Pois é, pelejei atrás de um texto, poema, crônica, conto de Ano Novo, achei os de sempre. Daí que navegando pelos arquivos dos meus documentos, achei Manoel de Barros e esse texto maravilhoso e pensei: uma analogia! É isso! Resolvida a peleja, li e reli e achei que falando da invenção do poema, bem que poderia ser a invenção do Ano Novo. Um ano que começaremos as cegas, assim como disse o mestre, se começa um poema. Depois piora? Depende. Depende da escrita, do verso, da rima...agora só lendo pra saber ;)

Feliz Ano Novo!


Como fiz um retrato de andarilho*

Manoel de Barros



..........O começo de um poema é quase sempre cego. Depois é que piora. Não se vê mais que um vislumbre, um lince. Diante do papel em branco sou agora um pobre indigente. Procuro um poema. Converso com letras, maluquinhos de mosca, com nódoas de parede (Toda vez que vejo uma parede, ela me entrega às lesmas. Não sei se isso é repetição de mim ou das lesmas.) Procuro coisas no meu caderno de rascunhos. Toda palavra é plissada - ele me diz. Tem muitos desdobramentos. É preciso apalpar suas dobras que a fenda cede. Tento um soneto erótico. Só me veio o primeiro verso. "Quero apalpar-lhe a polpa latifúndia". Acho muito vulgar. A fazeção de inventos é um ato de inércia. Estou fazendo um exercício de inércia? Vejo uma cor perto de mim tendendo a canto. Penso que preciso aprender a não saber nomes. Porque não sabendo os nomes tenho de me expressar por imagens. E é disso que o poeta precisa. Imagens não serão o resultado de uma pobreza vocabular? Separo isso para bobagem. Eu vi um girassol se apropriar da estrada. Estou a me distrair. Preciso de concentração. Quero montar uma indústria de fazer flautas mágicas. Lembrei de uma certa ave com um defeito vegetal na voz. Cantava e parecia planta. Ouço um pouco o silêncio das moscas. Chega a ser um escândalo o silêncio das moscas. Sou um sujeito letrato em dicionários. Resolvo ir ao Morris. Folheio, folheio. Passo para o Viterbo. No seu "Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usavam e que hoje naturalmente se ignoram", viajo sobre termos arcaicos, mas nada me repercute. Não acho nada. Um torpor animal de lagarto no mês de agosto me invade. Há um ponto na tarde com andorinhas tortas. Faço leituras, rabiscos. Tento uma colagem de urubu e lírio. Agora alguma água está iniciando um peixe. Em algum lugar. Penso nisso. Tento apalpar as intimidades do mundo. Abro um volume de contos do Mestre Machado de Assis. Estou lendo "Jogo do Bicho". Ali, quase ao final, um funcionário público de nome Camilo acerta o milhar da cobra. cento e vinte contos! Eram três horas da tarde. Quase fim do expediente. Camilo queria correr. Pensou em pedir ao chefe para sair mais cedo. Queria abraçar a mulher e a fortuna juntas. Mas havia um trabalho a ser entregue ao chefe. Havia uma cópia e a cópia estava borrada. Caíra sobre ela um vidro de tinta. Mestre Machado conta o episódio: "Camilo quis deitar a correr, mas o papel borrado de tinta o acenou que não. Foi ao chefe, contou-lhe o desastre e pediu para fazer a cópia no dia seguinte, viria mais cedo, levaria a cópia para casa.
....- Que estás dizendo? A cópia há de ficar pronta hoje>
....- Mas são quase três horas.
....- Prorrogo o expediente. Camilo teve vontade de prorrogar o chefe até o mar, se lhe era lícito dar tal uso ao verbo e ao regulamento".
..........O Mestre Machado enverbara uma insânia. Era preciso prorrogar o chefe até o mar. O verbo prorrogar saiu de seu contexto habitual de prorrogar uma data, prorrogar a entrega do imposto de renda, etc. - e veio espichar um chefe até o mar. Cioso de sua linguagem, o Mestre ainda pôs suas dúvidas sobre a licença poética, mas no fundo deve ter sorrido. Tinha ventas aquele neologismo inóspito! Ele enverbara uma insânia. Era preciso prorrogar os chefes até o mar. Nessa hora me veio uma clave de águas. Gosto mais das claves de água do que das claves de sol. Pensei no velho andarilho que só andava às beiras. Me veio o primeiro verso, que tinha alguma coisa a ver com espichar alguém até uma água. Eis o poema " Retrato de Andarilho".

....................Quando menino encompridava rios.
....................Andava devagar e escuro - quase formado em silêncio.
....................Queria ser a voz em que uma pedra fale.
....................Paisagens vadiavam no seu olho.
....................Seus cantos eram cheios de nascentes.
....................Um ser acrescentado em passarinhos. .

..........Como eu estava dizendo. É saudável fazer que os verbos delirem. É necessário que as palavras desatinem. Ó açucenas arregaçadas! É preciso prorrogar os chefes até o mar. É preciso molecar o idioma. Fazer neologismos semânticos. Fazer nascimentos linguísticos. (Ah! Os artistas existem para fazer nascimentos!). Eu desandei?

........

(*) Publicada na revista Poesia Hoje





Este é um fragmento do último poema de Sierguéi Iessiênin, antes de se enforcar num quarto de hotel em Leninegrado, St. Petersburg. Era madrugada do dia 27 de dezembro de 1925.

Sierguéi Iessiênin nasceu no dia 03 de outubro de 1895, na província de Ryazan , Rússia. Foi casado cinco vezes. Sua terceira esposa foi a bailarina Isadora Duncan. A grande diferença de idade entre os dois, ele era bem mais jovem, favoreceu as diferenças entre os dois. Isadora tinha o espírito livre e Iessiênin era um jovem apaixonado e extremamente sensível. A relação não durou muito e após uma excursão aos EUA, brigas públicas, eles se separaram. Iessiênin foi para a Rússia onde daria continuidade ao ofício de poeta. Já não era o mesmo. Seus versos tornaram-se carregados de cinismo. Ainda assim sua popularidade aumentava.
Os dois últimos anos de sua vida forma marcados por excessos de toda natureza. Casado com a neta de Tolstoi, não encontraria na última esposa, a felicidade que sempre perseguiu. Sua poesia adquire nessa época um tom sombrio. O fim estava próximo. Os amigos assistem a degradação do jovem poeta sem poder fazer nada.

Em 1925, ano do seu suicídio, Iessiênin estava destruído pela bebida e a cocaína. A depressão o atormentava, sofria com as alucinações e após algumas semanas internado num hospício, cometeu suicídio. Não lembrava em nada, o jovem loiro, de olhos azuis, famoso pelo modo como declamava poemas.
Não chegou a ter a fama e o reconhecimento de Maiakovski, mas poesia de Yesenin resistiu ao tempo e ainda hoje ganha novos leitores.

Iessiênin deixa um último poema para o amigo. Mayakovsky, obcecado em respondê-lo, replica-o em um célebre texto em que desponta o, várias vezes citado, verso que afirma ser preciso arrancar alegria ao futuro. Entretanto, também Mayakovsky sucumbirá à melancolia e, em 1930, tomará .o mesmo caminho de Iessiênin. Como pano de fundo, os (des)caminhos da Revolução Russa.

1. Último Poema de Iessiênin

Até logo, até logo, companheiro,
Guardo-te no meu peito e te asseguro:
O nosso afastamento passageiro
É sinal de um encontro no futuro.
Adeus, amigo, sem mãos nem palavras.
Não faças um sobrolho pensativo.
Se morrer, nesta vida, não é novo,
Tampouco há novidade em estar vivo.

(Tradução de Augusto de Campos)


**2. A Sierguéi Iessiênin - Mayakovsky


Você partiu,
como se diz,
para o outro mundo.
Vácuo. . .
Você sobe,
entremeado às estrelas.
Nem álcool,
nem moedas.
Sóbrio.
Vôo sem fundo.
Não, lessiênin,
não posso
fazer troça, -
Na boca
uma lasca amarga
não a mofa.
Olho -
sangue nas mãos frouxas,
você sacode
o invólucro
dos ossos.
Sim,
se você tivesse
um patrono no "Posto"(1) -

ganharia
um conteúdo
bem diverso:
todo dia
uma quota
de cem versos,
longos
e lerdos,
como Dorônin(2).
Remédio?
Para mim,
despautério:
mais cedo ainda
você estaria nessa corda.
Melhor
morrer de vodca
que de tédio !
Não revelam
as razões
desse impulso
nem o nó,
nem a navalha aberta.
Pare,
basta !
Você perdeu o senso? -
Deixar
que a cal
mortal
Ihe cubra o rosto?
Você,
com todo esse talento
para o impossível;
hábil
como poucos.
Por quê?
Para quê?
Perplexidade.
- É o vinho!
- a crítica esbraveja.
Tese:
refratário à sociedade.
Corolário:
muito vinho e cerveja.

Sim,
se você trocasse
a boêmia
pela classe;
A classe agiria em você,
e Ihe daria um norte.
E a classe
por acaso
mata a sede com xarope?
Ela sabe beber -
nada tem de abstêmia.
Talvez,
se houvesse tinta
no "Inglaterra"(3);
você
não cortaria
os pulsos.
Os plagiários felizes
pedem: bis!
Já todo
um pelotão
em auto-execução.
Para que
aumentar
o rol de suicidas?
Antes
aumentar
a produção de tinta!
Agora
para sempre
tua boca
está cerrada.
Difícil
e inútil
excogitar enigmas.
O povo,
o inventa-línguas,
perdeu
o canoro
contramestre de noitadas.

E levam
versos velhos
ao velório,
sucata
de extintas exéquias.
Rimas gastas
empalam
os despojos, -
é assim
que se honra
um poeta?
-Não
te ergueram ainda um monumento -
onde
o som do bronze
ou o grave granito? -
E já vão
empilhando
no jazigo
dedicatórias e ex-votos:
excremento.
Teu nome
escorrido no muco,
teus versos,
Sóbinov(4) os babuja,
voz quérula
sob bétulas murchas -
"Nem palavra, amigo,
nem so-o-luço".
Ah,
que eu saberia dar um fim
a esse
Leonid Loengrim!(5)
Saltaria
- escândalo estridente:
- Chega
de tremores de voz!
Assobios
nos ouvidos
dessa gente,
ao diabo
com suas mães e avós!
Para que toda
essa corja explodisse
inflando
os escuros
redingotes,
e Kógan(6)
atropelado
fugisse,
espetando
os transeuntes
nos bigodes.
Por enquanto
há escória
de sobra.
0 tempo é escasso -
mãos à obra.
Primeiro
é preciso
transformar a vida,
para cantá-la -
em seguida.
Os tempos estão duros
para o artista:
Mas,
dizei-me,
anêmicos e anões,
os grandes,
onde,
em que ocasião,
escolheram
uma estrada
batida?
General
da força humana
- Verbo -
marche!
Que o tempo
cuspa balas
para trás,
e o vento
no passado
só desfaça
um maço de cabelos.
Para o júbilo
o planeta
está imaturo.
É preciso
arrancar alegria
ao futuro.
Nesta vida
morrer não é difícil.
O difícil
é a vida e seu ofício.


