"Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus."

Alberto Caeiro (entre 1913-15)















Em 13 de junho de 1888, nasce Fernando António Nogueira Pessoa, em Lisboa, Portugal, um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos. Seus versos foram traduzidos para o mundo todo, sua personalidade multifacetada foi e é tese de estudos, tratados e interesse constante.
Mas isso é bem conhecido e como gosto de falar sempre de outros aspectos menos divulgados, prefiro falar um pouco das pessoas de Fernando, do astrólogo e ocultista Fernando Pessoa. Por toda sua vida ele se utilizou da Astrologia, chegando inclusive a fazer as cartas astrológicas de seus heterônimos, Caeiro e a escrever um tratado sobre o assunto, em 1916, sob o heterônimo de Raphael Baldaya. Pensa até em estabelecer-se em Lisboa como astrólogo encartado. A segunda parte de Mensagem, chamada Mar Portuguêz, é composta de doze poemas que têm uma notável relação com os 12 signos.
Sob a influência do ocultismo escreverá O último sortilégio e Além-Deus. Inicia-se e cultiva, sobretudo, a astrologia.
Aqui estão os versos e sua correspondência astrológica.




"Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou vàriamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpètuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."





Em Pessoa encontramos heterônimos. A cada um é dada biografia , características, personalidade, profissão, ideologia, formação cultural. São Pessoas completas dotadas de uma existência rica, de vida própria como só o próprio gênio de Pessoa poderia elaborar. Deixo aqui cada uma das pessoas que viviam em Fernando.








ALBERTO CAEIRO


Louro, estatura média, saúde frágil (obrigava-o a viver no campo), pálido, olhos azuis, órfão desde cedo.
Morreu de tuberculose.
"Pensar é estar doente dos olhos"
Mestre bucólico, camponês sábio, criado no campo.
Mestre de todos os heterônimos.
O importante é ver e ouvir - Não é preciso pensar.
Pensamentos são sensações.
Alheio à alta sofisticação cultural que marca os demais.
Mestre do paganismo, visão não cristã, não judaica, não espiritualizada da vida e do mundo.
O que vemos não tem sentido oculto por trás das aparências
Devemos nos relacionar com os objetos em sua singularidade que é a sua realidade.
Semelhanças com o zen-budismo.
Nega qualquer forma de espiritualismo e transcendência.
Nega a idéia de qualquer realidade além daquela que constitui nossa experiência concreta.
Opõe-se ao intelectualismo, à abstração, à especulação metafísica e ao misticismo
Versos parecem prosa .
Vocabulário restrito, repetições com pequenos intervalos.
A sensação é realmente vivida e não pretexto para discussão de idéias.










ÁLVARO DE CAMPOS


"Temos todos duas vidas: a verdadeira, que é a que sonhamos na infância ...; a falsa, que é a que vivemos em convivência com os outros".
Alto, magro, tendente a curvar-se, cabelo liso, usava monóculo.
Requintado, neurótico, esnobe engenheiro num estaleiro formado na Escócia.
Inativo por opção.
Amor à civilização e ao progresso, homem do século XX.
"O que o mestre Caeiro me ensinou foi a ter clareza; equilíbrio, organismo no delírio e no desvairamento, e também me ensinou a não procurar ter filosofia nenhuma, mas com alma".
Como os futuristas, celebra a máquina, a velocidade, a simultaneidade de ações.
Observa criticamente o mundo e a si mesmo.
Influências: Cesário Verde, Walt Whitman.
Sente e intelectualiza sensações.
Sensacionalismo - designação de uma das poéticas inventadas por Pessoa, cujo fundamento se resume no verso "sentir tudo de todas as maneiras".
Inadaptado, isolamento voluntário.
Tom agressivo, viril, heterônimo mais indisciplinado.
Linguagem agressiva e magoada.
Ego conflituoso.
Prosa disposta em forma poética.









RICARDO REIS

Forte, seco, moreno, morreu no Brasil.
Médico, raramente exerceu.
Defensor da monarquia
Auto-exílio no Brasil (não aceitava a República).
"Gosto exótico do instante que passa".
Latinista e semi-helenista.
Razão é fator de proteção em relação à emoção.
Paganismo deriva da influência de escritores antigos e da influência de Caeiro.
Racionalista.
Poesia hiperculta, neoclássica.
Linguagem densa, sintaxe latinizante.
Atitude Hedonista .
Atitude Epicurista .
Postura Estóica.
Modelo: Horácio - Séc. I a C - Carpe Diem.
Poemas são odes à maneira antiga.
Rigor de construção, métrica perfeita, ausência de rima.
Semipagão.







E a própria pessoa de Fernando:


Inicia-se com uma fase vanguardista.
Algumas poéticas experimentais são Simbolistas.
Poesia que busca captar o vago.
Teoria poética de Pessoa - Interseccionismo.
Exprime e analisa emoções e estados de espírito.
Perplexidade diante do enigma do EU.
Densa posição metalingüística.
Consciência critica e autocrítica.
Conversão do sentimento em pensamento.
Saudosismo esotérico.
Nacionalismo místico.
Questão da identidade e linguagem = reflexão sobre a arte poética e sobre o porquê do artista.
Identificação com o mar.
Profetismo sebastianista.
Cancioneiro = retoma ritmos e formas tradicionais populares do lirismo português.





No dia 30 de novembro de 1935, Fernando Pessoa arde em febre insistindo em chamar Caeiro, Reis, Campos e Soares. Pessoa em agonia repuxa o lençol, contrai-se. Dá-me os óculos, os meus óculos, pede.
Já morto o poeta sobram apenas uns rabiscos num papel:




"Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido,
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo.
E vou escrever esta história para provar que sou sublime."






Leia: http://www.lsi.usp.br/art/pessoa/
http://www.cfh.ufsc.br/~magno/frames.html
http://www.vidaslusofonas.pt/fernando_pessoa.htm

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