocentes. Quero morder a vida e ser despedaçada por ela. Henry não me dá tudo isso. Eu despertei o seu amor. Maldito seja o seu amor. Ele sabe foder como ninguém, mas eu quero mais que isso.
Eu vou para o inferno, para o inferno, para o inferno.
Selvagem, selvagem, selvagem.


Trecho do Diário de Anais Nin



Anais Nin - Belíssima, de personalidade marcante, a escritora Anais Nin (1903-1977) tem, em seus diários de confissões eróticas, a parte mais conhecida de sua obra. Nos oito volumes ela descreve problemas familiares, amores e sua relação triangular com o escritor americano Henry Miller e sua mulher, a bailarina June, vivida durante seu casamento com o banqueiro Hugh Guiller. Em suas obras também incorporou idéias tiradas de cartilhas feministas, que tentam fazer da mulher não apenas um objeto sexual, mas sim sujeito.



Leia mais: http://www.rapsodia.com.br/autores/inter/anais_nin.htm





O único livro que li de André Gide, foi Moedeiros Falsos. Faz muito tempo e não lembro da história com clareza, lembro somente de uma página, não só por tê-la transcrito, como pela beleza e intensidade do texto. Era uma carta, precisamente esta:



...

Ele parece não ter noção de seu poder. Para mim que penetro no segredo de meu coração, fica claro que até hoje não escrevi uma só linha que ele não tenha inspirado. Não vejo nada, não ouço nada, sem imediatamente pensar: O que diria ele?
Abandono minha emoção e conheço apenas a sua. Parece-me mesmo que, se ele não estivesse aqui para me definir, minha própria personalidade se desfaria em contornos vagos; não me reúno nem me defino, senão em torno dele. Por qual ilusão pude acreditar até hoje que o formava a minha semelhança ? Ao passo que, ao contrário, era eu quem me dobrava à sua, e não me apercebia ! Ou melhor: por um estranho cruzamento de influências amorosas, nossos dois seres, reciprocamente, se deformavam. Involuntariamente, inconscientemente, cada um de dois seres que se amam molda àquele ídolo que contempla no coração do outro...


Andre Gide - livro Moedeiros Falsos



Gide teve uma vida reprimida por uma mãe absurdamente puritana e reprimida, que fez dele um homem que trazia dentro de si uma revolta surda, uma ânsia de liberdade que só encontro na literatura.
Nos seus livros o caráter reprimido pertence sempre às personagens femininas elas detêm a moral em suas mãos. À figura masculina pertence os prazeres, a liberdade, poesia e luxúria.

Na vida real Gide reproduz o seu pensamento. Casa-se com uma prima com quem mantém um casamento imaculado. Homossexual assumido vai em busca dos prazeres reprimidos sem qualquer pudor. Sua esposa é alçada a figura de santa, tal qual sua mãe.


Certamente Gide tem uma obra consistente que merece ser lida com atenção, mas não com olhos moralistas. Gide é para aqueles que sabem que uma pergunta pode ter diversas respostas.


andrea augusto©angelblue83



André Gide nasceu em l869 e faleceu num dia 19 de fevereiro de 1951, foi a vida inteira um ser dividido entre a ética e a estética, as dimensões apolínea e dionisíaca da existência. De origens aristocráticas e rígida formação protestante, homossexual declarado, inclinado ao isolamento, participou intensamente da vida intelectual francesa, criticou acidamente o colonialismo e preocupou-se com a questão social, tendo mesmo flertado com o comunismo durante alguns anos.

Seus primeiros livros, de estética simbolista, refletem as preocupações morais que nunca o abandonaram. Os frutos da terra, de 1897, mostram um outro André Gide, sensual, hedonista, entregue à celebração dos prazeres carnais. Paludes, escrito em 1895, fina sátira do meio parisiense de então, em certo sentido já o anuncia. Foi escrito em plena crise espiritual, por um Gide ainda preso aos laços familiares, sociais e religiosos com os quais posteriormente romperia para anunciar o reinado do ato puro", feito apenas por simples prazer pelo homem" disponível". Este livro é justamente um relato dessa dolorosa transição, narrado por um jovem ainda sem certeza do rumo a seguir, mas já senhor da escrita neoclássica e do amor à verdade que lhe valeriam o Prêmio Nobel de 1947.



Leia: http://www.vidaslusofonas.pt/andre_gide.htm
http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2002/06/29/cad028.html








Hoje começa mais uma novela do Manuel Carlos. Ok. Pode até ser papo abobrinha, mas eu gosto muito desse autor de novelas. Não tenho visto nenhuma novela há tempos, mas por essa eu espero com a certeza de que vai ser muito boa, como todas que ele escreveu.

Manuel Carlos tem um jeito todo especial de falar de amor, ou melhor de mulher. Ele entende bem a alma feminina. Em tempo, opinião minha, acho e sinto assim. Não tem o realismo fantástico das novelas da Glória Perez, pelo contrário costuma ser tão simples e talvez por isso mesmo dá tão certo.

Foi pensando no tema que resolvi reler Roland Barthes. Não tenho nenhum livro dele, pelo contrário tudo que eu tenho são fragmentos de sua obra, o mesmo Fragmentos de um Discurso Amoroso que foi e é um de seus livros mais famoso.

Cabe dizer que Barthes foi mais do que um escritor de um livro sobre paixões, para falar de modo resumidíssimo e simplista. Barthes foi crítico literário, semiólogo, ensaísta, sociólogo e filósofo. Um homem versátil que chegou ao meio acadêmico por caminhos transversais.


"Em uma "lição inaugural", no dia 7 de janeiro de 1977, Barthes fala do caráter pouco convencional de sua obra e manifesta o espanto por estar sendo aceito num meio onde "reinam a ciência, o saber, o rigor e a invenção disciplinada". Ele se descreve como alguém impuro e incerto, mas toda essa modéstia não esconde o óbvio: é justamente a "incerteza" e a abertura para o novo que constituem o diferencial e o valor de Barthes."


Teve uma vida rica literariamente e mesmo quando acusado de ser um tanto "volúvel" ideologicamente, por se interessar por diversos temas, a verdade é que esse ecletismo escondia sua proposta de não se prender a um único método de análise. Enfim, vamos ao que interessa, o Discurso Amoroso.




Sobre ele, Barthes escreveu:



"A necessidade deste livro está contida na seguinte consideração: o discurso amoroso é hoje em dia de uma extrema solidão. Este discurso é talvez falado por milhares de pessoas, mas não é defendido por ninguém." (R. B.)


Fragmentos dos Discurso Amoroso ou quem não viu esse filme antes?


Parceiros que se relacionam como se fossem uma só pessoa podem tirar do "não", contido na ruptura da relação, a experiência definitiva que Roland Barthes tão bem expressa: "ele diz uma palavra diferente (que pode ser o "não") e ouço rugir de um modo ameaçador todo um outro mundo, que é o mundo do outro". A frase de Barthes revela uma obviedade negada: "Eu não sou você, eu sou outra pessoa, eu existo com o meu desejo e o meu desejo não mais se dirige a você."









"A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contato: de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é: "eu te desejo", e libera-lo, alimenta-lo, ramifica-lo, fazê-lo explodir ( a linguagem goza de tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação."




O autor empresta aqui ao sujeito apaixonado a sua "cultura", em troca o sujeito apaixonado lhe passa a inocência do seu imaginário, indiferente aos bons costumes do saber.