(Tradução de Haroldo de Campos)

** O poema não esta com formatação original. Ela se encontra aqui.

Notas do Tradutor

(1) Alusão à revista Na Postu (De Sentinela), órgão da RAPP (Associação Russa dos Escritores Proletários), cujos colaboradores se mostravam muito zelosos em atacar os escritores que lhes pareciam transgredir a moral proletária.
(2) Referência ao poeta soviético 1. 1. Dorônin (n. em 1900).,
(3) Hotel em que lessiênin se suicidou.
(4) O famoso cantor L. V. Sóbinov (1872-1934) foi um dos participantes da homenagem à memória de lessiênin, que teve lugar no Teatro de Arte de Moscou, em 18 de janeiro de 1926, quando interpretou uma canção de Tchaikóvski.
(5) O papel de Loengrim, da ópera deste nome, de Wagner, constituiu um dos grandes êxitos da carreira artística de Leonid Sóbinov.
(6) O crítico P. S. Kógan (1872-1932), representante da crítica mais dogmática, com quem Myiakovsky manteve freqüentes polêmicas.


Leia: http://www.geocities.com/trotskyvive/TV04/TV04.htm
http://www.opoema.libnet.com.br/maiakovski/maiakovski_poema.htm

NATAL


Era um Papai-Noel mais subdesenvolvido do que - digamos - o Piauí. Uma barba mixuruquíssima, rala, encardida, que ele acabou por puxar para debaixo do queixo, na esperança de diminuir o calor.

Sim, porque fazia calor.

A calçada refletia por debaixo das calças dos transeuntes o seu bafo quente, o que ocorria também por debaixo das saias das passantes, mas esta imagem é mais refrescante e talvez não dê ao leitor a idéia do calor que fazia. A turba ignara ia e vinha, carregada de embrulhos, vítima da desonestidade dos comerciantes, mas, ávida de comprar presentinhos.

E o Papai Noel avacalhado ali na esquina, badalando. Era um sininho de som fino, que ele badalava meio sem jeito, como se estivesse disfarçando alguma coisa sem aquela dignidade de badalar de sino dos verdadeiros Papais- Noeis.

Também a roupa era mixa! A blusa não tinha aquela vermelhidão dos Papais-Noeis de capa de revistas. Nunquinha Madalena. Era cor-de-rosa, daquele cor-de-rosa das camisas que usam componentes de blocos de sujo, no Carnaval carioca. Isto, inclusive, talvez fosse verdade: aquele Papai-Noel era tão vagabundo que era bem possível que tivesse aproveitado o uniforme do Carnaval anterior, para o Natal.

Tia Zulmira, protegida pela sombra de uma marquise, aguardava condução e observava o Papai Noel. Observava, por exemplo, que o Papai-Noel usava tênis (bossa nova natalina), observava que o Papai-Noel não fazia anúncio de coisa nenhuma, ao contrário de seus coleguinhas de outras esquinas, que traziam às costas grandes cartazes coloridos com os nomes das lojas da cidade.

A velha, num lampejo, percebeu tudo. Viu logo que, naquele Papai-Noel, tinha truque. E, apenas para confirmar a sua teoria, abriu a bolsa, retirou um pedaço de papel e escreveu:

- 500 cruzeiros no grupo do gato - 1.675 pelos sete lados... NCr$ 200,00 - centena 463 (invertido) . . . NCr$ 150,00.

Enrolou o papelzinho no dinheiro correspondente e, saindo de debaixo da marquise, passou disfarçadamente pelo Papai-Noel e espalmou na sua mão a fezinha. Papai Noe1 apanhou tudo e disse baixinho:

- Obrigado, minha senhora. Um bom Natal para a senhora também.



Texto extraído do livro "Dez em Humor", Editora Expressão e Cultura - Rio de Janeiro, 1968, pág. 50.
Leia: http://www.releituras.com/spontepreta_conto.asp


Um grande beijo e um Natal maravilhoso para todos!

Marguerite Yourcenar



Certa vez, perguntaram a Marguerite por que deixara pronto seu túmulo com a inscrição 1903-19... "Não procuro apressar nem provocar, mas estou pronta. E mandei gravar os dois primeiros algarismos pois penso que o ano 2000 não é para mim."

Marguerite Yourcenar, ou melhor, Marguerite Antoinette, Jean, Marie, Ghislaine de Crayencourt, nasceu em 18 de Junho de 1903 em Bruxelas, em uma família aristocrática. Perde a mãe ao nascer e o pai aos 26 anos e abandona os palacetes da aristocracia por uma vida errante de escritora.
Marguerite dedicou-se com afinco ao ofício, o que acabou por conduzi-la a Academia Francesa de Letras. Foi a primeira mulher eleita.
Dos anos de viagem com seu pai acumulou erudição que empregou como contista, romancista, ensaísta e tradutora. Os prêmios se sucederam e a sua literatura ganhou reconhecimento mundial.
Marguerite viveu 40 anos com a namorada, Grace Frick. Aos 76 anos conhece Jerry Wilson, quarenta e seis anos mais novo, com quem se lança numa louca viagem pelo mundo: o seu lápis de pau assinalará no mapa os locais que falta conhecer antes da morte: Caraíbas, Guatemala, Egito, Itália, Japão, Tailândia, Índia, Quênia, Marrocos, Europa, de novo. Atravessar o mundo loucamente, como se o tempo tivesse parado nos anos vinte e não houvesse nada mais a perder ou a ganhar até ao fim.
Desta espécie de última noite de glória, que foi a derradeira fase da vida de Marguerite, uma fotografia a preto e branco, tirada em Marrocos, encerra tudo o resto que ficou para trás. A face da escritora recorta-se em grande plano, terminado num minúsculo brinco de ouro que parece brincar sozinho no lóbulo arredondado da orelha. Traços longos e finos como hastes atravessam-lhe a testa, as fontes, a curva dos olhos. Ela própria se questiona sobre esse lento vestígio do tempo, impiedoso e cruel, com quem atravessou uma existência. E acaba por responder no alto do seu último livro. "O quê? A Eternidade".
Marguerite Yourcenar morreu um ano depois de seu último companheiro, no dia 17 de dezembro de 1987. Ela havia escrito profeticamente na juventude: "Solidão... Eu não acredito como eles acreditam. Não vivo como eles vivem. Não amo como eles amam... Eu morrerei como eles morrem."



Cantilena Para Um Tocador De Flauta Cego


Flauta da noite que se cerra,
Presença líquida de um pranto,
Todos os silêncios da terra
São as pétalas do teu canto.

Espalha teu pólen na alfombra
Do catre que por fim te acoite
Mel de uma boca de sombra
Como um beijo na boca da noite

Marguerite Yourcenar



Leia: http://diferencial.ist.utl.pt/edicao/22/yourcenar.htm
http://www.nossacasa.net/recomeco/default.asp?item=030
no ar.




Falando em voltar para casa, sem saber da gravidade de sua doença, Clarice Lispector morreu ontem no Hospital do INPS, no Rio, e será sepultada amanhã no Cemitério Israelita.
A família e os amigos pediram a todos que respeitassem um desejo antigo da escritora:
não fotografassem seu corpo morto.

10 de dezembro de 1977




Não ouve ainda quem contrariasse um antigo desejo da escritora: não ser fotografada depois de morta. De fotografias Clarice Lispector nunca gostou muito nem enquanto viveu, até ontem às 10h30 da manhã. Seu corpo, levado do Hospital do INPS da Lagoa, no Rio, onde permancera internada desde 16 de novembro no quarto de número 600, foi removido para o Cemitério Comunal Israelita, no bairro do Caju, e será sepultado amanhã às 11h. O velório de Clarice, que nasceu na Ucrânia e viveu no Brasil desde os dois meses de idade, só será realizado horas antes do enterro.



A escritora de 56 anos, não sabia da gravidade de sua doença, câncer generalizado, e muito menos que os médicos haviam perdido qualquer esperança de salvá-la após uma delicadíssima e frustrada intervenção cirúrgica no começo de novembro. Sua amiga e enfermeira particular Ciléia Borelli disse que ela passou em claro sua última noite, bastante agitada mas sempre lúcida: "Clarice conversava muito, mantinha-se sempre atenta, dando mostras de que era uma pessoa dotada de um espírito de observação privilegiado. Além disso, ela nada sabia sobre sua enfermidade e demonstrava, em todas as conversas, seu otimismo e sua vontade de voltar logo para casa.



A morte encerrou uma convivência de vários anos, pois Ciléia se tornara a dama de companhia da escritora há vários anos, quando ela teve que ser internada com várias queimaduras pelo corpo, sofridas durante um incêndio que destruiu a casa onde morava. No hospital, poucos amigos, as irmãs Elisa (também escritora) e Tânia, o filho Paulo, alguns parentes. E os escritores Nélida Piñon e Autran Dourado, que seguiram para o hospital após a notícia da morte. Nélida explicava ao repórteres sobre a proibição das fotografias; Dourado permaneceu vários minutos em silêncio junto ao corpo de Clarice coberto por um lençol, na capela. Outra amiga, a bailarina Gilda Murra, lembrava a alegria que sentiu ao ler uma crônica de Clarice sobre sua dança.



Os parentes, que esperaram durante horas a remoção do corpo para o Cemitério Israelita na improvisada e suja capela do hospital, não quiseram fazer declarações à imprensa. Elisa e Tânia, as irmãs, não choraram, mas as expressões de sofrimento e cansaço mostravam que elas já haviam feito isso antes. Pouco antes da chegada da ambulância da Santa Casa que levaria o corpo de Clarice ao cemitério, Vilma, a esposa do ministro Nascimento e Silva, da Previdência Social, compareceu à capela. Com um vestido escuro, fumando muito, ela falava da honra de ter recebido uma das últimas dedicatórias de Clarice, em seu recente livro "A Hora da Estrela".



