dos diários

Todos os dias tenho saudades. Nos dias de chuva, os pingos agravam, dilatam o estado de saudade.
"saudade é do rio a outra margem / mudança de estação / estiagem..." escrevi há tanto tempo e foi ontem, é hoje sempre. Essa melancolia de rua fracamente iluminada. Fim de noite em outro tempo qualquer.
Lá fora é a chuva fina na janela embaçada, aqui dentro a tentativa de sol todos os dias sempre e pontualmente falha. A chuva continua a cair a despeito das tentativas. Uma ausência avoluma-se a ponto de preencher o ambiente. Sempre foi assim, passas do estado fluídico para ausência presente. Quando olho para trás o passado não se transforma em estátua de sal, há nele os mesmos sons e cheiros, inocência de que a vida é para sempre e o amor eternizado naquele azul dos teus olhos. Nesse momento não há lugar nenhum no mundo para ir, ainda que por vontade própria ou imprópria intervenção do destino.
Nick Drake canta: E o domingo se pôs no sol de sábado / E chorou até o dia passar e eu penso, que não há outro dia que se torne melhor, porque não tenho nada que não me faça chorar...


refém

o tempo corre a revelia
os fios nas têmporas frias
a teia, a veia corrompida

no mar depuro
joio e trigo
além a linha
desfia horizonte

amanhã é sempre o mesmo dia.

andrea augusto©angeblue83

0 comentários: