Traduzindo: Declaro que a paciente Andrea Beatriz P.Augusto foi atendida na emergência de Oftalmologia, no dia 01/02/03,às 12:30 apresentando úlcera de córnea em OE.


As trevas do dia - segundo Angel Blue

Quinta feira, 30 de janeiro de 2003.

Cheguei à biblioteca antes das 7 horas. Tudo quieto, reuniões pelo colégio e eu querendo arrumar, começar logo e principalmente entender o sistema de catalogação inventado pela coordenadora. Vi logo que teria de começar do zero e apresentar a ela o maravilhoso Código de Dewey e a Tabela de Cutter. Usados mundialmente para catalogação de livros.

O erro

Foi aí que cometi o meu primeiro erro. Comecei a mexer em tudo, a pegar os periódicos (revistas) que estavam sobre as prateleiras e retira-los. Fui juntando tudo, enquanto uma coceirinha se acentuava no olho esquerdo. Pensei em tirar a lente, mas a tal coordenadora apareceu neste exato momento para a reunião que tínhamos marcado. Primeiro comentário dela: “você está com alguma coisa no olho?” Well pensei, que eu saiba só a lente de contato, mas pela cara dela parecia que tinha um ALIEN no meu olho. Pedi licença e fui conferir. Ao ver meu olho no espelho fui violentamente transportada para o festival de rock de Woodstock. Parecia uma veterana maconheira de tão vermelho que estava o olho. Retirei a lente e voltei à sala.


Rumo ao calvário


Retirei a lente, mas pouco adiantou. Fiquei com a sensação de acupuntura ocular, mil agulhinhas estavam sendo espetadas ali. Minha maior ambição era zunir longe olho, papéis, computador e a coordenadora que não parava de falar. Terminada a reunião ela se foi e o meu mundo se resumia ao olho esquerdo. Não sentia nada, fome, sede, cansaço, nada. Eu era o olho e a sua insuportável dor.


Do calvário ao calvário


Sai correndo do trabalho e fui para casa. A luz incomodava tanto que não bastava manter o olho fechado, era necessário tampa-lo com a mão. Foi então que a noite começou. Pouco dormi de quinta para sexta. Só dormi o que o Valium permitiu. O resto foi dor, inchaço e belíssimas secreções.



Sexta feira, 4 horas da madrugada


Liguei a TV e fiquei escutando. Não conseguia abrir os olhos. Se forçasse o direito mexia o esquerdo e a dor era horrível. Fiquei esperando a hora de ¨levantar” e ir para o trabalho, mas quando olhei no espelho vi que tinha sofrido uma promoção noturna: meu olho foi promovido de bola de golfe a bola de tênis. Impossível, não poderia ir daquele jeito. Avisei ao colégio e continuei sofrendo. O certo seria ir ao médico ver o que estava acontecendo, mas confesso que tenho pavor que mexam nos meus olhos, resquícios de uma paranóia, explico, sempre acho que vão colocar os mesmos ferrinhos do cara do filme Laranja Mecânica, uma das películas que mais gosto. Optei pela dor. E foi assim: gemendo baixinho, chorando agoniada e com vontade de arrancar o olho fora passei mais uma noite. Pouco faltou para que não baixasse o Van Gogh ocular literalmente. Decidi então que na manhã seguinte iria ao médico.



Doutora Daphne Tatiana – A Redenção

Obviamente sábado no Rio de Janeiro não foi como a semana toda: nublada e cinza. Abriu um Sol estarrecedor. Não conseguia sair na claridade e levei duas horas para conseguir sair de casa rumo ao hospital e mais quarenta minutos de espera pela doutora Daphne Tatiana. Surreal, pensei alguém com um nome desses. Alias, uma das coisas interessantes da escuridão são os pensamentos. Sem a distração do campo visual tudo fica interiorizado, vai daí que é muito bom ter lembranças, memórias ou quando muito imaginação. E foi com ela, a imaginação que fiquei pensando de onde a mãe dela tirou esse nome/combinação: Daphne Tatiana, um mistério...

Enfim doutora Daphne, maravilhosa me aplicou uma anestesia e foi fazendo os exames. Apesar do anestésico a luz ainda feria meu olho. Foi com esforço que conseguia mante-los alerta e concluir os exames.


Do calvário a provavelmnte duplamente desempregada.

Cuidadosamente ela disse que havia uma lesão grande na córnea, uma ulcera e pelos seus cálculos uns 38 tipos diferentes de fungos, ou seja, uma colônia de férias de fungos no meu olho, e por este motivo ela não poderia fazer o curativo usual: passar uma pomada e tampar o olho. Ela deixaria aberto e eu teria que passar uma infinidade de remédios e colírios e esperar para ver o resultado. Como é uma lesão grave, extensa não bastará passar os remédios e esquecer. Terá que haver um acompanhamento até a recuperação definitiva.

Caveira de burro, macumba e afins

Amanhã irei ao colégio fazer a seguinte pergunta idiota a diretora do Colégio: Será que a senhora esperaria pelo menos duas semanas até que eu me recuperasse e pudesse voltar? Quando ela terminar as gargalhadas saberei a resposta. E quanto a minha segunda jornada de trabalho, o site, ainda não sei o que vou fazer. Não consigo ficar muito tempo diante do computador. Por hora estou aceitando qualquer tipo de simpatia, magia, endereços de terreiros onde se bate uns tambô de gato siamês afinados pra modé milhorá a situação por aqui. Aceito idéias.


Logo que puder voltarei. Por enquanto retiro-me para as trevas, até que faça-se a luz...



Obrigada Rodrigo pela digitação do texto ditado via telefone. Adorei saber que você faz com o maior prazer. Tenho dezenas de textos por aqui, me aguarde, rsss


 

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