__ O livro me foi entregue por Nélida Piñon, explicava Vilma, e a dedicatória foi feita com letra tremida. Fiquei sabendo que ela o autografou no próprio leito onde estava. Nós éramos grandes amigas dela e sentimos muito sua morte. Também será uma grande perda para a literatura brasileira.
A escritora, que submetera-se à operação na Clínica São Sebastião, acabou sendo removida para o Hospital do INPS graças ao interesse do ministro Nascimento e Silva. A ambulância esperada chegou às 15h, trazendo uma urna simples de madeira, onde foi colocado o corpo. Antes da saída, novamente o mesmo pedido de que fosse respeitado o desejo de Clarice e ninguém fizesse fotos. Ninguém fez.


A viagem para o Cemitério Israelita durou 20 minutos. Apenas a ambulância entrou, ficando parents e amigos do lado de fora. Os grandes e pesados portões de ferro foram imediatamente fehcados, enqunto informava-se que o corpo estava sendo colocado em câmara mortuária onde permanecerá até amanhã, quando começarem as cerimônias judaicas. "Clarice não era devotada à religião, mas sua família resolveu dar-lhe um enterro conforme os rituais judáicos. Ela era um ser humano excepcional, uma pessoa profundamente delicada e discreta, que jamais dissociou sua obra da vida. Ela como ninguém conseguiu dominar a língua brasileira e, embora ucraniana de nascimento, acabou sendo mais brasileira do que muitos que aqui nasceram", disse Nélida, no lado de fora do cemitério. Disse também que Clarice não gostava muito de falar sobre sua obra nem dos projetos literários para o futuro, "embora fosse uma escritora com bastante vitalidade e vontade de trabalhar em seus livros".



Clarice Lispector era desquitada do diplomata Maury Gurgel Valente, atual embaixador brasileiro na ALALO, no Uruguai. O casal teve dois filhos: Paulo, que reside no Rio e assistiu à morte da mãe, e Pedro, o mais velho, que vive com o pai.


Acreditava que livro nascesse como árvore. Descobriu que não, e quis ser autora.





"Quando eu aprendi a ler, comecei a devorar milhares de livros. Achava que livro nascia assim como nasce uma árvore. Quando descobri que existia alguém que o escrevia, um autor, eu disse que também queria ser um". E em seguida a menina Clarice Lispector passou a escrever contos que enviava regularmente para um jornal de Recife. Nunca foram publicados, mas só muito mais tarde ela descobriu porque: "Eles descreviam sensações, ao contrário dos contos publicados, que narravam fatos".
Este foi o começo de sua carreira literária. Mas Clarice já se preparava para ela antes mesmo de saber ler, fabulando com uma amiga uma história que nunca terminava. Enquanto a escritora garantia que seus personagens estavam mortos, a amiga completava: "Eles não estavam tão mortos assim". E a história continuava. Isto foi contado pela própria autora num depoimento gravado em 1976, para o Museu da Imagem e do Som. Clarice contou fatos sobre toda sua vida, lembrou-se até de histórias anteriores a seu nascimento.
Ela tornou-se brasileira quase que por acaso. Ao saírem da Ucrânia, seus pais camponeses pensavam em transferir-se para a Alemanha em busca de uma vida melhor. Sua mãe grávida foi obrigada a descer do trem em Tcheschelnik, para que pudesse nascer. Com dois meses de idade já estava em Recife, onde aprendeu a falar, ler, escrever e gostar muito de caranguejo, coisa que jamais teria conhecido nos trigais de sua terra natal. Recordava-se de que foi uma criança muito alegre durante o curso escolar. Com a passagem para a adolescência mudou um pouco. Foi matriculada num ginásio pernambucano, mas mal teve tempo para conhecer as colegas. Sua família transferiu-se para o Rio.



Entre os 13 e 15 anos, Clarice freqüentou assiduamente a biblioteca de aluguel da rua Rodrigo Silva. E lia todos os livros de títulos bonitos. Assim, acabou conhecendo "O Lobo da Estepe", de Herman Hesse, "que me marcou profundamente. Depois desse livro adquiri consciência daquilo que desejava ser, como queria ser e o que desejava fazer". Terminando o ginásio, cursou Ciências Jurídicas. Mas só terminou o curso para desafiar uma amiga que a acusava de nunca acabar o que começava. Nessa época leu Dostoievsky, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado e Katherine Mansfield, com quem se identificou muito -- o que seria notado mais tarde por críticos literários do Brasil e de fora. Ao mesmo tempo, vivia sua segunda -- a primeira verdadeiramente importante -- experiência literária. Aos 9 anos, ainda em Recife, e entusiasmada por um espetáculo de teatro, ela escreveu uma peça "em três atos e três folhas de papel. Nenhum autor foi mais suscinto do que eu", lembrava rindo. Mas agora, no início da década de 40, era diferente. Clarice começara a trabalhar no jornal A Noite, estava no terceiro ano da faculdade, escrevia uma tese para o curso sobre o direito de punir. Preocupava-se com as idéias que surgiam de manhã em sua cabeça mas que à noite já estavam esquecidas. Começou a anotá-las. Daí, surgiu Perto do Coração Selvagem, seu passaporte de entrada no mundo literário brasileiro, em 1944.



O lançamento foi discreto, mas o livro interessou ao crítico Sérgio Milliet, que lhe dedicou um rodapé em sua coluna. Imediatamente outros fizeram o mesmo, "foi a realização". Logo depois Clarice casava-se com o namorado Maury e terminava seu curso de Direito. Maury Gurgel Valente tornou-se diplomata e Clarice acompanhou o marido, vivendo na Itália, Suíça (onde nasceu Pedro, o primeiro filho), Inglaterra, Estados Unidos, tendo residido seis anos em Washington, a cidade onde nasceu Paulo, o filho que vive no Rio. Por eles, juntou à sua obra duas narrativas infantis: O Mistério do Coelho Pensante, em 57, e A Mulher que Matou os Peixes, 11 anos depois. As duas histórias foram tiradas de fatos corriqueiros e domésticos e, na segunda, a personagem do título era a própria escritora que certa vez, ocupada com outros problemas, deixara os os peixes de seu aquário morrerem de fome.



Seu livro de estréia provocou comparações com Virginia Woolf e James Joyce, autores que Clarice só leria depois. Ela tavez ficasse menos decepcionada se alguém tivesse se lembrado de D.H. Lawrence, "minha grande admiração literária. Me inflamo com ele. Tem todos os defeitos da espécie humana, mas é fogo puro". Publicou depois, O Lustre, Alguns Contos, A Maçã no Escuro (seu livro mais traduzido internacionalmente), A Paixão Segundo G.H., Aprendizado ou o Livro dos Prazeres, Felicidade Clandestina, Laços de Família e outros, inclusive crônicas, ensaios e reportagens.
Bonita, seus estranhos olhos oblíquos provocaram a admiração também de pintores famosos. Em seu apartamento carioca, no Leme, esta admiração estava assinada em retratos pintados por Giorgio De Chirico (durante o tempo em que viveu em Roma), Ismailovitch e Ceschiatti, entre vários outros. Há alguns anos quase morreu queimada num incêndio em sua casa, ficando com a mão direita parcialmente destruída e sofrendo dolorosas queimaduras. "Só posso dizer que passei três noites no inferno, aquele que -- dizem -- espera os maus depois da morte. Eu não me considero má e o conheci ainda viva".



Apaixonada por crianças, gatos, cães, galinhas e insetos, sofria de insônia ("se eu dormisse mais fumaria menos") e torcia pelo Botafogo ("por causa do Garrincha"). A escritora guardou até a morte um certo sotaque pernambucano. "Pernambuco marca tanto a gente que basta que nada, mas nada mesmo das viagens que fiz por este mundo contribuiu para o que escrevo. Mas Recife continua firme".



"Faço poesia não porque seja poeta mas para exercitar a minha alma."


Frase de Ulisses, uma das personagens de Clarice.




Leia: http://caracol.imaginario.com/autografos/claricelispector/index.html
"Não há amor de viver sem desespero de viver".
Albert Camus





No dia 4 de julho de 1960, o homem que ganhou o Prêmio Nobel de 57 e que gastou metade do cheque na compra de um palacete no campo, recebeu a visita de seus inseparáveis amigos Anne, Janine e Michel Gallimard. Eles o fizeram desistir de uma passagem de trem para voltarem juntos de carro a Paris. O carro, um Facel-Véga dirigido por Michel Gallimard, seu editor, na altura da Rodovia 5, se arrebentou contra um plátano, entre as pequenas localidades de Champigny-sur-Yonne e Villeneuve-la-Guyard, na França. O relógio do painel do carro foi encontrado bloqueado às 13h55m, provavelmente a hora exata de sua morte. Anne e Janine saíram ilesas e Michel morreu cinco dias depois.

Encerrava-se assim uma vida urgente. Camus tinha urgência em viver, pressa e desespero, como se soubesse que a sua vida seria curta, tão curta como ele mesmo dizia ser a vida.
Albert Camus nasceu em Mondovi a 7 de Novembro de 1913. Filho de pai operário e mãe empregada doméstica e analfabeta, desde cedo buscou nos estudos um meio de fuga e compreensão da realidade. Nascido e criado entre contrastes fundamentais, desde cedo percebeu a miséria de um país colonizado, mas que paradoxalmente proporcionava o conforto na natureza de sol e mar da África.

Camus cresceu assim, num pequeno apartamento, vivendo com a sua mãe, a avó, um tio doente e um irmão. Garoto de rua, vivia misturado com as outras crianças da sua vizinhança (judeus, napolitanos, gregos, entre outros). A pobreza não o faz mais infeliz, tinha dentro de si a alegria de uma vida ao ar livre.
Dedicando-se aos estudos como um meio de transformação, teve a sorte de ser apoiado pelos professores. Consegue assim uma bolsa e vai para o Liceu. E lá, pela primeira vez sofre com o preconceito dos outros alunos, sente-se um estrangeiro. Nessa mesma época é acometido de tuberculose, nada porém que faça dele uma pessoa amarga, como disse certa vez ao referir-se a doença: (...) quando uma doença grave me tirou provisoriamente a força da vida que, em mim, tudo transfigurava, apesar das imperfeições invisíveis e das novas fraquezas que nela encontrava, pude conhecer o medo e o desânimo, jamais o amargor.

"Fui colocado a meio-caminho entre a miséria e o sol", escreveu Camus em O avesso e o direito. Camus soube como ninguém usufruir desse paradoxo entre miséria e sol e mesmo com os revezes causados pela doença, o sentimento trágico do absurdo, extraiu o máximo da vida, do desespero que tinha em absorve-lhe horas, minutos e segundos. Ele dizia que " que o único papel verdadeiro do homem, nascido em um mundo absurdo, era o de viver, de ter consciência de sua vida, de sua revolta, de sua liberdade."

Camus era humanista, um auto-crítico e crítico do entusiasmo excessivo de seus colegas pela esquerda, um homem de frágil, multifacetado, polifônico e admiravelmente sedutor. Com uma história de vida fascinante, que se desenrola em meio a décadas de um século atravessado por guerras, soube extrair uma lição disso tudo, a de o absurdo da vida não pode ser um fim, mas apenas um começo e o importante são as conseqüências e as regras de que se tira dela. Marcado pela precariedade da vida, Camus nos adverte para a necessidade de aproveitá-la ao máximo. Quando o Camus morreu, Jean-Paul Sartre disse: " O seu humanismo insistente, limitado e puro, austero e sensual, travava um controle doloroso contra os acontecimentos maciços e disformes deste tempo. O escândalo desta morte é a abolição da ordem dos homens pelo inumano."


...que se procure o sol enquanto há tempo...

leia: http://zonanon.com/non/letras/ensai_2.html






Carta a um jovem poeta
Paris, 17 de fevereiro de 1903,

Meu estimado senhor:


Recebi sua carta há poucos dias. Quero lhe agradecer a grande e amável confiança que esta representa. Mas pouco mais posso fazer. Não examinarei os seus versos, pois sempre fui alheio a qualquer intenção crítica. Para penetrar uma obra de arte, nada pior do que as palavras da crítica, que somente levam a mal-entendidos mais ou menos infelizes. Nem tudo se pode saber ou dizer, como nos querem fazer acreditar. Quase tudo o que sucede é inexprimível e decorre num espaço que a palavra jamais alcançou. E nada mais difícil de definir do que as obras de arte - seres misteriosos cuja vida imperecível acompanha nossa vida efêmera.
Após isso, apenas acrescento que os seus versos não revelam uma maneira própria. Possuem, é certo, sinais de personalidade, porém ainda tímidos e ocultos. Senti-o no seu último poema, "Minha Alma". Neste, qualquer coisa peculiar procura achar solução e forma. E em toda a formosa poesia "A Leopardi" se sente uma espécie afinidade com este príncipe, este solitário. Entretanto, as suas poesias não têm existência própria, nem mesmo a última, nem mesmo a que é dedicada a Leopardi. Na sua missiva encontrei a explicação de certas insuficiências que, ao lê-lo, já havia percebido, mas a que não me foi possível dar nome. Indaga-me se os seus versos são bons. Pergunta a mim, depois de Ter perguntado a várias pessoas. Manda-os para as revistas, compara-os a outros versos e alarma se quando certos jornais repelem os sus ensaios poéticos. Doravante (já que me permite aconselhá-lo) peço-lhe que renuncie a tudo isso. O seu olhar está voltado para o exterior. Eis o que não deve tornar a acontecer. Ninguém pode dar-lhe conselhos nem ajudá-lo - ninguém! Só existe um caminho: penetre em si mesmo e procure a necessidade que o faz escrever. Observe se esta necessidade tem raízes nas profundezas do seu coração. Confesse à sua alma: "Morreria, se não me fosse permitido escrever?" Isso, principalmente. Na hora mais tranqüila da noite, faça a si esta pergunta: Sou de fato obrigado a escrever?"Examine-se a fundo, até achar a mais profunda resposta. Se ela for afirmativa, se puder fazer face a tão grave interrogação com um forte e simples "Sou", então construa a sua vida em harmonia com essa necessidade. A sua existência, mesmo na hora mais indiferente e vazia, deve tornar-se sinal e testemunho de tal impulso. Aproxime-se então da natureza. Depois procure como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite, de início, os temas demasiado comuns: são os mais difíceis. Nos assuntos em que tradições seguras, às vezes brilhantes, se mostram em grande número, o poeta só pode realizar obra pessoal na plena maturidade de sua força. Fuja dos grandes assuntos e aproveite aqueles que o dia-a-dia lhe oferece. Fale de suas tristezas e dos seus desejos, dos pensamentos que o tocam, da sua fé na beleza. Diga tudo com sinceridade calma e humildade. Utilize, para se exprimir, os objetos que o rodeiam, as imagens dos seus sonhos, as suas lembranças. Se o quotidiano lhe parece pobre, não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser muito poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador nada é pobre, não há lugares mesquinhos e indiferentes. Mesmo num cárcere cujas paredes abafassem todos os ruídos do universo, não lhe ficaria sempre a sua infância, essa preciosa, essa esplêndida riqueza, esse tesouro de recordações? Volte, para esta direção, o seu espírito. Procure fazer regressar à superfície as impressões submersas desse longínquo passado. A sua personalidade fortificar-se-á, a sua solidão povoar-se-á, tornando-se, nas horas incertas do dia, uma espécie de moradia fechada aos sons exteriores. E se lhe vierem versos deste regresso a si próprio, deste mergulho no seu cosmo, não pensará em indagar se são bons ou não, não tentará conseguir que periódicos se interessem pelos seus trabalhos, porque desfrutará deles como de uma posse natural, como de uma de suas formas de vida e expressão. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade: é a natureza da sua origem que a julga. Por isso, meu prezado senhor, apenas me é possível dar-lhe este conselho: mergulhe em si próprio e sonde as profundidades de onde jorra a sua vida. Só desta maneia encontrará resposta à pergunta: "Devo criar?" De tal resposta recolha o som, sem desvirtuar o sentido. Talvez chegue à conclusão de que a Arte o chama. Neste caso, aceite o seu destino e siga-o, com o seu peso e a sua majestade, sem jamais exigir uma recompensa que possa vir de fora. O criador deve ser um mundo para si próprio, tudo encontrar em si e nesse pedaço de natureza com que se identificou. Pode suceder que, depois dessa descida em si mesmo, ao âmago solitário de sim mesmo, tenha de renunciar a ser poeta. (Basta, no meu entender, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo.) Mesmo assim, a introspecção que lhe peço não terá sido inútil. A sua vida, desde aí, encontrará caminhos próprios. Que estes sejam bons, ricos e largos, é que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.
Que poderei acrescentar? Acredito ter abordado o essencial. No fundo, apenas fiz questão de aconselhá-lo a progredir segundo a sua lei, de modo grave e sereno. Não lhe seria possível perturbar mais violentamente "para fora", do que esperando "de que fora" as respostas que apenas o seu sentimento mais secreto, na hora mais silenciosa, poderá talvez proporcionar-lhe.
Gostei de encontrar na sua carta o nome do professor Horacek. Dediquei a esse sábio uma grande estima e uma gratidão que já duram anos. Quer transmitir-lhe isso da minha parte? É bondade dele, que muito aprecio, lembrar-se ainda de mim.
Restituo-lhe os versos que me confiou tão amigavelmente e mais uma vez lhe agradeço a cordialidade e a amplitude da sua confiança.
Procurei, nesta reposta sincera, feia o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, na minha qualidade de estranho.
Com toda a dedicação e toda a simpatia.



Rainer Maria Rilke - Poeta alemão / 1875 - 1926 - Simbolista


"Mas como podem eles, que já se atiraram uns aos outros e não mais se delimitam nem se distinguem, quer dizer, que nada mais possuem de seu, encontrar uma saída em si mesmos, no fundo de sua solidão já derramada?"

Rainer Maria Rilke


Rilke teve durante toda a sua vida uma companhia, a solidão. Filho único, foi educado pela mãe dentro de um rigoroso catolicismo como uma menina e obrigado pelo pai a freqüentar uma escola de cadetes, onde se sentia terrivelmente só. Talvez fosse mais um outsider, pensando bem, e como é bem próprio daqueles que não se encaixam em lugar nenhum, viajou pelo mundo durante boa parte de sua vida.


a solidão é como chuva.

sobe do mar nas tardes em declínio
das planícies perdidas na saudade
ela se eleva ao céu, que é seu domínio
para cair do céu sobre a cidade

goteja na hora dúbia quando os becos
anseiam longamente pela aurora
quando os amantes se abandonam tristes
com a desilusão que a carne chora
quando os homens, seus ódios sufocando,
num mesmo leito vão deitar-se: é quando

a solidão com os rios vão passando

rilke



Sua obra mais conhecida é "Cartas a um jovem poeta" onde ele mantém correspondência com o jovem Kappus, leitura indispensável para quem tem dúvidas. Dúvidas de que? De tudo, sobre tudo, sobre a real necessidade de seguir uma vocação ou apenas ter um trabalho, um título, uma vida dentro dos padrões.
Não parte daí nenhum julgamento do que é certo ou errado, mas sim o que move o ser humano no que ele tem de essencial, vital. No caso, o jovem poeta ainda em dúvida sobre sua vocação escreve a rilke e lhe pede ajuda no sentido de saber se deve ou não prosseguir pelo caminho das letras. As cartas entre os dois são trocadas entre 1903 e 1908. Não se sabe se Kappus tornou-se um poeta por profissão, mas sabe-se que muitos que vieram após ele e tiveram nas mãos este livro descobriram-se poetas.
Assim conta a história...


a hora inclina-se e toca em mim
com claro bater metálico
os sentidos me tremem. sinto: eu posso...
e colho o dia plástico.

nada estava acabado antes de eu ver:
todo o devir aguardando em quietude.
maduros meus olhares: a cada um
como uma noiva, chega a coisa ansiada.

nada é pequeno para mim: gosto de tudo
e tudo eu pinto sobre ouro com grandeza
e bem alto o levanto
sem saber de quem vai a alma libertar

rilke




Nascido em Praga, no dia 04 de dezembro de 1875, Rainer Maria Rilke viajou pela África do Norte e pela Europa e, na França, tornou-se secretário do escultor François Rodin. Escreveu em alemão várias obras em prosa, mas é mais conhecido por suas poesias, que se caracterizam pela nota espiritual e pelo gosto das imagens, como acontece em Elegias de Duíno, escritas entre 1912 e 1922.
Ao conhecer Lou Andréas-Salomé (que adoro e de quem já falei aqui), Rilke inicia um Diário: O diário de Florença. São as impressões do jovem poeta, de apenas 22 anos, completamente apaixonado por Lou, mulher culta e inteligente, amiga de Freud, Tolstói e Nietzsche, quinze anos mais velha do que ele, a musa inspiradora deste livro. "Sinto que minha alegria permanece impessoal e sem brilho, enquanto dela não participares como confidente", escreve Rilke nas primeiras linhas de seu diário. A relação tumultuada deu origem a um belo livro que não se furta em falar de tudo e não apenas da mola propulsora, sua paixão por ela.


se ao menos uma vez tudo se aquietasse
se se calassem o talvez e o mais ou menos
e o riso à minha volta...
se o barulho que fazem meus sentidos
não perturbasse mais minha vigília...

então, num pensamento multifário
poderia eu pensar-te até aos teus limites
e possuir-te (só o tempo de um sorriso)
e oferecer-te a vida inteira, como
um agradecimento



Rilke faleceu no dia 29 de dezembro de 1926 em Valmont (Suiça). Deixou mais que belos versos, prosas regadas de poesia em puro estado, deixou-nos uma interrogação, um outro olhar, um sentido maior de visão primeira direcionada para o interior porque somente ali estão todas as respostas.

