"Não consigo mais escrever, não há razão para viver", confidencia a um médico. Faltam alguns dias para o seu aniversário de 62 anos, aniversário que jamais faria.
Hemingway era um grande bebedor e adepto dos esportes radicais de sua época, como a tourada, o boxe, a pescaria e os safáris na África. Dizia que passava boa parte do tempo atirando nas feras para não ter que atirar em si mesmo. Quando percebeu que estava no fim sofrendo de paranóia, mergulhado numa profunda depressão e sob a suspeita de estar sofrendo de câncer gástrico, enfiou na boca uma espingarda de caça e detonou os miolos.

Ler Hemingway é um mergulho sem volta na essência humana. Dos temas mais simples, ele tece toda uma trama na qual o leitor não se dá conta a princípio, até ver-se envolvido, irremediavelmente tomado pela história. Tudo está nas entrelinhas, no subtexto, muitas vezes no que ele não escreveu, mas deixou lá, basta mais do que ver, enxergar as nuances do que ele nos diz.

Hemingway foi autor de grandes confrontos existenciais. Em "O sol também se levanta" o par romântico não poderia ser melhor: um impotente mutilado de guerra e uma ninfomaníaca vivem uma paixão impossível. Em "Adeus às Armas" um desertor proclama a paz em separado e foge da guerra com sua amada. Só que ela morre no parto e ele percebe que o destino é mais forte que os homens. Em "O sol também se levanta" Robert Jordan apaixona-se por uma jovem guerrilheira a quem dará a própria vida. Em "O Velho e o Mar", Santiago tenta provar a si mesmo e ao mundo inteiro que ainda é capaz de enfrentar o mar e pescar um enorme peixe espada. Sua batalha contra os tubarões e a precisão de seus monólogos deram ao autor o prêmio Pulitzer e o Nobel de Literatura.

O escritor criava também cenas inusitadas e muitas vezes chocantes, como aquela do romance "As Verdes Colinas da África", em que o protagonista descreve uma hiena ferida que devora o próprio intestino enquanto agoniza. Em "Morte na Tarde", quando ele narra uma corrida de touros, dá ao seu leitor a sensação de estar vendo a arena à sua frente, com o touro e o toureiro bailando a dança da morte. Assim, sua narrativa sobre a savana após a passagem de um bando de babuínos enfurecidos pode trazer às nossas narinas o cheiro horrível daqueles primos distantes da raça humana. O mesmo se aplica à descrição de um campo de batalha dois dias depois da luta, com os cadáveres inchando ao sol, com as algibeiras reviradas pelo inimigo que já se foi.



Por quem os sinos dobram? Hoje, 21 de julho, dia de seu aniversário, dobram por ti, Hemingway.


Leia: http://www.tanto.com.br/jorgefernando-hemingway.htm
http://www.an.com.br/1999/jul/21/0ane.htm

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