Assim sendo é um enamorado que fala e que diz:



AUSÊNCIA: Todo episódio de linguagem que põe em cena a ausência do objeto amado - quaisquer que sejam a causa e a duração - e tende a transformar essa ausência em prova de abandono.


1. Grande quantidade de lieder1, de melodias, de canções sobre a ausência amorosa. E, no entanto, não se encontra essa figura clássica, no Werther. A razão é simples: lá, o objeto amado (Charlotte) não se movimenta; é o sujeito apaixonado (Werther) que, em determinado momento, se afasta. Ora, só há ausência do outro: é o outro que parte, sou eu que fico. O outro vive em eterno estado de partida, de viagem; ele é, por vocação, migrador, quanto a mim que amo, sou por vocação inversa, sedentário, imóvel, disponível, à espera, fincado no lugar, não resgatado como um embrulho num canto qualquer da estação. A ausência amorosa só tem um sentido, e só pode ser dita a partir de quem fica - e não de quem parte: eu, sempre presente, só se constitui diante de você, sempre ausente. Dizer a ausência é, de início, estabelecer que o sujeito e o outro não podem trocar de lugar, é dizer: "Sou menos amado do que amo."




[...]


"Eu sou odioso."

MONSTRUOSO: O sujeito se dá conta bruscamente que ele envolve o objeto amado numa rede de tiranias: ele se sente passar de miserável a monstruoso.





2. O discurso amoroso sufoca o outro, que não encontra lugar algum para sua própria fala nesse dizer maciço. Não é que eu o impeça de falar, mas sei como fazer deslizar os pronomes: 'Eu falo e você me ouve, logo nós somos' (Ponge). Às vezes, com terror, me conscientizo dessa inversão: eu, que me acreditava puro sujeito (sujeito submisso: frágil, delicado, miserável), me vejo transformado em coisa obtusa, que avança cegamente, que esmaga tudo sob seu discurso: eu que amo, sou indesejável, faço parte do rol dos importunos: aqueles que pesam, atrapalham, abusam, complicam, pedem, intimidam (ou apenas simplesmente: aqueles que falam). Me enganei, monumentalmente.

(O outro fica desfigurado pelo seu mutismo, como nesses sonhos terríveis onde certa pessoa amada aparece com a parte inferior do rosto inteiramente apagada, sem boca; e eu que falo, também fico desfigurado: o solilóquio faz de mim um monstro, uma língua enorme.)"




[...]

frustração teria por figura a Presença (vejo o outro todo dia, mas isso não me satisfaz: o objeto está lá, na realidade, mas continua a me fazer falta imaginariamente). Quanto à castração, teria por figura a Intermitência (aceito deixar um pouco o outro "sem chorar, assumo o luto da relação, sei esquecer). A ausência é a figura da privação; desejo e preciso ao mesmo tempo. O desejo se abate sobre a carência: aí está o fato obsedante do sentimento amoroso. ("O desejo aí está, ardente, eterno: mas Deus está acima dele, e os braços erguidos do Desejo não atingem nunca a plenitude adorada." O discurso da Ausência é um texto de dois ideogramas: há os braços erguidos do Desejo, e há os braços estendidos da Carência. Oscilo, vacilo entre a imagem pálida dos braços erguidos e a imagem acolhedora e infantil dos braços estendidos.)

Me instalo sozinho, num café; as pessoas vêm me cumprimentar; me sinto rodeado, solicitado, lisonjeado. Mas o outro está ausente; eu o convoco em mim mesmo para que ele me mantenha à margem dessa amabilidade mundana, que me espia. Apelo para a sua "verdade" (a verdade cuja sensação ele me dá) contra a histeria da sedução onde sinto que escorrego. Torno a ausência do outro responsável pelo meu mundanismo; invoco sua proteção, sua volta: que o outro apareça, que me retire, como uma mãe que vem buscar seu filho, do brilho mundano, da fatuidade social, que ele me devolva "a intimidade religiosa, a gravidade" do mundo amoroso. (X...me dizia que o amor o tinha protegido do mundanismo: associações, ambições, promoções, conspirações, alianças, secessões, funções, poderes: o amor tinha feito dele um detrito social, e ele se regozijava disso.)


Roland Barthes




Esse tema é recorrente na literatura. Acredito que nunca se falou tanto sobre os desencontros amorosos como nos tempos de hoje. Vivemos no dia-a-dia, encontramos em livros e assistimos em filmes. Muitas perguntas e nenhuma resposta que dê solução ao caso e talvez resida aí o grande barato, a busca, o caminho. Se vamos chegar, se vamos encontrar nossos sonhos ou melhor o que de real podemos encontrar no que sonhamos, é só um detalhe, por ora, só nos resta seguir...




Leia: http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2000/10/01/cad866.html







Embalos de Sábado a noite ou Caveira de burro, você ainda vai ter uma!


Pois é, a saga continua, a tal caveira de burro ainda não achei e pra quem acompanha, temos um novo e empolgante capítulo da novela: Essa vida meio má ô meno anda martratando eu dimais da conta, sô.



Madrugada de quinta para sexta - 00:45 - A FOME

Tudo tranquilo, silêncio na madrugada, eu trabalhava, até que o estômago deu sinais de vida. Normal, um furto na geladeira e tudo estaria resolvido, se fosse com outra pessoa, comigo a coisa foi mais complicada.
Fui para a cozinha e dei de cara com anteninhas, ou melhor antenonas, nem quis ver o resto do corpinho dela, sai correndo de volta para o quarto. Morta de fome, fiquei meditando sobre o benefício terapêutico das baratas num spa, talvez fossem a solução para o assalto noturno a geladeiras. Era só deixá-las nos lugares tentadores e nenhuma mulher ousaria matá-las para atacar a geladeira, eu pelo menos, não. Fui dormir com o estomago rosnando como um pitbull ensandecido.



Sexta-feira - 10:35 da matina - Um dia aparentemente normal.


Meu pitbull interno me acordou rosnando de fome. Fui comer e comentei com mamy blue sobre as antenas. Ela não levou em consideração, sempre acha que esse negócio de "barata pra mais de metro" é exagero meu. Mal sabia ela onde acabaríamos na madrugada de sexta para sábado. O dia correu e a noite chegou. Mais uma vez entrei pela noite adiantando o que fosse possível, teoricamente segunda-feira, com olho ou sem olho volto a trabalhar em dupla jornada. De dia fora, de noite dentro (de casa).



Madrugada de sexta para sábado - 01:48 - A volta da antenas.

Pois é, nova madrugada, trabalho e fome outra vez. Nem me lembrava mais da antenas até me deparar com atenas, corpo e membros. Ela estava lá, gigantesca, se fosse um apartamento seria algo como: sala, 4 quartos, varanda, dependência de empregada e 4 vagas na garagem. Sentiram, meninas? Acho que só mulher sabe o que é isso.
Preciso dizer que soltei a soprano que existe em mim? Em tempo, literatus é cultura:


Soprano: É a voz mais aguda por parte das mulheres. Muitas óperas tem o nome da própria soprano como título (Ex.: Tosca, Madame Butterfly, Manon Lescaut, Turandot...). Segundo alguns amantes da Ópera, existem dois tipos de sopranos: aquelas no qual o timbre de sua voz, de tão melodiosa e suave, confunde-se com a própria música da orquestra, e aquelas que são tão soltas, fortes e indomáveis que acabam por levar a platéia ao delírio, em interpretações que se tornam históricas (este era o caso de Maria Callas).