"Só o que é interno é perto; o mais, distante.
E esse interno é tão denso e a cada instante
Mais denso ainda. Impossível descrevê-la.
A ilha é como uma pequena estrela
Que o espaço esqueceu..."

rilke



Leia: http://www.opoema.libnet.com.br/rainermariarilke/rainermariarilke_db.htm
http://www.pmresende.rj.gov.br/asillo.htm




"O amor que não ousa dizer o nome' nesse século é a grande afeição de um homem mais velho por um homem mais jovem como aquela que houve entre Davi e Jonatas, é aquele amor que Platão tornou a base de sua filosofia, é o amor que você pode achar nos sonetos de Michelangelo e Shakespeare. É aquela afeição profunda, espiritual que é tão pura quanto perfeita. Ele dita e preenche grandes obras de arte como as de Shakespeare e Michelangelo, e aquelas minhas duas cartas, tal como são. Esse amor é mal entendido nesse século, tão mal entendido que pode ser descrito como o `Amor que não ousa dizer o nome' e por causa disso estou onde estou agora. Ele é bonito, é bom, é a mais nobre forma de afeição. Não há nada que não seja natural nele. Ele é intelectual e repetidamente existe entre um homem mais velho e um homem mais novo, quando o mais velho tem o intelecto e o mais jovem tem toda a alegria, a esperança e o brilho da vida à sua frente. Que as coisas deveriam ser assim o mundo não entende. O mundo zomba desse amor e às vezes expõe alguém ao ridículo por causa dele."

Oscar Wilde
Essas foras as palavras do literato em seu primeiro julgamento, em 26 de abril de 1895.


Oscar Wilde desde cedo, sobressaía-se entre os demais estudantes. Temperamento forte, inteligência privilegiada e comportamento anticonvencional, faziam dele uma presença de brilho singular.
Teve uma vida de muito sucesso, sendo o período literário mais produtivo entre os anos 1887 a 1895. Nesse período lança o livro que o colocaria entre os escritores mais famosos de sua época, "O retrato de Dorian Gray" .
É durante esse apogeu que os problemas começam a surgir. Problemas que o levariam a prisão e a miséria total. Seu crime? Rumores de homossexualismo, um suposto envolvimento com Lord Douglas. Provavelmente uma verdade, mas nada que justificasse a destruição de uma vida. Seus livros são recolhidos das livrarias, assim como suas comédias tiradas de cartaz. O que lhe resta, acaba sendo leiloado para suas despesas do processo judicial.

Ainda assim, a poesia estava em suas veias e escreve mais duas obras: "A Balada do Cárcere de Reading", baseado na execução do ex-sargento Charles T. Woolridge dentro da Prisão de Reading e "De Profundis", uma longa carta ao Lord Douglas.

Mesmo em liberdade, torna-se recluso em hotéis decadentes, conhece a pobreza e o pior que dela pode vir. Vai destruindo-se aos poucos com a bebida que antes lhe rendeu frases memoráveis, o absinto.


Oscar Wilde, espirituoso e brilhante escritor, morreu de meningite e uma infecção no ouvido chamada "cholesteotoma" (doença muito comum antes do advento dos antibióticos) em um quarto barato de um hotel de Paris, ás 9 hrs 50 mins do dia 30 de novembro de 1900. Morreu sozinho, mas, não desmoralizado, pois havia deixado insubstituível obra que, mesmo depois de 1 século, ainda é admirada e relembrada, tamanho á sua genialidade.


Leia: http://www.avanielmarinho.com.br/biografia/oscarwilde1.htm


dez escritores discorrem sobre o amor
o amor nos tempos da internet




Dezamores - contos, poemas é o primeiro resultado em livro da produção literária de dez autores a partir de oficinas virtuais de João Silvério Trevisan, autor do prefácio.

Provenientes de diferentes partes do Brasil e de diferentes turmas, os autores decidiram continuar os encontros via Internet, depois de terminada a oficina, para criar textos e discuti-los em conjunto.

Os dez autores passeiam à vontade pela prosa ficcional e pela poesia, às vezes, misturando saudavelmente uma na outra, sempre em busca dos rastros tortuosos do amor e de suas peculiaridades. A temática que envolve o amor navega livre pela web e acaba caindo nas páginas de DeZamores. Pelos capítulos, cada um deles introduzidos por uma epígrafe que prepara o leitor para o que vem pela frente, vemos o "dezamor" caminhar ao lado do amor.


autores

Adriana Calabró Janaína Amado
Albano Martins Ribeiro João Peçanha
Ana Peluso sara fazib
Chico de Assis Thelma Guedes
Dora Castellar Wael de Oliveira



Mais: http://www.dezamores.kit.net/
http://www.escrituras.com.br/liv_dezamores.htm



Dezamores - contos, poemas
Gênero: conto, poesia
Formato: brochura, 14 x 21 cm
Número de páginas: 168
Preço de capa: R$ 28,00





Giovana Pasquini
Divulgação
Escrituras Editora
Rua Maestro Callia, 123 - Vila Mariana
04012-100 - São Paulo-SP
(11) 5082-4190
http://www.escrituras.com.br/
A Falta de Érico


Falta alguma coisa no Brasil
depois da noite de Sexta-feira
Falta aquele homem no escritório
a tirar da máquina elétrica
o destino dos seres,
a explicação antiga da terra.
Falta uma tristeza de menino bom
caminhando entre adultos
na esperança da justiça
que tarda - como tarda!
a clarear o mundo.
Falta um boné, aquele jeito manso,
aquela ternura contida, óleo
a derramar-se lentamente,
falta o casal passeando no trigal.
Falta um solo de clarineta.


Carlos Drummond de Andrade




Quando Veríssimo morreu, em 28 de novembro de 1975, Carlos Drummond de Andrade lhe escreveu este poema elegíaco. Dava voz ao Brasil diante de tamanha perda.

O menino Érico vivia mais no mundo da imaginação do que na realidade. Era tímido, retraído, sem muita facilidade com números, mas muito bom em redação. Leitura e cinema o encantavam.
Em 1930 decide tornar-se escritor. Sábia decisão. Muitos livros depois e uma obra fecunda dão aval a essa escolha.
Sua temática é tipicamente brasileira e, mais que isso, regional, gaúcha. A tentativa de recriação genealógica e social da história do Rio Grande do Sul atingiu seu ponto culminante na trilogia O Tempo e o Vento: O Continente, O Retrato, e O Arquipélago.

Veríssimo costumava escrever em uma sala escura, praticamente vazia, onde apenas a máquina de escrever lhe vazia companhia. Tinha nos netos os maiores críticos, ao escrever um livro infantil, testava-o com eles, se gostavam, então era porque a história era boa.
Muito da biografia de Veríssimo se confunde com sua obra: seu tio Nestor e seu pai Sebastião inspiraram Toríbio e Rodrigo Terra Cambará de O Tempo e O Vento, e alguns episódios de sua vida encontram-se nas vidas de Vasco, Eugênio e Floriano, esse último uma alma gêmea filosófica do autor.
Tibicuera, herói de um de seus livros infantis, é o apelido pelo qual sua mãe o chamava.

Antes da crítica o reconhecer, mereceu amplo favor público, para afinal ser aceito em todas as áreas. Resistindo ao tempo, sua obra permanece nas livrarias em sucessivas edições.



Clarissa


Sem sono, Clarissa debruça-se à janela. A noite está clara. Refrescou.
Uma lua enorme, cheia, muito clara. Os quintais estão raiados de sombra e de luz. parece que o disco da lua se enredou entre a ramagem folhuda do plátano grande do quintal da casa onde D. Tatá morava.
O relógio, na sala, bate onze horas.
Cabeça encostada na vidraça, Clarissa pensa...
Como o tempo passou... Parece que o ano começou ontem. Entretanto, quanta coisa aconteceu! Sempre desejou voltar para casa. Mas agora que o dia da partida se aproxima, ela sente algo de esquisito no peito, uma espécie de saudade antecipada. Vai sentir falta de tudo isto, de todos estes aspectos de todas essas caras, de todos estes ruídos. Vai se lembrar sempre do papagaio que sabe dizer o seu nome, do gato que lhe roça preguiçosamente pelas pernas, da siá Andreza que vive na cozinha como uma
gata borralheira. Sentirá falta de tia Zina, do Tio Couto, de Amaro. E quem sabe se também de Ondina e Nestor; a vida é tão engraçada... Nunca mais lhe sairá da memória a risada contente do major...
Fora, o luar cresce, tênue, inundando a paisagem.
Clarissa infla as narinas. Parece-lhe que o luar tem um perfume todo especial. Se ela pudesse pegar o luar, fechá-lo na palma da mão, guardá-lo numa caixinha ou no fundo de uma gaveta para soltá-lo nas noites escuras...


Erico Veríssimo


Leia: http://www.releituras.com/everissimo_general.asp
http://www.suigeneris.pro.br/everissimo.htm



"Viver consiste em morrer. Em se estar preparado para a morte. Para morrer como um homem. Um homem se reconhece de dar sua vida. Não apenas numa batalha, mas em tudo aquilo que faz. Não apenas na morte - que, para um guerreiro, sobretudo, pode ser o ponto mais alto ou mais baixo de sua vida - mas a cada instante e ato de sua vida."

Hagakure




Todo samurai tem de estar pronto. Pronto para o embate, pronto para a morte, ainda que venha pelas próprias mãos.
Praticar o seppuku, dar-se à própria morte, era privilégio do samurai. Ele tinha o direito de usá-lo para se desagravar de uma injustiça, para manter sua honra, ou simplesmente para sugerir o caminho correto ao seu superior.
Havia um minucioso ritual para tais ocasiões solenes, mas em situações de emergência o samurai utilizava a própria wakizashi, a espada curta de que também se servia para decapitar os que vencera ou justiçara com a katana (espada longa). O uso desse par de espadas (dai-sho) era, igualmente, privilégio restrito ao samurai.

