Ainda outro dia tive a oportunidade de conhecê-la na Feirinha de Livros do Colégio. Simples, sorridente, encantadora de crianças, uma fada mesmo. Já sabia da indicação para a ABL e secretamente torcia muito por ela.
No dia que ela foi, tive que dar palestras na Biblioteca para várias turminhas. Foi um dia especialmente cansativo, mas ela estava bem ali em outra sala, autografando livros, conversando com seus leitores, incansável. No dia anterior fiquei arrumando seus livros cuidadosamente, consertando os mais usados, dando uma boa espiada nas estorinhas, relendo algumas que marcaram época. Delícia!
A eleição de Ana Maria Machado para a ABL foi uma agradável confirmação. No fundo eu tinha certeza de que só podia ser dela aquele lugar.








"– Que será que o pessoal lá em casa vai dizer? Será que eu estou doente? Sarampo azul? Alergia? Será que pingou tinta? Será que é bolor?

Podia ser, quem sabe? Lembrava muito bem que, nos livros de Monteiro Lobato, às vezes o Visconde de Sabugosa caía atrás da estante e embolorava. Vai ver, era isso – livro embolora. E como ele vivia lendo... É... devia dar bolor... Era só passar a tarde ao ar livre, no sol, que ia ficar bom. Mas não ficou. E de noite, deitado na cama, enquanto o sono não vinha, teve certeza de que era ferrugem. E não conhecia nenhuma receita para tirar ferrugem, ainda mais azul."


(trecho de Raul da Ferrugem Azul)








Ana Maria Machado publicou sua primeira história infantil na revista Recreio, da Editora Abril, em 1969. Foi uma pioneira. Antes daquela data, literatura para crianças feita com seriedade quase não existia no Brasil. Havia somente o exemplo do brilhante Monteiro Lobato, criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Mas no começo dos anos 70, quando o governo passou a fazer grandes compras para as escolas, criando um mercado para os livros didáticos, paradidáticos e juvenis, um time de autores entrou nesse campo, entre os quais Ana Maria, Ruth Rocha e Lygia Bojunga Nunes. Esta última, aliás, também já ganhou o Hans Christian Andersen, em 1982. Além do Brasil, só Estados Unidos, Alemanha e Suécia já tiveram mais de um autor premiado.

Segundo os críticos, um dos principais dons de Ana é penetrar no pensamento das crianças. "Ela é tão boa nisso que chega a causar inveja", diz o escritor Pedro Bandeira. Ana afirma que tudo se deve "à boa memória e à experiência": ela cresceu entre oito irmãos, teve diversos sobrinhos e já criou três filhos. Mas seus livros também são notáveis pela linguagem elaborada e, ao mesmo tempo, clara e direta. "Sou obcecada com o falar brasileiro e a oralidade", diz ela. Entre suas obras principais estão livros como Bisa Bia Bisa Bel e Raul da Ferrugem Azul (ambos com vendagem de 500.000 exemplares). Vale notar que ela também publicou bons livros adultos, como Tropical Sol da Liberdade.

Longe do perfil da senhora bonachona contadora de história, Ana é uma mulher forte, independente. Chegou a se envolver com política, teve seu próprio carro envolvido em um sequestro durante os negros tempos da ditadura, foi presa e partiu para o exílio voluntário.

Ela escreveu quase todos os dias nos últimos trinta anos, de preferência pela manhã. Essa rotina não se alterou nem mesmo quando a autora descobriu que tinha um câncer de mama, em 1991, e passou a tratá-lo. Nesse período, ela redigiu o romance adulto Aos Quatro Ventos. Ana ainda hesita em falar da doença. "Extraí um dos seios e demorei para assimilar o impacto que isso causou em minha auto-imagem, em minha vida sexual", conta. Só em 1998, depois de passar pelo divã do analista, ela resolveu submeter-se a uma nova bateria de operações e reconstituir o seio. E essa reconstituição rendeu briga com o Plano de Saúde, briga da qual ela não fugiu. Alguém duvida do que ela capaz? Por suas mãos fadas, bruxas, duendes, magias e feitiçarias vivem e convivem conosco diariamente, o resto, ah! o resto vira encantamento...








"E então ele entrou voando, leve e lindo, brilhando e reluzindo. Um maravilhoso Boi Voador, Boi-Bumbá em todo seu esplendor. Negro como a noite mais profunda e cheio de estrelas, flores e brilhos de beleza. E enquanto ele voava, as franjas coloridas de seu manto dançavam com o vento. E tudo em volta aparecia nele por um momento. E os espelhinhos de sua garupa estrelada faziam uma festa de gala, refletiam cada pessoa e cada coisa da sala. E cada um, brotando no brilho antigo, voava uma voltinha com o boi manso e antigo."

(trecho de O Menino Pedro e Seu Boi Voador)






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