Confesso que fui uma Maria Callas como poucas. Com o grito, mamy blue veio correndo completamente grogue ver quem estava me esquartejando, porque com um grito daqueles, só uma explicação como essa para justificar, foi ai que aconteceu...



Sexta - 02:21 da madrugada - 9 pontos depois.

Enquanto eu entoava minha ária em plena Ópera desesperada, mamy blue já em perseguição a barata, escorregou e deu com a cabeça na quina da mesa do computador. Obviamente eu estava do outro lado da casa em plena fuga da barata e só escutei: ai machuquei a cabeça. Até aí pensei que fosse um galo, mas quando a vi com o rosto ensanguentado quase cai pra trás de susto.
Antes de cair fui olhar o estrago e vi um "beiço" aberto na cabeça dela. Nada a fazer senão correr para o hospital. Lá fomos nós para o Barra D'Or (pelo andar da carruagem, vou ganhar carteirinha de sócia de lá em pouco tempo, viu?). Chegando lá, pressão a mil e mamy blue tranquilona contando o acidente na emergência e eu tentando puxá-la para o médico ver de uma vez o que tinha acontecido, mais um pouco contando o "causo", além dos pontos, ela ia precisar de uma transfusão de sangue, né?


O médico veio, limpou, foi explicando tudo que faria, da anestesia aos pontos e eu me segurando para não pagar o mico de desmaiar lá. Nove pontos depois, catei mamy blue pelo braço e carreguei para casa.



4:43 - adrenalina, filosofia e onde é que esta essa maldita caveira de burro, meu Padim Padê Ciço do céu??

Pois é, fiquei pensando nisso tudo, no conjunto da obra. Certamente não é normal passar por tantas há mais de um ano. Talvez seja um teste, ou melhor uma prova. Uma grande e longa prova chamada vida e se o Homi lá de cima acha que é assim que deve ser, vambora que atrás vem gente. Como diz o ditado musical: "Não há de serenata, dias melhores violão."





No mais obrigada aos amigos pela força de sempre, o carinho constante. Obrigada pelos comentários no post abaixo, ele sumiu daqui, mas eu li lá no haloscan. Vcs são demais mesmo, não sei o que seria de mim sem vcs, sem o pessoal da lista de poesia, amigos virtuais e reais sempre tão presentes. Óbvio que a situação é pesada, mas eu acredito em anjos. Meus anjos são bem reais, têm nome, endereço e até blog. Aparecem sempre quando menos espero e sempre quando chamo por eles, por isso, com todas as árvores que cairam, com telhas quebradas, gente ferida, dificuldades de toda ordem, escuridão e pontos, sigo em frente, um dia isso passa e a gente combina um chopinho pra comemorar.












Esse "carioca" de Montevidéu, nos deixou num dia 14 de fevereiro do ano de 1996. Redundante dizer que ficamos poéticamente mais pobres. Ficamos, é fato.
Taiguara sofreu o estigma babaca de ser considerado baladista romântico, coisas da mídia que enquadra os artistas a seu bel prazer em rótulos pré-fabricados, mas ele não foi apenas um poeta de baladas românticas,sim (por quê, não?). Dentro da sua obra, o amor não é apenas o romântico, Taiguara falou, cantou em suas letras, o amor pela humanidade, característica de um adepto do socialismo. Fez experimentações nos mais variados ritmos, com influências latinas e até africanas.






Foi um resistente obstinado contra a ditadura militar. Para quem o considerava um romântico, como se isso pudesse minimizar a obra de alguém, nos deixou músicas inesquecíveis dessa luta contra os desmandos dos
coronéis da época.




"Que as crianças cantem livres"

"Vê como um fogo brando funde um ferro duro
Vê como o asfalto é teu jardim se você crê
Que há um sol nascente avermelhando o céu escuro
Chamando os homens pro seu tempo de viver".

Taiguara - 1973


Em tempos de guerra iminente, ele já pedia pela Paz, esse sonho humano que o poder concentrado nas mãos de um louco nos faz mais distantes, escreveu:



PELA PAZ MUNDIAL

Qual o coração, humano,

Que não erra?

— O que diz: Não,

aos tiranos. Não,

à Guerra.

E qual a paixão que não finda?

Que nem cansa?...

— A que diz: sim.

Tenho ainda esperança.



Taiguara nos deixou cedo demais, tinha apenas 51 anos, quando um cancer o levou. Mas ainda temos a voz marcante, o canto apaixonado, romântico, atuante dentro do seu tempo. Sempre lutando pelas causas que tomou para si. A nós cabe a tarefa de lembrar sempre, não deixar morrer nunca e calar jamais, a voz desse uruguaio, tão nosso.


Valeu Taiguara, Teu Sonho Não Acabou:

Hoje a minha pele já não tem cor
Vivo a minha vida seja onde for
Hoje entrei na dança e não vou sair
Vem que eu sou criança, não sei fingir
Eu preciso, eu preciso de você
Ah! eu preciso, eu preciso, eu preciso muito de você ...



Uruguaio de Montevidéu, veio para o Brasil com 4 anos de idade, morando primeiro no Rio e mais tarde em São Paulo. Na universidade, participou de festivais, época em que começou a compor. Abandonou a faculdade e ingressou como cantor no Sambalanço Trio. Na década de 60 fez carreira em festivais, tendo se firmado como compositor de baladas até meados dos anos 70, quando passou a se dedicar a outros experimentalismos, trabalhando ao lado de Hermeto Pascoal. Durante a ditadura militar, teve problemas com a censura, creditando a autoria de algumas de suas músicas a sua mulher para conseguir liberação das faixas. Tendo morado em diferentes países (Brasil, Inglaterra, Etiópia, França, Tanzânia), a música de Taiguara assimilou diversas influências. Nos anos 80 voltou-se para a música latino-americana, gravando guarânias paraguaias e outros ritmos latinos. Também pesquisou a música africana para lançar "Brasil Afri" em 1994. Alguns de seus sucessos são "Hoje", "Universo do Teu Corpo", "Viagem".



Leia: http://cliquemusic.uol.com.br/br/Artistas/artistas.asp?Status=ARTISTA&nu_artista=556&xbio=1
http://cf2.uol.com.br/encmusical/listaverbete.asp?code=2370




A primeira vez que li sobre Lou-Andreas Salomé foi atravês de Rilke, Nietz e Freud. Estranho uma mulher ser o elo de ligação entre homens famosos pelas suas indiscutíveis qualidades e talentos, pensei. Depois descobri o por quê do fascinío que Lou exercia sobre os homens. Não era somente sua beleza delicada, era muito mais do que isso e só podia ser mesmo. Naquele tempo as mulheres eram criadas para a perfeição, verdadeiras bonequinhas que com a ajuda da natureza ou não, tinham cada uma a seu estilo meios de conseguir seu pretendente. Mas Lou ia além e o fascínio dela estava justamente num grande diferencial, ela não possuia a beleza vazia de uma boneca, ela era uma intelectual, culta, viva, escrevia com desenvoltura e estava sempre pronta para uma discussão no mesmo nível dos mestres já citados. Ora, imagine isso aliado a beleza? Impossível resistir. Mas vamos a ela ou melhor a um pouco da sua história.