Foi assim que no dia 25 de novembro de 1970, Yukio Mishima pôs vim a própria vida, num longo e doloroso ritual, o seppuku.
Quando um guerreiro queria se livrar de uma grande desonra ou demonstrar lealdade, ele sentava-se à maneira japonesa no tatame e, com sua espada, furava a barriga, abrindo o corte até o outro lado. Mesmo durando horas, o sofrimento até a morte deveria ser suportado sem gritos ou choros pelo guerreiro, que agonizava em frente à família. Ao final, sua cabeça decepada era entregue aos parentes.
O ritual foi realizado diante da tropa das Forças Armadas de Tóquio, Mishima leu para os soldados uma declaração em que denunciava a decadência dos códigos de honra mais tradicionais do país, bem como a ocidentalização a que o Japão se submetia. Após o inflamado discurso, rumou até o gabinete do comandante e lá rasgou o ventre com a espada.


Mishima, escritor japonês, nome indispensável da literatura daquele país escolheu morrer do modo que viveu. Masoquista e homossexual, atormentado, genial, mas sobretudo contraditório. Intelectual, ele era também um militarista de direita que mantinha seu próprio exército particular. Um nacionalista que queria restaurar o poder do Imperador, ele era obcecado pela cultura ocidental e ofendia seu próprio povo adotando a imagem de uma celebridade no estilo ocidental.
Sua morte diz muito sobre sua vida e obra. Tudo em Mishima era extremo, carregado de tintas fortes. Seus romances repletos de personagens densos, apaixonantes, repugnantes. Lírico e irônico, nada em Mishima passa desapercebido. A batalha é constante. Seus conflitos, sua personalidade conturbada, a opção sexual, tudo é luta e desafio e nada passa impune, nem mesmo o leitor ao final de um livro seu será o mesmo. E é essa marca, indelével que faz a diferença entre a genialidade e a mediocridade.




As ruas sempre vão ficar

As ruas sempre vão ficar no mesmo lugar
Isso faz meus dias sempre iguais
A imagem na janela é sempre a mesma
Impossível viver dessa maneira
Na terra, esperando as lágrimas correrem de novo...
As ondas nunca vão ficar no mesmo lugar
Tudo que eu posso ouvir é a minha própria voz
O mar refugia horizontes vazios
E neles passaria a vida inteira
Esperando as luzes do porto
E desejando o que mais odeio.


Yukio Mishima

No elevador



Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas proposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu esse pequeno índice.

De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto. Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para e um hiato com gelo para ela.

Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto. Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula: ele não perdeu o ritmo e sugeriu um longo ditongo oral, e quem sabe, talvez, uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa.

Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto ia tomando conta dela inteira. Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.

Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou, e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos.

Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou pela janela, e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.


Autor: Sujeito Oculto



Fonte: Balaio Porret@ nº377
Proust



Atualmente ele é cultuado, reconhecido como um dos grandes reinventores do romance moderno, mas na sua época chegou a ser odiado por seus contemporâneos. Amado ou detestado, a verdade é que jamais passou desapercebido.
Sua mãe o chamava de mon petit jaunet (meu amarelinho), mon petit benêt (meu palerminha) ou mon petit nigaud (meu idiotinha) e mesmo assim ele levaria a vida escrevendo aquele que seria um marco da literatura francesa: Em busca do tempo perdido, romance em sete volumes que deixaria inacabado. A doença acabaria por vencê-lo.
Marcel Proust nasceu em Anteuil, perto de Paris, em 10 de julho de 1871. Com problemas de saúde desde a infância, foi uma criança cercada de cuidados especiais por sua mãe. Asmático, solitário, homossexual em conflito com sua própria identidade, Proust descobriu técnicas de descrever de maneira minuciosa, fascinante cada objeto ou cena de seus livros. Tornou-se referência.
Durante anos, Proust levou uma vida de prazeres, mundana. Costumava dormir de dia e exigia silêncio absoluto de sua mãe. As noites eram passadas na convivência vazia dos salões de Paris. Parecia estar se preparando para escrever a obra que somente a morte se encarregaria de interromper.

"Jamais vemos os entes queridos a não ser no sistema animado, no movimento perpétuo de nossa incessante ternura, a qual, antes de deixar que cheguem até nós as imagens que nos apresentam sua face, arrebata-as no seu vórtice, lança-as sobre a idéia que fazemos deles desde sempre, fá-las aderir a ela, coincidir com ela".

(Proust. No Caminho de Guermantes. ed. Globo, p. 126 )



Segundo Celeste Albaret, criada e enfermeira de Marcel Proust de 1913 a 1922, durante a madrugada de 18 de Novembro de 1922, data da sua morte, o escritor continuava a escrever a sua obra-prima.
O tempo foi seu algoz, Marcel Proust morreria em decorrência de complicações pulmonares, deixando seu nome eternizado em romances, ensaios críticos, traduções e vasta correspondência.


"Mas quando mais nada subsistisse de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas - sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais mais persistentes, mais fiéis - o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação."

Marcel Proust, in No Caminho de Swann



Leia: http://www.oficinadeliteratura.hpg.ig.com.br/contmproust.htm
http://www.estadao.com.br/ext/frances/proustp.htm
"[...] tento, com a maior insistência, embora com tão
precário resultado (como se tornou evidente), incorporar
a linguagem que falo e escuto no meu ambiente nativo à
língua com que ganho a vida nas folhas impressas. Não
que o faça por novidade, apenas por necessidade.
Meu parente José de Alencar quase um século atrás vivia
brigando por isso e fez escola."


Rachel de Queiroz



Quando Rachel de Queiroz faleceu, a impressão que tive, foi a de perder alguém muito próximo. De certa forma ela era, afinal acompanhou-me por boa parte da infância e adolescência. Nesse dia bateu aquela melancolia de alguém distante, mas presente, ainda que no imaginário infantil.
Hoje Rachel faria 93 anos de uma vida que foi marcada por lutas e vitórias. Atuante, interessada no flagelo da seca, nunca se distanciou da sua terra.
Inserida no Modernismo, a prosa regionalista de Rachel de Queiroz retrata, numa linguagem enxuta e viva, o nordeste; mais precisamente o Ceará.
Seus dois primeiros romances - O Quinze e João Miguel - demonstram sua preocupação com os traços psicológicos do homem daquela região que, pressionado por forças atávicas, aceita fatalísticamente seu destino. Essa harmonização entre o social e o psicológico demonstra uma nova tomada de posição na temática do romance nordestino. A mesma abordagem se aplica aos dois romances seguintes: Caminho de Pedras e As Três Marias. O primeiro é conscientemente político-social e as características psicológicas estão aí valorizadas. No entanto, em As Três Marias elas atingem o seu máximo.
Em 1930, quando lançou seu primeiro romance O Quinze, recebeu de pronto seu primeiro prêmio. Nos anos que se seguiram, Rachel dedicou-se a crônica jornalística, ao teatro, traduções, sem abandonar a ficção.


Amor de acidentado


ACONTECEU ultimamente um caso que tem chamado atenção. Estava um moço noivo, de casamento marcado para daí a poucos dias, quando de repente, ao atravessar aquela avenida de mau agouro a que por isso mesmo teimam em chamar Getúlio Vargas, caiu-lhe em cima um automóvel desabrido, desses que não procuram saber se o cristão à sua frente é noivo ou é nada - querem é passante jeitoso para derrubar, como de fato este o derrubou. O mundo não é assim mesmo, incerto e enganoso? De nada vale um homem alimentar no seu coração qualquer espécie de sonhos preciosos ou de esperanças; nem vale o alto juízo que ele faça de si ou sequer o juízo que dele façam os outros; o destino está aí na sua frente, de boca aberta e dentes afiados, na figura de um automóvel, de um micróbio, de uma onda de mar, e tanto vai para o buraco o sonhador rico de promessas como o pobre desesperado para o qual a morte já chegou tarde.

Felizmente o nosso moço não chegou a ir para o buraco. Andou perto nas primeiras horas, rebentou muito osso e deitou muito sangue - mas foi socorrido a tempo, e parece que com bastante gaze, gesso e paciência acaba ficando tão perfeito ou quase tão perfeito quanto antes do desastre.
E agora chegando à parte que chama atenção e que todo mundo acha bonito: segundo foi dito antes, estava a vítima de casamento justo, juiz apalavrado, padre tratado. A noiva de vestido feito, os doces no forno e o champanha na geladeira. Em vista disso, achou o noivo que, acidentado ou não acidentado, não seria um simples capricho do chofer que iria inutilizar tantos preparativos. E pois não desdisse nada, não adiou os convites: apenas transferiu a cerimônia para a enfermaria do hospital, e em torno do seu leito de dores se procedeu ao enlace, completo e sem atraso de um minuto.
Bem fazem os que se admiram e acham bonito, porque nestes tempos cínicos e desesperados um caso assim é um sinal tangível de que o amor ainda existe no mundo na sua forma mais pura; e passados nove séculos sobre os túmulos de Abelardo e Heloísa, ainda os encontramos reencarnados na mesma fortaleza de paixão e na mesma integridade de sentimento.
Porque diante daquele homem incógnito, enfaixado, todo revestido de gesso, a moça não hesitou em encontrar o seu amado, o seu escolhido, o único que lhe serve e lhe apela à alma no meio dos bilhões de seres do planeta. Afinal, com isso se prova que o que ela amava não era o simples corpo que o automóvel massacrou - não eram aquelas pernas agora entaladas, aquelas costelas em colete de gesso, o rosto, os lábios, os olhos que a gaze está encobrindo, e que ela não pode jurar que sairão os mesmos da aventura. De tudo que havia dentro ou fora daquele corpo e desse corpo fazendo parte, é evidente que ela amava especialmente o escondido coração dentro do peito, ou a flama imortal e imponderável que sob o nome de alma costumamos dizer que mora dentro do coração.
Ele, por seu lado, ninguém pode dizer que amasse menos. Porque um indivíduo que sofreu tal subversão corpórea, mesmo que retorne à vida sem aparente alteração no seu aspecto físico, não é possível que ressurja para a vida com as mesmas disposições de espírito que costumava usar antes. O lógico é que o rapaz atrevido que caiu debaixo das quatro rodas assassinas saia do hospital um senhor morigerado, que olha duas vezes para cada esquina antes de a atravessar. E no entanto esse homem novo está pronto a endossar os compromissos do homem antigo, e não hesita e corre para o que deseja, sem faixa ou tala que o prenda - por quê? Só porque ama, porque acima da dor, e do receio físico e da preocupação com o conserto que lhe estão fazendo os doutores no triste corpo, estão as necessidades, as exigências da alma.
Vivemos em terra de muitos acidentes, e pois o problema do amor com acidentado deve estar entre nós constantemente se propondo; por isso damos publicidade ao caso do casamento no hospital e o apresentamos à meditação dos interessados. Todos nós poderemos, mais cedo ou mais tarde, estar na situação do moço ou da moça da história: e se a meditação não nos ajudar a fugir da sanha matadora do automóvel desconhecido, pelo menos nos ensinará a não perder as esperanças, e até - quem sabe - no meio da desilusão e da tristeza, de repente ver brotar um milagre.


