"Ele quis encontrar no mundo real a fraca imagem que sua alma, indefinidamente, contemplava. Ele não sabia onde ou como procurá-la. Mas uma premonição lhe disse que esta imagem iria encontrá-lo, independente do que fizesse. Os dois iriam se encontrar tranqüilamente, como já se conhecessem, como já tivessem se encontrado antes, talvez em um dos portões ou em algum lugar secreto. Os dois estariam sozinhos, cercados pela escuridão e pelo silêncio. E em um momento de suprema ternura, ele mudaria. Se desbotaria em algo impalpável diante de seus olhos e, num breve momento, ele se transformaria. Fraqueza, timidez e inexperiência tombariam diante dele naquele momento trágico."
"Retrato de um Artista Quando Jovem"



James Augustine Eloysios Joyce nasceu no dia 2 de Fevereiro de 1882, em Rathgar, subúrbio de Dublin, a capital da República da Irlanda. Filho de proletários à beira da pobreza, James Joyce foi educado dentro dos valores da Igreja Católica Romana. Os estudos foram realizados em escolas jesuíticas como Clongowes Wood College, Belvedere College e UCD. Porém, leituras de autores como Byron, Hardy, Ibsen e Yeats povoaram sua mente de adolescente e não muito depois, ele entrou em conflito com o Catolicismo.
Educado com rigor, Joyce desenvolveria uma personalidade multifacetada. Escritor revolucionário, pai dedicado, capaz de virar noites ao lado da filha doente e um obsceno de primeira são alguma delas.
Ulisses inaugura o romance moderno. Seus personagens, Stephen Dedalus, Leopold Bloom e Molly Bloom, enfrentam situações correspondentes aos episódios da Odisséia, de Homero. Nessa obra, Joyce reinventa a linguagem e a sintaxe. Radicaliza a linguagem narrativa, explorando processos de associação de imagens e recursos verbais, paródias estilísticas e o fluxo da consciência. Também incorpora teorias da psicanálise freudiana sobre o comportamento sexual. O livro é proibido no Reino Unido e nos Estados Unidos, onde só é liberado em 1936. Joyce sofre seguidas cirurgias em razão de problemas na visão. Sua última obra é Finnegans Wake (1939), na qual leva às últimas conseqüências as inovações estéticas e lingüísticas apresentadas em Ulisses.


Joyce teve uma vida de privações e sofrimento. Relutava em aceitar o diagnóstico de insanidade de sua filha. Quando o agravamento progressivo e intenso da doença de Lucia o obrigou a acatar de vez sua internação em clinicas psiquiátricas, só o fez para proteger Lúcia dela mesma. Durante algum tempo deixou de lado o andamento de seu livro "Finnegans Wake", para acompanhar de perto o tratamento da filha. A doença de Lucia marcaria profundamente vida e obra de Joyce.







Quando Joyce se tornou célebre, Nora exclamou um dia, rindo: "Não faço ideia se o meu marido é um gênio ou não, mas o que sei, de certeza, é que ele tem uma mente bem suja." Talvez se recordasse das cartas que ele lhe escrevera de Dublin, no célebre ano de 1909, quando ela ficou em Trieste. Segundo Maddox, essas mensagens íntimas, "obscenas mas não eróticas, com uma imagética demasiado escatológica, pueril e repetitiva" são importantes pelo o que revelam da relação entre Nora e Jim ( só ela é que o podia tratar por este diminutivo) e da sexualidade de ambos. (Richard Ellmann acabou por editar e publicar as famosas cartas, indo contra o desejo de Stephen, o neto do escritor).

Nora Barnacle que viria a ser companheira de Joyce por toda vida, era uma personalidade tão fascinante quanto o genial escritor. Em muitas biografias seu valor é minimizado por ser tratar de pessoa de cultura inferior a dele, uma simples empregada de hotel. Mas Nora exerceu influência sobre Joyce e foi capaz de viver com ele todas as obscenidades que a mente de Joyce imaginava.
"Joyce viveu sempre obcecado pelo "mistério" que rodeava a sexualidade da mulher, oscilando tortuosamente entre considerá-la santa ou prostituta. Nora era uma bela mulher de vinte anos, que fazia virar as cabeças, quando Joyce a abordou na rua, não a largando enquanto não marcou um primeiro encontro, ao qual, aliás, ela não compareceu. Joyce tinha ficado encantado com o que viu e ouviu. Apesar de míope reparou que as ancas dela se moviam livremente sob o vestido, criando uma imagem de sensualidade assumida. Para além do aspecto físico, Nora era possuidora de uma belíssima voz e respondia com espírito e desenvoltura às investidas do jovem escritor. Joyce detestava as meninas da sociedade piedosa e hipócrita de Dublin que se mostravam fascinadas por ele, ao mesmo tempo que o temiam. Era considerado um selvagem e nem todas as famílias bem pensantes gostavam de o receber, apesar de, já nessa altura, a sua genialidade ser do conhecimento público. Mas foi com Nora, com o seu riso contagiante e sem afetação, que Joyce se sentiu imediatamente à vontade. Ela era alguém muito independente que sabia o que custava a vida e conhecia todos os perigos que corriam as mulheres sozinhas, numa cidade como Dublin."

O primeiro encontro deles já deixava bem claro que Nora já tinha alguma vivência. Passearam pelas ruas que vão dar ao cais e foram até a área de Ringsend que, à noite, estava deserta. A atração entre ambos foi instantânea e Nora não perdeu tempo. Desabotoou as calças de Joyce e masturbou-o com mestria, "fazendo dele um homem". Era a primeira vez que Joyce tinha sexo de graça e o facto revestiu-se de grande importância. Habituado à sensação provocada pelos complexos de culpa, que a educação nos jesuítas contribuíra para exacerbar, ficou imediatamente fascinado com a franqueza e a desinibição de Nora. Em vez de "perder o respeito" por ela, como seria o caso se ele fosse um homem banal, apaixonou-se perdidamente. Anos mais tarde, a perícia dela nesse primeiro encontro, que fazia adivinhar uma experiência adquirida junto de outros homens, haveria de o torturar e provocar uma explosão de ciúmes, que levaram a uma crise muito séria.
Nora acompanhou Joyce em todas as provações, como mudança repetida de alojamento, pobreza extrema e até fome, controlou o seu alcoolismo, "suportou-o", como ele próprio dizia, e exerceu a sua influência em todos os sentidos, mantendo sempre um sentido de humor picante e uma capacidade de dar respostas rápidas e incisivas, que o fascinavam.
Joyce casou-se com ela pouco antes de morrer.

"Existe alguém que me entende?", perguntou Joyce certa vez. Sim, muitos leitores pelo mundo todo, alguns que ainda tentam entender seus livros, suas idéias, seu jeito, mas a resposta mais segura seria apenas uma: Nora.
No dia 13 de Janeiro de 1941, o maior escritor do Século 20 encontra a morte após uma operação de úlcera duodenal.


Leia: http://www.speculum.art.br/htm/james_joyce.htm
http://www.e-biografias.net/biografias/james_joyce.shtml
http://www.wapol.org/ornicar/articles/lsr0076.htm



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