Lou nasceu na Rússia, no dia 12 de Fevereiro de 1861 em S. Petersburgo, de pais alemães e foi a sexta criança e a primeira mulher da família. O pai, Gustav von Salomé, era um general do exército russo dependente dos Romanov.
Enquanto criança, Lou foi descrita como rebelde e inconvencional, embora fosse a preferida do pai. A sua mãe Louise Wilm pertencia a uma próspera família cujo negócio era a exploração e manufaturação de açúcar. As relações entre as duas não foram as melhores e existiu sempre uma enorme tensão.


Mudou-se para Roma quando completou 21 anos de idade, para estudar com Nietzche. Embora o considerasse um dos mais brilhantes pensadores de sempre, ela era demasiado independente para aceitar a proposta de casamento de Nietzche, cujos ciúmes dela contribuíram para o progressivo processo de loucura que o levou à morte.





Em 1887, com 26 anos, aceitou casar com Friedreich Carl Andreas (41 anos), uma união que durou 43 anos. O casamento, ao invés de lhe retirar a liberdade, como era costume na época, permitiu-lhe continuar a escrever ficção e a viajar onde a sua curiosidade intelectual a impelia. Alguns dos historiadores que se debruçaram sobre a sua vida comentam mesmo que este casamento nunca teria sido consumado.


Lou viria a conhecer Rilke em Munique, no ano de 1897, mantendo com o poeta um caso amoroso, até que a dependência de Rilke por ela a levou a partir de novo. Rilke sofreria muito com a separação.


A produção literária de Lou esteve sempre muito ligada aos seus envolvimentos amorosos e da relação com Rilke, aos 36 anos, resultaram obras fundamentais da escritora como "A humanidade da mulher" e "Reflexões sobre o problema do amor".

Durante o ano de 1911, conheceu Freud, o fundador da psicanálise e depressa ficou fascinada por ele e pelo seu trabalho, com o qual colaborou. Escreveu diversos artigos sobre o assunto que foram publicados em jornais da especialidade e estabeleceu uma clínica psiquiátrica que alcançou razoável êxito na Alemanha. Em 1931 publicou ‘A minha gratidão a Freud’ em homenagem ao seu mestre.


A chegada ao poder dos nazis em 1930 foi uma ameaça para ela, porque estes consideravam a psicanálise como uma ‘ciência judaica’ e apontavam para a sua eliminação. Nessa altura, Lou estava doente e não podia deixar o país. Acabou por morrer em 1937, apenas um mês antes de completar 76 anos. Dias depois da sua morte, os nazis confiscaram toda a sua obra e documentos pessoais. Ao todo, Lou escreveu 20 livros e mais de 100 ensaios e artigos.



Um pouco do pensamento de Lou Andreas-Salomé, seus escritos, sua vida, suas paixões:



A paixão de Lou pela vida transparecia em seu próprio físico. Freud lhe escreveu um dia: "você tem um olhar como se fosse Natal". E a escritora Helena Klinkberg (citado por Peters): "O sol se levantava quando Lou entrava numa sala". Era um ser luminoso, transparente e lúcido.


Essa paixão pela vida, ela a transmitia aos outros, fazendo com que as pessoas ao seu contato desenvolvessem e dessem o melhor delas próprias. O que fez alguém escrever: "Quando Lou se interessa apaixonadamente por um homem, nove meses depois este homem dá à luz um livro". Um interesse pelo outro que o leva a crescer e produzir - mesmo quando esse crescimento e essa produção implicam o sofrimento.


Pois Lou Andreas-Salomé conseguiu realizar, em seus 76 anos de vida, o que nós todos gostaríamos e deveríamos fazer sempre - e não o fazemos por descaso, indolência, medo: tornar a vida o exercício apaixonada de uma busca. Sua exploração em todos os possíveis. Isto que requer a fruição intensa e incessante de coisas e pessoas que nos cercam, de modo que o mundo exterior em nós penetre e a nós se incorpore. Pois a vida, como o dizia Rainer Maria Rilke a propósito de Rodin, "está nas pequenas coisas como nas grandes: no que é apenas visível e no que é imenso".


Antes mesmo do seu encontro com Rilke, Louise von Salomé já intuía essa verdade: desde muito cedo encontramos nela um grande apetite de aprender e de amar - e o objeto de sua atenção podia ser a psicanálise, a curtição de uma paisagem, de uma flor, de um esquilo na floresta ou de um corpo amado.


(.....) Lou escreveu vários ensaios sobre o Erotismo. O primeiro deles data de sua ligação com Rilke. Intitulado reflexões sobre o problema do amor, traz as evidentes marcas da embriaguez física e espiritual que sua autora estava vivendo. Aqui ela assinala, em páginas de um admirável lirismo, a capacidade que tem a paixão amorosa de nos abrir o caminho ao sentimento da totalidade da vida e sua faculdade de nos colocar em estado criativo. O ato amoroso "nos enche a alma inteira (...) de ilusões e de idealizações espirituais, forçando-nos o mesmo tempo a nos chocar brutalmente, sem possibilidade de se esquivar, ao dispensador de uma tal desordem; ao corpo". E Lou escreve:


"Pois, sobretudo, resulta no indivíduo uma espécie de interação ébria e exuberante das mais altas energias criadoras do seu corpo e a exaltação mais alta da alma. Enquanto nossa consciência se interessa vagamente, habitualmente, por nossa vida psíquica, como por um mundo que conhecemos mal e que controlamos ainda pior, que ao que parece forma um com ela, mas com o qual normalmente ela se entende mal - eis que se produz subitamente entre eles uma tal comunhão de enervação que todos os seus desejos, todas as suas aspirações se inflamam ao mesmo tempo."


Por essa exaltação da alma através dos sentidos, por essa impressão que o ato amoroso nos dá de haver ido muito longe, e tocado o indizível, é que ele pode influenciar e favorecer a criação, a "pátria do dizível", como escreveu Rilke. E Lou: "O Mundo da criação e do amor significa: volta ao país natal, entrada no paraíso; o a impossibilidade de criar, ou do amor morto, é, ao contrário, um exílio onde os deuses nos abandonam".


A atividade criadora se apaixona por tudo aquilo que é vida em nós, que é indício do que em nós lateja de mais secreto, e que atinge as raízes do ser. O espírito descobre forças que não possuía ou das quais não se apercebia. Pode voltar àquele estado de inocência primeira que possuiu na infância, redescobre a "novidade" das coisas, com o frescor de uma sensação primitiva: o olhar da criança sobre o mundo que descobre maravilhada; o olhar de Adão diante de Eva recém-saída de si.


Confrontado com os seus longes, o amado vê a si mesmo, e ao mundo exterior, como algo recém-criado. Por isso, às vezes a gente sai do amor como quem saiu de uma catedral, redescobrindo o mundo aqui fora com os olhos renovados. O ato amoroso, vivido em plenitude, obriga os amantes a concentrar em si mesmos tudo aquilo de que são capazes, passível de germinar com a força das plantas na primavera.


O ato amoroso transforma o parceiro num "conto estranho e maravilhoso". A Paixão amorosa é uma porta, diferente de todas as outras portas, "em sua arquitetura ornada de elementos ricos de sentido, em virtude de um simbolismo singular". É o caminho por excelência que nos leva a nós mesmos. Por ela "nós não somos um mundo de realidade, somos apenas o espaço e o metteur en scène de um mundo onírico, todo-poderoso, irresistível".


Assim, o amor durará enquanto os amantes forem capazes de oferecer ao outro essa entrega, que dá acesso de modo vital à capacidade de se concentrar neles mesmos, de ser um mundo para si por causa do outro.


A esta altura, a gente poderia se perguntar - não seria esta uma visão demasiado idealizada do amor? Mas Lou não se deixa embalar incondicionalmente pelo êxtase da paixão: esta grande amorosa foi também, segundo a expressão de Freud, uma "compreendedora".


Neste mesmo ensaio, ela nos lembra que no êxtase amoroso, por mais que desejemos nossa fusão com o amado, sempre somos, em última análise, remetidos a nós mesmos. A reconciliação que se fará aqui será sobretudo entre o sujeito e ele próprio, através do outro, mais do que entre o sujeito e o objeto amado.


Num ensaio sobre o erotismo, datado de 1910, e num ensaio posterior, quando Lou já se engajara definitivamente à psicanálise, intitulado Anal e Sexual, ela nos lembra que na união física "a gente não possui um ao outro por meio do corpo, mas apesar do corpo, que, como todo mundo sabe, não se identifica jamais (...) completamente com o todo da pessoa, mas aparece sempre como uma parte dela e resiste à dominação mais viva".


(....) A fusão inteira do nosso ser com o outro, por mais querido que seja, não seria desejável. É preciso que sejamos cada vez mais nós mesmos, para poder ser um mundo para o outro. A relação erótica, remetendo-nos a nós próprios, é uma ocasião de constante renovação: cada vez ela inaugura em nós um ser novo; como um ato de linguagem, cada vez que eu falo a um Tu, é um Eu diferente que fala a um novo Tu: quando digo Eu, já não sou aquela que falava há pouco. A relação erótica é, assim, nela mesma, criação. E o amor um elemento de produção: somos a cada instante outros, encontramos no outro cada vez um elemento novo, diferente, desconhecido, misterioso até - o que dá à relação erótica sua riqueza.


E Lou analisa esta necessidade de renovação e da existência do mistério na relação amorosa:


"Pois, nos seio mesmo da paixão, nunca se deve tratar de "conhecer perfeitamente o outro": por mais que progridam neste conhecimento, a paixão restabelece constantemente entre os dois este contato fecundo que não pode se comparar a nenhuma relação de simpatia e os coloca de novo em sua relação original: a violência do espanto que cada um deles produz sobre o outro e que põe limites a toda tentativa de apreender objetivamente este parceiro. É terrível de dizer, mas , no fundo, o amante não está querendo saber "quem é" em realidade seu parceiro. Estouvado em seu egoísmo, ele se contenta de saber que o outro lhe faz um bem incompreensível... os amantes permanecem um para o outro, em última análise, um mistério."


Assim, o amor não seria um encontro, mas uma busca. Não quer dizer que chegamos, mas que estamos próximos.


Rilke perguntava-se na Primeira elegia de Duíno: "Não é tempo daqueles que amam libertar-se do objeto amado e superá-los, frementes? Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo mais do que ela mesma". E nas cartas a um jovem poeta, em maio de 1904:


"Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento, cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. (...) O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo por si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser: é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe."



Se o amor é uma busca, se o estudo é uma busca, a arte uma busca, a vida inteira é também busca. E o amor e a paixão são a mola dessa busca.
É preciso buscar com amor, com paixão. Amar a vida, amá-la mesmo e sobretudo quando ela chega ao fim, e o espírito e o corpo vêem limitados seu campo de ação. Nos Cadernos íntimos dos últimos anos, Lou Andreas-Salomé dá um balanço de sua vida. Em fevereiro de 1934, isto é, três anos antes de morrer, ela escreve:


"Distingue-se entre os humanos aqueles que se sentem divididos em um passado e um futuro e aqueles que vivem o presente com cada vez mais densidade, sempre mais plenitude. Os orientais acham natural insistir menos sobre a morte do que se passa do que sobre a perfeição do que se acaba, como aprofundamento da realidade. Nós, ao contrário, começamos a ver aquilo que nos chega, apenas sob o aspecto sempre mais sinistro da morte - como tudo o que se observa de um olhar exterior, logo mortífero."


É preciso amar a vida em todas as suas fases e amar até mesmo a morte. Aqui Eros e Thanatos se dão as mãos - são forças complementares e não contrárias. A morte é a redenção da vida individual, escreve Lou num artigo sobre o misticismo russo. Nossa morte não nos separa dos seres que amamos; ela nos entrega de modo mais completo a eles:


No dia em que eu estiver no meu leito de morte

Faísca que se apagou -,
Acaricia ainda uma vez meus cabelos
Com tua mão bem-amada
Antes que devolvam à terra
O que deve voltar à terra,
Pousa sobre minha boca que amaste
Ainda um beijo.
Mas não esqueças: no esquife estrangeiro
Eu só repouso em aparência
Porque em ti minha vida se refugiou
E agora sou toda tua [Hino à morte]


A morte desfaz, assim, a distância entre os amantes, que agora vivem um no outro, sem que o individualismo os separe. A morte não é uma partida, uma volta: um retorno do indivíduo àquela união primitiva com as cosias. Por isso não a devemos temer.


A grande biografia de Lou Salomé ainda não foi escrita. Mas, pelo que dela nos resta, fica uma lição final de amor pela vida, de paixão pela vida, de totalização da vida. Por isso Lou desejou ser cremada e que suas cinzas fossem jogadas no jardim de sua casa, em Gottingen: para que seu corpo pudesse se incorporar à terra e ser transformado em planta e flor.


http://www.cefetsp.br/edu/eso/paixaolouandreassalome.html


Well, deu para entender o por quê de inspirar tanta paixão? Pois é, esse é só um pedacinho da vida dessa grande mulher. Recomendo que comprem o livro, "ouçam o disco, vejam o filme", qualquer coisa que venha de Lou jamais passará por nós impunimente, acreditem.




Leia: http://www.mulherportuguesa.com/index.cfm?Categoria=19&UltimaLinha=12




A primeira vez que li esse poema de Brecht, arranquei a folha do livro, coisa impensável para quem trazia para casa todo lixo da Biblioteca em que trabalhava. Bastava dar baixa num livro, que entre rasgar e jogar fora, eu preferia trazer pra casa. Até pouco tempo tinha livro de álgebra em alemão por aqui, rsss

Adoro esse poema porque fala de uma curiosidade que sempre tive, o que há por trás de tudo. As histórias que permeiam vidas, como se chegou ali, como e "Quem construiu a Tebas das sete portas?" Por isso gostei de saber que não era única que tinha curiosidades esdrúxulas. Aí esta na íntegra:



QUEM FAZ A HISTÓRIA

Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros constam os nomes dos reis.
Os reis arrastaram os blocos de pedra?
E a Babilônia tantas vezes destruída
Quem ergueu outras tantas?
Em que casas da Lima radiante de ouro
Moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros
Na noite em que ficou pronta a Muralha da China?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os levantou?
Sobre quem triunfaram os Césares?
A decantada Bizâncio só tinha palácios
Para seus habitantes?
Mesmo na legendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engoliu,
Os que se afogavam gritaram por seus escravos.
O jovem Alexandre consquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os gauleses,
Não tinha pelo menos um cozinheiro consigo?
Felipe de Espanha chorou quando sua armada naufragou.
Ninguém mais chorou?
Fredrico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?