Rachel de Queiroz
Texto extraído do livro "Quatro Vozes", Editora Record - Rio de Janeiro, 1998, pág. 29



Leia: http://www.nilc.icmsc.sc.usp.br/literatura/raqueldequeiroz.htm
Roland Barthes
No dia 12 de novembro de 1915, nascia Roland Barthes, o escritor do famoso "Fragmento do discurso amoroso. Cabe dizer que Barthes foi mais do que um escritor de um livro sobre paixões, para falar de modo resumidíssimo e simplista. Barthes foi crítico literário, semiólogo, ensaísta, sociólogo e filósofo. Um homem versátil que chegou ao meio acadêmico por caminhos transversais.

"Em uma "lição inaugural", no dia 7 de janeiro de 1977, Barthes fala do caráter pouco convencional de sua obra e manifesta o espanto por estar sendo aceito num meio onde "reinam a ciência, o saber, o rigor e a invenção disciplinada". Ele se descreve como alguém impuro e incerto, mas toda essa modéstia não esconde o óbvio: é justamente a "incerteza" e a abertura para o novo que constituem o diferencial e o valor de Barthes."

Teve uma vida rica literariamente e mesmo quando acusado de ser um tanto "volúvel" ideologicamente, por se interessar por diversos temas, a verdade é que esse ecletismo escondia sua proposta de não se prender a um único método de análise. Enfim, vamos ao que interessa, o Discurso Amoroso.


Sobre ele, Barthes escreveu:


"A necessidade deste livro está contida na seguinte consideração: o discurso amoroso é hoje em dia de uma extrema solidão. Este discurso é talvez falado por milhares de pessoas, mas não é defendido por ninguém." (R. B.)

Fragmentos dos Discurso Amoroso ou quem não viu esse filme antes?

Parceiros que se relacionam como se fossem uma só pessoa podem tirar do "não", contido na ruptura da relação, a experiência definitiva que Roland Barthes tão bem expressa: "ele diz uma palavra diferente (que pode ser o "não") e ouço rugir de um modo ameaçador todo um outro mundo, que é o mundo do outro". A frase de Barthes revela uma obviedade negada: "Eu não sou você, eu sou outra pessoa, eu existo com o meu desejo e o meu desejo não mais se dirige a você."






"A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contato: de um lado, toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é: "eu te desejo", e libera-lo, alimenta-lo, ramifica-lo, fazê-lo explodir ( a linguagem goza de tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação."

O autor empresta aqui ao sujeito apaixonado a sua "cultura", em troca o sujeito apaixonado lhe passa a inocência do seu imaginário, indiferente aos bons costumes do saber.

Assim sendo é um enamorado que fala e que diz:

AUSÊNCIA: Todo episódio de linguagem que põe em cena a ausência do objeto amado - quaisquer que sejam a causa e a duração - e tende a transformar essa ausência em prova de abandono.


1.Grande quantidade de lieder1, de melodias, de canções sobre a ausência amorosa. E, no entanto, não se encontra essa figura clássica, no Werther. A razão é simples: lá, o objeto amado (Charlotte) não se movimenta; é o sujeito apaixonado (Werther) que, em determinado momento, se afasta. Ora, só há ausência do outro: é o outro que parte, sou eu que fico. O outro vive em eterno estado de partida, de viagem; ele é, por vocação, migrador, quanto a mim que amo, sou por vocação inversa, sedentário, imóvel, disponível, à espera, fincado no lugar, não resgatado como um embrulho num canto qualquer da estação. A ausência amorosa só tem um sentido, e só pode ser dita a partir de quem fica - e não de quem parte: eu, sempre presente, só se constitui diante de você, sempre ausente. Dizer a ausência é, de início, estabelecer que o sujeito e o outro não podem trocar de lugar, é dizer: "Sou menos amado do que amo."

[...]

"Eu sou odioso."

MONSTRUOSO: O sujeito se dá conta bruscamente que ele envolve o objeto amado numa rede de tiranias: ele se sente passar de miserável a monstruoso.

2. O discurso amoroso sufoca o outro, que não encontra lugar algum para sua própria fala nesse dizer maciço. Não é que eu o impeça de falar, mas sei como fazer deslizar os pronomes: 'Eu falo e você me ouve, logo nós somos' (Ponge). Às vezes, com terror, me conscientizo dessa inversão: eu, que me acreditava puro sujeito (sujeito submisso: frágil, delicado, miserável), me vejo transformado em coisa obtusa, que avança cegamente, que esmaga tudo sob seu discurso: eu que amo, sou indesejável, faço parte do rol dos importunos: aqueles que pesam, atrapalham, abusam, complicam, pedem, intimidam (ou apenas simplesmente: aqueles que falam). Me enganei, monumentalmente.

(O outro fica desfigurado pelo seu mutismo, como nesses sonhos terríveis onde certa pessoa amada aparece com a parte inferior do rosto inteiramente apagada, sem boca; e eu que falo, também fico desfigurado: o solilóquio faz de mim um monstro, uma língua enorme.)"


[...]

frustração teria por figura a Presença (vejo o outro todo dia, mas isso não me satisfaz: o objeto está lá, na realidade, mas continua a me fazer falta imaginariamente). Quanto à castração, teria por figura a Intermitência (aceito deixar um pouco o outro "sem chorar, assumo o luto da relação, sei esquecer). A ausência é a figura da privação; desejo e preciso ao mesmo tempo. O desejo se abate sobre a carência: aí está o fato obsedante do sentimento amoroso. ("O desejo aí está, ardente, eterno: mas Deus está acima dele, e os braços erguidos do Desejo não atingem nunca a plenitude adorada." O discurso da Ausência é um texto de dois ideogramas: há os braços erguidos do Desejo, e há os braços estendidos da Carência. Oscilo, vacilo entre a imagem pálida dos braços erguidos e a imagem acolhedora e infantil dos braços estendidos.)

Me instalo sozinho, num café; as pessoas vêm me cumprimentar; me sinto rodeado, solicitado, lisonjeado. Mas o outro está ausente; eu o convoco em mim mesmo para que ele me mantenha à margem dessa amabilidade mundana, que me espia. Apelo para a sua "verdade" (a verdade cuja sensação ele me dá) contra a histeria da sedução onde sinto que escorrego. Torno a ausência do outro responsável pelo meu mundanismo; invoco sua proteção, sua volta: que o outro apareça, que me retire, como uma mãe que vem buscar seu filho, do brilho mundano, da fatuidade social, que ele me devolva "a intimidade religiosa, a gravidade" do mundo amoroso. (X...me dizia que o amor o tinha protegido do mundanismo: associações, ambições, promoções, conspirações, alianças, secessões, funções, poderes: o amor tinha feito dele um detrito social, e ele se regozijava disso.)

Roland Barthes


Esse tema é recorrente na literatura. Acredito que nunca se falou tanto sobre os desencontros amorosos como nos tempos de hoje. Vivemos no dia-a-dia, encontramos em livros e assistimos em filmes. Muitas perguntas e nenhuma resposta que dê solução ao caso e talvez resida aí o grande barato, a busca, o caminho. Se vamos chegar, se vamos encontrar nossos sonhos ou melhor o que de real podemos encontrar no que sonhamos, é só um detalhe, por ora, só nos resta seguir...


Leia: http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2000/10/01/cad866.html





A escritora, nascida no Rio de Janeiro em 7 de novembro de 1901, foi criada pela avó materna após ficar órfã de pai e mãe. Formou-se professora primária aos 16 anos e aos 18 publicou seu primeiro livro de poemas, "Espectros". Foi menina solitária e quando reclamavam de seu isolamento dizia que sentia não poder desfrutar da companhia de muitas pessoas, realmente preciosas, numa alusão a perda de seus pais. Desde muito Cecília teria intimidade com a morte e saberia como ninguém as relações entre o efêmero e a etermidade. A infância daria a ela duas coisas que parecem ruins: o silêncio e a solidão. E foi justamente nessa área, segundo ela, que os livros se abriram e deixaram sair suas realidades e sonhos.




Surdina

Quem toca piano sob a chuva,
na tarde turva e despovoada?
De que antiga, límpida música
Recebo a lembrança apagada?

Minha vida, numa poltrona
jaz, diante da janela aberta.
Vejo árvores, nuvens, - e a longa
rota do tempo, descoberta.

Entre os meus olhos descansados
e os meus descansados ouvidos,
alguém colhe com dedos calmos
ramos de som, descoloridos.

A chuva interfere na música.
Tocam tão longe! O turvo dia
mistura piano, árvore, nuvens,
séculos de melancolia...

Cecília Meireles


Na solidão silenciosa, a menina Cecília encontrava suas respostas na palavra escrita. Muito antes de saber escrever, compunha versos, ainda que não fizesse poesia. Naquele momento, seus versos eram sementes que a eternidade se encarregaria de cultivar.



Por mais que procure antes de tudo ser feito,
eu era amor. Só isso encontro.
Caminho, navego, vôo,
- sempre amor.
Rio desviado, seta exilada, onda soprada ao contrário
- mas sempre o mesmo resultado: direção e êxtase.

Cecília Meireles
Sem palavras...

Morre no Rio a escritora Rachel de Queiroz

Morreu hoje no Rio de Janeiro a escritora cearense Rachel de Queiroz, que completaria 93 anos no dia 17 de novembro. Ela foi vítima de um infarto do miocárdio, por volta das 6h, enquanto dormia em sua casa no bairro do Leblon, na zona sul, segundo a família. A escritora já havia sofrido um derrame em agosto de 1999.

O velório será na ABL (Academia Brasileira de Letras) e a previsão era de que o corpo chegasse ao local às 11h. Diferentemente do que havia sido inicialmente informado pela assessoria da ABL, o enterro será feito somente amanhã, no mausoléu da família da escritora no Cemitério São João Batista, em Botafogo (zona sul).

