Cartas Portuguesas


A 2 de Janeiro de 1650, Mariana Mendes da Costa Alcoforado deu entrada no Real Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição, em Beja. Tinha 11 anos incompletos e não precisou de andar muito para lá chegar. O palácio do seu pai, na Rua do Touro, ficava quase defronte do convento onde iria passar o resto da sua vida extraordinária, no decorrer da qual iria assinar, com lágrimas de sangue, um dos mais belos testemunhos literários portugueses.

A autoria das Cartas Portuguesas é contestada até hoje, não há provas concretas que Mariana as tenha escrito, mas isso em nada tira o lirismo e beleza delas.
As cartas foram escritas para cavaleiro de Chamilly, cujo o verdadeiro nome era Noel Bouton por quem Mariana apaixonou-se de imediato. Viu-o e apaixonou-se por ele no mesmo momento, segundo a lenda que corre sobre a sua vida. Tinha pouco mais de 20 anos, e estava a conhecer, finalmente, um herói como aqueles com quem sonhara na sua breve infância.


Ele passou a visitá-la segundo consta por uma passagem secreta que levava até o Convento. Com belas palavras foi seduzindo Mariana que nada conhecia do mundo. Foram vários os encontros e Mariana entregou-se como era previsível à paixão.
No entanto o Governador das Armas do Alentejo, acabou por saber o que se passava. Aí começa o sofrimento de Mariana, eles foram obrigados a se separarem.

As cartas entram em cena. Mariana sofre e chora. A sua dor será tão profunda que as próprias freiras acabarão por partilha-lha com ela, falando-lhe do seu amado, enquanto Mariana ainda quer falar dele, comovendo-se, todas elas, com a expressão de uma dor tão grande, tão desmesurada, que nenhuma delas terá jamais coragem de a condenar.
E assim Mariana segue até o fim de sua vida, vivendo de um passado que alimentava seu presente e que jamais encontraria termo senão com a sua morte.

Mariana faleceu no dia 28 de Julho de 1723. O termo do seu óbito, assinado pela escrivã Dona Antónia Sofia Baptista de Almeida, dá conta de que «durante 30 anos fez ásperas penitências; padeceu grandes enfermidades e com muita conformidade desejando ter mais a padecer; e conhecendo que era chegada a sua última hora pediu os sacramentos os quais recebeu em seu juízo perfeito dando muitas graças a Deus pelos haver recebido; e assim acabou com sinais de predestinada falando até à ultima hora»

Carta - trechos:


«conheceste o meu interior e as doçuras dos meus carinhos e pudeste determinar-te a deixar-me para sempre e a entregar-me aos receios constantes de um esquecimento da tua parte ou ao pavor de que somente te lembres de mim para me sacrificares a nova paixão? Sei que te quero doidamente. Não me queixo, sem embargo, dos impulsos do coração; afeiçoei-me à diversidade e não poderia já viver sem essa aventura que achei e que tanto gozo me dá que é amar-te no meio de mil contrariedades».
E noutra passagem: « Certo é que amando-te tenho experimentado venturas que nunca imaginaria; mas pago-as com custosas provações, porque vai sempre além de toda a medida tudo o que por tua causa sofro. Se tivera resistido com teimosia, se me servira de qualquer arremedo de desagrado ou de ciúme para te incitar ainda mais, se usara de alguma habilidade no meu proceder, se, enfim, tivesse buscado opor a minha razão à inclinação natural que sinto por tie que bem cedo me fizeste conhecer, ainda que os meus intentos viessem a tornar-se vãos, poderias castigar-me com dureza e servir-te do teu poder sobre mim. Mas pareceras-me pessoa digna de ser amada e antes que me desses parte do teu sentir, recebi os manifestos de uma grande paixão. Fiquei enlevada e comecei a querer-te perdidamente».


andrea augusto©angelblue83 - com inserções biograficas do Livro: Cartas de Amor - Mariana Alcoforado - Imago.


Leia: http://pwp.netcabo.pt/0411657201/mariana_alcoforado.html

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