Uma vitória a cada página.
Quem cozinhava os banquetes da vitória?


Um grande homem a cada dez anos.
Quem pagava as despesas?


Tantos relatos.
Tantas perguntas.


Bertolt Brecht
(1898-1956)



Mas Brecht nascido em 10 de fevereiro de 1898, em Augsburg, Baviera, tem obra rica e extensa. Odiava a escola e seus métodos de ensino reacionários da época, aquela liberdade vigiada unida a uma série de dogmas estúpidos, só serviram para aguçar a sede de mundo do jovem Brecht. Daí a criatividade de sua obra. Ele sempre foi muitíssimo murelhengo, chegava a ter três ou quatro amantes. O homem era fogo, tem poemas, digamos, picantes. Quem se interessar pode ler aqui. Dá para ter uma idéia da animação do rapaz.

A produção teatral de Brecht é abundante. No conjunto das suas obras tenta lançar um olhar lúcido sobre o mundo moderno. Na Ópera de Três Vinténs dirige o seu olhar crítico para a organização social. Na intenção de actualizar o teatro épico, escreve uma série de obras em que recorre às canções e aos cartazes explicativos: Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny, Santa Joana dos Matadores, O Terror e a Miséria no Terceiro Reich, Der Aufhaltsame Aufstieg des Arturo Ui. Em O Senhor Puntila e o Seu Criado Matti e em A Boa Alma de Sé-Chuão recorre às parábolas do teatro oriental. Em Vida de Galileu, obra que não deixa de aperfeiçoar desde a sua primeira redacção, Brecht centra-se no papel e na responsabilidade do intelectual.

Bertolt Brecht era, além de dramaturgo, um importante teórico teatral. Nos seus Estudos sobre Teatro expõe a sua concepção cénica, baseada na necessidade de estabelecer uma distância entre o espectador e os personagens, a fim de que o ponto de vista crítico do autor desperte no espectador uma tomada de consciência. Destaca-se também na poesia, de forte conteúdo social.

Ele morreu em 16 de agosto de 1956 após um enfarto do miocárdio, durante os ensaios de sua peça 'Galileu Galilei". Jaz lado de Hegel, um dos seus ídolos.







OS DOMINGOS


Todas as funções da alma estão perfeitas neste domingo.
O tempo inunda a sala, os quadros, a fruteira.
Não há um crédito desmedido de esperança.
Nem a verdade dos supremos desconsolos -
Simplesmente a tarde transparente,
Os vidros fáceis das horas preguiçosas,
Adolescência das cores, preciosas andorinhas.

Na tarde – lembro – uma árvore parada,
A alma caminhava para os montes,
Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza.
Domingo – lembro – era o instante das pausas,
O pouso dos tristes, o porto do insofrido.
Na tarde, uma valsa; na ponte, um trem de carga;
No mar, a desilusão dos que longe se buscaram;
No declive da encosta, onde a vista não vai,
Os laranjais de infindáveis doçuras geométricas;
Na alma, os azuis dos que se afastam,
O cristal intocado, a rosa que destoa.
Dos meus domingos sempre fiz um claustro.
As pétalas caíam no dorso das campinas,
A noite aclarava os sofrimentos,
As crianças nasciam, os mortos se esqueciam mortos,
Os ásperos se calavam, os suicidas se matavam.
Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos.
E uma esperança que não tenho.


Paulo Mendes Campos.



Poeta e escritor mineiro, Paulo Mendes Campos nasceu em 29 de fevereiro de 1922. Após a conclusão dos primeiros estudos em São João del Rei, mudou-se para Belo Horizonte e, logo depois, para Porto Alegre. Um ano depois, no entanto, estava de volta a Minas. Formando um conhecido e inseparável quarteto mineiro com Fernando Sabino, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino, passou a trabalhar na imprensa carioca, colaborando em jornais como "Correio da Manhã" e "Diário. Publicou seu primeiro livro, "A Palavra Escrita", em 1951, numa pequena edição de luxo, de apenas 110 exemplares.
Casado com a inglesa Joan Abercrombie, teve dois filhos, Gabriela e Daniel. Um resfriado forte, com ares de pneumonia, resultaria, no intervalo de uma semana, em um fulminante derrame cerebral. Paulo Mendes Campos morreu de infarte na madrugada de 2 de julho de 1991.




Leia:http://sites.uol.com.br/palavrarte/Poeta_Lembrei/poelembrei_poesias1.htm





"...Existe um nível, acima do qual tudo é sólido e importante. Tentarei chegar lá e encontrar um lugar perto da perfeição, um lugar onde todo esse mundo confuso deveria estar, se tivesse tempo de aprender"

James Dean




Viveu somente 24 anos, fez apenas três filmes, era baixinho, vesgo, bissexual, neurótico e tímido até a raiz dos cabelos, do tipo que para sair do "Hi" e prosseguir uma conversa era um custo. Quem? O mito, James Deans.



Nome: James Byron Dean
Data de Nascimento: 08 de Fevereiro de 1931
Local de Nascimento: Marion, Indiana, USA
Falecimento: 30 de Setembro de 1955, California, USA

Quando criança, Dean foi muito mimado pela sua mãe Milred, que colocava-o para dormir diariamente e pedia que ele escrevesse em um papel as coisas que gostaria de ganhar no dia seguinte. De manhã, o garoto sempre tinha o desejo atendido. Apaixonada por poesia, Milred batizou o filho com o nome de James Byron (em homenagem ao poeta inglês) e vivia aconselhando-o a tornar-se um artista.Quando James Dean tinha 9 anos, sua mãe morreu de câncer, o que o marcou profundamente até o fim de seus dias. A partir daí, Dean passou a sofrer de crises de insônia, que lhe valeram as marcantes olheiras. Ao todo o ator conseguia dormir apenas 4 horas diárias.







Iníciou sua vida artística no teatro, fez pequenas aparições em alguns filmes e comerciais. Quando encenava uma peça na Brodway recebeu um convite que mudaria o rumo de sua vida, um teste para a Waner Bros, a partir daí todos sabem o rumo da história.

Um enigma de poucas palavras. Pouco se sabe realmente sobre James Dean, em especial a tão falada bissexualidade. Teve alguns casos e quis se casar com a atriz italiana Pier Angeli, mas a mãe uma católica fervorosa fez tudo para impedir e conseguiu, Dean não era católico. Alias, taí uma triste história. Pier Angeli era uma bela moça, atriz em início de carreira. Ela acabou se casando com o homem que sua mãe tinha escolhido Vic Damone, com quem teve um filho.
Anos mais tarde morreria de overdose aos 39 anos de idade, não sem antes escrever que o único homem que amou realmente foi James Dean.

Bom e quem não amaria? Afinal ele era James Dean, o rebelde sem causa.



Leia: http://www.cinefilo.hpg.ig.com.br/biografia.htm
http://www.jamesdean.com/





"Se você está encantado com um autor, creio que precisaria ter uma imaginação muito estranha e doentia para não querer compartilhar essa sensação.Alguém mais deveria ler isso." Marianne Moore


Estranha era a poeta Marianne Moore. Essa solteirona convicta, e não vamos aqui discutir suas preferências sexuais, era amante do beisebol e de La Fontaine de quem traduziu suas fábulas. Rotulada pelos críticos como uma poeta para poetas por causa de sua poesia extremamente intelectualizada, Marianne não é tão conhecida como merecia. O certo é que ela foi admirada por legiões da nata da poesia norte-americana, exemplo disso foi Eliot que, ao prefaciar os seus Collected Poems, em 51, não lhe poupou elogios. Ao falecer em 07/02/1972, o outrora designado «vulcão solitário», Ezra Pound, agora silencioso, não esqueceu Moore, e mandou rezar uma missa em sua memória, onde leu os versos do belíssimo poema «What Are Years».