Leia: ilustrada.





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Essa carta de Betinho para sua esposa, Maria, é uma das belas declarações de amor que já li. Escrita para ser lida após a sua morte, conta sua história com Maria, mas sobretudo fala de amor, não só o que eles viveram, mas do amor que Betinho tinha pela humanidade. A primeira vista parece apenas o relato de uma vida a dois, repleta de companheirismo, muito amor, força e todos os obstáculos que alguém pode ter na vida. Lembro de ter lido certa vez, que Betinho nunca foi saudável. Sempre e de alguma forma estava doente. Não podia ser criança na sua plenitude por causa da hemofilia, não podia se ferir, coisa corriqueira entre crianças. Flamenguista doente não podia sequer jogar uma pelada. Quinze dias depois de nascer, teve uma hemorragia no umbigo que quase o matou. Aos seis anos foi internado com hemorragia nos dentes. Aos 14 anos, ficou tuberculoso e foi isolado pela família, em tratamento intensivo e praticamente desenganado. Sobreviveu. E acreditava na cura da AIDS, era um sobrevivente obstinado.
Dois dias antes de morrer, o brasileiro que reinventou a palavra cidadania pesava 39 quilos, sofria em silêncio e de hora em hora era submetido a uma verificação geral de seus órgãos vitais por uma enfermeira. Nascido em 03 de novembro de 1935, viria a falecer dia 14 de agosto de 1997 nos deixando seus sonhos, e uma espécie de amor que ultrapassa os limites do corpo e da alma, o amor pela humanidade e os excluídos.



"Não posso ser feliz diante da miséria humana. O fim da miséria não é uma utopia."




Uma Carta Para Maria - Itatiaia, janeiro de 1997


Carta escrita por Herbert de Souza (o Betinho) para sua mulher Maria e lida, um ano após sua morte, pelo ator Jonas Bloch, durante a cerimônia no CCBB.

"Este texto é para Maria ler depois da minha morte que, segundo meus cálculos, não deve demorar muito. É uma declaração de amor.

Não tenho pressa em morrer, assim como não tenho pressa em terminar esta carta. Vou voltar a ela quantas vezes puder e trabalhar com carinho e cuidado cada palavra. Uma carta para Maria tem que ter todos os cuidados. Não quero triste, quero fazer dela também um pedaço de vida pela via de lembrança que é a nossa eternidade. Nos conhecemos nas reuniões de AP (Ação Popular), em 1970, em pleno Maoísmo. Havia uma clima de sectarismo e medo nada propício para o amor.

Antes de me aventurar andei fazendo umas sondagens e os sinais eram animadores, apesar de misteriosos. Mas tínhamos que começar o namoro de alguma forma. Foi no ônibus da Vila das Belezas, em São Paulo.
Saímos em direção ao fim da linha como quem busca um começo. E aí veio o primeiro beijo, sem jeito, espremido, mas gostoso, um beijo público. A barreira da distância estava rompida para dar começo a uma relação que já completou 26 anos!

O Maoísmo estava na China, nosso amor no São João. Era muito mais forte que qualquer ideologia. Era a vida em nós, tão sacrificada na clandestinidade sem sentido e sem futuro. Fomos viver em um quarto e cozinha, minúsculos, nos fundos de uma casa pobre, perto da Igreja da Penha. No lugar cabia nossa cama, uma mesinha, coisas de cozinha e nada mais. Mas como fizemos amor naquele tempo! Foi incrível e seguramente nunca tivemos tanto prazer.

Tempos de chumbo, de medo, de susto e insegurança. Medo de dia, amor de noite. Assim vivemos por quase um ano. Até que tudo começou a "cair". Prisões, torturas, polícia por toda a parte, o inferno na nossa frente. Fomos para o Chile. E ali, chamado por Garcez para elaborar textos, acabei no agrado de Allende, que os usou em seus discursos oficiais. Foi a primeira vez que eu vi amor virar discurso político... Depois passamos por muita coisa até voltar. Até que a anistia chegou e nos surpreendeu. E agora, o que fazer com o Brasil?
Foi um turbilhão de emoções: o sonho virou realidade! Era verdade, o Brasil era nosso de novo. A primeira coisa foi comer tudo que não havíamos comido no exílio: angu com galinha ao molho pardo, quiabo com carne moída, chuchu com maxixe, abóbora, cozido, feijoada. Um festival de saudades culinárias, um reencontro com o Brasil pela boca.

Uma das maiores emoções da minha vida foi ver o Henrique surgindo de dentro de você. Emoção sem fim e sem limite que me fez reencontrar a infância.

Depois do exílio, nossas vidas pareciam bem normais. Trabalhávamos; viajávamos nas férias, visitávamos os amigos, o Ibase funcionava, até a hemofilia parecia que havia dado uma trégua. Henrique crescia, Daniel aos poucos se reaproximava de mim, já como filho e amigo.

Mas como uma tragédia que vem às cegas e entra pelas nossas vidas, estávamos diante do que nunca esperei. A Aids. Em 1985, surge a notícia da epidemia que atingia homossexuais, drogados e hemofílicos. O pânico foi geral. Eu, é claro, havia entrado nessa. Não bastava ter nascido mineiro, católico, hemofílico, maoísta e meio deficiente físico.

Era necessário entrar na onda mundial, na praga do século, mortal, definitiva, sem cura, sem futuro e fatal. E foi aí que você, mais do que nunca, revelou que é capaz de superar a tragédia, sofrendo, mas enfrentando tudo e com um grande carinho e cuidado. A Aids selou um amor mais forte e mais definitivo porque desafia tudo, o medo, a tentação do desespero, o desânimo diante do futuro. Continuar tudo apesar de tudo, o beijo, o carinho e a sensualidade.

Assumi publicamente minha condição de soropositivo e você me acompanhou. Nunca pôs um "senão" ou um comentário sobre cuidados necessários. Deu a mão e seguiu junto como se fosse metade de mim, inseparável. E foi. Desde os tempos do cólera, da não esperança, da morte do Henfil e Chico, passando pelas crises que beiravam a morte até o coquetel que reabria as esperanças. Tempo curto para descrever, mas uma eternidade para se viver.

Um dos maiores problemas da Aids é o sexo. Ter relações com todos os cuidados ou não terá Todos os cuidados são suficientes ou não se deve correr riscos com a pessoa amada? Passamos por todas as fases, desde o sexo com uma ou duas camisinhas até sexo nenhum, só carinho. Preferi a segurança total ao mínimo risco.

Parei, paramos e sem dramas, com carências, mas sem dramas, como se fosse normal viver contrariando tudo que aprendemos como homem e mulher, vivendo a sensualidade da música, da boa comida, da literatura, da invenção, dos pequenos prazeres e da paz. Viver é muito mais que fazer sexo. Mas para se viver isso, é necessário que Maria também sinta assim e seja capaz dessa metamorfose como foi.

Para se falar de uma pessoa com total liberdade é necessário que uma esteja morta e eu sei que este será o meu caso. Irei ao meu enterro sem grandes penas e principalmente sem trabalho, carregado. Não tenho curiosidade para saber quando, mas sei que não demora muito.

Quero morrer em paz, na cama, sem dor, com Maria do meu lado e sem muitos amigos, porque a morte não é ocasião para se chorar, mas para celebrar um fim, uma história. Tenho muita pena das pessoas que morrem sozinhas ou mal acompanhadas, é morrer muitas vezes em uma só. Morrer sem o outro é partir sozinho. O olhar do outro é que te faz viver e descansar em paz. O ideal é que pudesse morrer na minha cama e sem dor, tomando um saquê gelado, um bom vinho português ou uma cerveja gelada.

Te amo para sempre,

Betinho,


Extraída do "Jornal da Orla" de Santos, SP, ao dia 24 janeiro 1999.

"Temos sociólogos bons e medíocres. Uns acabam professores, outros presidentes da República"

Herbert de Souza, sociólogo.


Vamos fazer a nossa parte: http://www.acaodacidadania.com.br/




Peguei aqui.
Ezra Pound
"Num barraco precário,
Sem glória e sem salário,
O estilista acha abrigo
Contra o mundo inimigo.
A natureza o oculta.
Na amante calma e inculta
Exerce seus talentos.
E o solo acolhe os seus lamentos.
O abrigo dos requintes e contendas
Vaza por entre o zinco.
Ele faz comida suculenta.
A porta não tem trinco."

Ezra Pound






Irônico, sarcástico, mordaz. Ezra Pound. O poeta que marcou uma geração tinha muitas definições. Segundo críticos, Pound foi o responsável pelo modernismo nas letras, assim como Picasso foi para a pintura e Stravinski para a música. Loucura? Pode ser, mas é sem dúvida a vida desse poeta que poderíamos chamar de loucura...literalmente.

Ezra Pound nasceu em Hailey no estado de Idaho em 30 de outubro de 1885. Após concluir seus estudos lecionou por um curto período. Convencido que a poesia era a maior razão de ser em sua vida, Pound abandonou o meio universitário e viajou para a Europa em 1908. Segue, então a confirmação do talento poético de Pound.

Até aí, tudo vai indo muito bem para o ele, mas uma escolha errada marcaria sua vida para sempre. O escritor que nunca havia abraçado uma ideologia política, descobriu Mussolini e aderiu ao fascismo de corpo e alma. Em paralelo a sua obra poética, começou a escrever uma série de artigos, onde textos raivosos.

Essas atividades fizeram com que o escritor fosse levado para o cárcere de Pisa no dia 24 de maio de 1945. Depois de passar trinta dias na "jaula", Pound perdeu a memória e sucumbiu. Foi transferido para o hospital da prisão onde após uma pequena melhora concentrou todas suas energias na criação dos 10 "Cantos Pisanos". Meses mais tarde foi transferido para os Estados Unidos, onde seria julgado por alta traição. Submetido a uma junta de psiquiatras o escritor foi considerado insano, escapando do julgamento e da pena capital. Isso não o livrou de ser internado no pavilhão para loucos criminosos do Hospital St. Elizabeth em Washington. Ezra Pound só alcançou a liberdade em 18 de abril de 1958 quando seu processo foi arquivado.

Alguns críticos ainda confundem vida e obra, equivocadas (reconhecida por ele mesmo) posições políticas com obra literária. Ainda que seja impossível esquecer ou perdoar o passado fascista de Pound, como não pensar em mais de 10 anos preso no pavilhão dos loucos? Um alto preço pago, dívida quitada e uma obra que transcende o tempo.


Leia: http://www.revista.agulha.nom.br/ag25pound.htm
http://www.revistaetcetera.com.br