Em entrevista, disse sobre o ato de escrever:

- Gostaria de perguntar sobre os princípios e o método de sua escrita. Qual é a base racional por trás dos versos silábicos? Como difere do verso livre, no qual o comprimento do verso é controlado visualmente, mas não aritmeticamente?

"Nunca me ocorreu que o que escrevia pudesse ser definido. Sou governada pela impressão dada pela frase, assim como a queda de um tecido é governada pela gravidade. Gosto de versos com uma pausa no final e não gosto da ordem invertida das palavras; gosto de simetria."

- Como planeja a forma de suas estrofes? Estou pensando nos poemas, geralmente silábicos, que utilizam uma forma repetida de estrofe. Já fez experiências com formas antes de escrever, rabiscando versos em folha de papel?

"Eu nunca "planejo" uma estrofe. As palavras se agrupam como cromossomos, determinando o procedimento. Posso modificar uma disposição ou atenuá-la, e procurar obter estrofes sucessivas, idênticas à primeira. Originalidade inicial espontânea - ou seja, ímpeto - parece difícil de ser reproduzida conscientemente mais tarde. Como Stravinsky dizia acerca do tom: "Se o transponho por alguma razão, corro o risco de perder o frescor do primeiro contato e terei dificuldade em recapturar sua atratividade". Não, nunca "rabisco versos". Evidencio a rima, para poder percebê-la com uma olhada rápida, sublinhando-a em vermelho, azul ou outra cor - tantas cores quantas forem as rimas. No entanto, se as expressões redundam em uma arquitetura muito incoerente, como num texto impresso, noto que as palavras não soam bem. Posso começar um poema, achá-lo obstrutivo, não encontrar uma saída e abandoná-lo por um ano, ou vários; sou parcimoniosa. Procuro salvar tudo que pareça promissor e anotar em uma caderneta."

Fonte: Os Escritores 2: As históricas entrevistas da Paris Review. S.Paulo: Cia. das Letras. 1989.( Entrevistador: Donald Hall. Novembro de 1960)


É dela uma das melhores definições de Literatura, segundo Hélio Pólvora, no que modestamente concordo: "Um jardim fictício habitado por sapos de verdade".


andrea augusto©angelblue83 - biografia de sites e livros com inserções minhas.


Leia: http://www.capivara.com/misterios/como/comoescrevo.htm#moore
http://www.poets.org/poets/poets.cfm?45442B7C000C0F02











No dia 06 de janeiro de 1883, nascia Gibran Khalil Gibran. Não vou colocar aqui o batidíssimo: "Quando o amor acenar, siga-o..." nem outros do gênero, certamente todo mundo já leu, prefiro falar do filósofo, poeta, profeta e do reformador social que ele foi.

Gibran, nascido na sociedade oriental numa época muito semelhante à Europa da Idade Média, rebelou-se ao ver o povo oprimido e explorado pelo clero e a aristocracia. Como Voltaire e J. J. Rousseau, sua pena, inspirada no Evangelho, ressaltou virtudes nos humildes e arrastou as massas em revolução vitoriosa. Suas obras "João, o Louco", "Calil, o Herético", "As Asas Quebradas", por exemplo, refletem esse seu período.

Mais tarde, amadurecido e já morando em Boston, Gibran volta-se para a filosofia e fica mais preocupado em libertar o homem das suas fraquezas e limitações. Era um homem de múltiplos talentos, escrevia, pintava e fazia ilustrações. São dele todas as ilustrações de seus livros.


Austregésilo de Athayde assim se pronunciou sobre Gibran, referindo-se às obras que produziu nesta fase de sua vida: "O Oriente não teve poeta que exprimisse melhor a delicadeza mística de sua alma. Gibran é um destes mestres da Sabedoria que ensinam a arte de viver pela conquista da paz interior nutrida na contemplação da beleza. O seu convívio intelectual alimenta a fé na superioridade espiritual do homem, num estilo ao mesmo tempo cheio de vida e simplicidade, cuja fonte é a natureza em suas inspirações mais límpidas e amáveis."







A partir de 1918, Gibran passou a escrever apenas em inglês, sem com isso inspirar-se na civilização ocidental, muito mais voltada para a conquista do futuro e a subjugação da matéria.

O Ocidente o conhece principalmente como escritor e pintor; um poeta de visão espiritual e de sonho. O Oriente conhece o outro Gibran. Primeiramente, na sua juventude, o escritor revolucionário cujo ousado poema "As Almas Rebeldes", escrito em 1908, encolerizou a Igreja e agitou o Império dos Turcos, e, por cuja autoria foi excomungado e exilado. Outros livros revelam este seu caráter revolucionário: "As Ninfas do Vale", "Temporais" "Asas Partidas". Neles o autor manifestou sua revolta contra o assassínio do homem pelo homem, pela sujeição da mulher, pela opressão dos poderosos e por todas as formas de injustiças. Defendeu a violência para derrubá-las e se orgulhou de ser extremista e intolerante sob a alegação de que "quem é moderado na proclamação da verdade, proclama somente a meia verdade."


O que fez de Gibran eterno, não foi nenhuma genialidade na sua escrita ou mesmo na pintura, sua eternidade se deve ao fato de ter sido um homem comum, um pensador capaz de transmitir suas idéias de forma simples. Não foi um político ou um líder religioso. Ele era um homem espiritualizado com grande sensibilidade para servir-se de exemplos simples e dessa maneira deixar claro a qualquer tipo de leitor sua mensagem.

Deixou vários livros, pinturas e ilustrações que produziu até pouco antes de morrer, aos 48 anos de idade.



...

"E quando não podeis mais viver na solidão de vosso coração, procurais viver nos vossos lábios, e encontrais então uma diversão e um passatempo nas vibrações emitidas.
Em grande parte de vossas conversações, o pensamento é meio assassinado.
Pois o pensamento é uma ave do espaço que, numa gaiola de palavras, pode abrir as asas, mas não pode voar.
Há entre vós aqueles que procuram os faladores por medo da solidão.
A quietude da solidão revela-lhes seu Eu-desnudo, e eles preferem escapar-lhe.
E há aqueles que falam e, sem o saber ou prever, traem uma verdade que eles próprios não compreendem.
E há aqueles que possuem a verdade dentro de si, mas não a expressam em palavras. No íntimo de tais pessoas o espírito habita num silêncio rítmico."


Gibran Khalil Gibran



andrea augusto©angelblue83 - biografia de sites e livros com inserções minhas.


Leia mais: http://www.consciesp.org.br/gibran.htm
http://www.edineynunes.hpg.ig.com.br/khalilgibran.htm










Nem pretendia voltar hoje por aqui que não fosse para responder aos comentários, mas não podia deixar de prestigiar meu amigo querido Iosif Landau que teve seu blog citado no ezine : no minimo - Blogs Favoritos. Parabéns, viu? Não falei que coisa boa aparece de um jeito ou de outro? Seu blog é ótimo e é mais do que merecido você estar por lá. Parabéns querido, tô super contente por você!

bjimm.angel.

















dos diários

nos dias que se seguiram, era antes a escuridão e a própria metáfora que continham, era um caminho incerto e vago onde a lugar nenhum levaria que não a interiorização e a todo um mundo quieto e limpo, à margem do qual a vida turva passava lentamente...


andrea augusto©angelblue83














Sophia de Mello Breyner Andresen



No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.








Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio










Em Nome


Em nome da tua ausência
Construí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei










Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
P'ra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.










Assim em suas mãos


Assim em suas mãos nos troca a vida
E quem já nem em sonhos conhecemos
Longe se perde nos confins extremos
Da grande madrugada prometida
Assim em suas mãos nos troca a vida.









Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto em 6 de Novembro de 1919. Foi nessa cidade e na Praia da Granja que passou a sua infância e juventude. Frequentou Filologia Clássica na Universidade de Lisboa, mas não chegou a terminar o curso. Foi casada com o jornalista Francisco Sousa Tavares e mãe de cinco filhos, que a motivaram a escrever contos infantis. Motivos concretos e símbolos excepcionais para cantar o amor e o trágico da vida foi-os buscar ao mar e aos pinhais que contemplou na Praia da Granja; com a sua formação helenística, encontrou evocações do passado para sugerir transformações do futuro; pela sua constante atenção aos problemas do homem e do mundo, criou uma literatura de empenhamento social e político, de compromisso com o seu tempo e de denúncia da injustiça e da opressão. Foi agraciada com o Prémio Camões em 1999.


Leia: http://www.ipn.pt/literatura/sophia.htm
http://www.instituto-camoes.pt/escritores/sophia.htm

* Aninha, obrigada pela digitação e pelo empréstimo dos olhos, foram de grande valia.


Traduzindo: Declaro que a paciente Andrea Beatriz P.Augusto foi atendida na emergência de Oftalmologia, no dia 01/02/03,às 12:30 apresentando úlcera de córnea em OE.


As trevas do dia - segundo Angel Blue

Quinta feira, 30 de janeiro de 2003.

Cheguei à biblioteca antes das 7 horas. Tudo quieto, reuniões pelo colégio e eu querendo arrumar, começar logo e principalmente entender o sistema de catalogação inventado pela coordenadora. Vi logo que teria de começar do zero e apresentar a ela o maravilhoso Código de Dewey e a Tabela de Cutter. Usados mundialmente para catalogação de livros.

O erro

Foi aí que cometi o meu primeiro erro. Comecei a mexer em tudo, a pegar os periódicos (revistas) que estavam sobre as prateleiras e retira-los. Fui juntando tudo, enquanto uma coceirinha se acentuava no olho esquerdo. Pensei em tirar a lente, mas a tal coordenadora apareceu neste exato momento para a reunião que tínhamos marcado. Primeiro comentário dela: “você está com alguma coisa no olho?” Well pensei, que eu saiba só a lente de contato, mas pela cara dela parecia que tinha um ALIEN no meu olho. Pedi licença e fui conferir. Ao ver meu olho no espelho fui violentamente transportada para o festival de rock de Woodstock. Parecia uma veterana maconheira de tão vermelho que estava o olho. Retirei a lente e voltei à sala.


Rumo ao calvário


Retirei a lente, mas pouco adiantou. Fiquei com a sensação de acupuntura ocular, mil agulhinhas estavam sendo espetadas ali. Minha maior ambição era zunir longe olho, papéis, computador e a coordenadora que não parava de falar. Terminada a reunião ela se foi e o meu mundo se resumia ao olho esquerdo. Não sentia nada, fome, sede, cansaço, nada. Eu era o olho e a sua insuportável dor.


Do calvário ao calvário


Sai correndo do trabalho e fui para casa. A luz incomodava tanto que não bastava manter o olho fechado, era necessário tampa-lo com a mão. Foi então que a noite começou. Pouco dormi de quinta para sexta. Só dormi o que o Valium permitiu. O resto foi dor, inchaço e belíssimas secreções.



Sexta feira, 4 horas da madrugada


Liguei a TV e fiquei escutando. Não conseguia abrir os olhos. Se forçasse o direito mexia o esquerdo e a dor era horrível. Fiquei esperando a hora de ¨levantar” e ir para o trabalho, mas quando olhei no espelho vi que tinha sofrido uma promoção noturna: meu olho foi promovido de bola de golfe a bola de tênis. Impossível, não poderia ir daquele jeito. Avisei ao colégio e continuei sofrendo. O certo seria ir ao médico ver o que estava acontecendo, mas confesso que tenho pavor que mexam nos meus olhos, resquícios de uma paranóia, explico, sempre acho que vão colocar os mesmos ferrinhos do cara do filme Laranja Mecânica, uma das películas que mais gosto. Optei pela dor. E foi assim: gemendo baixinho, chorando agoniada e com vontade de arrancar o olho fora passei mais uma noite. Pouco faltou para que não baixasse o Van Gogh ocular literalmente. Decidi então que na manhã seguinte iria ao médico.



Doutora Daphne Tatiana – A Redenção

Obviamente sábado no Rio de Janeiro não foi como a semana toda: nublada e cinza. Abriu um Sol estarrecedor. Não conseguia sair na claridade e levei duas horas para conseguir sair de casa rumo ao hospital e mais quarenta minutos de espera pela doutora Daphne Tatiana. Surreal, pensei alguém com um nome desses. Alias, uma das coisas interessantes da escuridão são os pensamentos. Sem a distração do campo visual tudo fica interiorizado, vai daí que é muito bom ter lembranças, memórias ou quando muito imaginação. E foi com ela, a imaginação que fiquei pensando de onde a mãe dela tirou esse nome/combinação: Daphne Tatiana, um mistério...

Enfim doutora Daphne, maravilhosa me aplicou uma anestesia e foi fazendo os exames. Apesar do anestésico a luz ainda feria meu olho. Foi com esforço que conseguia mante-los alerta e concluir os exames.


Do calvário a provavelmnte duplamente desempregada.

Cuidadosamente ela disse que havia uma lesão grande na córnea, uma ulcera e pelos seus cálculos uns 38 tipos diferentes de fungos, ou seja, uma colônia de férias de fungos no meu olho, e por este motivo ela não poderia fazer o curativo usual: passar uma pomada e tampar o olho. Ela deixaria aberto e eu teria que passar uma infinidade de remédios e colírios e esperar para ver o resultado. Como é uma lesão grave, extensa não bastará passar os remédios e esquecer. Terá que haver um acompanhamento até a recuperação definitiva.

Caveira de burro, macumba e afins

Amanhã irei ao colégio fazer a seguinte pergunta idiota a diretora do Colégio: Será que a senhora esperaria pelo menos duas semanas até que eu me recuperasse e pudesse voltar? Quando ela terminar as gargalhadas saberei a resposta. E quanto a minha segunda jornada de trabalho, o site, ainda não sei o que vou fazer. Não consigo ficar muito tempo diante do computador. Por hora estou aceitando qualquer tipo de simpatia, magia, endereços de terreiros onde se bate uns tambô de gato siamês afinados pra modé milhorá a situação por aqui. Aceito idéias.


Logo que puder voltarei. Por enquanto retiro-me para as trevas, até que faça-se a luz...



Obrigada Rodrigo pela digitação do texto ditado via telefone. Adorei saber que você faz com o maior prazer. Tenho dezenas de textos por aqui, me aguarde, rsss